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Duas

Sombras sob a Seda

O vento uivava do lado de fora do chalé em Aspen, batendo contra as paredes de toras de madeira e criando um contraste quase poético com o calor que emanava da lareira de pedra. Emanuel estava exausto. O dia havia sido uma sucessão de crises: Arthur quase derrubara uma estante de cristais na recepção do vilarejo e Valentina tivera um ataque de pelanca porque a neve "estragava o brilho" de suas botas novas.

No centro da sala de estar, o enorme sofá em formato de "U" parecia o único refúgio possível. Emanuel se acomodou no meio, sentindo o peso do corpo afundar no estofado de linho caro. Ele só queria duas horas de silêncio, ou algo próximo disso.

— Vamos assistir a um filme. Sem discussões, sem Saint-Tropez versus montanhas, sem indiretas sobre quem é mais mãe — Emanuel decretou, sua voz rouca carregada de uma autoridade que ele esperava que fosse respeitada.

Eduarda foi a primeira a se aproximar. Ela usava um pijama de seda rosa pálido, com pequenos detalhes em renda, e segurava uma xícara de chá. Com um movimento fluido e silencioso, ela se aninhou ao lado esquerdo de Emanuel, apoiando a cabeça em seu ombro e cobrindo as pernas de ambos com uma manta de cashmere.

— Por mim, tudo bem, Manu... — ela sussurrou, a voz doce e submissa. — Eu só quero ficar pertinho de você. O Arthur finalmente apagou, o dia foi longo para o meu pequeno.

— O "seu pequeno" quase me deixou surda com aqueles gritos no corredor — a voz de Sara surgiu, cortante, enquanto ela descia as escadas.

Sara não estava vestida para uma noite de sono. Ela usava um robe de seda preta com transparências estratégicas, os seios siliconados desafiando a gravidade e o decote profundo deixando pouco para a imaginação. O cabelo loiro estava solto, caindo em ondas perfeitas sobre os ombros. Ela se sentou ao lado direito de Emanuel, cruzando as pernas e deixando uma fenda generosa à mostra.

— Se for para assistir a algum documentário chato sobre arte, eu prefiro subir e me ocupar com algo mais... produtivo — Sara disse, lançando um olhar provocador para Emanuel enquanto passava a mão pela coxa dele.

— É um filme de suspense, Sara. Senta e relaxa — Emanuel respondeu, pegando o controle remoto e dando o play.

O silêncio se instalou, mas era uma paz frágil. Emanuel sentia o calor de Eduarda à sua esquerda, um peso suave e reconfortante, enquanto à direita, a presença de Sara era como uma corrente elétrica, vibrante e exigente. Ele tentou focar na trama que se desenrolava na tela, mas a tensão entre as duas mulheres era quase palpável, como se o ar estivesse carregado de eletricidade estática.

Eduarda, sempre observadora, notou o braço de Sara roçando propositalmente no de Emanuel. Ela apertou a mão dele sob a manta, um gesto de posse silencioso.

— Você está confortável, Manu? — Eduarda perguntou baixinho, inclinando-se para beijar o pescoço dele, deixando o rastro de seu perfume de baunilha na pele dele.

— Estou, Duda. Shhh, o filme começou — ele murmurou, embora o carinho dela o fizesse relaxar um pouco os ombros.

— Ai, que melaço — Sara bufou, pegando uma taça de vinho na mesa de centro. — Emanuel, você realmente tem paciência para essa carência toda? Parece que ela vai derreter se você não segurar a mão dela por cinco minutos.

— Sara, por favor — Emanuel advertiu, sem desviar os olhos da TV. — Uma noite. Eu só pedi uma noite sem briga.

Eduarda não respondeu à provocação. Em vez disso, ela se encolheu ainda mais sob a manta. Emanuel sentiu a mão dela se mover. No início, foi apenas um toque suave em sua cintura, mas logo os dedos finos de Eduarda começaram a deslizar para baixo, por baixo do tecido de sua calça de moletom fina.

Emanuel ficou paralisado. Eduarda, a tímida e recatada Eduarda, estava tomando uma iniciativa que ele não esperava, especialmente com Sara sentada a centímetros de distância.

— Duda... — ele sussurrou, o aviso morrendo em sua garganta quando sentiu os dedos dela encontrarem sua intimidade.

— O que foi, Manu? — Eduarda perguntou com uma inocência fingida, os olhos fixos na tela, mas um sorriso minúsculo e malicioso brincando em seus lábios. — O filme está ficando interessante, não acha?

Ela se inclinou, fingindo que ia apenas ajustar a manta, e aproximou os lábios do ouvido dele.

