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Duas

O Furacão Chamado Dona Helena

O silêncio no apartamento de Emanuel no dia seguinte era tão denso que poderia ser cortado com um bisturi. O trauma emocional das quinze sacolas ainda reverberava nos ombros tensos do tatuador, que tentava se concentrar em um esboço de uma fênix em seu tablet, sentado na bancada de mármore da cozinha. Sara circulava pela sala como uma pantera enjaulada, usando um dos conjuntos de seda que comprou no dia anterior, enquanto Eduarda, refugiada em seu canto habitual do sofá, folheava um livro sobre o Renascimento italiano com os olhos ainda levemente inchados.

O equilíbrio precário foi quebrado pelo toque estridente da campainha.

— Se for mais uma entrega de compras da Sara, eu juro que jogo pela varanda — rosnou Emanuel, sem desviar os olhos do desenho.

— Deixa de ser ranzinza, Manu. Deve ser o meu sérum facial — rebateu Sara, caminhando com seus saltos em direção à porta.

Ao abrir, no entanto, Sara não encontrou um entregador. Diante dela estava uma mulher que parecia uma versão mais vibrante, madura e decidida de Eduarda. Vestia um macacão de linho verde-esmeralda, óculos escuros de grife sobre a cabeça e carregava uma mala de mão de couro legítimo. O perfume de jasmim e sândalo invadiu o ambiente antes mesmo que ela desse o primeiro passo.

— Bom dia. Imagino que você seja a... — a mulher fez uma pausa dramática, abaixando os óculos para avaliar Sara de cima a baixo com um olhar clínico — ... a vizinha? Ou a decoradora com um gosto peculiar para plásticos?

Sara travou. Ninguém falava com ela daquela forma. Antes que pudesse disparar um de seus insultos ácidos, um grito fino veio do sofá.

— Mãe! — Eduarda saltou, deixando o livro cair, e correu para os braços da mulher.

Emanuel levantou-se imediatamente, um sorriso genuíno, misturado com um alívio quase desesperado, surgindo em seu rosto.

— Dona Helena! Não sabíamos que viria hoje.

Helena envolveu a filha em um abraço protetor, mas seus olhos, afiados como agulhas de tatuagem, não saíram de Sara.

— Decidi que minha menininha precisava de um pouco de ar puro. E pelo que vejo — ela disse, soltando Eduarda e caminhando para o centro da sala com a autoridade de uma rainha —, o ar aqui dentro está bem pesado. Emanuel, querido, você está com olheiras. Essa vida de magnata das agulhas está acabando com você, ou é a companhia que não deixa você dormir?

Emanuel riu, aproximando-se para beijar a mão de Helena. Ele a respeitava profundamente. Helena era uma curadora de arte respeitada e uma mulher que não aceitava menos do que a excelência.

— Um pouco dos dois, Helena. Entre, por favor.

Sara, ainda parada à porta, sentiu o sangue ferver. Ela não estava acostumada a ser ignorada ou diminuída em seu próprio território — ou no território que ela considerava seu por direito de conquista.

— Escuta aqui, "Dona Helena" — começou Sara, fechando a porta com força e caminhando até a cozinha —, eu não sei quem a senhora pensa que é, mas esse apartamento tem regras. E eu não sou vizinha de ninguém. Eu moro aqui. Com o Emanuel.

Helena virou-se lentamente. Ela não gritou. Ela não se exaltou. Apenas retirou as luvas de pelica que carregava e as colocou sobre a mesa com uma calma aterrorizante.

— Eu sei exatamente quem você é, Sara. Eduarda me fala muito de você. — Helena sorriu, mas o sorriso não chegava aos olhos. — Ela diz que você é uma moça... intensa. Eu prefiro o termo "estudada". É fascinante como a medicina moderna consegue esculpir uma personalidade inteira em cima de polímeros, não é?

O queixo de Sara caiu. Eduarda, encolhida atrás da mãe, arregalou os olhos.

— Você está me chamando de falsa? — Sara avançou um passo, os punhos cerrados. — Você não me conhece. Eu sou a única aqui que não finge ser uma santinha de gesso como a sua filha!

— Minha filha não finge ser nada, querida. Ela é — disse Helena, sua voz baixando uma oitava, tornando-se fria e cortante como o vento de inverno. — Já você parece o resultado de um acidente em uma fábrica de bonecas Barbie que deu errado. Emanuel, como você permite que esse tipo de ruído interfira na harmonia da sua casa?

— Helena, por favor... — Emanuel tentou intervir, sentindo que a situação ia explodir.

— Não, Emanuel. Deixe-me terminar — Helena o interrompeu com um gesto elegante. Ela caminhou até Sara, ficando a poucos centímetros do rosto da loira. Helena era menor, mas sua presença parecia ocupar cada centímetro cúbico da sala. — Eu vi as fotos das compras de ontem. Vi minha filha chegando em casa com os olhos vermelhos porque você, em sua infinita insegurança, precisa pisar nela para se sentir alta. Mas deixe-me te contar um segredo, Sara... para mim, você não passa de um adereço. E adereços podem ser trocados quando começam a arranhar o assoalho.

Sara tentou rir, mas o som saiu engasgado.

