Voltar ao resumo

Duas

O Peso das Alianças Invisíveis

O loft luxuoso de Emanuel parecia pequeno demais para abrigar tantas tensões acumuladas. O silêncio que se seguiu ao confronto com as amigas de Sara não era de paz, mas de uma trégua armada. Emanuel, sentado em sua poltrona de couro, observava o rastro de destruição emocional que as últimas horas haviam deixado. Ele olhou para Eduarda, que ainda parecia uma flor murcha em sua poltrona, e depois para o corredor por onde Sara havia sumido em um turbilhão de fúria e saltos altos.

Ele sabia que precisava agir. Emanuel não era um homem de meias medidas; ele era um estrategista que geria estúdios de tatuagem em três continentes e sabia que, para manter seu império pessoal em ordem, precisava equilibrar as duas forças que o moviam: a pureza que o resgatava e a vulgaridade que o incendiava.

Emanuel levantou-se e caminhou até o quarto de Sara. Ele não bateu. Entrou e a encontrou jogada na cama, descontando sua raiva em um travesseiro de seda, as pernas longas e bronzeadas chutando o ar.

— Saia daqui, Emanuel! — gritou ela, a voz abafada pelas penas de ganso. — Vá lamber as feridas da sua boneca de porcelana!

Emanuel sentou-se na beira da cama e, com uma força calma, segurou os tornozelos dela, imobilizando-a.

— Escute-me bem — disse ele, a voz grave vibrando no quarto. — Eu sinto muito pelas palavras que usei na frente das suas amigas. Eu fui duro demais.

Sara virou-se bruscamente, o rímel borrado dando-lhe um ar de vilã de cinema noir, mas seus olhos brilharam com a surpresa do pedido de desculpas.

— Você me humilhou, Manu. Você me chamou de diversão barata.

— Eu estava irritado, Sara. Você sabe que eu perco o controle quando sinto que a paz da casa está em risco — ele deslizou as mãos pelas pernas dela, subindo até as coxas. — Você não é barata. Você é o meu fogo. Mas eu estou te pedindo, quase implorando: não machuque mais a Eduarda. Ela não tem a sua casca grossa. Ela não sabe lutar como você.

Sara bufou, mas o toque de Emanuel começou a amolecer sua resistência.

— Ela é uma sonsa, Manu. Ela te manipula com esse jeito de coitadinha.

— Talvez. Mas ela é necessária para mim, assim como você é — ele inclinou-se e beijou o pescoço dela, sentindo o perfume forte e doce. — Para provar que eu valorizo as duas, eu tomei uma decisão. Vamos viajar. Amanhã. Para a minha casa em Angra. Só nós três. Longe de amigos, de estúdios e de museus.

— Nós três? — Sara arqueou uma sobrancelha. — Isso vai ser um desastre ou um milagre.

— Vai ser o que eu decidir que seja — Emanuel sentenciou.

O jato particular de Emanuel pousou em Angra dos Reis sob um sol escaldante, mas o clima dentro da aeronave tinha sido mais frio que o freezer de champagne. Eduarda, vestindo um vestido de algodão branco e um chapéu de palha, parecia um comercial de perfume de luxo, enquanto Sara, de biquíni de fita sob uma saída de praia transparente e óculos escuros gigantes, exalava uma energia de "estrela de reality show em busca de confusão".

Assim que pisaram no deck da mansão à beira-mar, a briga começou pela posse do espaço.

— Eu quero o quarto principal, o que tem vista para o leste — anunciou Sara, jogando sua mala da Louis Vuitton no chão de pedra são tomé. — Eu preciso de luz natural para as minhas selfies, e o sol da manhã é o melhor.

Eduarda, que segurava uma pequena bolsa de lona com seus livros e cadernos de desenho, franziu a testa delicadamente.

— Manu tinha dito que aquele quarto seria meu, Sara... por causa da ventilação. Você sabe que eu sofro com o calor e a umidade.

— Sofre? Ah, poupe-me, Duda! — Sara riu, tirando os óculos e pendurando-os no decote generoso. — Você sofre de falta de vitamina D e excesso de frescura. Vá para o quarto dos fundos, lá é fresco e escuro, combina com o seu humor de velório.

— Emanuel! — Eduarda chamou, a voz manhosa subindo um oitavo. — Você prometeu.

Emanuel, que vinha logo atrás com o celular no ouvido resolvendo um problema em um estúdio de Londres, desligou o aparelho com um gesto brusco.

— Chega! — berrou ele, fazendo as duas saltarem. — Sara, você fica com a suíte da direita. Eduarda, a da esquerda. Ambas têm vista para o mar. Eu fico na suíte master, no centro. E se eu ouvir mais uma reclamação sobre quartos, eu mando o piloto levar as duas de volta para São Paulo agora mesmo.

A tarde seguiu em uma tensão úmida. Emanuel decidiu que o melhor para acalmar os ânimos seria um passeio de lancha. Mas, no mar, a competição por atenção atingiu níveis vulgares.