— Eu sei que você gosta quando eu cuido de você — ela sussurrou, a voz tão baixa que apenas ele podia ouvir. — A Sara fala demais, mas ela não sabe o quanto você está duro agora, não é, meu amor?

Emanuel sentiu o sangue subir. A audácia de Eduarda o pegou de surpresa. Ela começou um movimento rítmico e lento, sua mão pequena e macia trabalhando com uma precisão que contrastava totalmente com sua imagem de menina frágil.

À direita, Sara parecia alheia, ou talvez estivesse apenas fingindo. Ela bebia seu vinho, comentando ocasionalmente sobre a burrice da protagonista do filme, enquanto sua mão livre brincava com o próprio cabelo.

— Essa mulher é uma idiota — Sara comentou, ajeitando-se no sofá e encostando o busto no braço de Emanuel. — Se fosse eu, já teria resolvido esse mistério há meia hora. Não acha, Emanuel? Você está tão quieto.

Emanuel tentou responder, mas a mão de Eduarda apertou com um pouco mais de força, e ele soltou um suspiro entrecortado que tentou disfarçar como um bocejo.

— É... é o cansaço, Sara — ele conseguiu dizer, a voz uma oitava mais grave. — O suspense está bom.

Eduarda continuou, sua mão movendo-se com uma confiança crescente sob a manta de cashmere que escondia o segredo deles. Ela se inclinou novamente, a ponta da língua roçando levemente o lóbulo da orelha de Emanuel.

— Você quer gemer, não quer? — ela provocou em um sussurro inaudível para Sara. — Você quer que eu vá mais rápido? Eu posso fazer você esquecer que ela está aqui. Eu sou sua, Manu. Só sua.

Emanuel fechou os olhos por um breve momento, lutando para manter a expressão neutra. A situação era perigosa. Se Sara percebesse o que estava acontecendo, o chalé viraria um campo de batalha em segundos. O ódio entre as duas era como pólvora, e Eduarda estava brincando com fogo.

No entanto, havia algo intensamente excitante naquela subversão. Ver Eduarda, que sempre buscava proteção e silêncio, agir de forma tão predatória e escondida, despertava nele um instinto que poucas coisas conseguiam.

— Emanuel, você está suando — Sara notou, franzindo a testa e esticando a mão para tocar a testa dele. — Está sentindo calor? Vou baixar o termostato.

— Não! — Emanuel disse, um pouco rápido demais. — Não precisa. Eu só... o filme está tenso.

Eduarda soltou uma risadinha abafada contra o ombro dele, o movimento de sua mão acelerando levemente. Ela estava no controle agora, e Emanuel estava à mercê daquela carícia proibida.

— Você é tão lindo quando tenta se controlar — Eduarda murmurou, a mão subindo e descendo com uma maestria que o levava ao limite. — Eu sinto seu coração batendo rápido aqui. Você está gostando da minha manha hoje, não está?

Sara se inclinou para frente, tentando pegar o controle remoto para aumentar o volume, e por um segundo a manta escorregou um pouco. Emanuel rapidamente puxou o tecido de volta, o coração disparado.

— O que foi isso? — Sara perguntou, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada. — Está escondendo o que aí embaixo, Emanuel? Algum segredo?

— Nada, Sara. Só estou com frio nas pernas — ele mentiu, sentindo o prazer atingir um ponto de quase não retorno.

Eduarda olhou para Sara com um olhar de soslaio, uma centelha de triunfo brilhando em suas íris escuras. Ela sabia exatamente o que estava fazendo. Ela estava roubando a masculinidade de Emanuel bem debaixo do nariz da loira que se achava a dona da situação.

— A Sara é tão barulhenta, Manu — Eduarda sussurrou, voltando ao ouvido dele. — Mas aqui embaixo, o silêncio é nosso. Eu vou fazer você vir para mim, e ela nem vai saber o porquê de você estar tão relaxado depois.

Emanuel apertou o braço do sofá, os nós dos dedos ficando brancos. Ele sentia a pressão aumentar, a tensão no seu baixo ventre clamando por liberação. Eduarda era uma mestre naquilo, usando a textura da pele e a pressão exata para mantê-lo na beira do abismo.

— Eu vou... eu vou buscar um copo de água — Emanuel disse, tentando se levantar, mas a mão de Eduarda o segurou firmemente, um comando silencioso para que ele ficasse.

— Fica, Manu — Eduarda disse em voz alta, com sua voz mais doce e manhosa. — O filme está na melhor parte. Não nos deixe sozinhas.

Sara revirou os olhos, mas não se moveu.

— É, Emanuel. Senta aí. Você está muito inquieto. Parece que tem formiga na calça.

Se ela soubesse, Emanuel pensou, a ironia da frase quase o fazendo rir em meio ao prazer torturante.

