Duas
O Ventre do Caos e a Herança da Tinta
O loft de Emanuel, que antes era um monumento ao minimalismo industrial e ao luxo silencioso, agora assemelhava-se a uma zona de guerra biológica e hormonal. O ar, outrora impregnado de uísque e tabaco, agora carregava uma mistura bizarra de óleos para estrias, desejos alimentares exóticos e o cheiro metálico de uma tensão que poderia ser cortada com um bisturi.
Eduarda e Sara estavam grávidas. Simultaneamente.
Emanuel, o homem que comandava impérios de tatuagem com mão de ferro, via-se agora como um mediador de crises constantes. Ele observava as duas mulheres sentadas em extremidades opostas do sofá de couro italiano. Eduarda, no sétimo mês, parecia uma madona renascentista, com seu ventre pontudo abrigando o pequeno Arthur; ela usava vestidos de seda largos e lia manuais de amamentação com uma devoção quase religiosa. Sara, também no sétimo mês, era a antítese: o ventre redondo onde crescia Valentina parecia um acessório de moda, apertado em vestidos de malha justa que ela se recusava a abandonar, mesmo que o zíper estivesse prestes a explodir.
— Eu não aguento mais o cheiro desse chá de camomila, Eduarda! — disparou Sara, abanando-se com uma revista de fofocas. — Parece que moro em um asilo. Emanuel, por favor, mande alguém buscar um combo de hambúrguer com bacon extra. Se eu ver mais uma salada orgânica, eu vou ter um colapso.
Eduarda levantou os olhos do livro, a expressão suave, mas carregada de uma passividade agressiva que ela desenvolvera com a gestação.
— O sódio vai fazer suas pernas incharem ainda mais, Sara. E o bebê precisa de nutrientes, não de gordura trans. O Arthur já está chutando porque sente a energia negativa que você emana.
— O Arthur? — Sara soltou uma gargalhada vulgar, ajeitando o decote que o silicone mal conseguia mais conter. — Esse garoto vai nascer pedindo desculpas por existir. Já a minha Valentina está aqui dando cambalhotas porque sabe que a mãe dela é uma leoa, não uma planta de estufa.
Emanuel entrou no campo de visão das duas, vestindo uma camiseta preta que marcava seus músculos tensos. Ele carregava duas sacolas: uma com frutas frescas e outra com o fast-food que Sara exigira.
— Parem as duas — disse ele, a voz grave e autoritária, embora houvesse um cansaço nítido em seus olhos. — Sara, aqui está o seu veneno calórico. Eduarda, suas uvas orgânicas. Agora, por favor, cinco minutos de silêncio antes que eu decida que o quarto do bebê será no meu estúdio e não aqui.
— Manu, meu amor — Eduarda chamou, a voz manhosa enquanto se levantava com dificuldade e se aninhava no peito dele —, o Arthur sentiu sua falta. Ele não para de se mexer desde que você saiu. Acho que ele já reconhece a voz do pai.
Sara revirou os olhos, mastigando uma batata frita com uma vontade quase feroz.
— Que fofo. Ele reconhece a voz do pai ou está tentando fugir desse seu papo furado? Manu, vem cá. A Valentina está chutando a minha bexiga como se fosse uma bola de futebol. Acho que ela vai herdar o seu temperamento... e o meu gosto por pisar nos outros.
Emanuel sentou-se entre as duas, uma mão pousada sobre o ventre delicado de Eduarda e a outra sobre a barriga firme e quente de Sara. Era uma imagem surreal: o tatuador rico e poderoso, cercado por suas duas extensões de vida, ambas competindo por cada centímetro de sua alma.
— Elas vão nascer quase juntas — murmurou Emanuel, sentindo os movimentos sob suas palmas. — Dois herdeiros. Um para cuidar da luz, outra para dominar as sombras.
— O Arthur vai ser um artista, Manu — disse Eduarda, fechando os olhos sob o toque dele. — Ele vai ter a sua sensibilidade.
— E a Valentina vai ser a dona de tudo isso aqui — retrucou Sara, inclinando-se para morder o lóbulo da orelha de Emanuel, um gesto deliberadamente vulgar diante da rival. — Ela vai ter o seu instinto de predador.