— Você acha que me assusta? Eu sou o que o Emanuel quer. Ele gosta de mulher de verdade, não de uma criança que estuda museus!

— Mulher de verdade? — Helena soltou uma risada cristalina e cruel. — Querida, você é um clichê ambulante. É o tipo de mulher que homens como o Emanuel usam para passar o tempo quando estão entediados com a própria inteligência. Mas não ouse, nem por um segundo, direcionar esse seu veneno barato para a Eduarda novamente. Na próxima vez que eu souber que você abriu a boca para chamá-la de manipuladora, eu farei questão de mostrar o que é uma manipulação de verdade. Eu posso fechar metade das portas que você tenta abrir nessa cidade com um único telefonema. Entendeu, ou quer que eu desenhe? Ah, esqueci... você provavelmente prefere fotos coloridas, já que leitura não parece ser o seu forte.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sara, a mulher que enfrentava seguranças de boates e gritava com Emanuel no meio do shopping, estava trêmula. Seus olhos começaram a arder, não de tristeza, mas de uma humilhação que ela nunca havia experimentado. A autoridade natural de Helena era algo contra o qual ela não tinha defesas.

— Eu... eu não sou um adereço — sussurrou Sara, sua voz falhando pela primeira vez em anos.

— Então comece a se comportar como uma mulher de classe, ou saia do caminho — finalizou Helena, dando as costas para ela como se Sara tivesse deixado de existir. — Eduarda, querida, pegue seu casaco. Emanuel, você vem conosco. Vamos almoçar em um lugar onde o menu não tenha fotos e as pessoas saibam usar os talheres corretamente.

Eduarda olhou para a mãe com uma mistura de adoração e temor. Ela nunca tinha visto ninguém calar Sara daquela forma. Era como se um furacão tivesse entrado e limpado toda a toxicidade do ambiente em cinco minutos.

— Mãe, a Sara está... — Eduarda começou, olhando para a loira que agora estava sentada em um banco da cozinha, encarando o nada, com uma lágrima solitária borrando seu rímel caro.

— A Sara está aprendendo o lugar dela, Duda — disse Helena, passando a mão pelo cabelo da filha. — Agora vá.

Emanuel observava a cena em choque. Ele sempre soube que Helena era uma força da natureza, mas vê-la desmantelar a armadura de Sara com tamanha precisão cirúrgica foi, ao mesmo tempo, assustador e fascinante. Ele sentiu uma pontada de pena de Sara, algo que raramente sentia, mas o cansaço acumulado da briga no shopping pesou mais.

— Eu vou trocar de camisa — disse Emanuel, passando por Helena e dando um beijo em seu rosto. — Obrigado pela visita, eu acho.

— De nada, querido. Alguém precisava fazer o trabalho sujo — respondeu ela, impecável.

Enquanto Emanuel e Eduarda se preparavam, Helena caminhou até a cozinha para pegar um copo de água. Ela parou ao lado de Sara, que ainda soluçava silenciosamente, a confiança estraçalhada.

— Chore tudo agora, menina — disse Helena, sem olhar para ela. — É bom para limpar os poros. Mas quando voltarmos, eu espero que você tenha entendido que nesta família, nós protegemos os nossos. Se você quer fazer parte do mundo do Emanuel, aprenda que a Eduarda é intocável. Se você a fizer chorar de novo, eu farei com que esse seu silicone seja a coisa mais autêntica que restará de você, porque eu vou tirar todo o resto.

Helena saiu da cozinha com a elegância de quem acaba de apreciar uma obra de arte.

Minutos depois, a porta do apartamento se fechou, deixando Sara sozinha no silêncio ensurdecedor da cobertura. Pela primeira vez, o brilho do verniz e o preço das sacolas no quarto pareciam vazios. Ela se olhou no reflexo da geladeira de aço inox e viu uma mulher que, apesar de toda a montagem, sentia-se pequena.

No carro, a caminho do restaurante, o clima era estranhamente leve. Eduarda ia no banco de trás com a mãe, rindo de alguma história sobre a faculdade, enquanto Emanuel dirigia, sentindo que o peso em seus ombros havia diminuído consideravelmente.

— Você foi dura com ela, Helena — comentou Emanuel, olhando pelo retrovisor.

— Fui justa, Emanuel. Pessoas como ela não entendem sutilezas. Elas só entendem poder. E eu tenho muito mais do que ela jamais sonhou em ter — Helena respondeu, abrindo um leque de seda e abanando-se calmamente. — Agora, vamos focar no que importa. Ouvi dizer que abriu uma galeria nova no Soho que está precisando de um investidor com o seu olhar, Emanuel. E a Duda precisa começar o estágio dela.

Emanuel sorriu. O caos ainda existia, e ele sabia que teria que lidar com uma Sara devastada e possivelmente vingativa mais tarde. Mas, por enquanto, ele apenas aproveitou a sensação de estar sendo guiado por um furacão que, por milagre, estava do seu lado.

Pela primeira vez em meses, ele não sentia que estava carregando quinze sacolas. Ele sentia que, talvez, pudesse finalmente respirar. Mas ele sabia: a paz em sua casa agora tinha um preço, e o nome desse preço era Helena.