Enquanto a lancha cortava as águas verdes de Angra, Eduarda sentou-se na proa, deixando o vento bagunçar seus cabelos claros, enquanto tentava ler um ensaio sobre a luz em Caravaggio. Emanuel sentou-se ao lado dela, passando o braço por seus ombros, atraído pela serenidade que ela tentava projetar.

— Está gostando, pequena? — perguntou ele, beijando o topo da cabeça dela.

— É lindo, Manu. O contraste do verde da mata com o azul do mar é uma obra-prima natural — respondeu ela, encostando a cabeça no peito dele.

Sara, que estava na parte de trás da lancha bebendo um drink de frutas tropicais, não suportou a cena. Ela se levantou, caminhando de forma provocante pelo convés instável, e parou bem na frente de Emanuel, bloqueando a visão de Eduarda.

— Manu, passa protetor nas minhas costas? — pediu ela, estendendo um frasco de óleo bronzeador. — Eu sinto que estou fritando, e você sabe como a minha pele fica sensível... em certos lugares.

Ela deu as costas para ele, soltando o laço do biquíni e segurando a peça contra os seios siliconados com as mãos, expondo toda a extensão de suas costas perfeitas e a marca minúscula da calcinha fio-dental.

— Sara, agora não — disse Emanuel, mas seus olhos traíram sua voz, percorrendo as curvas da loira.

— Ah, qual é, Manu? — provocou Sara, olhando por cima do ombro para Eduarda. — A Duda não se importa, não é, santinha? Ela está ocupada com o livro de figuras dela. Deixe que um homem de verdade cuide de uma mulher de verdade.

Eduarda fechou o livro com força, o rosto vermelho de indignação.

— Você é tão vulgar, Sara. Não consegue passar cinco minutos sem se oferecer como se estivesse em um catálogo de acompanhantes?

Sara girou, os olhos faiscando, ainda segurando o biquíni contra o peito.

— E você é tão sem sal que precisa de um livro para saber o que é beleza! — gritou Sara. — Pelo menos eu tenho algo que o Emanuel quer tocar, e não apenas "observar" como se fosse uma estátua empoeirada de museu!

— Parem as duas agora! — Emanuel levantou-se, a lancha balançando com seu movimento brusco. — Sara, amarre essa porra desse biquíni! Eduarda, guarde esse livro! Nós viemos aqui para descansar, não para uma luta na lama!

Ele pegou o óleo das mãos de Sara com violência, derramando um pouco na palma e espalhando pelas costas dela com movimentos brutos, quase punitivos. Sara soltou um gemido que era metade dor, metade prazer, lançando um olhar triunfante para Eduarda.

— Viu? — sussurrou Sara para a outra. — No final, ele sempre acaba com as mãos em mim.

Eduarda levantou-se, as lágrimas de frustração inundando seus olhos sensíveis.

— Eu vou para a cabine. O sol está me dando dor de cabeça.

— Isso! Vá se esconder, ratinha de biblioteca! — gritou Sara enquanto Eduarda descia as escadas.

À noite, a mansão foi palco de um jantar requintado preparado por um chef local, mas o sabor da comida foi obscurecido pelo veneno nas palavras. Emanuel, exausto, bebia seu vinho em silêncio, tentando ignorar os olhares que as duas trocavam sobre os pratos de lagosta.

— Esse molho está um pouco pesado, não acha, Manu? — comentou Eduarda, tentando retomar seu papel de mulher refinada. — No concerto da semana passada, comemos algo muito mais sutil.

— Ah, o concerto... — interrompeu Sara, atacando a lagosta com as mãos, de forma deliberadamente vulgar. — Aquele onde eu quase morri de tédio enquanto você fingia ter um orgasmo ouvindo violino? Manu prefere coisas com mais tempero, Duda. Coisas que ele possa realmente sentir o gosto, não essas espuminhas de gente rica que não tem apetite.

— Ter apetite não significa comer como uma selvagem, Sara — retrucou Eduarda, a voz firme. — Existe algo chamado classe. Algo que você não compraria nem se o Emanuel te desse todos os estúdios dele.

— Classe não segura homem na cama, querida! — Sara levantou-se, batendo a mão na mesa, as joias de ouro tilintando. — O que segura homem é saber como rebolar, como gemer, como fazer ele esquecer que tem uma empresa para cuidar. E você, com esse seu jeito de quem pede licença para respirar, deve ser um tédio entre quatro paredes.

Eduarda levantou-se também, o corpo esguio tremendo.

— Você é uma criatura desprezível. Você não ama o Emanuel, você ama o que ele pode te dar. Você é uma parasita de luxo!

— E você é uma sanguessuga emocional! — gritou Sara. — Usa essa fragilidade de mentira para prender ele!

— BASTA! — O grito de Emanuel fez as taças de cristal vibrarem. Ele se levantou, a aura de controle completamente estilhaçada. — Eu não aguento mais! Eu trouxe vocês aqui para ter paz, e vocês transformaram o meu paraíso em um hospício!

Ele caminhou até o centro das duas, pegando cada uma por um braço.

