Duas
O Veneno sob a Seda e o Mel de Vidro
O sol de Aspen começava a se pôr, pintando a neve de um laranja metálico que entrava pelas vitrines do chalé. Emanuel estava no andar de cima, terminando de organizar sua maleta de tatuador. Ele havia recebido um convite irrecusável para tatuar um herdeiro de cassinos em uma suíte de luxo naquela noite, e a ideia inicial era que Sara e Eduarda o acompanhassem para um "after" em um motel privativo de altíssimo padrão na cidade, um lugar famoso por suas banheiras de hidromassagem aquecidas ao ar livre.
No banheiro principal, o clima era de guerra química. Sara, usando apenas uma lingerie de renda preta e saltos altíssimos, retocava o batom diante do espelho, enquanto Eduarda, enrolada em um roupão de algodão branco, tentava desembaraçar os cabelos de Arthur, que gritava e tentava fugir.
— Você não acha que esse seu visual "mãe sofredora" já deu o que tinha que dar por hoje, Eduarda? — Sara perguntou, sem tirar os olhos do próprio reflexo. — O Emanuel quer sair com mulheres, não com uma babá que cheira a talco e papinha de frutas.
Eduarda respirou fundo, os olhos marejados. Ela odiava confrontos diretos. Sua força sempre residiu no silêncio e na vulnerabilidade que despertava o instinto protetor de Emanuel.
— Eu só estou cuidando do nosso filho, Sara. O Arthur está agitado porque sente a sua energia ruim.
— Minha energia? — Sara riu, uma risada anasalada e debochada. — Minha energia é o que mantém o fogo do Emanuel aceso enquanto você dorme abraçada com um urso de pelúcia. Aliás... — Sara caminhou até a prateleira de produtos de beleza e pegou o frasco de shampoo orgânico de Eduarda. — Esse seu cabelo está um horror. Talvez precise de um "toque especial".
Com um movimento rápido e maldoso, Sara despejou um pouco de tonalizante escuro permanente dentro do shampoo de Eduarda, que era loiro-acinzentado natural.
— Pronto. Agora você vai combinar com a sua alma: opaca e sem brilho.
Eduarda viu a cena pelo reflexo do espelho. O choque a paralisou por alguns segundos, mas desta vez, algo dentro dela não chorou. Algo queimou. Ela viu Sara sair do banheiro rebolando, vitoriosa, deixando para trás o rastro de seu perfume caro e agressivo.
Eduarda olhou para Arthur. O menino havia parado de gritar e agora olhava para a mãe com seus olhos grandes, idênticos aos de Emanuel.
— Mamãe... — o pequeno murmurou, puxando a barra do roupão dela.
— Está tudo bem, meu amor. A mamãe vai resolver isso.
Eduarda não usou o shampoo. Ela derramou o conteúdo sabotado na pia e lavou o frasco com cuidado. Enquanto limpava a bagunça, seu olhar caiu sobre a gaveta de roupas íntimas de Sara, que estava entreaberta no closet compartilhado. Uma ideia, tão ácida quanto o veneno de Sara, floresceu em sua mente.
Ela se lembrou de um frasco que havia comprado em uma loja de pegadinhas durante a faculdade de História da Arte, para um trote que nunca chegou a realizar. Pó de mico concentrado. Ela o mantinha no fundo de sua necessaire de remédios, quase esquecido.
Com movimentos rápidos e precisos, Eduarda pegou a calcinha de seda minúscula que Sara havia separado para usar naquela noite — a peça que ela ostensivamente exibira dizendo que "faria Emanuel perder a cabeça". Eduarda polvilhou o pó fino e invisível no forro da seda, esfregando levemente para que as fibras absorvessem a substância irritante.
— Pronto — sussurrou Eduarda para si mesma, o coração batendo forte. — Agora vamos ver quem vai perder a cabeça.
— Duda? Sara? Estão prontas? — A voz de Emanuel ecoou do corredor.
Eduarda saiu do banheiro com Arthur no colo, a expressão mais doce e frágil do mundo.
— Estamos, Manu. Só vou deixar o Arthur com a babá e trocar de roupa. A Sara já está quase lá.
Emanuel apareceu na porta, vestindo uma camisa de linho preta que deixava as tatuagens do pescoço à mostra. Ele parecia exausto, mas o olhar que lançou para Eduarda era de puro carinho.
