Duas
A Dança das Agulhas e o Veneno de Vidro
O sol de Aspen ainda brilhava intensamente sobre a neve, mas dentro do chalé, o ar era pesado como chumbo. Emanuel estava sentado em sua bancada portátil, o som rítmico e elétrico de sua máquina de tatuagem favorita preenchendo o ambiente. Ele estava retocando um desenho autoral em uma pele sintética, uma forma de meditação que costumava acalmá-lo. No entanto, o silêncio que ele tanto buscava foi estraçalhado pelo som de saltos altos batendo contra o piso de madeira rústica.
— Emanuel, eu não aceito mais isso! — Sara entrou no estúdio improvisado como um furacão loiro, envolta em um casaco de pele sintética branca que a fazia parecer uma vilã de filme clássico. — Aquela sonsa da Eduarda "esqueceu" de avisar que o Arthur derrubou suco de uva na minha bolsa da edição limitada. Aquela bolsa custa mais do que o curso de História da Arte que ela finge que faz!
Emanuel desligou a máquina com um suspiro pesado, os olhos cansados fixos no desenho incompleto.
— Sara, o Arthur tem dois anos. Acidentes acontecem. E a Eduarda provavelmente está exausta, ela passou a noite em claro porque ele estava com febre.
— Exausta? — Sara soltou uma risada estridente e vulgar, cruzando os braços sobre o busto generoso, realçado pelo decote profundo. — Ela usa essa fragilidade de porcelana para te manipular, e você cai como um patinho. Ela é falsa, Emanuel! Por trás daquela cara de choro, existe uma mulher que quer me apagar desta casa.
— Ninguém está tentando apagar ninguém — Emanuel levantou-se, sua estatura imponente fazendo Sara recuar um milímetro, embora ela nunca admitisse intimidação. — Mas eu não aguento mais essa gritaria. Estamos em Aspen para relaxar, não para transformar o chalé em um ringue.
— Relaxar? — Sara bufou, aproximando-se dele e passando as unhas longas e bem feitas pelos ombros tatuados do homem. — Eu sei como te fazer relaxar, Manu. Mas você prefere ficar aqui, ouvindo as lamentações daquela pálida.
A discussão foi interrompida pelo som de algo pesado caindo na sala ao lado, seguido pelo choro agudo de Arthur. Emanuel correu para o cômodo, encontrando a cena do caos: um vaso de cerâmica quebrado, terra espalhada pelo tapete branco e Arthur, com o rosto vermelho, gritando a plenos pulmões. Eduarda estava ajoelhada ao lado dele, as mãos trêmulas tentando limpar a bagunça enquanto as lágrimas já escorriam por seu rosto delicado.
— Eu sinto muito, Manu... eu só me distraí por um segundo para pegar a mamadeira dele — Eduarda soluçou, olhando para Emanuel com uma expressão de desamparo profundo. — Eu sou uma mãe horrível, não sou?
— Ah, olha lá! — Sara apareceu na porta, apontando para a cena com um sorriso triunfante. — O pequeno monstro destruiu mais uma coisa. E a mamãe "vítima" já começou o show das lágrimas. Que patético.
Emanuel ignorou Sara e agachou-se ao lado de Eduarda, pegando Arthur no colo. O menino, ao sentir o contato com o pai, diminuiu o choro para soluços baixos, agarrando-se à camiseta de Emanuel com suas mãozinhas gordinhas.
— Não, Duda, você não é uma mãe horrível. É apenas o Arthur sendo o Arthur — Emanuel disse, sua voz suavizando involuntariamente.
Eduarda aproximou-se, apoiando a cabeça no ombro de Emanuel enquanto ele segurava o filho. Ela parecia tão pequena e frágil sob a luz da tarde, o oposto absoluto da presença agressiva e barulhenta de Sara, que permanecia assistindo a tudo com um desdém crescente.
