Duas
O Labirinto de Vidro e a Estrada Sem Fim
O silêncio após a partida de Dona Helena durou exatamente quarenta e oito horas. Foi o tempo necessário para Sara processar a humilhação, refazer a maquiagem e transformar sua vergonha em um ódio renovado e mais afiado. O apartamento de Emanuel, que deveria ser um santuário de luxo, havia se tornado uma zona de guerra fria onde cada suspiro de Eduarda era interpretado como uma provocação e cada olhar de Sara era uma promessa de retaliação.
Emanuel, sentindo o peso do ambiente esmagar sua criatividade, tomou uma decisão impulsiva. Ele precisava tirá-las dali. Se o apartamento era o palco do conflito, talvez o movimento de uma viagem pudesse dissipar a tensão. Ou, como ele temia no fundo de sua alma, apenas mudaria o cenário do desastre.
— Nós vamos para a casa de campo em Campos do Jordão — anunciou Emanuel em uma manhã de quinta-feira, enquanto fechava seu laptop com um estalo seco. — Sem discussões. As malas devem estar prontas em duas horas.
— Campos do Jordão? — Sara arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços sobre o robe de seda preta. — Espero que a lareira funcione, porque não pretendo passar frio para ver a Eduarda fingir que é uma camponesa de livro de época.
Eduarda, que estava sentada no chão da sala organizando seus catálogos de arte, apenas abaixou a cabeça.
— Eu adoro o frio — murmurou ela, a voz doce e submissa. — É bom para ler e tomar chá.
— Viu só? — Sara apontou para ela, olhando para Emanuel. — O roteiro já está pronto. Ela vai ficar lá, com aquela cara de quem precisa de um cobertor e um abraço, enquanto eu vou ter que aguentar o mofo daquela montanha.
— Sara, chega — Emanuel disse, sua voz carregada de uma autoridade cansada. — E tem mais uma coisa. A mãe da Sara, a Sra. Regina, vai nos encontrar lá. Ela ligou dizendo que precisava de uns dias longe da cidade.
O rosto de Eduarda empalideceu instantaneamente. Se Helena era um furacão de classe e sutileza, Regina era uma tempestade de granizo: ruidosa, direta e sem filtros.
A viagem foi um exercício de tortura psicológica sobre rodas. Emanuel dirigia seu SUV de luxo enquanto Sara, no banco do passageiro, trocava mensagens freneticamente e reclamava da playlist de jazz que Eduarda havia escolhido. No banco de trás, Eduarda olhava pela janela, apertando um ursinho de pelúcia que Emanuel lhe dera no início do relacionamento, um gesto que fazia Sara revirar os olhos a cada cinco minutos.
Ao chegarem à propriedade — uma construção imponente de pedra e madeira nobre cercada por araucárias —, Regina já os esperava. Ela estava parada na varanda, usando um casaco de pele sintética volumoso e segurando uma taça de vinho, apesar de ainda ser cedo.
— Finalmente! — Regina exclamou enquanto eles desciam do carro. Ela correu para abraçar Sara, ignorando Emanuel por um momento. — Minha filha, você parece exausta. O que esse homem está fazendo com você? E quem é essa coisinha pálida saindo do banco de trás?
— É a Eduarda, mãe — disse Sara, com um sorriso de triunfo nos lábios. — A "protegida" do Emanuel.
Regina caminhou até Eduarda, que se encolheu instintivamente. A mulher avaliou a jovem com o mesmo desprezo que se dedica a uma mancha no tapete.
— Ah, a estudante de artes. Você parece uma folha de papel, querida. Um vento mais forte e você some. E pelo que minha filha me contou, você é muito boa em sumir e aparecer quando quer atenção, não é?
— Prazer em conhecê-la, Sra. Regina — disse Eduarda, estendendo a mão trêmula.
Regina ignorou a mão estendida e voltou-se para Emanuel.
— Emanuel, querido, você sempre teve bom gosto para tatuagens e carros, mas essa sua inclinação para a caridade emocional está ficando excessiva.
— Regina, vamos entrar — Emanuel cortou, pegando as malas. — Estamos todos cansados.
O jantar naquela noite foi o prelúdio do colapso. A mesa estava posta com requinte, mas o sabor da comida era ofuscado pelo veneno nas palavras. Regina e Sara formavam uma frente unida, uma barreira de sarcasmo e ostentação que parecia sufocar o ar ao redor de Eduarda.
