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Duas

O Labirinto do Silêncio e a Rebelião das Divas

O silêncio no loft de Emanuel não era o silêncio restaurador de um spa de luxo; era o silêncio pesado e carregado que precede a queda de um império. Já se passavam três dias desde que o tatuador, exausto pela guerra de atrito entre Salem e Miami, entre o ouro e a pérola, cometera o erro tático de tentar "dar um tempo" emocional. Ele parara de mediar. Parara de escolher lados. Decidira focar apenas no trabalho, saindo cedo e voltando tarde, esperando que a ausência fizesse o ódio entre Sara e Eduarda arrefecer.

O resultado foi uma catástrofe imprevista: elas pararam de brigar entre si para direcionar toda a munição contra ele.

Emanuel entrou no loft por volta das oito da noite, os ombros pesados pelo peso da máquina de tatuagem e pelas horas de concentração. Ele esperava o som de algo quebrando ou o eco de um insulto atravessando o corredor. Em vez disso, encontrou a sala imersa em uma penumbra elegante.

Sara estava sentada no sofá de couro italiano, lixando as unhas com uma precisão cirúrgica. Ela usava um conjunto de seda preta que custava mais do que o carro de muita gente, mas não levantou os olhos quando ele entrou. Não houve o habitual "Manu, olha o que eu comprei!" ou a reclamação sobre o clima. Apenas o som rítmico da lixa.

Eduarda, por sua vez, estava no canto oposto, perto da janela que dava para o skyline de São Paulo. Ela segurava uma xícara de chá e um livro, parecendo uma pintura melancólica de um período que Emanuel não sabia identificar. Ela também não se moveu. Não correu para abraçá-lo com sua manha habitual, nem reclamou de uma dor de cabeça imaginária para ganhar um cafuné.

— Boa noite? — arriscou Emanuel, deixando as chaves sobre o aparador de mármore.

O silêncio continuou. Sara trocou de unha. Eduarda virou uma página.

— Ok... — Emanuel suspirou, caminhando até a cozinha. — Alguém quer jantar? Eu posso pedir aquele japonês que a Sara gosta, ou o risoto que a Duda prefere.

— Eu já jantei — disse Sara, a voz tão fria quanto o champanhe que ela costumava beber. — Pedi para mim. Só para mim.

— Eu não estou com fome — murmurou Eduarda, a voz suave, mas desprovida de qualquer carinho. — O estresse tira o meu apetite. E tem havido muito estresse nesta casa.

Emanuel parou no meio da cozinha, segurando a porta da geladeira aberta. Ele sentiu um calafrio. Ele preferia as duas se atracando no tapete persa. Pelo menos ali ele sabia quem era o inimigo de quem. Agora, ele se sentia como um réu em um tribunal onde o júri se recusava a ler a sentença.

— Escutem — disse ele, voltando para a sala —, eu sei que as últimas semanas foram intensas. A viagem, as joias, as discussões... eu sinto muito se eu fui... ausente. Ou se eu não dei a atenção que vocês mereciam.

Sara soltou uma risada curta e seca, sem desviar os olhos da unha.

— "Ausente" é um eufemismo interessante, Emanuel. Você foi negligente. Você nos tratou como se fôssemos acessórios que você pode guardar na gaveta quando se cansa do barulho.

— Eu só queria que vocês parassem de se matar! — Emanuel exclamou, perdendo um pouco da paciência.

— E para isso você decidiu nos ignorar? — Eduarda finalmente fechou o livro, levantando-se com uma elegância ferida. — Você nos deixou sozinhas neste loft, Emanuel. Sozinhas com o nosso ressentimento. Você não entende a alma de uma mulher sensível. Você acha que tudo se resolve com silêncio ou com um cartão de crédito.

— Mas eu nem usei o cartão de crédito esses dias! — defendeu-se ele, confuso.

— Exatamente! — Sara levantou-se também, caminhando até ele com o gingado de uma predadora. — Você nem se deu ao trabalho de tentar me subornar para eu esquecer que você me deixou plantada no restaurante em Miami para cuidar da "Dudinha". Você simplesmente sumiu no seu estúdio.

— E você — Eduarda apontou um dedo trêmulo para ele, aproximando-se pelo outro lado — prometeu que íamos ler aquele livro de arte juntos. Você prometeu que ia me proteger da agressividade da Sara, mas você fugiu. Você é um covarde emocional, Emanuel.

Emanuel olhou de uma para a outra. Elas não estavam juntas — mantinham uma distância de segurança de pelo menos dois metros —, mas o discurso era perfeitamente síncrono. Era como se tivessem assinado um pacto de não-agressão temporária apenas para destruir o mediador.

— O que vocês querem que eu faça? — perguntou ele, jogando as mãos para o alto. — Eu peço perdão, ok? Eu sinto muito por... por tudo o que eu fiz.