— Você sabe que eu só quero o melhor para o nosso bebê, não sabe? — Eduarda sussurrou, a voz embargada, os olhos fixos nos de Emanuel. — Essa viagem está sendo tão estressante para ele... ele precisa de calma. Manu, você prometeu que íamos passar o próximo fim de semana naquela cabana isolada perto do lago, só nós três e a Valentina. Você vai escolher o lugar que eu escolhi, não vai? Saint-Tropez é barulhento demais para o Arthur.
Emanuel olhou para a mulher em seus braços, sentindo o peso da responsabilidade e o cansaço emocional. Ele amava a energia de Sara, a forma como ela o desafiava e o desejo que ela despertava, mas a ligação que ele tinha com Arthur — aquela cópia em miniatura de si mesmo, com a intensidade de sua própria personalidade refletida nos olhos do menino — era algo que ele não conseguia ignorar. E Eduarda sabia exatamente como usar essa ligação.
— Saint-Tropez? — Sara gritou, dando um passo à frente. — Emanuel, nós já tínhamos combinado! Eu já reservei o hotel e o iate! Você não vai me trocar por um retiro espiritual no meio do mato com essa sonsa!
— Sara, chega! — Emanuel rugiu, fazendo Valentina, que observava tudo silenciosamente do canto da sala, pular de susto. — O Arthur não aguenta o ritmo de Saint-Tropez agora. Ele precisa de espaço, de natureza.
— Você está cedendo a ela de novo! — Sara estava vermelha de raiva, a vulgaridade transbordando em suas palavras. — Você prefere o choro dela à minha companhia. Você é um fraco, Emanuel!
— Eu sou um pai, Sara! — ele rebateu, levantando-se com Arthur ainda no colo. — E se o Arthur precisa de paz, é paz que ele vai ter. Nós vamos para a cabana no lago. A decisão está tomada.
Eduarda permitiu que um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgisse no canto de seus lábios enquanto ela se escondia atrás do ombro de Emanuel. Ela venceu mais uma vez. O uso estratégico de sua fragilidade havia silenciado a agressividade de Sara.
— Isso não vai ficar assim — Sara sibilou, pegando Valentina pela mão com força. — Venha, Valentina. Vamos sair daqui antes que a hipocrisia desse lugar nos sufoque.
Sara saiu batendo a porta do chalé, deixando o silêncio retornar, embora fosse um silêncio carregado de ressentimento. Emanuel suspirou, sentando-se no sofá com Arthur, que agora já brincava com os pingentes do colar do pai.
— Obrigado, Manu — Eduarda disse, sentando-se ao lado dele e segurando sua mão livre. — Você é o melhor pai que o Arthur poderia ter. Eu não sei o que seria de mim sem a sua proteção.
Emanuel olhou para ela, sentindo aquela mistura familiar de cuidado e uma ponta de dúvida. Ele sabia, no fundo, que Eduarda não era tão frágil quanto aparentava, mas a forma como ela cuidava de seu filho e a paz que ela prometia eram sedutoras demais para serem ignoradas.
— Eu só quero que todos fiquem bem, Duda. Mas a convivência com a Sara está se tornando impossível.
— Ela é difícil, eu sei — Eduarda disse, acariciando o braço tatuado dele. — Mas talvez, com o tempo, ela perceba que o que importa é a nossa família. Agora, por que você não volta para o seu estúdio? Eu limpo tudo aqui. O Arthur vai tirar um cochilo.
Emanuel assentiu e voltou para sua bancada, mas a imagem de Sara saindo furiosa não saía de sua cabeça. Ele amava as duas de formas diferentes, mas o triângulo que ele mesmo construíra estava começando a sufocá-lo.
Horas mais tarde, quando a noite caía sobre Aspen e a neve começava a descer novamente, Sara retornou. Ela não estava mais gritando. Estava silenciosa, o que Emanuel sabia ser muito mais perigoso. Ela foi direto para o quarto e começou a se arrumar. Quando saiu, usava um vestido de seda preto, justo como uma segunda pele, e joias que brilhavam sob a luz do lustre.
