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Duas

Sombras, Couro e Presas de Leite

O loft de Emanuel estava imerso em uma penumbra estratégica, iluminada apenas por abajures de design industrial e algumas velas aromáticas que Eduarda havia espalhado para "suavizar o ambiente". Mas a suavidade era a última coisa na mente de Sara naquela noite de Halloween. O evento anual dos estúdios Ink Empire não era apenas uma festa; era o ápice do calendário social do mundo da tatuagem, e Sara estava determinada a ofuscar qualquer um que ousasse cruzar seu caminho.

— Valentina, fique parada! — Sara sibilou, ajustando a pequena coroa de cristais na cabeça da filha. — Você é uma mini rainha do gelo, não uma palhaça de circo. Pare de mexer nesse cetro!

Sara usava um vestido de látex branco que parecia ter sido moldado a vácuo em seu corpo, realçando o busto generoso e as curvas que ela exibia com orgulho. Valentina, aos dois anos, era uma réplica em miniatura de luxo, envolta em tule e peles sintéticas, segurando um tablet com uma capa cravejada de strass.

— Chato, mamãe. Quero doce — resmungou a menina, com a mesma expressão de tédio blasé que a mãe usava para olhar o cardápio de restaurantes que não tinham estrelas Michelin.

— Você vai ganhar doces quando chegarmos lá e você posar para as fotos, entendeu? — Sara retocou o batom vermelho sangue, olhando-se no espelho com satisfação. — Vamos mostrar para aquela pálida o que é ter presença.

Enquanto isso, no outro lado do loft, o clima era drasticamente diferente. Eduarda estava trancada no quarto de hóspedes, o coração batendo forte contra as costelas. Ela sempre fora a "moça do cardigã", a estudante de História da Arte que preferia museus silenciosos a festas barulhentas. Mas hoje, algo nela havia mudado. Talvez fosse a necessidade de reafirmar seu território diante da agressividade constante de Sara, ou talvez fosse apenas o desejo de ver o brilho de posse nos olhos de Emanuel.

Quando ela finalmente saiu do quarto, o silêncio caiu sobre a sala.

Eduarda estava vestida de Mulher-Gato. Mas não era uma versão caricata de loja de fantasias; era um macacão de couro legítimo, fosco e elegantemente justo, que delineava seu corpo esguio de uma forma que Emanuel nunca tinha visto. A máscara de orelhas pontiagudas realçava seus olhos grandes e expressivos, que ela havia contornado com um delineado gatinho impecável. Ela parecia perigosa, mas ainda mantinha aquela aura de doçura que era sua marca registrada.

— Uau... — a voz de Emanuel ecoou pelo corredor.

Ele estava encostado no batente da porta, já vestido com uma camisa preta de botões, as mangas dobradas revelando as tatuagens que subiam por seus braços como trepadeiras de tinta. Ele não precisava de fantasia; sua própria pele era uma obra de arte. Seus olhos percorreram Eduarda de cima a baixo, demorando-se nas curvas suaves que o couro acentuava.

— Você está... diferente, Duda — ele comentou, a voz descendo um tom, carregada de uma admiração que fez as bochechas dela esquentarem.

— Diferente ruim? — ela perguntou, fazendo um biquinho manhoso e caminhando até ele com passos leves.

— Diferente fascinante — Emanuel respondeu, segurando-a pela cintura e puxando-a para perto. — Eu não sabia que você guardava esse lado felino.

— Só para ocasiões especiais — ela sussurrou, passando as mãos pelos ombros dele.

A cena foi interrompida por um grito agudo de empolgação.

— Papai! Olha! Eu morder!

Arthur surgiu correndo, ou melhor, tropeçando em sua pequena capa de veludo preto com forro vermelho cetim. Ele estava vestido de mini Drácula. Eduarda havia passado horas costurando os detalhes da fantasia para que ficasse confortável. O menino tinha o cabelo penteado para trás com gel, revelando a testa larga idêntica à de Emanuel, e usava pequenas presas de plástico que o faziam babar um pouco enquanto ria.

— Meu Deus, Arthur! — Emanuel soltou uma risada genuína, agachando-se para pegar o filho no colo. — Você vai assustar todos os meus clientes desse jeito?

— Eu sou mal, papai! — Arthur exclamou, tentando fazer uma cara assustadora que só o deixava mais adorável. — Cade a tatoo? Quero tatoo de morcego!

