Duas
Sementes da Discórdia e o Banquete de Mel
O loft em São Paulo parecia menor desde que voltaram de Aspen. O ar industrial, com suas vigas de aço expostas e janelas do chão ao teto, deveria transmitir liberdade, mas para Sara, parecia uma jaula de luxo. Ela caminhava pela sala de estar, os saltos de seus sapatos de grife estalando contra o concreto polido, enquanto observava Eduarda sentada no tapete, amamentando Arthur.
A cena, que para Emanuel era a definição de paz, para Sara era um lembrete constante de uma conexão que ela não conseguia replicar. Arthur, o "pequeno furacão", estava estranhamente calmo, os olhos fixos na mãe, uma mãozinha gorda agarrada ao dedo de Eduarda.
— Você não acha que ele já está grande demais para isso? — Sara perguntou, a voz carregada de um desdém ácido enquanto se servia de uma taça de vinho branco. — Daqui a pouco ele vai para a faculdade e você ainda vai estar aí, sendo o buffet particular dele.
Eduarda não levantou o olhar imediatamente. Ela apenas ajeitou o sutiã de amamentação com aquela calma irritante, um sorriso minúsculo e quase imperceptível surgindo em seus lábios.
— O Emanuel acha que é importante para o desenvolvimento dele, Sara — respondeu Eduarda, a voz suave, mas com uma nota de firmeza que ela só demonstrava quando estava em seu território. — Além disso, o Arthur precisa desse contato. Ele é intenso como o pai.
Sara bufou, virando a taça de vinho. Ela odiava como Eduarda sempre trazia Emanuel para a conversa, como se tivesse uma chave mestra para a mente do tatuador que Sara ainda não havia encontrado. Mas o que realmente corroía Sara não era a amamentação ou a timidez de Eduarda. Era algo muito mais íntimo. Algo que ela começara a notar nas últimas semanas, um padrão que a deixava com um gosto amargo de derrota na boca.
Mais tarde naquela noite, o loft estava mergulhado em uma penumbra azulada. Emanuel havia acabado de chegar de um de seus estúdios, exausto e com o cheiro de tinta e antisséptico impregnado na pele. Sara, estrategicamente vestida com uma lingerie de seda vermelha que custara uma pequena fortuna, o interceptou no corredor.
— Você parece tenso, Manu — ela sussurrou, as mãos subindo pelo peito dele, contornando as tatuagens que ela tanto cobiçava. — Deixa eu cuidar de você.
Emanuel a seguiu para o quarto dela. O encontro foi como todos os outros com Sara: explosivo, barulhento, uma disputa de poder e luxúria. Mas, no ápice, Emanuel fez o que sempre fazia. Ele se retirou. O prazer foi compartilhado, mas a semente de Emanuel foi despejada no látex frio de um preservativo ou sobre a pele bronzeada de Sara. Nunca dentro.
— Por que você nunca... — Sara começou a perguntar, a voz ainda ofegante, enquanto o via se levantar para ir ao banheiro.
— Você sabe o porquê, Sara — Emanuel respondeu, sem olhar para trás, a voz seca. — Já temos a Valentina. Você mesma disse que não quer estragar seu corpo com outra gravidez agora.
— Eu disse, mas... — Sara se calou. Ela queria a validação. Queria que ele a desejasse tanto a ponto de perder o controle, de querer marcá-la de uma forma que o silicone e as joias não podiam.
Minutos depois, Emanuel saiu do quarto de Sara e caminhou silenciosamente pelo corredor. Ele passou pelo quarto de Arthur e viu a porta entreaberta. Eduarda estava lá, terminando de colocar o menino no berço. Ela usava uma camisola de algodão simples, branca, que parecia brilhar sob a luz da lua.
— Ele finalmente apagou — Eduarda sussurrou, aproximando-se de Emanuel e abraçando-o pela cintura. — Você está cansado?
