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Duas

O Veneno no Cálice de Cristal

O loft estava finalmente silencioso, mas o ar ainda parecia vibrar com a energia residual da discussão. O cheiro dos perfumes importados das amigas de Sara ainda pairava, como um fantasma insistente que se recusava a abandonar o recinto. Eduarda estava sentada na beira da cama de Emanuel, as mãos entrelaçadas sobre o colo, observando-o tirar o relógio de pulso e colocá-lo sobre a cômoda de madeira escura.

A luz do abajur criava sombras longas e dramáticas nas tatuagens de Emanuel, fazendo com que os desenhos em sua pele parecessem ganhar vida. Ele sentia o peso do olhar de Eduarda, um olhar que carregava uma mágoa que ele detestava ver.

— Manu? — A voz dela saiu pequena, quase um sussurro quebrado.

Ele se virou, encostando-se na cômoda e cruzando os braços fortes sobre o peito.

— Diga, pequena.

— O que a Sara disse... — Eduarda hesitou, mordendo o lábio inferior até que ele ficasse pálido. — Sobre você levar ela para o estúdio. Sobre ela ser a sua... a sua única inspiração real. É verdade? Ela disse que você usa o corpo dela na maca enquanto desenha porque o meu é só para "descansar a vista".

Emanuel soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um breve segundo. Ele caminhou até ela, ajoelhando-se entre suas pernas para ficar na altura de seus olhos. Ele segurou as mãos dela, sentindo-as frias e trêmulas.

— Eduarda, olhe para mim — ele ordenou com suavidade. — A Sara é uma mentirosa compulsiva quando se sente ameaçada. Ela usa a vulgaridade como escudo porque sabe que não tem um décimo da profundidade que você carrega.

— Mas ela é tão... exuberante — Eduarda desviou o olhar. — O corpo dela é o que as pessoas esperam de um tatuador como você. Eu sou apenas uma estudante de arte sem graça.

— Escute bem — Emanuel segurou o queixo dela, forçando-a a encará-lo —, eu nunca levei a Sara ao estúdio para desenhar. O estúdio é o meu santuário, o lugar onde eu crio. O corpo dela é silicone e artifício, Eduarda. Não há inspiração ali, apenas distração. Quando eu desenho, quando eu busco algo real, eu penso nas suas curvas suaves, na forma como a luz bate na sua pele sem precisar de filtros. Ela não é minha inspiração. Ela é um ruído. Você é a música.

Eduarda sentiu um nó se desmanchar em seu peito, mas a insegurança ainda sussurrava em seu ouvido.

— Então por que ela disse aquilo com tanta certeza?

— Porque ela quer te destruir por dentro para se sentir maior — Emanuel respondeu, a voz ficando mais sombria. — Ela sabe que você é o meu ponto fraco e o meu ponto de paz. Ela nunca vai ter o que nós temos, então ela tenta sujar o que é limpo. Nunca mais acredite em uma palavra que saia daquela boca quando o assunto for nós dois. Entendeu?

Eduarda assentiu, sentindo as lágrimas finalmente secarem. Emanuel a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto em seu pescoço, aspirando o cheiro de lavanda que era tão característico dela.

Algumas horas depois, o loft estava mergulhado na escuridão da madrugada. Emanuel saiu do quarto silenciosamente, deixando Eduarda dormindo um sono tranquilo. Ele precisava de um uísque. Ao chegar na cozinha, encontrou Sara sentada na bancada, bebendo direto de uma garrafa de vinho branco, com as pernas balançando e um olhar de puro veneno.

— A santinha já dormiu? — Sara perguntou, a voz arrastada pelo álcool. — Ou você cansou de ler poesia para ela e veio buscar algo mais interessante?

Emanuel serviu-se do uísque, o gelo estalando no copo de cristal. Ele não olhou para ela de imediato.

— Você passou dos limites hoje, Sara.

— Ah, por favor, Emanuel! — Ela saltou da bancada, caminhando até ele com um rebolado agressivo. — Aquelas eram minhas amigas. Você me humilhou na frente delas por causa daquela sonsa que não sabe nem se vestir sozinha.