— Você está bem? Seus olhos estão vermelhos.
— A Sara... ela disse coisas feias de novo, Manu. Mas eu não quero estragar a noite. Eu vou ficar bem.
Emanuel suspirou, fechando os punhos.
— Eu vou falar com ela. Ela precisa aprender a te respeitar.
— Não, por favor — Eduarda pediu, encostando a mão pequena no peito dele. — Só... me abraça um pouco.
Emanuel a envolveu em um abraço protetor, exatamente como ela planejava. Por cima do ombro dele, ela viu Sara sair do closet, já vestida com um vestido de couro justo, caminhando com a confiança de quem se sentia a rainha do mundo. Sara lançou um olhar de desprezo para a cena, sem saber que carregava uma bomba-relógio entre as coxas.
Cerca de quarenta minutos depois, os três estavam no carro luxuoso de Emanuel, a caminho do hotel. O silêncio era tenso. Emanuel dirigia concentrado, enquanto Sara, no banco do passageiro, começava a se remexer de forma estranha.
— Está tudo bem, Sara? — Emanuel perguntou, notando a inquietação dela.
— Sim, claro. Só... esse carro está quente, não está? — Ela ajeitou o vestido, cruzando e descruzando as pernas.
Eduarda, sentada no banco de trás, observava a cena com uma calma angelical.
— Você parece nervosa, Sara. Quer um pouco de água? — perguntou Eduarda, a voz carregada de uma falsa preocupação.
— Cala a boca, Eduarda! — Sara sibilou, mas logo sua expressão mudou para um desconforto evidente. Ela começou a coçar a lateral da coxa, tentando ser discreta, mas a irritação do pó de mico estava começando a agir com força total.
Quando chegaram ao hotel, Emanuel deixou as duas no saguão enquanto ia estacionar. Sara mal conseguia andar em linha reta. Seus olhos estavam arregalados e ela respirava de forma ofegante.
— Eu... eu preciso ir ao banheiro — disse Sara, a voz subindo um tom. — Agora!
— O que houve? — Emanuel perguntou, aproximando-se delas após entregar as chaves ao manobrista.
— Eu não sei! Minha pele... está queimando! — Sara começou a se coçar freneticamente, esquecendo-se da pose de diva. — Emanuel, tem alguma coisa errada! Eu preciso tirar essa roupa!
— Aqui? No meio do saguão? — Emanuel perguntou, horrorizado com a cena vulgar que Sara começava a protagonizar.
— Eu não aguento! — Sara gritou, começando a pular levemente, as mãos indo em direção às partes íntimas de forma desesperada. — Está coçando! Está ardendo! Me tira daqui!
As pessoas ao redor começaram a olhar e a sussurrar. Sara, a loira siliconada e sempre impecável, estava tendo um colapso público, coçando-se como se estivesse infestada de pulgas.
— Sara, pelo amor de Deus, se comporte! — Emanuel tentou segurar os braços dela, mas ela o empurrou.
— Me comporte? Eu estou morrendo! Deve ser alguma alergia a esse estofado barato do seu carro! Ou talvez aquela sonsa tenha colocado algo na minha bebida!
Eduarda deu um passo atrás, os olhos arregalados de "medo".
— Eu? Mas eu nem toquei na sua bebida, Sara... Manu, eu estou assustada. Ela está agindo como uma louca.
Emanuel olhou para Sara, que agora estava com o rosto vermelho de fúria e desconforto, e depois para Eduarda, que parecia uma criança perdida.
— Sara, chega. Você está fazendo um espetáculo. Se você não está bem, é melhor ir para casa.
— Eu não vou para casa! Nós íamos para o motel! — Sara tentou dar um passo, mas a coceira era insuportável. Ela soltou um grito de frustração e começou a chorar de raiva. — Eu preciso de um banho! Agora!
— Vá para casa, Sara. Eu vou chamar um táxi para você — Emanuel decretou, a voz fria e autoritária. — Eu tenho um trabalho a fazer e não posso lidar com esse tipo de cena.
— Você vai me mandar embora? E vai ficar com *ela*? — Sara apontou para Eduarda, que mantinha a cabeça baixa.
— A Eduarda está calma. Ela não está gritando no meio de um hotel cinco estrelas. Vá para casa e tome um antialérgico.
