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Duas

O Veneno da Inocência

O convite chegou em um envelope de papel texturizado, com cheiro de sândalo e letras douradas que pareciam flutuar sobre a superfície. Eduarda o segurava entre os dedos finos, um sorriso discreto e quase imperceptível brincando em seus lábios enquanto observava Emanuel terminar de limpar suas máquinas de tatuar na bancada de mármore da sala. Era uma noite de "Girls Only", organizada por suas colegas da faculdade de História da Arte, em um casarão antigo nos Jardins.

— Manu? — chamou ela, com aquela voz que parecia um carinho de veludo. — As meninas da faculdade marcaram um encontro amanhã à noite. É algo só para nós, sem namorados, apenas para conversarmos sobre os projetos do semestre e bebermos um pouco de vinho. Você se importa se eu for?

Emanuel levantou os olhos, limpando o suor da testa com as costas da mão. Ele estava exausto, mas o olhar que lançou para Eduarda foi, como sempre, protetor.

— Claro que não, Duda. Você quase não sai sem mim. Vai te fazer bem se distrair um pouco com suas amigas.

Eduarda aproximou-se, aninhando-se no peito dele, sentindo o cheiro de tinta e sabão antisséptico.

— Obrigada, meu amor. Eu não queria te deixar sozinho, mas elas insistiram tanto...

— "Só para garotas", é? — A voz de Sara cortou o ar como uma navalha, vinda do corredor.

Ela apareceu usando um robe de seda vermelha que mal cobria o que o silicone havia esculpido. Sara segurava uma taça de vinho e exibia um sorriso carregado de um cinismo brilhante.

— Que bonitinho, Emanuel. Você realmente acredita nessa história de "noite das artes"? — Sara caminhou até o bar, servindo-se de mais um pouco de bebida sem desviar os olhos do casal. — Acorda, querido. Eu conheço o tipo dessas garotas de História da Arte. Elas parecem santas, mas quando se juntam e o álcool começa a bater, o assunto é tudo, menos Renascimento.

Eduarda encolheu-se nos braços de Emanuel, os olhos começando a brilhar com aquela umidade que ele tanto tentava evitar.

— Não dê ouvidos a ela, Manu. A Sara projeta nos outros o que ela mesma faria se tivesse a chance.

— Ah, querida, eu não projeto nada! — Sara soltou uma risada ruidosa. — Eu sou honesta. Se eu saio para aprontar, eu aviso que vou sair para brilhar. Mas você? Você é a mestre da manipulação silenciosa. Emanuel, você tem noção de que festas "proibidas para namorados" são o código universal para "vamos ver quem consegue o contato do cara mais interessante sem ninguém vigiando"?

Emanuel franziu o cenho. A semente da dúvida, plantada com a perícia de um jardineiro do caos, começou a germinar em sua mente racional. Ele confiava em Eduarda, ou pelo menos achava que confiava, mas a possessividade era um traço latente em sua personalidade de controle.

— Sara, chega — disse ele, embora o tom não fosse tão firme quanto antes.

— Chega? — Sara aproximou-se de Emanuel, passando a mão pelo peito dele, ignorando a presença de Eduarda. — Você é um homem rico, influente, um artista que todo mundo quer um pedaço. Você acha mesmo que essas amigas dela não vão levar uns "primos" ou "conhecidos" para animar a noite? Imagine a pequena Duda, tão frágil, tão influenciável, cercada de caras querendo dar uma aula particular de escultura para ela...

Eduarda soltou um soluço baixo e se afastou de Emanuel, caminhando em direção ao quarto com os ombros curvados.

— Eu sabia que não deveria ter pedido. Esqueça, Manu. Eu fico em casa. Não quero que você pense mal de mim por causa das mentiras da Sara.

Emanuel sentiu aquela pontada de culpa e proteção. Ele segurou o pulso de Eduarda antes que ela saísse.

— Não, Duda. Você vai. Eu confio em você.