— Então, Eduarda — começou Regina, girando o vinho na taça —, o que exatamente você planeja fazer com esse curso de História da Arte? Além de decorar as paredes do Emanuel, é claro.
— Eu pretendo trabalhar em curadoria, senhora — respondeu Eduarda, tentando manter a voz firme. — Acredito que a arte é a alma da humanidade.
— A alma da humanidade... que gracinha — debochou Sara. — Na verdade, ela só quer um motivo para ficar olhando para quadros caros que o Emanuel vai acabar comprando para ela. É uma forma sofisticada de ser sustentada, não acha, mãe?
— Com certeza, Sara. É muito mais fácil ler sobre o passado do que construir um futuro real — Regina completou, rindo.
Eduarda sentiu o nó na garganta apertar. Ela olhou para Emanuel, buscando o refúgio de sempre, mas ele estava concentrado em cortar seu bife, as sobrancelhas franzidas em um esforço visível para não explodir.
— Eu estudo muito — Eduarda disse, uma lágrima solitária escapando. — Eu não estou com o Emanuel por dinheiro.
— Ah, por favor, pare com o teatro! — Regina bateu com o garfo no prato, o som metálico ecoando pela sala. — Esse choro me irrita. Você é uma manipuladora de marca maior. Usa essa fragilidade para fazer o Emanuel se sentir um herói, enquanto suga a energia da minha filha. Você é falsa, menina. Uma parasita silenciosa.
Eduarda soltou um soluço baixo e escondeu o rosto nas mãos. O som foi o gatilho para Emanuel. Ele largou os talheres, e o barulho de louça batendo na mesa fez as três mulheres saltarem.
— Já chega! — Emanuel rugiu, levantando-se. A cadeira atrás dele quase tombou. — Regina, eu a convidei para a minha casa como um gesto de cortesia à Sara, mas não vou admitir que você insulte a Eduarda na minha mesa!
Regina recuou um milímetro, surpresa com a intensidade da voz dele.
— Emanuel, eu só estou dizendo a verdade que você se recusa a ver...
— Você não está dizendo verdade nenhuma! — Emanuel interrompeu, apontando o dedo na direção de Regina. — Você está sendo cruel com uma pessoa que nunca lhe dirigiu uma palavra ofensiva. A Eduarda é sensível, sim, e ela merece respeito. Se você não consegue se comportar como uma convidada educada, pode pedir um táxi para o hotel mais próximo agora mesmo!
O silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo. Eduarda olhou para Emanuel com gratidão, limpando o rosto com o guardanapo. Mas o verdadeiro perigo não vinha de Regina.
Sara, que até então assistia à defesa de Emanuel com uma expressão de choque, levantou-se lentamente. Seu rosto estava vermelho, não de vergonha, mas de uma indignação que queimava há semanas.
— Ah, que lindo! — Sara começou, sua voz carregada de um sarcasmo vibrante que logo se transformou em grito. — O cavaleiro branco apareceu para salvar a princesa de porcelana! Que cena emocionante, Emanuel!
— Sara, não comece — avisou Emanuel, tentando recuperar o fôlego.
— "Não comece"? — Sara contornou a mesa, parando diante dele. — Você acabou de expulsar a minha mãe por falar o que pensa, mas onde você estava quando a mãe dela entrou na nossa casa e me chamou de adereço de plástico? Onde estava o seu grito e a sua autoridade quando a Helena me humilhou na frente de todo mundo?
Emanuel hesitou por um segundo, e esse segundo foi o suficiente para Sara prosseguir.
— Você ficou lá, parado, com aquela cara de quem estava achando graça! Você deixou a Helena me triturar, Emanuel! Ela me chamou de lixo, disse que eu era trocável, e você não disse um "chega" para ela. Por que a Eduarda merece um escudo e eu só recebo o seu silêncio?
— A situação foi diferente, Sara... — Emanuel tentou argumentar, mas sua lógica racional estava falhando.
— Diferente porque você tem pena dela! — Sara apontou para Eduarda, que chorava mais alto agora. — Você me ama porque eu sou forte, porque eu aguento o tranco, porque eu sou a mulher que brilha ao seu lado. Mas você protege ela porque você a vê como um bichinho ferido. E isso é doentio, Emanuel! Você me deixou ser humilhada pela sogra e agora quer bancar o juiz moral com a minha mãe?
— Eu não defendi a Helena! — Emanuel gritou de volta. — Eu apenas não quis entrar em uma briga de família!
— Mentira! — Sara explodiu, jogando o guardanapo sobre a mesa. — Você não me defendeu porque, no fundo, você concorda com ela. Você acha que eu sou descartável, enquanto a "Dudinha" é a joia preciosa que precisa ser guardada em um cofre. Pois quer saber? Fique com a sua joia! Fique com esse museu de lamentações!
Sara virou-se para Regina, que assistia a tudo com um sorriso amargo de satisfação.
— Vamos embora, mãe. Eu não vou ficar em um lugar onde o meu homem tem mais medo das lágrimas de uma sonsa do que respeito pela minha dignidade.
— Sara, espere! — Eduarda levantou-se, tentando alcançar o braço da loira. — Eu não queria que isso acontecesse... eu sinto muito...
— Tira a mão de mim! — Sara se esquivou como se o toque de Eduarda fosse contagioso. — Guarde suas desculpas para o seu diário de poesias tristes.
Sara saiu da sala de jantar, seus saltos batendo furiosamente contra o piso de madeira, subindo as escadas em direção ao quarto para pegar suas coisas. Regina a seguiu, lançando um último olhar de desprezo para Emanuel.
— Você é um homem fraco, Emanuel — disse Regina antes de sair. — E homens fracos sempre acabam sozinhos, cercados por coisas que não sabem como cuidar.
Emanuel desabou na cadeira, enterrando o rosto nas mãos. A enxaqueca que começara no shopping dias atrás voltou com a força de uma marreta. Ele sentiu um toque suave em seu ombro. Era Eduarda.
— Emanuel... — ela sussurrou, inclinando-se para abraçá-lo. — Eu estou aqui. Eu nunca vou te deixar. Ela é má, Emanuel. Ela e a mãe dela não entendem o seu coração.
Emanuel sentiu o perfume suave de Eduarda e o calor de seu corpo, mas, pela primeira vez, aquele conforto parecia amargo. As palavras de Sara ecoavam em sua mente como um disco riscado. Ele realmente não a defendera. Ele permitira que Helena a diminuísse porque, de certa forma, a força de Sara sempre o intimidara um pouco, e vê-la perder o controle lhe dava uma sensação de poder que ele não queria admitir.
— Eu só queria paz, Duda — murmurou ele, a voz abafada.
— Você tem a mim — disse ela, aninhando-se em seu colo, usando sua fragilidade como uma âncora que o prendia ao chão. — Eu sou a sua paz.
Lá em cima, o som de portas batendo e malas sendo arrastadas indicava que o furacão loiro estava partindo. Emanuel fechou os olhos. Ele havia defendido Eduarda, ele havia mantido sua "joia" segura, mas o custo fora o incêndio de uma paixão que, apesar de vulgar e ruidosa, o fazia se sentir vivo.
Horas depois, com a casa mergulhada em um silêncio sepulcral e Sara já longe, Emanuel estava na varanda, olhando para a escuridão das montanhas. Eduarda dormia tranquilamente no quarto, exausta pelas emoções do dia.
Ele pegou o celular e viu uma foto que Sara postara minutos antes: ela e a mãe em um posto de gasolina, bebendo champanhe direto da garrafa, com a legenda: "Livre de pesos mortos e de homens que não sabem o que é uma rainha".
Emanuel sentiu um aperto no peito que nenhuma das quinze sacolas de compras poderia explicar. Ele olhou para dentro da casa, para a silhueta da casa de campo que ele tanto amava, e percebeu que a paz de Eduarda era, na verdade, um tipo diferente de prisão. Uma prisão feita de seda, lágrimas e uma dependência que agora o sufocava mais do que qualquer grito de Sara.
Ele era o mestre das agulhas, o dono de impérios, o homem que marcava a pele das pessoas para sempre. Mas ali, sob o céu frio de Campos do Jordão, Emanuel percebeu que a tatuagem mais profunda e dolorosa era aquela que ele mesmo havia permitido que aquelas duas mulheres desenhassem em sua alma: uma marca de divisão que nenhum laser ou arrependimento poderia apagar.
Ele suspirou, o vapor de sua respiração sumindo no ar gelado. A viagem para "esfriar a cabeça" terminara em cinzas, e Emanuel, carregando o trauma emocional de mil brigas e o peso de suas escolhas, finalmente entendeu que, no jogo entre a sensibilidade e a vulgaridade, ele era o único que sempre saía perdendo.