Duas
O Furacão de Olhos Claros e a Ordem do Caos
O loft de Emanuel, que um dia fora o epítome do design industrial minimalista e do silêncio autoritário, agora parecia o cenário de um desastre natural em câmera lenta. Onde antes havia tapetes persas impecáveis, agora jaziam blocos de montar espalhados como minas terrestres e manchas de giz de cera que desafiavam a engenharia química dos produtos de limpeza mais caros.
Aos dois anos de idade, Arthur era a prova viva de que a genética era uma força irônica da natureza. Ele herdara a beleza delicada e os olhos expressivos de Eduarda, mas o temperamento... o temperamento era uma destilação pura e concentrada da intensidade de Emanuel, misturada com uma energia cinética que desafiava as leis da física.
— Arthur! Pelo amor de Deus, solte o rabo do gato! — gritou Eduarda, correndo descalça pelo corredor, os cabelos desgrenhados e o vestido de seda — outrora elegante — agora manchado de purê de maçã.
O menino, um furacão de cachos loiros e pernas gordinhas, soltou uma gargalhada que ecoou pelo pé-direito duplo do loft. Ele não apenas soltou o gato, como usou o impulso para escalar o sofá de couro branco, saltando dele com a agilidade de um dublê de filmes de ação.
— Não pega! Mamãe não pega! — provocou o pequeno, os olhos brilhando com uma inteligência travessa enquanto corria em direção à cozinha.
— Emanuel, faça alguma coisa! — exclamou Eduarda, parando no meio da sala, ofegante, as mãos nos quadris. — Ele está impossível hoje. Ele derrubou o vaso da dinastia Ming que você trouxe de Pequim!
Emanuel, que estava sentado à mesa com um tablet, revisando os projetos de um novo estúdio em Tóquio, levantou os olhos. Um sorriso involuntário e orgulhoso surgiu em seu rosto. Ele era fascinado por aquele garotinho. Arthur era a única pessoa no mundo capaz de desestabilizar sua ordem sem sofrer consequências graves.
— Ele tem energia, Eduarda. É um líder nato — comentou Emanuel, a voz grave e calma, embora estivesse pronto para intervir se visse o filho se aproximando de algo realmente perigoso.
— Ele não é um líder, Emanuel, ele é um anarquista! — retrucou ela, voltando a correr atrás do filho que agora tentava escalar a estante de livros de arte.
Enquanto isso, na ala "ostentação" do loft, Sara saía de seu quarto vestindo um robe de seda preta, carregando Valentina no colo. A menina, com seus cabelos escuros e olhar de quem já julgava o mundo com desdém, observava o caos causado pelo irmão com uma indiferença aristocrática.
— Mas que porra é essa agora? — gritou Sara, desviando de um carrinho de metal que Arthur lançara pelo corredor. — Emanuel, esse moleque vai acabar matando alguém! Ele tentou morder o tornozelo da minha esteticista ontem!
Arthur parou de tentar escalar os livros e olhou para Sara. Um sorriso predatório surgiu em seu rosto infantil. Ele adorava aterrorizar Sara, sentindo instintivamente que ela era a única que não caía em seus encantos de "bebê anjo".
— Sara feia! — gritou Arthur, apontando o dedo gordinho.
— O quê? Como é que é, seu pirralho? — Sara arregalou os olhos, a indignação subindo pelo pescoço siliconado. — Emanuel, você ouviu isso? Ele me chamou de feia! Eduarda, ensine modos para esse demônio que você pariu!
— Ele só tem dois anos, Sara! — defendeu Eduarda, finalmente conseguindo capturar o filho pela cintura. — Ele nem sabe o que está dizendo.
— Sabe sim! — rebateu Sara, ajeitando Valentina no quadril. — Ele sabe exatamente como me tirar do sério. Ontem ele jogou um cubo de gelo dentro da minha bolsa da Hermès! Valentina nunca faria uma coisa dessas, não é, meu amor? Valentina é uma rainha.
Valentina apenas deu um suspiro entediado, como se concordasse que o irmão era um ser inferior e barulhento.
— Vem cá, campeão — disse Emanuel, estendendo os braços.
Arthur, sentindo a autoridade do pai, relaxou instantaneamente no colo de Eduarda e correu para Emanuel. O tatuador o levantou no ar, e o menino agarrou os braços do pai, fascinado pelas tatuagens que cobriam a pele de Emanuel.
— Desenho, papai! Quero desenho! — Arthur começou a traçar os padrões de tinta com o dedo pequeno, os olhos arregalados de admiração.
Esse era o ponto fraco de Arthur. Ele era obcecado pelo trabalho do pai. Sempre que Emanuel o levava ao estúdio — para o desespero de Eduarda, que temia que o filho se espetasse em alguma agulha ou aprendesse palavrões cedo demais —, o menino ficava em um estado de transe absoluto. Ele observava o som das máquinas, o cheiro da tinta e o movimento das mãos do pai como se estivesse diante de uma divindade.
— Hoje não tem estúdio, Arthur — disse Emanuel, sentando o menino em seu colo. — Hoje você vai ficar calmo para a mamãe não ter um colapso nervoso.
— Estúdio! — insistiu o pequeno, começando a chutar as pernas. — Ver agulha! Ver tinta!