Sara saiu do hotel batendo os pés, ou tentando, enquanto continuava a se coçar de forma nada elegante. Emanuel suspirou profundamente, passando a mão pelos cabelos.
— Sinto muito por isso, Duda. Eu não sei o que deu nela.
— Está tudo bem, Manu... — Eduarda aproximou-se e pegou a mão dele. — Ela deve estar estressada. Mas eu estou aqui. Se você quiser que eu vá embora também para não te atrapalhar...
Emanuel olhou para ela, sentindo uma onda de gratidão pela paz que ela emanava.
— De jeito nenhum. Você fica. Depois que eu terminar a tatuagem, nós vamos para o motel. Só nós dois. Eu preciso de silêncio e de você.
Eduarda sorriu internamente. O plano havia funcionado com uma perfeição cirúrgica.
Horas mais tarde, no motel de luxo, o cenário era exatamente o que Eduarda sonhara. A banheira de hidromassagem fumegava sob o céu estrelado de Aspen. Emanuel estava relaxado, as tensões do dia dissolvidas pela água quente e pela presença suave de Eduarda.
— Você é o meu equilíbrio, Duda — Emanuel disse, puxando-a para perto enquanto ela se aninhava em seu peito. — Às vezes a Sara me leva ao limite. Eu não sei como você aguenta ela.
— Eu aguento porque eu te amo, Manu — ela sussurrou, traçando as tatuagens no braço dele com a ponta dos dedos. — E porque eu sei que, no fim do dia, é aqui que você quer estar.
Emanuel a beijou com uma intensidade que ele raramente demonstrava. Naquela noite, não havia gritos, não havia vulgaridade, não havia disputas por atenção. Havia apenas o toque macio de Eduarda e a cumplicidade silenciosa que os unia.
Enquanto isso, no chalé, Sara estava mergulhada em uma banheira de gelo, chorando de ódio e frustração. Ela havia jogado fora todas as suas lingeries, convencida de que o sabão em pó era o culpado, ou talvez uma alergia súbita à seda. Ela ligou para Emanuel dezenas de vezes, mas ele havia desligado o celular.
No motel, Eduarda ouviu o aparelho de Emanuel vibrar silenciosamente sobre a mesa de cabeceira. Ela sorriu para o nada.
— Algum problema, querida? — Emanuel perguntou, notando o sorriso dela.
— Nenhum, Manu. Só estava pensando em como Aspen é linda à noite.
Eduarda sabia que Sara tentaria revidar. Sabia que a guerra estava longe de terminar. Mas naquela noite, ela havia provado que o mel, quando usado com inteligência, podia ser muito mais letal que o veneno escancarado. Ela era a "santinha", a "tímida", a "manhosa". E era exatamente por trás dessa máscara que ela governava o coração de Emanuel, um segredo de cada vez, sem que ninguém jamais desconfiasse de que as mãos que o acariciavam também sabiam como semear o caos.
Ao amanhecer, quando voltaram para o chalé, encontraram uma Sara exausta e de mau humor, sentada na cozinha com uma compressa fria.
— Onde vocês estavam? — ela perguntou, a voz rouca.
— Estávamos onde deveríamos estar, Sara — Emanuel respondeu, passando direto por ela com Arthur, que acabara de acordar, no colo.
Eduarda parou por um segundo ao lado de Sara.
— Você está melhor, Sara? — perguntou ela, a voz carregada de uma doçura que fez a loira estremecer de raiva. — Eu rezei por você a noite toda.
Sara tentou dizer algo, mas a coceira residual a fez se contorcer novamente. Eduarda seguiu Emanuel para o quarto, sentindo o peso da vitória. Arthur ria e tentava pegar os óculos do pai, alheio à guerra das mães.
Emanuel olhou para seu garotinho, sua cópia fiel, e depois para Eduarda. Ele se sentia completo. A ligação com Arthur era visceral, e a paz que Eduarda trazia era o que permitia que ele continuasse sendo o homem de ferro que o mundo conhecia.
Ninguém nunca descobriu sobre o pó de mico. Ninguém nunca desconfiou da doce Eduarda. E no loft de Emanuel, entre tintas, gritos e silêncios, a vida continuava — um palco onde cada um jogava com as armas que tinha, mas onde apenas uma pessoa sabia que o silêncio era a arma mais barulhenta de todas.