Emanuel beijou a bochecha do filho, sentindo uma conexão que o desarmava. Arthur era sua cópia, mas tinha aquele brilho de travessura nos olhos que Emanuel sabia que vinha da mistura explosiva entre sua própria intensidade e a teimosia silenciosa de Eduarda.

— Depois eu faço uma de canetinha em você, pequeno conde — Emanuel prometeu, ajeitando a gola da capa do menino.

— Que patético — a voz de Sara cortou o momento como uma navalha.

Ela entrou na sala com Valentina a tiracolo, o salto agulha estalando no chão. Ela olhou para Eduarda com um desprezo mal disfarçado, embora, por dentro, estivesse fervendo de ódio ao ver como o couro caía bem na rival.

— O que é isso, Eduarda? Tentando ser sexy agora? — Sara soltou uma risada anasalada. — Cuidado para não tropeçar no rabo da fantasia. E esse menino... Emanuel, ele vai destruir a decoração da festa. Você sabe que ele não tem limites.

— Ele é uma criança, Sara — Emanuel disse, levantando-se com Arthur ainda nos braços. — E ele está ótimo. Assim como a Valentina. Vamos, o carro já está esperando.

A festa no estúdio principal estava a todo vapor. O cheiro de tinta fresca, álcool e perfumes caros preenchia o ar. O espaço, decorado com teias de aranha de seda e esculturas de gelo em formato de crânios, estava lotado de celebridades, modelos e os melhores tatuadores do mundo.

Assim que entraram, os flashes começaram. Sara, como uma profissional, imediatamente assumiu sua pose de "diva", empurrando Valentina para a frente das câmeras. A menina, treinada pela mãe, deu um sorriso ensaiado e segurou seu cetro com elegância.

— Veja, Emanuel — Sara sussurrou, aproximando-se dele e roçando o braço no dele. — É assim que uma família de verdade se comporta em um evento desse nível. Classe.

Emanuel, no entanto, mal estava ouvindo. Ele estava ocupado demais tentando impedir que Arthur escalasse uma das macas de tatuagem de exposição.

— Arthur, desça daí! — Eduarda correu atrás do menino, mas o macacão de couro tornava seus movimentos mais lentos e, aos olhos de Emanuel, muito mais interessantes.

— Deixa ele, Duda — Emanuel interveio, rindo enquanto pegava o pequeno Drácula no ar. — Ele quer ver as máquinas.

Emanuel levou Arthur até a bancada principal, onde suas máquinas de tatuagem personalizadas, feitas de ouro e titânio, estavam expostas. O menino ficou paralisado, os olhos arregalados de fascinação.

— Papai, faz barulho? — Arthur perguntou, esticando a mãozinha gorda.

Emanuel ligou uma das máquinas no pedal. O zumbido rítmico e elétrico preencheu o pequeno espaço entre eles. Arthur não recuou; pelo contrário, ele sorriu, os olhinhos brilhando com uma intensidade que Emanuel reconhecia bem. Era a mesma paixão que ele sentia toda vez que encostava a agulha na pele de alguém.

— Ele tem o sangue, Emanuel — um dos sócios de Emanuel comentou, aproximando-se. — Esse aí vai herdar o império antes dos dez anos.

Emanuel sentiu um orgulho imenso inflar seu peito. Ele olhou para Eduarda, que observava os dois de longe, com um sorriso suave e orgulhoso. Naquele momento, a vulgaridade barulhenta de Sara e a frieza ensaiada de Valentina pareciam distantes, como um ruído de fundo que ele podia ignorar.

Mas Sara não aceitava ser ruído de fundo.

— Emanuel! — ela chamou, aproximando-se com um grupo de investidores. — Eles querem saber sobre a nova filial em Tóquio. Venha, pare de brincar de casinha com esse garoto e foque no que importa.

— O que importa agora é minha família, Sara — Emanuel respondeu, sem desviar os olhos de Arthur. — Os investidores podem esperar dez minutos.

Sara ficou vermelha sob a maquiagem pesada. Ela olhou para Eduarda, que estava encostada em uma pilastra, observando a cena com uma calma que a irritava profundamente.

— Você acha que venceu, não é? — Sara sibilou, caminhando até Eduarda enquanto Emanuel se distraía com Arthur e um dos convidados. — Só porque ele está babando por esse moleque hoje. Mas olhe para você, Eduarda. Você é uma farsa. Esse couro não esconde a garota sem graça que você é.