As semanas seguintes foram um borrão de contrações falsas, dramas de madrugada e uma disputa épica pela decoração do berçário. Eduarda queria tons de bege, linho e música clássica ambiente. Sara exigia papel de parede de oncinha, detalhes em dourado e um sistema de som para tocar seus batidões. Emanuel, em um ato de ditadura estética, dividiu o quarto exatamente ao meio: um lado parecia uma capela de paz, o outro, uma área VIP de uma boate de luxo.
O dia do parto chegou como uma tempestade de verão: repentino e violento.
Eduarda entrou em trabalho de parto primeiro, de madrugada, com um choro contido e mãos trêmulas. Sara, movida por uma competitividade biológica bizarra, sentiu a primeira contração apenas vinte minutos depois, enquanto gritava insultos para Emanuel por não ter trazido o gelo rápido o suficiente.
No hospital particular que Emanuel reservara inteiramente para elas, o caos se instalou.
— Eu não vou conseguir, Manu! — soluçava Eduarda na sala de pré-parto, agarrada à mão dele. — Dói muito... eu sou pequena demais para isso.
— Você é forte, pequena — dizia Emanuel, a voz firme, limpando o suor da testa dela. — O Arthur está vindo. Respire.
Do outro lado da cortina, o som era muito diferente.
— Emanuel! Se você não mandar esse médico me dar a peridural agora, eu vou arrancar as bolas de todo mundo neste hospital! — berrava Sara, os cabelos loiros ensopados de suor, mas os olhos ainda brilhando com uma fúria selvagem. — Que porra de dor é essa? Valentina, se você não sair agora, eu vou te cobrar cada estria que você me deixou!
Emanuel alternava entre as duas, um mediador de vida e dor. Ele estava presente quando Arthur nasceu: um bebê de pele clara, com o olhar observador de Emanuel e a doçura de Eduarda. O choro dele foi um protesto suave contra o mundo.
— Ele é perfeito — sussurrou Eduarda, as lágrimas escorrendo enquanto o pequeno era colocado em seu peito. — Ele é a sua cópia, Manu.
Emanuel mal teve tempo de processar a emoção antes de ser chamado pela enfermeira. Sara estava no ápice.
— Empurre, Sara! — comandava o médico.
— Eu vou empurrar a sua cara na parede! — gritou ela, fazendo um esforço hercúleo.
E então, Valentina chegou. Ela não chorou; ela gritou. Era uma bebê robusta, de pulmões fortes e mãos que já pareciam querer agarrar o mundo. Tinha os traços definidos de Sara e a intensidade sombria de Emanuel.
— Minha garota... — ofegou Sara, exausta, mas com um sorriso de triunfo nos lábios. — Olha só para ela, Manu. Ela já nasceu mandando em tudo.
A volta para o loft foi o início de uma nova era. Se a gravidez fora difícil, a convivência com dois recém-nascidos era um teste de sanidade. Eduarda sofria com a privação de sono, chorando junto com Arthur nas madrugadas silenciosas. Sara, por outro lado, contratara três babás, mas fazia questão de aparecer no quarto às três da manhã, usando robes de seda transparentes, apenas para provocar Emanuel enquanto ele tentava acalmar o filho de Eduarda.
— Deixe esse garoto com a babá, Manu — dizia Sara, encostando-se no batente da porta, a figura já recuperando as curvas graças a uma genética impiedosa e procedimentos estéticos caros. — A Valentina já dormiu. Ela é uma rainha, não dá trabalho. Vem pro meu quarto, eu tenho um jeito melhor de você relaxar do que trocando fraldas.
— Sara, por favor — pedia Eduarda, amamentando Arthur com olheiras profundas. — Respeite o meu momento. O Arthur está sensível.
— O Arthur é um frouxo, igual à mãe — retrucava Sara, caminhando até o berço da filha e olhando para a pequena Valentina, que dormia com os punhos cerrados. — Minha filha é quem vai ter que defender esse seu menino na escola, Duda. Aceite logo.
Emanuel observava a cena do corredor. Ele era o centro daquele universo caótico. Ele amava a paz que Arthur trazia para seus braços, a sensação de que havia algo de puro em sua linhagem. Mas ele também se alimentava da energia bruta de Valentina, da certeza de que seu império teria uma sucessora capaz de destruir qualquer um que se atravessasse em seu caminho.
