Duas
O Preço do Calor
O ar da montanha era cortante, uma lâmina invisível que atravessava até as camadas mais espessas de tecido. Emanuel havia decidido levar Eduarda e Sara para uma breve temporada em sua cabana de luxo nos Alpes Suíços, um refúgio de madeira nobre, vidro e peles, onde o isolamento deveria, teoricamente, forçar uma trégua. No entanto, a altitude parecia apenas ter deixado os nervos de ambas mais expostos, tão finos quanto o ar rarefeito.
Após um jantar regado a vinhos caros e silêncios pesados, Emanuel sugeriu uma caminhada noturna pelo deque aquecido que circundava a propriedade, estendendo-se até um mirante natural de onde se podia observar o vale cravejado de luzes distantes. Ele vestia um casaco de lã pesada sobre uma jaqueta de couro de grife, robusta e forrada, que exalava o cheiro de tabaco caro e loção pós-barba que o caracterizava.
Eduarda caminhava ao seu lado direito, quase fundida ao seu braço. Ela usava um sobretudo de lã batida em tom de rosa seco, mas sua estrutura esguia e sua circulação precária a faziam tremer visivelmente. Seus dentes batiam de forma discreta, e ela encolhia os ombros, tentando esconder o rosto na gola de pele sintética.
— Está muito gelado aqui fora, Manu — sussurrou ela, a voz saindo em uma pequena nuvem de vapor. — Acho que meu corpo não foi feito para essas temperaturas.
Emanuel olhou para ela e sentiu aquele impulso protetor que Eduarda sempre evocava. Para ele, ela era como uma de suas tatuagens mais delicadas: traços finos que exigiam cuidado extremo para não desbotarem. Sem dizer uma palavra, ele parou, desfez o zíper de sua jaqueta de couro e a removeu, ficando apenas com o suéter de cashmere por baixo.
— Tome, Duda — disse ele, envolvendo os ombros dela com a peça pesada. — Ela vai manter o calor do meu corpo em você.
Eduarda sorriu, um brilho de gratidão e triunfo suave nos olhos expressivos. Ela mergulhou os braços nas mangas que eram longas demais para ela, fechando a jaqueta até o queixo. O cheiro de Emanuel a envolveu como um abraço possessivo.
— Obrigada, meu amor — disse ela, ficando na ponta dos pés para beijar o rosto dele. — Você é meu herói.
Do lado esquerdo, Sara observava a cena com os olhos semicerrados. Ela estava vestindo um conjunto de legging térmica de marca e um casaco curto de penas de ganso, extremamente justo e brilhante, que realçava seu busto siliconado e sua cintura fina. Era uma roupa feita para ser vista, não necessariamente para aquecer em temperaturas abaixo de zero. Até aquele momento, o orgulho e o movimento constante haviam mantido seu sangue circulando, mas a paralisia do momento fez o frio penetrar em seus ossos.
— Que cena mais romântica — ironizou Sara, cruzando os braços e batendo o pé calçado com uma bota de salto fino na madeira do deque. — Só falta a neve começar a cair e um violino tocar ao fundo.
Emanuel voltou a caminhar, sentindo o choque do ar frio em seu peito, mas sua constituição física era forte o suficiente para aguentar.
— Não comece, Sara. A Eduarda é mais sensível ao frio que você.
— Ah, claro! — Sara soltou uma risada seca, mas logo em seguida um calafrio violento percorreu seu corpo. — Ela é sensível a tudo que gere atenção, Emanuel. Eu também estou congelando. Senti uma lufada de vento agora que atravessou esse casaco como se fosse papel.
Eles chegaram ao parapeito do mirante. A vista era de tirar o fôlego, mas o vento ali era ainda mais impiedoso, soprando diretamente do glaciar. Sara começou a tremer de forma incontrolável. Suas unhas perfeitamente feitas estavam ficando arroxeadas.
— Emanuel — disse Sara, sua voz perdendo o tom de deboche e assumindo uma nota de urgência real. — Eu estou falando sério. Meu peito está doendo de tanto frio. Dá para a gente voltar ou você pode me dar o seu casaco de lã?
Emanuel olhou para ela, depois para o próprio peito. Ele já havia cedido a jaqueta de couro para Eduarda. Se entregasse o sobretudo de lã para Sara, ficaria apenas de suéter, o que seria perigoso até para ele.
— Eu não posso tirar o sobretudo, Sara. Eu ficaria desprotegido. Por que você não usa o capuz do seu casaco?
— Porque esse casaco é uma porcaria decorativa! — gritou ela, a irritação subindo junto com o frio. — Eu quero a jaqueta. Dê a jaqueta para mim e deixe a Eduarda com o seu sobretudo de lã, já que ela é tão "delicada".