— Agora não mais — ele respondeu, afundando o rosto no pescoço dela, inspirando o cheiro de baunilha que parecia acalmá-lo instantaneamente.
Emanuel a conduziu para o quarto dela, o ambiente que era o oposto do santuário de espelhos de Sara. Ali, o clima era de entrega. Não havia performances, não havia jogos de luzes. Apenas a pele macia de Eduarda contra a sua agressividade controlada.
Quando o momento final chegou, Emanuel não se retirou. Ele se fundiu a ela. Eduarda sentiu o calor dele preenchê-la, uma inundação de vida que a fazia se sentir completa, nutrida de uma forma que ia além do físico. Ela o abraçou com as pernas, mantendo-o ali, querendo absorver cada gota daquela semente que ele confiava apenas a ela.
— Eu amo quando você faz isso — Eduarda murmurou contra o peito dele, a voz embargada de emoção. — Me faz sentir que eu sou realmente sua.
Emanuel beijou a testa dela, o coração batendo em sincronia com o dela.
— Você é, Duda. Você sabe que é.
Na manhã seguinte, a tensão no café da manhã era palpável. Sara estava na bancada da cozinha, observando Eduarda com olhos de lince. Eduarda parecia radiante, uma aura de vitalidade emanando dela que Sara não conseguia ignorar.
— Você está com uma cara ótima hoje, Eduarda — Sara disse, a voz pingando sarcasmo. — Algum creme novo? Ou a faculdade de Arte finalmente ensinou algo sobre estética?
Eduarda serviu-se de um copo de suco, os movimentos lentos e graciosos.
— É apenas uma boa noite de sono, Sara. Eu me sinto... revigorada.
Sara apertou a xícara de café com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ela não era boba. Ela via a forma como Emanuel olhava para Eduarda, uma mistura de proteção e uma posse profunda que ele não demonstrava com ela. E, mais do que isso, ela percebia o segredo silencioso que as duas mulheres compartilhavam sem dizer uma palavra.
— Sabe, Manu — Sara disse, quando Emanuel entrou na cozinha e pegou Arthur no colo —, eu estava pensando que poderíamos tentar algo diferente. Sem proteções, sem barreiras. O que você acha?
Emanuel parou, o olhar ficando sério. Ele olhou para Sara, depois para Eduarda, que permanecia em silêncio, observando a cena com uma calma que beirava a crueldade.
— Nós já conversamos sobre isso, Sara. Eu não quero mais riscos desnecessários.
— Riscos? — Sara levantou-se, a voz subindo de tom. — Por que comigo é um risco e com ela é uma bênção? Você acha que eu não percebo? Você se entrega totalmente a ela, mas comigo você sempre mantém uma reserva. Você nunca goza dentro de mim, Emanuel! Nunca!
O silêncio que se seguiu foi cortante. Arthur, assustado com o grito da "tia", começou a chorar. Eduarda imediatamente pegou o filho dos braços de Emanuel, aninhando-o contra o peito.
— Sara, aqui não é o lugar para isso — Emanuel disse, a voz baixa e perigosa, o tom que ele usava quando estava prestes a explodir.
— Ah, claro! Vamos proteger os ouvidos do pequeno príncipe! — Sara riu, uma risada histérica. — Você a trata como se ela fosse uma deusa da fertilidade e a mim como se eu fosse um brinquedo descartável. Por que ela merece a sua semente e eu não?
Eduarda deu um passo à frente, ainda segurando Arthur. Ela olhou diretamente nos olhos de Sara, abandonando por um momento a máscara de timidez.
— Talvez seja porque eu não vejo o Emanuel como um troféu ou um provedor de status, Sara — disse Eduarda, a voz calma, mas cortante como uma navalha. — Eu o recebo porque eu o quero por inteiro. Eu não tenho medo de ser mãe, eu não tenho medo de me transformar por ele. O Emanuel sabe que em mim ele encontra terra fértil, não apenas um espelho para o ego dele.