Emanuel virou-se para ela, a expressão gélida.

— Eu peço desculpas por ter expulsado suas amigas daquela forma — ele disse, e Sara deu um sorriso vitorioso por um milésimo de segundo, antes dele continuar: — Mas você mereceu cada palavra e cada segundo daquela humilhação.

O sorriso de Sara desapareceu instantaneamente.

— Como é?

— Você entrou nesta casa e atacou a única pessoa que nunca te faltou com o respeito — Emanuel deu um passo à frente, obrigando-a a recuar contra a bancada. — Você mentiu, Sara. Inventou histórias sobre o meu trabalho, sobre o meu estúdio, tentando diminuir a Eduarda com essa sua vulgaridade barata.

— Eu só disse a verdade sobre o que os homens querem! — Sara gritou, os olhos brilhando de raiva. — Homem nenhum quer uma boneca de porcelana para o resto da vida, Emanuel! Você gosta do meu fogo, você gosta de como eu não tenho vergonha de nada!

— Eu gosto do seu corpo, Sara. Não confunda tesão com importância — ele retrucou, a voz baixa e perigosa. — A Eduarda é sensível, sim. Ela é tímida e às vezes manhosa demais. Mas ela tem uma dignidade que você nem consegue conceber. Se você abrir a boca para falar do corpo dela ou da nossa relação para as suas amigas de novo, eu não vou apenas expulsá-las. Eu vou te colocar no olho da rua sem um centavo de pensão.

Sara sentiu um calafrio. Ela sabia que Emanuel não fazia ameaças vazias.

— Você a ama tanto assim? — ela perguntou, a voz subitamente pequena, revelando a vulnerabilidade que ela tanto tentava esconder sob camadas de maquiagem e silicone.

Emanuel tomou um gole de seu uísque, observando o líquido âmbar.

— Eu a protejo porque ela precisa. E eu te aturo porque você me diverte. Mas não se engane, Sara: o dia em que a sua diversão causar mais dor a ela do que prazer a mim, você deixa de existir na minha vida.

Ele deu as costas a ela, deixando-a sozinha na penumbra da cozinha. Sara apertou a garrafa de vinho com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ela odiava Eduarda. Odiava a forma como aquela garota conseguia despertar um lado protetor e quase humano em um homem tão frio quanto Emanuel.

No dia seguinte, o clima no loft estava estranhamente calmo. Eduarda estava na sala, espalhando seus livros de História da Arte sobre a mesa de centro. Ela parecia mais leve, como se as palavras de Emanuel na noite anterior tivessem servido de escudo.

Sara apareceu no corredor, vestindo um robe de seda rosa choque, com o cabelo perfeitamente escovado, apesar da hora precoce. Ela olhou para Eduarda e, por um momento, o ódio brilhou em seus olhos, mas ela o mascarou com uma máscara de indiferença entediada.

— O Manu saiu cedo? — Sara perguntou, indo em direção à cafeteira.

— Sim — respondeu Eduarda, sem levantar os olhos do livro. — Ele tinha uma sessão longa no estúdio hoje. Um fechamento de costas.

Sara parou, com a xícara na mão.

— Ele te conta os detalhes do trabalho dele agora? Que fofo. Daqui a pouco ele te ensina a tatuar também.

Eduarda respirou fundo, lembrando-se das palavras de Emanuel. "Ela é um ruído".

— Ele compartilha comigo o que ele sente que eu posso entender, Sara. E eu entendo o valor da arte dele.

Sara soltou uma risada debochada.

— Arte. Vocês dois se merecem com esse papo intelectual. Mas me diga, Duda... ele te contou o que a gente conversou na cozinha ontem à noite?

Eduarda finalmente levantou os olhos.

— Ele me disse que você mereceu ser humilhada. E que ele não vai tolerar mais seus ataques.

O rosto de Sara se contorceu em uma careta de desprezo.

— Ele me pediu desculpas, querida. Ele sabe que não pode viver sem o que eu dou a ele. Ele pode até gostar de conversar sobre museus com você, mas é no meu quarto que ele realmente relaxa.