Eduarda apertou os braços em volta da jaqueta de couro, encolhendo-se como se estivesse sendo ameaçada.
— Mas a jaqueta está quentinha agora, Manu... — murmurou Eduarda, fazendo um olhar de abandono. — Se eu tirar, vou levar um choque térmico.
— Você ouviu, Sara — disse Emanuel, tentando manter a racionalidade enquanto o estresse começava a latejar em suas têmporas. — A jaqueta já tem dona agora. Eu avisei para você trazer roupas mais pesadas, mas você preferiu trazer malas cheias de lingeries e roupas de academia para se exibir.
Sara parou de tremer por um segundo, substituindo o frio por uma fúria incandescente. Ela avançou um passo na direção de Eduarda, que se protegeu atrás do ombro de Emanuel.
— Você está brincando comigo? — Sara apontou para Eduarda. — Você vai deixar essa sonsa usar a sua jaqueta favorita enquanto eu estou aqui correndo risco de hipotermia? Emanuel, olha para mim! Eu estou tremendo!
— Você está sempre querendo competir, Sara — retrucou Emanuel, a voz ficando fria como o ambiente. — A jaqueta está com a Eduarda porque ela pediu primeiro e porque ela realmente precisa. Se você está com tanto frio, volte para a cabana. A porta está aberta.
— Eu não vou voltar sozinha para aquela casa enquanto vocês dois ficam aqui no escuro fazendo sabe-se lá o quê! — Sara bufou, as lágrimas de frustração começando a congelar em seus cílios postiços. — É sempre assim. Ela faz a linha "pobre menina rica" e você corre para salvá-la. E eu? Eu que se dane, não é? Porque a Sara é forte, a Sara é siliconada, a Sara aguenta tudo!
Eduarda, sentindo que tinha a vantagem, resolveu dar o golpe final. Ela se aproximou de Sara, mantendo a jaqueta de Emanuel bem fechada, exalando o perfume dele.
— Você deveria ser mais prática, Sara — disse Eduarda com uma doçura venenosa. — A administração não ensina que recursos limitados devem ser alocados onde há maior necessidade? Eu sou a necessidade agora. Você é apenas... teimosa.
Sara avançou para cima de Eduarda, as mãos em garra, mas Emanuel se interpôs entre as duas, segurando Sara pelos pulsos.
— Chega! — o grito dele ecoou pelo vale silencioso. — Sara, pare com esse escândalo. Eduarda, pare de provocar.
— Eu não estou provocando, Manu — disse Eduarda, os olhos brilhando de forma inocente sob a luz da lua. — Só estou constatando fatos. A jaqueta é sua, e você escolheu me dar.
Emanuel soltou Sara, que tropeçou para trás, o rosto vermelho de raiva e frio.
— Escolheu, é? — Sara limpou o rosto com as costas da mão. — Pois fique com ela, Emanuel. Fique com a sua boneca de pano e com a sua jaqueta. Eu não preciso de esmola de calor de ninguém.
Sara virou as costas e começou a caminhar em direção à cabana. Seus saltos estalavam na madeira com uma violência rítmica. Emanuel fez menção de ir atrás dela, mas Eduarda segurou sua mão, puxando-o levemente.
— Deixe ela, Manu... — pediu a morena, encostando a cabeça no ombro dele. — Ela só quer chamar atenção. Vamos aproveitar a vista? Está tão lindo... e eu me sinto tão segura com o seu cheiro em mim.
Emanuel olhou para a silhueta de Sara desaparecendo na escuridão da varanda e depois para Eduarda. Ele sentia o frio começar a morder seus próprios braços, mas a satisfação de Eduarda era um peso que ele estava acostumado a carregar. Ele a envolveu pela cintura, sentindo o couro frio da jaqueta sob suas mãos.
— Você é impossível, Duda — murmurou ele.
— Eu sou sua — corrigiu ela, manhosa.
Dentro da cabana, Sara entrou batendo a porta de vidro com tanta força que o som pareceu uma explosão. Ela correu para a lareira monumental, jogando-se no tapete de pele de urso e ligando o fogo a gás no máximo. Suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia segurar o controle remoto.
— Maldita... sonsa maldita... — resmungava Sara, os dentes ainda batendo.
Ela olhou para o próprio corpo no espelho da sala. O casaco caro, a maquiagem impecável, o corpo que ela gastara fortunas para moldar. Naquele momento, nada disso valia nada. Ela se sentia nua e desprotegida. O que mais doía não era o frio físico, mas a imagem de Eduarda envolvida na jaqueta de Emanuel. Aquela jaqueta não era apenas um pedaço de couro; era um território. E Eduarda o havia conquistado.
Sara levantou-se e foi até o bar, servindo-se de uma dose generosa de conhaque. O líquido desceu queimando, trazendo um calor artificial para o seu peito. Ela sorriu para o reflexo, um sorriso predatório.