Mas, ao olhar para Sara, viu o brilho de desafio nos olhos loiros. Ela sabia que tinha vencido a primeira rodada. Ela sabia que, para Emanuel, a ideia de perder o controle sobre o que era seu era um veneno que agia lentamente.

Na noite seguinte, a atmosfera na cobertura era de uma tensão elétrica. Eduarda estava se arrumando no quarto. Ela escolhera um vestido de seda preta, com um decote discreto na frente, mas que deixava todas as suas costas esculturais à mostra. A maquiagem era leve, destacando apenas seus olhos grandes e expressivos.

Emanuel observava da porta, os braços cruzados. Ele se sentia estranhamente inquieto.

— Você está linda, Duda — disse ele, a voz rouca.

— Obrigada, Manu. — Ela se aproximou e ajeitou a gola da camiseta dele, olhando-o com uma adoração que beirava a submissão. — Você tem certeza de que está tudo bem? Se você me pedir para ficar, eu fico. Sabe que eu só quero te agradar.

— Vá, Eduarda. Divirta-se.

Ela lhe deu um beijo suave e saiu. Emanuel ouviu o som do elevador descendo e sentiu um vazio incômodo. Mal se passaram dez minutos quando Sara entrou na sala, usando um vestido justo que brilhava sob as luzes led da cobertura.

— Ela já foi espalhar a "arte" dela por aí? — perguntou Sara, servindo dois copos de whisky puro. — Tome, Emanuel. Você vai precisar.

— Por que você insiste tanto nisso, Sara? — Emanuel pegou o copo, virando o líquido de uma vez.

— Porque eu odeio ver você sendo feito de bobo. — Sara sentou-se no braço da poltrona dele, sussurrando perto de seu ouvido. — Eu dei uma olhada no Instagram de uma das amigas dela. A tal de Beatriz. Sabe o que ela postou? "Noite de libertação". E marcou um local que não é bem um casarão de artes, é um loft privado que costuma alugar para festas bem... intensas.

Emanuel sentiu o sangue ferver. A possessividade, alimentada pelo whisky e pelas palavras venenosas de Sara, começou a nublar seu julgamento.

— Ela me disse que era um encontro de faculdade.

— E você acreditou? — Sara riu, acariciando a nuca dele. — Emanuel, você é um predador no seu mundo. Por que é tão cego no seu próprio ninho? Se você for lá agora, vai ver a verdade. Ou pode ficar aqui, esperando ela voltar com aquele cheiro de vinho barato e desculpas esfarrapadas.

Emanuel levantou-se bruscamente, pegando as chaves do carro.

— Onde é esse lugar?

Sara sorriu, um sorriso predatório e vitorioso.

— Eu te levo. Quero ver a cara dela quando você entrar por aquela porta.

O trajeto até os Jardins foi feito em silêncio, apenas quebrado pelo som do motor do carro de luxo de Emanuel cortando o trânsito. Sara indicava o caminho com uma precisão suspeita. Quando chegaram ao endereço, um loft de fachada discreta mas com segurança na porta, Emanuel sentiu o coração bater contra as costelas.

— Eu entro primeiro — disse Sara, os olhos brilhando. — Você entra logo atrás. Quero que ela veja o que causou.

Lá dentro, a música era baixa, um jazz contemporâneo que criava uma atmosfera de sensualidade sofisticada. Havia apenas mulheres, como Eduarda dissera, mas o ambiente era carregado de uma liberdade que Emanuel não costumava associar à sua namorada tímida.

Ele avistou Eduarda ao fundo. Ela estava sentada em um divã de veludo, cercada por três amigas. Elas riam e bebiam vinho. Eduarda parecia relaxada, mas seus olhos buscavam a porta constantemente. Quando ela viu Emanuel entrar, seguido por uma Sara triunfante, seu rosto não mostrou medo. Mostrou algo muito mais profundo: uma satisfação sombria.

Emanuel caminhou em direção a ela, sua presença emanando uma autoridade perigosa. As amigas de Eduarda silenciaram-se imediatamente, sentindo a aura de possessividade que o envolvia.