Eduarda inclinou-se mais uma vez, seu corpo pressionando o dele de forma que Sara não pudesse ver o ângulo de suas mãos.

— Quase lá, meu amor? — ela provocou, a voz carregada de uma sensualidade que ela raramente mostrava em público. — Eu sinto você pulsar. É tão bom saber que eu tenho esse poder sobre você. Ela pode ter o silicone, mas eu tenho você na palma da minha mão. Literalmente.

Emanuel mordeu o lábio inferior, a respiração ficando pesada. Ele olhou para a tela da TV, mas as imagens eram apenas borrões de cor. Tudo o que ele sentia era o toque de Eduarda, o cheiro de seu cabelo e o desafio perigoso de estar sendo masturbado ao lado de sua outra namorada.

— Eduarda... — ele murmurou, um aviso final.

Ela apenas sorriu e deu o toque final, uma sequência de movimentos rápidos e intensos que quebraram a resistência de Emanuel. Ele estancou, o corpo ficando rígido por um segundo, os olhos se fechando enquanto uma onda de prazer avassaladora o percorria. Ele abafou um gemido contra o próprio peito, transformando-o em uma expiração profunda e trêmula.

Eduarda manteve a mão ali por mais alguns segundos, sentindo o rescaldo da liberação dele, antes de retirar a mão lentamente e limpá-la discretamente na própria manta, voltando a se aninhar como se nada tivesse acontecido.

— Nossa, o filme acabou e eu nem vi quem era o assassino — Sara disse, levantando-se e espreguiçando-se, o robe de seda subindo perigosamente pelas coxas. — Você está com uma cara de quem viu um fantasma, Emanuel.

— Eu só... relaxei — ele respondeu, a voz ainda um pouco instável. — Foi um dia longo.

Eduarda levantou o rosto, olhando para Emanuel com uma adoração pura e vitoriosa.

— Eu te disse que o filme ia ser bom, não disse, Manu? — ela perguntou, dando um beijo casto na bochecha dele.

Sara olhou para os dois, desconfiada, mas o cansaço e o vinho a impediram de investigar mais a fundo.

— Tanto faz. Vou subir. Valentina acorda cedo e eu não quero olheiras amanhã. Emanuel, não demore.

— Eu já vou, Sara — ele respondeu, vendo-a subir as escadas com seu andar de modelo.

Quando o som dos saltos de Sara desapareceu no andar de cima, o silêncio no chalé mudou de natureza. Eduarda se afastou um pouco, olhando para Emanuel com um brilho de inteligência nos olhos que muitas vezes passava despercebido.

— Você foi um bom menino, Manu — ela sussurrou, levantando-se e ajeitando o pijama rosa. — Ela fala muito, mas eu ajo.

— Você é perigosa, Duda — Emanuel disse, puxando-a pela mão antes que ela pudesse sair. — Se ela tivesse visto...

— Mas ela não viu — Eduarda sorriu, a timidez voltando a cobrir sua personalidade como um manto. — E agora você está calmo. O Arthur está dormindo, e eu também vou. Boa noite, meu amor.

Ela saiu da sala com passos leves, deixando Emanuel sozinho com o brilho das brasas na lareira. Ele olhou para a manta de cashmere no sofá, o único vestígio do que acabara de acontecer.

Emanuel suspirou, sentindo o peso do estresse do dia finalmente ter evaporado, substituído por uma dormência prazerosa. Ele amava Sara pela sua intensidade, pelo fogo que ela trazia para sua vida e pela forma como ela desafiava o mundo. Mas Eduarda... Eduarda era o rio silencioso que cavava a rocha. Ela sabia exatamente onde tocar, como agir e quando usar sua fragilidade para dominar o espaço.

Ele se levantou, apagando as luzes da sala. Amanhã seria outro dia de batalhas, de Arthur correndo pelo chalé e de Sara reclamando do frio. Mas, por enquanto, ele tinha aquela pequena vitória de Eduarda guardada na memória.

Ao subir as escadas, Emanuel passou pelo quarto de Arthur. O menino dormia profundamente, a cópia fiel do pai em descanso. Emanuel sorriu, sentindo uma pontada de orgulho. Aquele pequeno furacão era o fruto de toda aquela loucura, de uma dinâmica que ninguém de fora conseguiria entender, mas que, para Emanuel, era a única que fazia sentido.

Ele entrou no quarto principal, onde Sara já estava deitada, ocupando a maior parte da cama, e Eduarda estava encolhida em seu canto habitual, parecendo a imagem da inocência. Emanuel deitou-se entre as duas, fechando os olhos. O equilíbrio era precário, a paz era temporária, mas ali, no coração das montanhas, ele era o centro de um universo que, apesar de caótico, era inteiramente dele.