Certa noite, Emanuel encontrou as duas na sala. Eduarda tentava ninar Arthur, enquanto Sara retocava as unhas ao lado do berço de Valentina. O silêncio era raro.
— Eu decidi — disse Emanuel, atraindo a atenção das duas. — Arthur vai ter o seu nome na fundação de artes que vou criar. Ele vai ser o rosto da nossa sofisticação.
Eduarda sorriu, vitoriosa, apertando o filho contra o peito.
— E a Valentina? — perguntou Sara, a voz perigosamente baixa, parando o pincel de esmalte no ar.
— A Valentina vai herdar os estúdios — continuou Emanuel, os olhos brilhando com uma ambição fria. — Ela vai aprender a lidar com as agulhas, com o sangue e com o dinheiro. Ela vai ser a força que mantém o nome da família no topo.
Sara deu um sorriso largo e vulgar, levantando-se e caminhando até Valentina.
— Ouviu isso, meu amor? — sussurrou ela para a bebê. — Você vai ser a patroa. O pequeno príncipe ali vai ficar pintando quadros enquanto você conta o dinheiro.
— Não fale assim! — protestou Eduarda. — O Arthur vai ser muito mais do que isso. Ele vai ter classe, algo que você nunca vai entender.
— Classe não paga as contas, querida! — riu Sara. — Poder, sim.
Emanuel aproximou-se e pegou os dois bebês, um em cada braço. Arthur, calmo e sereno; Valentina, desperta e observadora. Ele sentia o peso de suas duas realidades.
— Eles são o meu equilíbrio — disse ele, olhando para Eduarda e Sara. — Arthur é a minha redenção. Valentina é o meu pecado. E eu não pretendo abrir mão de nenhum dos dois.
Eduarda aproximou-se e beijou o rosto de Arthur, depois o de Emanuel.
— Nós seremos o seu refúgio, Manu.
Sara aproximou-se por trás, colando seu corpo ao de Emanuel e deslizando a mão por seu abdômen tatuado.
— E nós seremos o seu vício.
Naquela noite, o loft de Emanuel não era mais apenas o lar de um tatuador rico e suas duas amantes. Era o berço de uma dinastia dividida entre o verniz da cultura e a crueza do asfalto. Eduarda continuaria a ser a sensibilidade que o acalmava, e Sara continuaria a ser a vulgaridade que o desafiava. E, nos berços, Arthur e Valentina cresceriam como o reflexo perfeito desse jogo de poder, amor e traição que Emanuel criara para si mesmo.
— Manu? — chamou Eduarda, quando ele já estava deitado, com os dois bebês dormindo em seus respectivos lados do quarto. — Você está feliz?
Emanuel olhou para o teto, ouvindo a respiração suave de Arthur e o ressonar determinado de Valentina. No quarto ao lado, ele ouvia o som da TV de Sara, que assistia a algum reality show barulhento.
— Eu tenho tudo o que um homem pode desejar, Eduarda — respondeu ele. — Eu tenho o céu e o inferno sob o mesmo teto. Como eu poderia não estar feliz?
— Mas e quando eles crescerem? — perguntou ela, a insegurança voltando. — E se eles se odiarem como eu e a Sara nos odiamos?
Emanuel virou-se para ela, segurando seu rosto com a mão marcada pela tinta.
— Eles não vão se odiar, pequena. Eles vão se completar. Valentina vai precisar da luz de Arthur para não se perder na própria escuridão. E Arthur vai precisar da força de Valentina para não ser esmagado pelo mundo.
— E nós? — sussurrou ela.
— Nós continuaremos exatamente onde estamos — disse Emanuel, a voz carregada de uma possessividade inabalável. — No centro do caos. Do jeito que eu sempre planejei.
Eduarda adormeceu, sentindo-se protegida, enquanto Emanuel permanecia acordado por mais algum tempo. Ele sabia que a paz era apenas uma ilusão temporária. Amanhã, Sara acordaria com alguma nova exigência vulgar, Arthur choraria por atenção e Valentina reclamaria seu espaço. E ele estaria lá, o mestre de cerimônias daquele circo de luxo, governando suas duas rainhas e seus dois herdeiros com a mesma precisão rítmica de uma agulha de tatuagem perfurando a pele: com dor, com arte e com a certeza de que aquela marca, assim como sua família, era para sempre.