Voltar ao resumo

Duas

Entre o Veneno e o Mel

O sol de Aspen batia nas janelas de vidro do chão ao teto, refletindo-se na neve imaculada do lado de fora, mas o clima dentro do chalé de luxo era de uma tempestade iminente. Emanuel estava sentado à mesa de madeira maciça, tentando focar em um projeto de tatuagem complexo no seu iPad Pro. Era um desenho de uma fênix que deveria cobrir as costas inteiras de um astro do rock em Londres, mas as linhas pareciam se embaralhar toda vez que um grito ou um insulto atravessava o corredor.

— Eu não acredito que você trouxe essa mala de rodinhas barata para o meu campo de visão, Eduarda! — A voz de Sara ecoou, carregada de um sarcasmo ácido. — Além de ocupar espaço, ela é pavorosa. Combina com esse seu cardigã de vovó.

Emanuel fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Ele sentiu uma mão pequena e quente tocar seu ombro. Era Eduarda. Ela estava com Arthur no colo — o menino parecia um pequeno motor ligado no 220v, tentando alcançar o iPad do pai enquanto chutava o ar com suas botinhas de lã.

— Manu... — Eduarda sussurrou, a voz embargada, os olhos grandes e úmidos já brilhando com as lágrimas que ela retinha com esforço. — Eu tentei colocar minhas coisas no closet, mas a Sara jogou tudo no chão. Ela disse que as roupas da Valentina precisam de "espaço para respirar" porque são de seda. Eu só queria organizar o cantinho do Arthur.

Emanuel olhou para ela. Eduarda parecia tão pequena, tão vulnerável com o rosto encostado em seu braço. O cheiro de lavanda e talco que emanava dela era um contraste violento com o perfume importado e forte que Sara havia espalhado pela sala minutos antes.

— Ela jogou suas roupas no chão? — Emanuel perguntou, a voz ficando mais grave.

— Jogou — Eduarda confirmou, fazendo um biquinho manhoso que sempre desarmava Emanuel. — E disse que o Arthur é um "estorvo" porque ele quer brincar com as bonecas da Valentina. Mas ele só está curioso, Manu. Ele é um bebê... o nosso bebê.

Arthur, sentindo o clima, soltou um grito de guerra e tentou puxar o brinco de Emanuel.

— Tatoo! Papai, tatoo! — o menino gritou, apontando para o desenho na tela.

— Agora não, campeão — Emanuel disse, pegando o filho no colo para dar um descanso a Eduarda.

Nesse momento, Sara entrou na sala como um furacão loiro. Ela usava calças de esqui brancas tão justas que pareciam uma segunda pele e um casaco de pele sintética que gritava opulência. Valentina vinha logo atrás, caminhando com uma postura impecável para uma criança de dois anos, segurando uma mini bolsa de grife.

— Ah, pronto! Começou o teatro das lamentações — Sara exclamou, cruzando os braços sobre os seios siliconados que se destacavam sob a malha térmica. — Emanuel, você não vai cair nessa, vai? Eu não joguei nada no chão. Eu apenas realoquei o lixo que ela chama de vestuário para que a Valentina pudesse ter o mínimo de dignidade nesse chalé rústico.

— Sara, chega — Emanuel se levantou, a altura dele impondo um silêncio momentâneo. — A Eduarda tem tanto direito ao espaço quanto você. E o Arthur não é um estorvo.

— Ele é um pequeno vândalo, Emanuel! — Sara retrucou, apontando para o tapete de pele de carneiro onde Arthur acabara de derrubar um pouco de suco. — Olhe para isso! A Valentina nunca faria uma sujeira dessas. Ela é uma lady. Já esse aí... parece que foi criado no estúdio de tatuagem entre tintas e agulhas.

— E qual o problema nisso? — Eduarda interveio, a voz trêmula, mas com uma ponta de desafio. — Ele ama o pai. Ele tem orgulho do que o Emanuel faz. Diferente de você, que só se importa com o dinheiro que os estúdios rendem.

Sara soltou uma risada estridente, cheia de escárnio.

— Dinheiro? Querida, alguém tem que ter bom gosto nesta família. Enquanto você faz faculdade de História da Arte para aprender a olhar para quadros velhos, eu administro a imagem pública do Emanuel. Ou você acha que ele ficou rico sendo bonzinho com todo mundo?

Emanuel sentiu a têmpora latejar. O conflito entre a agressividade de Sara e a passividade dolorida de Eduarda era uma engrenagem que moía sua paciência.

— Eu não preciso que ninguém administre minha imagem agora — Emanuel disse, colocando Arthur no chão.

O menino, sentindo-se livre, imediatamente correu em direção a Valentina. Ele queria pegar a bolsinha dela.

— Não! Meu! — Valentina gritou, desviando-se do irmão com uma elegância esnobe, escondendo o objeto atrás das costas.

— Dá! Dá! — Arthur insistiu, começando a correr em círculos ao redor da irmã, derrubando uma luminária de mesa no processo.

— Emanuel, olha o seu filho! — Sara gritou, correndo para salvar Valentina do "ataque" do irmão. — Ele vai quebrar a menina!