Eduarda não recuou. Ela ajeitou a máscara e olhou diretamente nos olhos de Sara.

— Você pode gritar o quanto quiser, Sara — Eduarda disse, a voz baixa e firme. — Mas olhe para ele. Olhe para o Emanuel quando ele olha para o Arthur. E depois olhe para ele quando ele olha para mim. Ele não vê um investimento ou uma foto de revista. Ele vê algo real. Coisa que você nunca vai conseguir ser.

Sara levantou a mão, talvez para empurrar ou para desferir um tapa, mas a voz de Emanuel ecoou, firme.

— Algum problema aqui?

Ele se aproximou, com Arthur sentado em um de seus ombros, a capa do menino caindo sobre o peito de Emanuel.

— Nenhum, querido — Sara mudou o tom instantaneamente, sorrindo para as câmeras que se aproximavam. — Eu só estava dizendo à Eduarda como a fantasia dela está... interessante.

Emanuel olhou para as duas. Ele conhecia aqueles jogos. Ele via a tensão nos ombros de Eduarda e o veneno nos olhos de Sara. Ele suspirou, sentindo o peso de ser o centro daquela guerra.

— Sara, vá levar a Valentina para a área VIP. Ela parece cansada — Emanuel ordenou. Não era um pedido.

Sara bufou, pegou Valentina pela mão — que estava quase dormindo em cima do tablet — e saiu pisando forte, murmurando algo sobre "falta de consideração".

Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ele estendeu a mão livre para ela.

— Você está bem? — ele perguntou, a voz suavizada pela preocupação genuína.

— Estou — ela respondeu, segurando a mão dele e sentindo a segurança que ele sempre transmitia. — Só é cansativo às vezes.

— Eu sei. Mas olhe para ele — Emanuel inclinou a cabeça para Arthur, que agora tentava "tatuar" o próprio braço com um pirulito que havia ganhado de algum convidado. — Vale a pena, não vale?

Eduarda sorriu, encostando a cabeça no ombro de Emanuel, tomando cuidado para não amassar a capa de Arthur.

— Vale cada segundo.

A festa continuou, mas para Emanuel, o mundo havia se reduzido àquelas duas pessoas. Mais tarde, quando a música ficou mais alta e Arthur finalmente sucumbiu ao cansaço, dormindo pesadamente no colo do pai, Emanuel levou Eduarda para seu escritório particular nos fundos do estúdio.

Lá, longe dos flashes e da toxicidade de Sara, ele a sentou na mesa de carvalho.

— Você estava muito silenciosa hoje — ele comentou, aproximando-se e desabotoando os primeiros centímetros do macacão de couro dela.

— Eu estava observando — ela sussurrou, passando os braços pelo pescoço dele. — Observando como você fica lindo quando está sendo pai.

Emanuel a beijou com uma intensidade que misturava desejo e alívio. Naquele santuário de tinta e silêncio, ele não era o tatuador rico ou o mediador de brigas. Ele era apenas um homem fascinado pela mulher que, com sua timidez e manha, havia construído um lar dentro de sua alma inquieta.

— O Arthur é a melhor coisa que eu já fiz — Emanuel murmurou contra os lábios dela. — Mas ele só é quem é porque tem você.

Eduarda sorriu, sentindo-se plenamente vitoriosa. Ela não precisava de diamantes ou de capas de revista. Ela tinha o couro sob seus dedos, o cheiro de Emanuel em sua pele e a certeza de que, naquela noite de sombras e fantasias, a realidade deles era a única coisa que realmente brilhava.

Enquanto isso, no salão principal, Sara bebia seu terceiro martini, observando a porta fechada do escritório com um ódio frio. Ela sabia que a batalha por Aspen havia sido apenas o começo. Mas, enquanto olhava para Valentina, que agora dormia no sofá VIP como uma pequena princesa exilada, Sara jurou a si mesma que o Halloween de Eduarda não duraria para sempre.

Mas para Emanuel e Eduarda, o mundo lá fora não importava. No silêncio do escritório, entre desenhos de dragões e o som da respiração pausada de um pequeno Drácula no berço portátil ao lado, eles eram apenas uma família. Imperfeita, caótica e intensamente ligada pela tinta e pelo sangue.