— Onde você vai? — Emanuel perguntou, cruzando os braços.
— Vou sair para jantar. Sozinha. Ou talvez encontre alguns amigos que estão na cidade — Sara disse, retocando o batom vermelho enquanto olhava para o próprio reflexo com uma confiança inabalável. — Já que você decidiu ser o "homem de família" da montanha, eu vou ser a mulher que Aspen merece ver.
— Sara, não comece...
— Não comece você, Emanuel — ela o interrompeu, virando-se para ele com um brilho de desafio nos olhos. — Você fez sua escolha para o fim de semana. Agora eu estou fazendo a minha para esta noite. Não me espere acordado.
Ela saiu, o perfume forte pairando no ar por longos minutos após sua partida. Emanuel sentiu a tensão subir pela nuca. Ele olhou para o corredor e viu Eduarda encostada na porta do quarto de Arthur, observando a cena com uma expressão serena.
— Ela vai ficar bem, Manu — Eduarda disse suavemente. — Ela só precisa de atenção.
— É exatamente esse o problema, Duda. Todo mundo precisa de atenção o tempo todo.
Emanuel voltou para o seu estúdio, mas desta vez não pegou a máquina de tatuagem. Ele pegou um caderno de desenhos e começou a traçar linhas caóticas, tentando organizar seus próprios pensamentos. Ele via Arthur, sua cópia fiel, crescendo naquele ambiente de disputa constante. O fascínio do menino pelas tatuagens do pai, a forma como ele tentava "pintar" a própria pele com canetinhas, era um sinal da ligação profunda entre eles. Emanuel sabia que Arthur herdaria não só o seu talento, mas também o peso de suas escolhas.
No meio da noite, Emanuel foi acordado pelo som de passos no corredor. Ele pensou ser Sara voltando, mas era Eduarda. Ela entrou no estúdio silenciosamente, usando uma camisola de renda clara que a deixava com um aspecto quase etéreo.
— Não consegue dormir? — ele perguntou, a voz rouca.
— O Arthur acordou chorando... acho que sentiu a sua falta — ela mentiu suavemente, aproximando-se dele e sentando-se em seu colo, como fazia tantas vezes para acalmá-lo. — Ele ama tanto você, Manu. Às vezes eu acho que ele só se acalma quando sente o seu cheiro de tinta e sabonete.
Emanuel a abraçou, sentindo a pele macia dela contra a sua. Eduarda era o seu porto seguro, o lugar onde ele não precisava lutar. Mas ele sabia que, na manhã seguinte, Sara voltaria com novas acusações, Valentina tentaria imitar a vulgaridade da mãe e Arthur voltaria a ser o pequeno furacão que colocava o loft abaixo.
— Eu vou levar vocês para a cabana — Emanuel sussurrou contra o cabelo de Eduarda. — Vai ser bom para o Arthur.
— Vai ser ótimo para todos nós — ela respondeu, fechando os olhos com um sorriso de vitória escondido na escuridão do peito dele.
Enquanto isso, em um bar sofisticado no centro de Aspen, Sara virava sua terceira taça de champanhe, cercada por estranhos, mas sentindo-se mais sozinha do que nunca. Ela olhava para o celular, esperando uma mensagem de Emanuel que não vinha. Ela sabia que a guerra estava longe de terminar, mas naquela noite, o mel de Eduarda havia vencido o seu veneno.
A viagem para a cabana no lago estava decidida, mas Emanuel mal sabia que, ao tentar buscar a paz para seu filho, ele estava apenas mudando o cenário de uma batalha que não teria vencedores. Em Aspen, entre a neve e a tinta, as agulhas continuavam a marcar não só a pele, mas as almas de todos os envolvidos naquele triângulo de amor, ódio e manipulação. E Arthur, o pequeno conde daquele império de tinta, continuaria a ser o troféu pelo qual as duas mulheres estavam dispostas a destruir tudo ao redor.