— Você ganhou a jaqueta, Eduarda — disse ela para o espelho —, mas esqueceu que o dono dela ainda tem que entrar nesta casa para dormir. E quando ele entrar, não vai ser de couro que ele vai estar atrás.
Cerca de vinte minutos depois, a porta se abriu novamente. Emanuel e Eduarda entraram, ambos com as bochechas coradas pelo frio. Eduarda ainda usava a jaqueta, desfilando-a como se fosse um manto real.
— O calor aqui dentro está ótimo — comentou Eduarda, desfazendo o zíper da jaqueta lentamente, revelando a camisola de seda que usava por baixo do sobretudo.
Emanuel caminhou até a lareira, esfregando as mãos. Ele olhou para Sara, que estava sentada com as pernas cruzadas, o copo de conhaque na mão e um olhar que ele conhecia bem. Era o olhar de quem estava prestes a mudar as regras do jogo.
— Está melhor, Sara? — perguntou ele, o tom de voz suavizado pelo cansaço.
— Oh, estou maravilhosa, querido — respondeu ela, levantando-se com uma elegância felina. Ela caminhou até ele, ignorando completamente a presença de Eduarda. — O conhaque ajudou. Mas acho que preciso de algo mais... orgânico para aquecer o resto do meu sangue.
Sara parou na frente de Emanuel e, com um movimento deliberado, abriu o zíper de seu casaco de penas, deixando-o escorregar pelos ombros e cair no chão. Por baixo, ela não usava nada além de uma lingerie de fita que deixava quase tudo à mostra. A luz das chamas da lareira dançava em sua pele bronzeada e nas curvas esculpidas de seu corpo.
— A jaqueta da Eduarda tem o seu cheiro — sussurrou Sara, passando as mãos pelo peito de Emanuel e subindo até o seu pescoço —, mas eu tenho o seu calor. Qual dos dois você prefere agora?
Eduarda, que estava pendurando a jaqueta de couro no mancebo com todo o cuidado do mundo, congelou. Ela se virou e viu a cena. O triunfo que sentira no mirante evaporou instantaneamente, substituído por uma onda de ciúme purpúreo.
— Sara, tenha um pouco de decência! — exclamou Eduarda, aproximando-se. — Estamos na sala!
— A decência foi embora junto com a minha sensibilidade térmica lá no deque, querida — retrucou Sara, sem desviar os olhos de Emanuel. — Agora é uma questão de sobrevivência. E eu sobrevivo muito melhor pele com pele.
Emanuel sentiu a pressão subir. Eduarda de um lado, representando o afeto doce e a necessidade de cuidado que a jaqueta simbolizava. Sara do outro, o desejo bruto e a provocação que queimava mais que o conhaque.
Ele segurou a cintura de Sara com uma mão firme, sentindo a firmeza do silicone e a maciez da pele aquecida pelo fogo. Com a outra mão, ele alcançou Eduarda, puxando-a para o seu lado.
— Eu já disse que não vou escolher — disse Emanuel, a voz baixa e perigosa. — A jaqueta aqueceu a Duda lá fora. O fogo e o conhaque aqueceram a Sara aqui dentro. Agora, quem vai aquecer a mim são as duas.
Eduarda fez um biquinho, mas não recuou. Ela se aninhou no lado direito de Emanuel, enquanto Sara se fundia ao lado esquerdo.
— Eu ainda acho que ela foi egoísta com a jaqueta — murmurou Sara, beijando a orelha de Emanuel.
— E eu acho que você é uma exibicionista — rebateu Eduarda, encostando a cabeça no ombro dele.
Emanuel suspirou, fechando os olhos enquanto era puxado em duas direções opostas, como sempre. Naquela cabana isolada pelo gelo, ele era o único ponto de equilíbrio em um mundo de extremos. Ele sabia que a paz duraria apenas enquanto o desejo fosse maior que o ego de ambas, o que, no caso daquelas duas, era um cronômetro em contagem regressiva.
— Para o quarto — ordenou ele. — As duas.
Enquanto subiam as escadas de madeira, Eduarda lançou um último olhar para a jaqueta de couro pendurada lá embaixo. Ela havia vencido a batalha do frio, mas Sara estava claramente determinada a vencer a guerra da noite. E Emanuel, no meio de tudo, era o território que ambas marcavam com unhas, dentes e, ocasionalmente, com um pouco de seda e couro.
A neve finalmente começou a cair lá fora, cobrindo o mundo de branco e silêncio. Mas dentro da cabana de Emanuel, o inverno era apenas uma desculpa para o fogo que nunca parava de arder, alimentado pelo ódio, pelo amor e pela eterna disputa entre o toque suave da seda e a resistência inabalável do couro.