— Emanuel? O que você está fazendo aqui? — perguntou Eduarda, a voz saindo pequena, mas firme.

— Eu vim ver a sua "noite de artes", Eduarda — disse ele, segurando o braço dela com uma firmeza que beirava a agressividade. — Você me disse que era uma coisa, mas a Sara me disse outra.

Eduarda olhou para Sara, que exibia um sorriso de deboche.

— A Sara disse que você ia aprontar, Duda — provocou a loira. — Disse que essa festinha era só um disfarce para você encontrar outros caras.

Eduarda levantou-se devagar, seus olhos fixos nos de Emanuel. Ela não tentou se soltar. Pelo contrário, ela se inclinou para o toque dele, como se a força que ele exercia em seu braço fosse o maior dos carinhos.

— E você acreditou nela, Manu? — sussurrou ela, com uma doçura letal. — Você veio até aqui porque não suporta a ideia de eu estar em um lugar onde você não tenha o controle total?

— Você mentiu para mim sobre o local — rosnou Emanuel, a raiva competindo com o desejo de simplesmente levá-la embora dali e trancá-la na cobertura.

— Eu não menti. O lugar mudou de última hora. Mas eu sabia que você viria. — Eduarda deu um passo à frente, colando seu corpo ao dele. — Eu sabia que a Sara não conseguiria ficar de boca fechada e que você não conseguiria ficar em casa sabendo que eu poderia estar sendo olhada por outros olhos.

Sara franziu o cenho, percebendo que algo estava errado. A reação de Eduarda não era a de uma vítima descoberta.

— Do que você está falando, sua sonsa? — sibilou Sara.

Eduarda sorriu para Sara, um sorriso que Emanuel nunca vira nela. Era o sorriso de quem conhecia todos os seus pontos fracos.

— Eu contei para a Beatriz que a festa seria aqui, Sara. Eu sabia que você estava vigiando as redes sociais dela. Eu queria que você contasse para o Emanuel. Eu queria que ele perdesse o controle.

Emanuel soltou o braço dela, confuso.

— Você queria isso? Por quê?

Eduarda passou as mãos pelo rosto de Emanuel, ignorando as amigas que observavam a cena e a fúria crescente de Sara.

— Porque eu amo quando você é possessivo, Manu. Eu amo quando você esquece a sua lógica e a sua racionalidade e age como se eu fosse a única coisa que importa no mundo. Eu queria sentir que você viria me buscar, custasse o que custasse. Eu queria ver esse fogo nos seus olhos que só a ideia de me perder acende.

Sara deu um grito de frustração.

— Você é louca! Emanuel, você está ouvindo isso? Ela armou para você! Ela te manipulou para você vir aqui e fazer esse papel de ciumento obsessivo!

Emanuel olhou para Eduarda e viu a verdade. Ela não era apenas a menina tímida e manhosa. Ela era uma estrategista emocional que conhecia sua necessidade de controle e a usava para alimentar seu próprio desejo de ser protegida e possuída.

— Você me fez vir até aqui para testar o meu limite? — perguntou Emanuel, a voz baixa, perigosa.

— Não para testar, Manu. Para sentir. — Ela se aninhou no pescoço dele, ignorando completamente o ambiente. — Agora, me leve para casa. Eu não quero mais ficar aqui com elas. Eu quero que você me mostre o quanto ficou bravo por eu ter saído sem você.

Sara avançou, tentando puxar Emanuel pelo outro braço.

— Você não vai cair nisso, vai? Emanuel, ela está jogando com você!

Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda. Ele sentia-se usado, manipulado, mas a visão de Eduarda entregue a ele, confessando que precisava de sua possessividade para se sentir amada, agiu como um combustível em sua alma controladora.

— Vá para casa, Sara — disse Emanuel, a voz fria como gelo. — Pegue um táxi.

— O quê? Você está me dispensando por causa dessa... dessa manipuladora?

— Eu disse para ir para casa. — Emanuel não desviou os olhos de Eduarda. — Agora.