— Viu só? — Sara comentou, servindo-se de uma taça de espumante logo cedo. — O garoto já quer ser um delinquente tatuado. Pelo menos a Valentina vai ser administradora. Ela já sabe contar até dez e não tenta destruir o patrimônio alheio.
— Deixe ele em paz, Sara — murmurou Eduarda, sentando-se ao lado de Emanuel e encostando a cabeça em seu ombro, exausta. — Ele só é curioso.
O resto da tarde foi uma sucessão de micro-crises. Arthur tentou dar banho no iPad de Emanuel na bacia do cachorro; depois, decidiu que as cortinas de linho eram ótimas para praticar rapel. Eduarda corria de um lado para o outro, seu instinto de proteção lutando contra a exaustão física. Sara passava o tempo todo reclamando do barulho, enquanto Valentina assistia a desenhos educativos em seu próprio tablet, com fones de ouvido de cristal, ignorando o furacão que passava por ela.
— Eu não aguento mais — suspirou Eduarda, quando o relógio marcou sete da noite. — Ele não para. Ele não tem um botão de desligar?
— Ele é um motor de alta performance, Eduarda — brincou Emanuel, embora ele mesmo já estivesse com a paciência no limite após Arthur ter tentado "tatuar" a mesa de jantar com uma caneta permanente.
Finalmente, após um banho que mais pareceu uma batalha naval, onde o banheiro ficou completamente inundado e Arthur tentou comer a espuma do sabonete, o momento da trégua chegou.
Eduarda sentou-se na poltrona do quarto do menino, que era dividido entre o clássico e o moderno. Ela abriu o sutiã de amamentação, um gesto que ainda era o único remédio infalível para acalmar a fera.
Assim que Arthur sentiu o cheiro da mãe e o calor do seu peito, o furacão dissipou-se. O menino agarrou-se à mama com uma urgência manhosinha, os olhos grandes e pesados finalmente começando a ceder ao cansaço. O silêncio que se seguiu foi quase sagrado.
Emanuel apareceu na porta do quarto, observando a cena. Ele encostou-se no batente, os braços cruzados, a expressão suavizada por uma ternura que ele nunca mostrava ao mundo lá fora.
— Ele finalmente parou — sussurrou Emanuel, caminhando lentamente até eles.
— É o único momento — respondeu Eduarda em um sussurro, acariciando os cachos do filho enquanto ele mamava ruidosamente. — Quando ele está aqui, parece aquele bebezinho calmo que eu imaginei que teria.
Emanuel estendeu a mão e tocou o pé gordinho de Arthur. O menino deu um pequeno chute reflexo, mas não soltou o peito da mãe.
— Ele é incrível, Eduarda. Ele tem uma força que vai levá-lo longe. Ele não aceita um "não" como resposta, ele desafia os limites... ele é exatamente o que eu precisava para não ficar estagnado.
— Ele é o terror da Sara — Eduarda deu um sorriso cansado. — Você viu a cara dela quando ele disse que ela era feia?
— Eu vi — Emanuel soltou uma risada baixa. — Ele sabe onde dói. Ele tem o instinto de sobrevivência dela, mas a alma é sua.
Arthur soltou o peito, o rosto manchado de leite e o lábio inferior ligeiramente caído, mergulhado no sono profundo dos justos — ou dos destruidores de lofts. Eduarda o ajeitou no berço com uma delicadeza infinita, cobrindo-o com a manta de lã pura.
Eles saíram do quarto nas pontas dos pés, fechando a porta com um clique quase inaudível. Na sala, Sara estava jogada no sofá, com os pés para cima e uma máscara facial dourada. Valentina já havia sido levada pela babá para o outro quarto.
— O monstro morreu? — perguntou Sara, sem abrir os olhos.
— Ele está dormindo, Sara — disse Eduarda, sentando-se e fechando os olhos por um momento.
— Graças a Deus. Eu juro, Emanuel, se esse moleque quebrar mais alguma coisa minha, eu vou cobrar em dobro da mesada da Eduarda. Ele é um perigo público.
— Ele é uma criança, Sara. Deixe de ser dramática — Emanuel serviu um uísque para si e um chá para Eduarda.
— Dramática? Ele tentou colocar o rímel da Chanel na boca da Valentina hoje! — Sara sentou-se, a máscara rachando com sua expressão de horror. — Ele é um furacão, Manu. Um furacão loiro de olhos doces que vai acabar com a nossa paz.
Emanuel tomou um gole de seu uísque, olhando para o vazio da sala agora silenciosa. Ele sabia que Sara tinha razão, em partes. Arthur era o caos. Ele era o barulho, a destruição e a exigência constante. Mas, ao olhar para Eduarda, que agora descansava a cabeça em seu ombro, e lembrar do peso do filho em seus braços, Emanuel percebeu que aquele caos era o que dava cor à sua vida milimetricamente planejada.
— Ele é o meu filho — disse Emanuel, com uma nota de finalidade na voz. — E neste loft, o furacão tem passe livre.
Eduarda sorriu, sentindo-se finalmente em paz, enquanto Sara bufava e voltava a se deitar. O silêncio reinava, mas todos sabiam que era apenas temporário. Em poucas horas, o sol nasceria, os olhos claros de Arthur se abririam e o loft de Emanuel voltaria a ser o território sagrado de um pequeno ditador de dois anos, que governava com beijos babados e uma vontade inquebrável de tatuar o mundo com sua própria existência.