— Se você precisa se convencer disso para conseguir dormir, tudo bem — Eduarda disse, com uma calma que surpreendeu a si mesma. — Mas nós duas sabemos que, se ele tivesse que escolher hoje, você não estaria mais aqui.

Sara deu um passo à frente, a vulgaridade pronta para saltar de sua boca, mas parou ao ver o celular de Eduarda vibrar sobre a mesa. Era uma mensagem de Emanuel.

"Pensei em você enquanto preparava as tintas. Você é a cor que falta no meu dia. Te vejo à noite, pequena."

Eduarda sorriu ao ler a mensagem, e esse sorriso foi como um tapa no rosto de Sara. Sem dizer mais nada, a loira virou as costas e se trancou em seu quarto, batendo a porta com força.

A tarde passou lentamente. Eduarda decidiu que não ficaria em casa esperando por Emanuel. Ela precisava de ar, precisava se sentir conectada com o mundo que ela amava. Vestiu um vestido floral leve, calçou suas sapatilhas e foi para o Museu de Arte de São Paulo.

Enquanto caminhava entre as obras de arte, ela se sentia em casa. Ela observava as pinceladas de Renoir, a força de Van Gogh, e entendia que a beleza real não era sobre perfeição, mas sobre expressão. Emanuel via isso nela. Ele via a alma por trás da timidez.

Ao retornar para o loft, ela encontrou Emanuel já em casa. Ele estava sentado no sofá, com um caderno de desenhos no colo. Sara não estava à vista.

— Onde você estava? — ele perguntou, fechando o caderno assim que ela entrou.

— No MASP. Precisava ver algo bonito que não fosse fruto de uma briga — ela respondeu, aproximando-se dele.

Emanuel a puxou para o seu colo, abraçando-a pela cintura.

— Eu desenhei algo para você hoje. No estúdio.

Ele abriu o caderno. Não era um desenho técnico de tatuagem. Era um esboço a carvão do rosto de Eduarda, capturando exatamente a expressão de serenidade que ela tinha quando estava distraída.

— Você disse que eu era sua inspiração... — ela sussurrou, tocando o papel com as pontas dos dedos.

— Eu não minto para você, Eduarda — ele disse, beijando a ponta do nariz dela. — A Sara pode gritar o quanto quiser, mas o que eu sinto por você está gravado em um lugar onde ela nunca vai conseguir tocar.

Eduarda sentiu-se vitoriosa. Não era uma vitória barulhenta como as de Sara, mas uma vitória silenciosa e profunda. Ela se inclinou para beijá-lo, um beijo que carregava toda a sua gratidão e desejo.

Naquele momento, no andar de cima, Sara observava a cena pelo vão da escada. Ela sentia o gosto amargo da derrota, mas sua mente já estava trabalhando. Se ela não podia ter o coração de Emanuel, ela faria questão de transformar a vida daquela "santinha" em um inferno tão grande que ela fugiria por conta própria.

A vulgaridade de Sara não era apenas um jeito de ser; era uma arma. E ela ainda tinha muitas munições guardadas.

— Aproveitem enquanto podem — Sara sussurrou para si mesma, os olhos fixos no casal lá embaixo. — Porque o próximo filme que a gente vai assistir não vai ter final feliz para você, Eduarda.

Mas Emanuel, sentindo o corpo de Eduarda contra o seu, sabia que o jogo tinha mudado. Ele não era mais apenas o mediador entre duas mulheres. Ele era o protetor de uma e o dono da outra. E ele não permitiria que o veneno de Sara contaminasse o cálice de cristal que ele tinha encontrado na doçura de Eduarda.

A noite caiu sobre o loft, trazendo consigo uma paz frágil, mas real. Eduarda adormeceu nos braços de Emanuel, sentindo-se segura, enquanto ele permanecia acordado, vigiando o silêncio, pronto para esmagar qualquer ameaça que ousasse perturbar a sua pequena obra de arte. A guerra estava longe de terminar, mas naquela rodada, a sensibilidade tinha vencido a vulgaridade, e o amor, mesmo que torto e possessivo, tinha encontrado o seu lugar.