Sara soltou um rosnado de ódio, pegou sua bolsa e saiu batendo os saltos, os olhos cheios de lágrimas de fúria. Ela tentara desmascarar Eduarda, mas acabara apenas servindo como o peão principal no jogo da rival.

Emanuel segurou o queixo de Eduarda, forçando-a a olhá-lo.

— Você nunca mais faça isso, entendeu? Nunca mais use a minha cabeça para os seus jogos.

Eduarda estremeceu de prazer com o tom autoritário dele.

— Sim, Manu. O que você quiser. Só me leve embora.

Ele a conduziu para fora do loft com uma mão firme em sua cintura, quase como se estivesse escoltando uma prisioneira. Durante todo o caminho de volta, o silêncio no carro era denso, carregado de uma tensão sexual e emocional que parecia prestes a explodir.

Quando entraram na cobertura, Emanuel jogou as chaves sobre a mesa e virou-se para ela.

— Você me fez parecer um idiota na frente das suas amigas e da Sara.

Eduarda caminhou até ele, desfazendo o laço do vestido de seda preta.

— Eu te fiz sentir que eu sou sua, Manu. Só sua. Você não sentiu isso quando entrou por aquela porta? Você não sentiu que mataria qualquer um que chegasse perto de mim?

Emanuel a prensou contra a porta fechada, as mãos tatuadas prendendo os pulsos dela acima da cabeça.

— Eu senti. E eu odeio que você saiba exatamente como me fazer sentir assim.

— Então me castigue por isso — sussurrou ela, fechando os olhos, a expressão de entrega total. — Me mostre que eu não deveria ter saído. Me mostre que eu pertenço a você.

Emanuel perdeu o restante de sua racionalidade. Ele a beijou com uma ferocidade que não tinha nada de carinhosa, um beijo que era uma afirmação de posse. Eduarda respondeu com um gemido de satisfação, sentindo que seu plano funcionara perfeitamente.

Enquanto isso, no quarto ao lado, Sara ouvia os sons da paixão turbulenta deles através das paredes. Ela mordia o lábio inferior, as unhas cravadas nos lençóis, sentindo um misto de ódio e inveja. Ela tentara usar a verdade para destruir Eduarda, mas a "sonsa" transformara a mentira em uma arma de sedução que Sara jamais conseguiria replicar.

Naquela noite, Emanuel não foi o mestre da situação. Ele foi o escravo de um desejo que Eduarda moldara com a ponta dos dedos. E enquanto ele a possuía com a fúria de quem recupera um território perdido, Eduarda sorria contra o ombro dele, sabendo que, naquela cobertura de luxo, a verdadeira força não estava nos músculos ou no dinheiro, mas na capacidade de fazer um homem forte perder o controle por uma lágrima bem planejada.

Ao amanhecer, a trégua voltou. Emanuel acordou com Eduarda aninhada em seu peito, a imagem da inocência recuperada. Sara apareceu na cozinha, os olhos inchados, fingindo que nada acontecera, mas o clima na mesa de café era diferente.

— O café está forte hoje, não é? — comentou Sara, a voz carregada de sarcasmo.

— Está perfeito — respondeu Eduarda, tomando um gole pequeno e olhando para Emanuel com uma doçura que escondia o veneno da noite anterior. — Não é, Manu?

Emanuel apenas assentiu, sentindo o peso daquela dinâmica. Ele sabia que Eduarda o manipulara, e sabia que Sara continuaria tentando derrubá-la. Mas ele também sabia que, toda vez que Eduarda o fizesse perder o controle, ele voltaria para ela como um náufrago volta para a única ilha que conhece.

A guerra entre a seda e o silicone continuava, mas naquela rodada, a seda provara ser muito mais resistente do que qualquer um poderia imaginar. E Emanuel, o tatuador que marcava a pele dos outros, percebeu que a marca mais profunda que carregava não fora feita por agulhas, mas pelo olhar de uma mulher que sabia que, para dominar um predador, às vezes era preciso apenas fingir ser a presa.