— Eduarda, sua sensibilidade está virando cobrança. Sara, sua vulgaridade está virando agressão. Eu amo as duas, por razões diferentes, mas se vocês não aprenderem a conviver neste maldito final de semana, eu juro que volto para São Paulo sozinho e deixo as duas aqui para se matarem!

Houve um silêncio mortal. Eduarda soluçou baixo, e Sara bufou, desviando o olhar.

— Agora — continuou Emanuel, a voz caindo para um tom perigosamente baixo —, cada uma vai para o seu quarto. Eu vou para a piscina. E não quero ouvir nem o som de um suspiro vindo de vocês.

Emanuel saiu para o deck, jogando-se na piscina de borda infinita sob o luar, tentando lavar a tensão da alma. Mas a paz durou pouco.

Cerca de uma hora depois, a porta de vidro que dava para a piscina se abriu. Eduarda apareceu, vestindo uma camisola de seda azul-claro que a deixava parecida com uma ninfa sob a lua. Ela caminhou timidamente até a borda.

— Manu... eu posso entrar? — perguntou ela, a voz doce e submissa. — Eu não queria brigar. Eu só me sinto tão insegura quando ela começa a falar aquelas coisas...

Emanuel suspirou, estendendo a mão para ela.

— Venha, pequena.

Eduarda deslizou para dentro da água morna, nadando até os braços dele. Emanuel a segurou pela cintura, sentindo a pele macia sob a seda molhada.

— Você sabe que eu te protejo, Eduarda. Mas você precisa ser mais forte.

— Eu tento... mas ela é tão bruta — murmurou ela, começando a beijar o peito tatuado dele.

Emanuel estava prestes a se perder na doçura de Eduarda quando um som de risada estridente veio da sacada superior. Sara estava lá, observando-os, segurando uma garrafa de champagne.

— Que cena linda! O batismo da santinha! — gritou Sara, visivelmente alterada pelo álcool. — Cuidado para não se afogar na própria chatice, Duda!

— Sara, vá dormir! — ordenou Emanuel.

— Eu não vou dormir enquanto você estiver aí com ela! — Sara desceu as escadas correndo, tropeçando nos próprios pés, e parou na borda da piscina. Ela arrancou o robe, ficando completamente nua sob o luar. — Se é para entrar na água, vamos fazer do jeito certo!

Ela pulou na piscina com um impacto que espirrou água em Eduarda. O caos recomeçou.

— Saia daqui, Sara! — gritou Eduarda, tentando se afastar.

— A piscina é grande o suficiente, sua chata! — Sara nadou até Emanuel, agarrando-se ao pescoço dele por trás, as pernas envolvendo sua cintura sob a água. — Né, Manu? Você gosta de companhia, não gosta?

Emanuel estava no limite. Ele tinha Eduarda em seus braços, doce e trêmula, e Sara em suas costas, quente e exigente. O conflito entre as duas mulheres era um reflexo do conflito dentro dele: a necessidade de paz e o vício no caos.

— Vocês querem brigar? — perguntou Emanuel, a voz carregada de uma luxúria sombria e autoritária. — Então vamos brigar do meu jeito.

Ele puxou Eduarda para mais perto com um braço e segurou a nuca de Sara com o outro, forçando as duas a ficarem cara a cara, com ele no centro.

— Eu cansei de ser o juiz de vocês. Se vocês querem a minha atenção, vão ter que dividir. Ou vocês aprendem a se respeitar agora, ou eu vou dar a cada uma o que vocês estão pedindo: um motivo real para ficarem sem voz.

Ele começou a beijar Eduarda com uma possessividade bruta, enquanto sua outra mão descia para apertar a nádega de Sara com força. A vulgaridade da situação chocou Eduarda, mas a excitação que emanava de Emanuel era contagiosa. Sara, por outro lado, riu, vitoriosa, mordendo o ombro de Emanuel.

— Isso, Manu... mostra para ela como é que se faz — sussurrou Sara.

— Cala a boca, Sara — disse Emanuel, virando-se para ela e calando-a com um beijo tão agressivo quanto o anterior.

A noite em Angra, que deveria ser de descanso, transformou-se em um campo de batalha erótico onde as hierarquias eram testadas e as inimizades eram fundidas pelo desejo comum pelo mesmo homem. Eduarda, em sua timidez, descobriu uma força que não sabia que tinha para reivindicar seu espaço, enquanto Sara, em sua vulgaridade, descobriu que nem sempre o grito mais alto garantia o domínio.

Emanuel, no centro do furacão, sentia que estava equilibrando dois mundos prestes a colidir. Ele sabia que as brigas não terminariam ali. No dia seguinte, elas voltariam a discutir pelo café da manhã, pela cor do biquíni ou pelo assento no carro. Mas, por aquela noite, sob o céu estrelado de Angra, ele tinha o controle absoluto de suas duas feras, lembrando-as de que, não importa o quanto se odiassem, ambas eram escravas do mesmo império que ele havia construído com tinta, sangue e vontade.

A viagem estava apenas começando, e o veneno entre as duas ainda corria solto, mas Emanuel estava disposto a beber cada gota, contanto que, no final, ambas estivessem exatamente onde ele queria: aos seus pés e sob o seu comando.