— Pelo que, exatamente? — Sara cruzou os braços, os seios siliconados saltando no decote, uma tática que geralmente o distraía, mas que agora parecia uma arma de intimidação.

— Por... por não ter escolhido Miami direito? — tentou ele.

— Errado — disse Sara.

— Por não ter dado atenção suficiente para o seu livro de arte? — Emanuel olhou para Eduarda.

— Superficial — Eduarda suspirou, encostando a mão na testa. — Você nem sabe por que estamos magoadas. Isso prova que você não nos conhece.

Emanuel sentiu uma gota de suor escorrer pelas costas. Ele era um homem que lidava com gangues de motoqueiros e estrelas do rock em seus estúdios de tatuagem, mas nada o preparara para o terror psicológico de duas namoradas em greve de afeto.

— Tudo bem — disse ele, tentando uma nova abordagem. — Eu vou compensar vocês. Amanhã, sábado, vamos passar o dia fora. O dia todo. O que vocês quiserem.

— Eu quero ir ao shopping — disse Sara imediatamente. — Quero ver a nova coleção da Chanel. E quero que você carregue as sacolas. Todas elas.

— Eu quero ir àquela exposição de arte sacra no centro — interrompeu Eduarda, com sua voz de mártir. — É um ambiente de reflexão. E depois quero um jantar em um lugar onde não se ouça música eletrônica.

Emanuel olhou para as duas. O shopping e a exposição de arte sacra ficavam em lados opostos da cidade, com estilos de vida que se repeliam como óleo e água.

— Nós podemos fazer os dois — sugeriu ele, desesperado. — Shopping de manhã, exposição à tarde.

As duas trocaram um olhar rápido. Pela primeira vez em meses, houve um lampejo de concordância silenciosa entre elas: o sofrimento de Emanuel era mais divertido do que a briga entre elas.

— O shopping leva tempo, Emanuel — Sara disse, com um sorriso cruel. — Eu não pretendo sair de lá antes das quatro da tarde.

— E a exposição fecha às cinco — Eduarda completou, com uma doçura venenosa. — Você vai ter que dar um jeito, Manu. Se você nos ama, você vai conciliar os nossos desejos.

A manhã de sábado começou como um teste de resistência física e mental. Emanuel acordou cedo, preparou o café da manhã para as duas — ovos beneditinos para Sara, frutas orgânicas e iogurte para Eduarda — e tentou manter um sorriso no rosto enquanto Sara reclamava que o café estava "morno" e Eduarda suspirava porque a luz da manhã estava "muito agressiva para o seu estado emocional".

No shopping, a tortura foi física. Sara entrou na primeira loja de luxo e começou uma maratona de experimentação de sapatos que faria um maratonista chorar. Emanuel estava carregado de caixas, o suor brotando em sua testa, enquanto Eduarda o seguia a dois passos de distância, segurando um lenço com essência de lavanda para "suportar o cheiro de consumismo desenfreado".

— Este aqui, Manu? — Sara desfilava com um salto de quinze centímetros, cravejado de cristais. — Ou este de verniz?

— Os dois, Sara. Leva os dois — Emanuel implorou, checando o relógio. Já eram duas da tarde e eles ainda estavam na segunda loja.

— Você está com pressa, Emanuel? — Eduarda perguntou, tocando o ombro dele com uma mão de veludo. — Eu achei que este dia era para nós. Minhas pernas estão começando a doer. Esse chão de mármore é tão impessoal... sinto que minha energia está sendo drenada.

— Eu te carrego, Duda! Só por favor, vamos agilizar — Emanuel disse, o que fez Sara parar no meio da loja e bufar.

— Ah, agora você vai carregar a "princesinha"? E quem carrega as minhas sacolas? Você tem duas mãos, Emanuel, use-as!

Às quatro e meia, eles finalmente saíram do shopping. Emanuel parecia ter voltado de uma guerra. O porta-malas do carro estava cheio e seus braços tremiam. Ele dirigiu como um louco pelo trânsito de São Paulo, tentando chegar à exposição de arte sacra antes que os portões se fechassem.

— Estamos quase lá! — gritou ele, cortando um ônibus.

— Cuidado, Emanuel! — Eduarda se encolheu no banco de trás. — Minha aura está ficando fragmentada com essa sua direção agressiva.

— E o meu cabelo está desmanchando com esse ar-condicionado no máximo! — reclamou Sara, retocando o batom no espelho.

Eles chegaram à exposição faltando dez minutos para o fechamento. O segurança, um homem cansado que só queria ir para casa, olhou para o trio — o homem suado e carregado de sacolas (que ele insistira em não deixar no carro por medo de roubo), a loira siliconada de salto agulha e a morena de olhar melancólico.

— Só dez minutos, senhor — disse o guarda.

Eduarda entrou deslizando pelo salão de tetos altos e imagens de santos barrocos. