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Duas

Entre a Seda e a Pele: O Limiar do Controle

A noite havia caído sobre a cobertura, trazendo consigo uma penumbra que deveria sugerir descanso, mas que apenas servia para camuflar a hostilidade latente entre as paredes de vidro. Emanuel ainda não havia retornado do estúdio de tatuagem, e o vácuo de sua autoridade masculina era o oxigênio que as duas mulheres precisavam para alimentar suas chamas particulares.

Sara estava no auge de sua irritação. O confinamento no quarto, movido pela paranoia que Eduarda plantara durante o café, havia se transformado em um tédio explosivo. Ela não aguentava mais se sentir uma prisioneira em sua própria casa. Decidida a retomar o território, ela saiu do quarto vestindo apenas um conjunto de lingerie de renda preta, minúsculo e provocante, que mal continha o volume de seus seios siliconados. Seus passos eram pesados, o som do salto alto batendo contra o piso de madeira ecoando como um tambor de guerra.

Na sala, Eduarda estava em sua pose clássica: sentada em um divã perto da janela, iluminada apenas pela luz da lua e por uma pequena luminária de leitura. Ela vestia uma camisola de seda branca, quase transparente, com alças finas que pareciam prestes a escorregar por seus ombros esguios. O tecido delineava suas curvas naturais e suaves, a antítese perfeita da agressividade estética de Sara.

— Você ainda está aqui com essa cara de santa? — disparou Sara, parando no centro da sala, as mãos nos quadris, fazendo com que sua postura destacasse ainda mais o corpo escultural e artificial. — Eu sei que você mandou mensagem para o Emanuel. Eu sei que você está tentando me pintar como louca de novo.

Eduarda fechou o livro lentamente, marcando a página com um dedo delicado. Ela olhou para Sara com uma expressão de cansaço fingido, mas seus olhos brilharam com um desafio silencioso.

— Você se pinta como louca sozinha, Sara. Eu não preciso de esforço nenhum para isso. Olhe para você... desfilando assim, como se estivesse em um bordel. Não tem um pingo de classe?

— Classe? — Sara soltou uma risada estridente, aproximando-se do divã. — O Emanuel não quer "classe" quando apaga as luzes, sua idiota. Ele quer uma mulher de verdade, alguém que saiba o que fazer com o corpo, não uma boneca de porcelana que parece que vai quebrar se ele apertar um pouco mais forte.

Eduarda levantou-se devagar. A seda branca de sua camisola flutuou ao redor de suas pernas, revelando a pele pálida e macia. Ela era menor que Sara, mas sua presença tinha uma intensidade magnética e silenciosa.

— Ele quer paz, Sara. Algo que você nunca vai ser capaz de dar. Você é barulho, é plástico, é vulgaridade. Você é o tipo de mulher que se usa e depois se joga fora, porque não há nada por baixo dessa camada de silicone além de insegurança.

O tapa de Sara veio rápido, mas Eduarda, em um reflexo surpreendente, desviou o rosto, fazendo com que a mão da loira apenas roçasse em sua bochecha. O insulto, porém, atingiu o alvo. Sara avançou, agarrando Eduarda pelos ombros.

— Repete isso! Repete que eu sou descartável! — gritou Sara, os olhos faiscando de ódio.

— Você. É. Vulgar. — Eduarda sibilou cada palavra, e em vez de recuar, ela empurrou Sara com as duas mãos no peito, uma força que ninguém esperaria de alguém tão frágil.

A briga escalou em segundos. Sara agarrou os cabelos de Eduarda, e a morena revidou segurando os pulsos da loira. Elas rolaram para o tapete persa de Emanuel, um emaranhado de pernas longas, renda preta e seda branca. Não era uma briga de socos, mas uma disputa desesperada de unhas, puxões e corpos que se chocavam com uma violência crua.

A camisola de Eduarda subiu, revelando a calcinha de renda mínima, enquanto o sutiã de Sara se deslocava com o esforço, deixando um de seus seios quase totalmente à mostra. Elas ofegavam, os rostos próximos, destilando um veneno que era ao mesmo tempo destrutivo e estranhamente íntimo.

Foi nesse momento que a porta da frente se abriu.

Emanuel entrou, jogando a chave sobre o aparador. Ele estava exausto, o paletó pendurado no ombro, a gravata frouxa. Mas a cena que encontrou na sala paralisou seus movimentos.

As duas mulheres estavam no chão, emaranhadas uma na outra. O contraste era absoluto: a brancura etérea de Eduarda contra o bronzeado vibrante de Sara; a delicadeza das curvas naturais contra a firmeza do silicone. O suor fazia a pele delas brilhar sob a luz da luminária, e a respiração pesada de ambas preenchia o silêncio que se seguiu à sua chegada.

— O que... o que é isso? — a voz de Emanuel saiu mais rouca do que ele pretendia.

As duas pararam de se debater, mas não se soltaram. Eduarda olhou para ele, os olhos úmidos, uma mecha de cabelo cobrindo parte do rosto, a camisola rasgada na lateral revelando a pele macia de seu quadril.

— Manu... ela me atacou... — soluçou Eduarda, embora ainda estivesse segurando o braço de Sara com força.

— Mentira! — gritou Sara, tentando se recompor, mas sem conseguir esconder o fato de que sua lingerie estava em frangalhos. — Ela me provocou até eu não aguentar mais! Olha o que ela fez com o meu braço!

Emanuel não se moveu. Ele deveria estar furioso. Deveria separar as duas, dar um sermão sobre respeito e convivência. Mas algo visceral o atingiu. Ver aquelas duas mulheres, as duas metades de seus desejos mais profundos, quase nuas, lutando por ele, exalando uma ferocidade que misturava ódio e uma estranha sensualidade, despertou algo que ele tentava manter sob controle.

Ele caminhou lentamente até elas, os olhos percorrendo cada detalhe daquele caos carnal. O cheiro de baunilha de Eduarda misturava-se ao perfume forte e caro de Sara, criando um aroma inebriante.

— Levantem-se — ordenou ele, sua voz carregada de uma autoridade que agora tinha um novo matiz.

Sara foi a primeira a se levantar, ajeitando o sutiã com um gesto brusco que apenas realçou seu decote. Ela encarou Emanuel com desafio, os mamilos endurecidos pelo frio ou pela adrenalina da briga.

— Você vai defender ela de novo? — perguntou Sara, aproximando-se dele, o corpo quase colado ao seu. — Vai acreditar nas lágrimas de crocodilo dessa sonsa?

Eduarda levantou-se em seguida, com uma lentidão calculada. Ela não tentou esconder a camisola rasgada. Pelo contrário, deixou que o tecido caísse um pouco mais, revelando a curva de seu seio médio e perfeito. Ela caminhou até o outro lado de Emanuel, abraçando seu braço livre e encostando o rosto em seu ombro.

— Eu só queria que você chegasse e encontrasse paz, Manu — murmurou ela, a voz manhosa e trêmula. — Mas ela não me deixa em paz...

Emanuel sentiu o calor de ambas. Sara, à sua frente, era puro fogo, uma promessa de entrega agressiva e sem limites. Eduarda, ao seu lado, era a água profunda, o conforto que exigia ser protegido e possuído.

— Vocês duas não têm limites, não é? — Emanuel disse, olhando de uma para a outra. Seus dedos apertaram o braço de Eduarda, enquanto sua outra mão subiu para o pescoço de Sara, não para machucar, mas em uma carícia firme que a fez calar a boca instantaneamente.

— A gente só quer a sua atenção, Emanuel — disse Sara, a voz agora mais baixa, notando a mudança no olhar dele. — E a gente sabe que você gosta disso. Gosta de ver a gente brigando por você.

— Eu gosto de controle — corrigiu ele, a respiração ficando mais pesada. — E agora, eu estou perdendo o meu.

Eduarda olhou para cima, encontrando os olhos de Emanuel. Ela viu a excitação ali, a chama que raramente ele deixava transparecer de forma tão bruta. Com um gesto ousado, ela deslizou a mão pelo peito dele, desabotoando os primeiros botões de sua camisa.

— Então não tente controlar, Manu — sussurrou ela. — Apenas escolha.

Sara riu, um som baixo e gutural. Ela se ajoelhou na frente dele, começando a desamarrar o cinto de suas calças de alfaiataria com uma agilidade que mostrava sua experiência.

— Por que escolher, se você pode ter o caos e a paz ao mesmo tempo? — provocou a loira, olhando para ele de baixo, os olhos cheios de uma malícia vulgar que Emanuel sempre considerou seu ponto fraco.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, sentindo o conflito interno ser substituído por um desejo avassalador. Ele era um homem de posses, um rei em seu império de tinta e agulhas, e ali, em sua própria sala, ele tinha duas rainhas rivais prontas para se submeterem ao seu comando, contanto que ele fosse o prêmio.

Ele puxou Eduarda para mais perto, sua mão descendo para a curva de sua nádega natural e firme por baixo da seda, enquanto sua outra mão mantinha Sara presa pelo pescoço, sentindo a pulsação acelerada da loira.

— Vocês duas vão se arrepender de ter começado isso hoje — disse ele, a voz como um trovão baixo.

— O arrependimento pode vir amanhã — respondeu Eduarda, beijando o pescoço dele com uma doçura que contrastava com a forma como suas unhas cravavam em suas costas.

— Hoje — completou Sara, terminando de abrir a calça dele —, você é nosso.

Emanuel não disse mais nada. Ele as guiou para o grande sofá de couro, onde a luz da cidade lá fora era a única testemunha. A briga, que antes era de ódio e palavras ácidas, transformou-se em uma coreografia de corpos que buscavam o mesmo centro. Ele dominava Sara com a força que ela exigia, enquanto tratava Eduarda com a possessividade protetora que a alimentava.

No meio daquele emaranhado de peles, onde o silicone de Sara encontrava a maciez natural de Eduarda sob as mãos de Emanuel, a rivalidade não desapareceu, mas transmutou-se. Elas ainda se odiavam, ainda queriam o espaço exclusivo no coração e na cama dele, mas naquele momento, a excitação de Emanuel era o combustível que as mantinha unidas em um triângulo perigoso.

Emanuel, o tatuador que sabia que cada traço deixava uma marca eterna, sentia que aquela noite estava gravando algo mais profundo do que qualquer agulha poderia alcançar. Ele era o mestre do estúdio, mas ali, entre a beladona e o veneno, ele era apenas um homem rendido à beleza do conflito.

Quando a madrugada finalmente trouxe um silêncio exausto, as duas mulheres estavam deitadas ao lado dele, cada uma ocupando um braço, como se tivessem dividido o território após uma guerra sem vencedores claros. Emanuel olhava para o teto, a mente já voltando para a lógica e a praticidade, mas o corpo ainda vibrando com a memória do toque de ambas.

Ele sabia que, ao amanhecer, as brigas voltariam. Sara reclamaria do café, Eduarda choraria por um comentário sarcástico, e ele seria novamente o mediador de um desastre iminente. Mas, por enquanto, no escuro da cobertura, ele se permitia o luxo de ser o centro de um furacão que ele mesmo ajudara a criar.

Afinal, para um homem que vivia de transformar dor em arte, não havia nada mais inspirador do que a beleza cruel daquelas duas mulheres que, em seu ódio mútuo, encontravam a única forma de amá-lo verdadeiramente.