Sara avançou, mas Emanuel se colocou entre as duas, uma barreira de músculos e tatuagens.
— Chega! — ele rugiu. — Sara, vá para o seu quarto. Agora.
— Você está me expulsando da cozinha? — Sara perguntou, incrédula.
— Estou mandando você se acalmar — Emanuel disse, os olhos fixos nos dela. — Eu não vou discutir minha intimidade com você dessa forma vulgar.
Sara saiu da cozinha batendo os pés, o som de seus saltos ecoando como tiros pelo loft. Quando a porta do quarto dela bateu, Emanuel soltou um suspiro longo, passando a mão pelo rosto.
— Sinto muito por isso, Duda.
Eduarda aproximou-se, encostando o ombro no dele.
— Está tudo bem, Manu. Ela só está frustrada. Mas você sabe que eu não me importo. Eu tenho o que eu preciso.
Emanuel olhou para ela, vendo a serenidade nos olhos de Eduarda. Havia algo nela que o nutria, uma aceitação incondicional que ele não encontrava em nenhum outro lugar. Ele a puxou para um abraço, sentindo o calor do corpo dela e o peso de Arthur entre eles.
— Você é diferente, Duda. Eu não consigo explicar, mas com você... parece certo. Parece que estamos construindo algo real.
Eduarda sorriu contra o peito dele. Ela se sentia revigorada, sim. Sentia-se poderosa. Enquanto Sara brigava por migalhas de atenção e status, Eduarda carregava dentro de si o que havia de mais íntimo em Emanuel. Ela era o solo onde ele plantava suas esperanças, a mulher que o nutria e era nutrida por ele em um ciclo que Sara jamais entenderia.
Mais tarde, enquanto Emanuel estava no estúdio e Sara permanecia trancada em seu quarto, Eduarda sentou-se na poltrona de amamentação com Arthur. Ela olhou para o próprio corpo, sentindo uma plenitude que a fazia querer cantar. Ela sabia que a briga de hoje havia marcado um ponto sem volta. Sara havia percebido a hierarquia invisível daquele loft.
— Você viu, meu amor? — Eduarda sussurrou para o filho, que mamava preguiçosamente. — O papai escolhe a mamãe. Sempre.
A semente de Emanuel, que ela guardava com tanto zelo, era mais do que uma promessa de vida; era a prova de sua vitória silenciosa. Enquanto Sara usava o corpo como uma vitrine, Eduarda o usava como um templo. E Emanuel, o homem que marcava a pele do mundo com tinta, preferia deixar sua marca mais profunda na alma e no ventre daquela que sabia como recebê-lo por inteiro.
A guerra no loft continuaria, as brigas por destinos de viagens e roupas de grife não cessariam, mas Eduarda não se importava mais. Ela tinha o mel, ela tinha o silêncio, e ela tinha a semente do homem que ambas disputavam. E isso, para a pequena e manhosa Eduarda, era o banquete supremo.
No quarto ao lado, Sara olhava-se no espelho, as lágrimas borrando sua maquiagem cara. Ela via a mini diva Valentina brincando com seus batons, uma versão em miniatura de si mesma, fácil de lidar e superficial. Mas ela sabia que, do outro lado da parede, havia um furacão chamado Arthur e uma mulher chamada Eduarda que possuíam algo que nenhum dinheiro ou silicone poderia comprar: a essência visceral de Emanuel.
— Eu vou dar o troco — Sara sibilou para o espelho. — Eu ainda vou fazer ele perder o controle comigo.
Mas, no fundo, ela temia que Emanuel já tivesse entregado o controle para as mãos suaves e discretas de Eduarda há muito tempo. E a cada vez que Eduarda se sentia revigorada, Sara sentia-se um pouco mais murcha, uma flor de plástico em um jardim onde apenas uma pessoa sabia como fazer a vida brotar.