Eduarda rapidamente se aproximou de Emanuel, abraçando seu braço e escondendo o rosto em seu ombro, começando a soluçar baixinho.

— Eu não aguento mais, Manu... ela me trata como se eu fosse um nada. Eu só queria que essa viagem fosse especial para o Arthur. Ele sente quando a gente briga. Ele fica mais agitado por causa dessa energia ruim que ela traz.

Emanuel olhou para Eduarda e sentiu aquele instinto protetor quase sufocante. Ela era tão frágil, tão dependente de sua validação. Ele passou o braço pela cintura dela, trazendo-a para perto.

— Calma, Duda. Eu vou resolver.

— Resolver como? — Sara desafiou, aproximando-se dos dois. — Vai me mandar calar a boca de novo? Vai me dar um castigo? Sabe, Emanuel, às vezes eu acho que você prefere essa sonsa porque ela não tem personalidade própria. Ela é um tapete onde você pisa e ela ainda agradece. Eu te desafio, eu te provoco, eu te mantenho vivo!

— Você me mantém estressado, Sara — ele respondeu, os olhos fixos nos dela. — Tem uma diferença.

— É mesmo? — Sara deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele, ignorando Eduarda como se ela fosse um móvel. — Então por que você ainda me quer na sua cama? Por que você ainda busca o meu corpo quando está cansado de tanta doçura enjoada?

Eduarda soltou um pequeno gemido de dor e se afastou, cobrindo o rosto com as mãos.

— Não fala assim na frente dele... — Eduarda choramingou. — Você é vulgar, Sara. Você não tem respeito pelos sentimentos alheios.

— Respeito não paga conta de luz, "santinha" — Sara sibilou.

Arthur, percebendo que a atenção não estava mais nele, decidiu que era hora de um protesto maior. Ele subiu no sofá de couro legítimo e começou a pular com força, gritando o nome do pai.

— Papai! Papai! Olha! — O menino saltou do sofá para o tapete, caindo de mau jeito e começando a chorar instantaneamente.

Eduarda e Emanuel correram para ele ao mesmo tempo. Eduarda o pegou no colo, ninando-o contra o peito.

— Oh, meu amor, a mamãe está aqui... — Ela olhou para Emanuel com os olhos transbordando lágrimas. — Viu? Ele está assustado. Ele só quer atenção e paz. Manu, por favor... me diz que você vai escolher o restaurante que eu sugeri para hoje à noite. Aquele lugar calmo, perto do lago. O Arthur precisa de silêncio.

Sara, vendo a manobra de Eduarda, bufou e revirou os olhos.

— Silêncio? O garoto é um britador humano e você quer levá-lo para um restaurante de meditação? Emanuel, nós temos reserva no *Cloud Nine*. É o lugar mais badalado de Aspen. Todo mundo que é alguém vai estar lá. Eu já preparei o look da Valentina.

Emanuel olhou para o filho, que agora soluçava no peito de Eduarda, e depois para a filha, que observava tudo com um ar de superioridade fria enquanto lixava as unhas de brinquedo. Ele olhou para Sara, que exalava uma confiança agressiva, e para Eduarda, que parecia estar prestes a desmoronar.

— Nós vamos para o restaurante do lago — Emanuel decretou, sua voz finalizando o assunto.

— O quê? — Sara gritou, as mãos fechadas em punhos. — Você vai ceder a esse choro falso de novo?

— Não é falso, Sara! — Eduarda gritou de volta, com uma coragem repentina que logo se dissolveu em mais soluços. — Eu só quero o melhor para o meu filho! Você só pensa em si mesma e em aparecer!

— Eu penso na nossa imagem! — Sara rebateu. — Quem você acha que atrai os clientes de alto padrão para os estúdios? Minhas conexões!

— Chega! — Emanuel rugiu, e o silêncio finalmente se instalou, quebrado apenas pelos soluços baixos de Arthur. — Sara, se você quiser ir ao *Cloud Nine*, vá sozinha. Eu vou com a Eduarda e as crianças para um lugar onde eu possa jantar sem ter um colapso nervoso.

Sara olhou para ele com ódio puro, depois para Eduarda, que permitiu que um pequeno, quase invisível sorriso vitorioso surgisse no canto dos lábios enquanto acariciava o cabelo de Arthur.

— Você vai se arrepender de ser tão previsível, Emanuel — Sara disse, pegando Valentina pelo braço. — Vamos, Valentina. Vamos nos arrumar. Se o seu pai prefere comer comida de hospital no meio do mato, que ele vá. Nós temos um padrão a manter.

Sara saiu batendo a porta do quarto com tanta força que um quadro na parede tremeu.

Emanuel sentou-se no sofá, exausto. Eduarda aproximou-se lentamente, ainda com Arthur no colo. O menino estava começando a se acalmar, os olhos pesados.

— Você fez a escolha certa, Manu... — ela sussurrou, sentando-se ao lado dele e encostando a cabeça em seu ombro. — O Arthur vai dormir melhor depois de um jantar calmo. E você também. Você trabalha tanto... merece paz.

Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer. Ele olhou para o filho, que agora buscava o peito da mãe, o único lugar onde ele realmente se tornava dócil. A ligação de Emanuel com Arthur era algo que ele não conseguia explicar. Talvez fosse o fato de ver no menino sua própria rebeldia contida, ou talvez fosse essa mistura da sua força bruta com a sensibilidade quase doentia de Eduarda.

— Eu só queria que vocês duas parassem de tentar se destruir — Emanuel murmurou.

— Eu não tento destruir ninguém, Manu — Eduarda disse com aquela voz doce e manipuladora. — Eu só me defendo. Você viu como ela me trata. Eu sou apenas uma estudante, não tenho o corpo dela, nem as roupas dela... eu só tenho você e o Arthur.

Emanuel a puxou para um beijo na testa. Ele sabia que Eduarda usava sua fragilidade como uma arma, mas era uma arma que ele se deixava atingir voluntariamente. Era mais fácil lidar com a carência de Eduarda do que com a insolência de Sara.

— Vá se trocar — ele disse suavemente. — O Arthur está quase dormindo.

Eduarda levantou-se, vitoriosa. Ela caminhou em direção ao quarto, mas parou na porta e olhou para trás.

— Você vai escolher o lugar que eu escolhi sempre, não vai, Manu? Porque você sabe que eu só quero o bem da nossa família.

Emanuel não respondeu, apenas acenou com a cabeça. Ele sabia que, por baixo daquela aparência de "mini diva", Valentina também sofria com a ausência de uma rotina normal, mas Sara nunca permitiria que a filha fosse vista como "comum".

Mais tarde, no restaurante calmo à beira do lago, o ambiente era idílico. Arthur dormia em um carrinho ao lado da mesa, e Valentina, por incrível que pareça, estava distraída com um livro de colorir que Eduarda havia trazido escondido.

Sara estava sentada à mesa, mas não tocava na comida. Ela passava o tempo todo no celular, postando fotos de si mesma com legendas ácidas sobre "noites solitárias no paraíso".

— A comida está ótima, não está, Sara? — Eduarda perguntou, com uma polidez que era um insulto disfarçado.

— Tem gosto de papelão e desespero, Eduarda — Sara respondeu sem tirar os olhos da tela. — Mas fico feliz que você esteja se sentindo em casa. Combina com o seu paladar infantil.

Emanuel ignorou a troca de farpas. Ele olhava para o lago congelado sob o luar. Ele era um homem rico, poderoso e respeitado no mundo inteiro. Suas mãos haviam marcado a pele de reis e de criminosos, mas ali, naquela mesa, ele se sentia apenas um espectador de uma guerra que ele mesmo havia alimentado.

De um lado, o veneno de Sara, que o desafiava e o mantinha alerta, uma mulher que ele cobiçava com uma intensidade quase violenta. Do outro, o mel de Eduarda, que o acalmava e o fazia sentir-se necessário, uma mulher que ele protegia com uma possessividade absoluta.

— Manu? — Eduarda tocou sua mão por cima da mesa. — No que você está pensando?

Emanuel olhou para as duas. Sara, brilhando sob as luzes do restaurante com sua beleza artificial e magnética. Eduarda, suave e pálida sob a luz da lua, com sua beleza natural e serena.

— Estou pensando que amanhã o Arthur vai querer ir ao estúdio de tatuagem local que eu vi na cidade — Emanuel disse, mudando de assunto. — Ele viu o letreiro hoje e não parou de gritar "tatoo".

— Ah, maravilhoso — Sara ironizou. — Mais um dia cercada de agulhas e cheiro de antisséptico. Mal posso esperar.

— Ele ama, Sara — Eduarda disse, sorrindo para Emanuel. — Ele quer ser igual ao pai. E eu acho isso a coisa mais linda do mundo.

Emanuel sorriu para Eduarda, e por um momento, a tensão diminuiu. Mas ele sabia que era apenas um cessar-fogo temporário. Em Aspen, entre a neve e o luxo, a guerra pelo seu coração e pela sua atenção continuaria, e ele, o grande tatuador, continuaria sendo a tela onde aquelas duas mulheres tentavam desenhar suas próprias versões de felicidade.

Ao voltarem para o chalé, Arthur acordou e, fiel ao seu apelido de furacão, decidiu que não queria dormir. Ele começou a correr pelos corredores, pegando as almofadas de grife e jogando-as na lareira (felizmente apagada).

— Arthur! Não! — Eduarda corria atrás dele, rindo e tropeçando.

Emanuel observava da porta, um sorriso cansado nos lábios. Sara passou por ele, indo em direção ao frigobar para pegar uma garrafa de champanhe.

— Aproveite o seu circo, Emanuel — ela disse, parando ao lado dele. — Mas não esqueça que, quando as luzes se apagam, é de adrenalina que você gosta. E a santinha ali só tem camomila para oferecer.

Ela lhe deu um beijo rápido e carregado de promessas antes de subir para o quarto. Emanuel ficou parado no corredor, ouvindo as risadas de Eduarda e os gritos de alegria de Arthur. Ele estava dividido entre o caos e a paz, entre o fogo e o gelo. E, no fundo, ele sabia que não trocaria aquela confusão por nada no mundo.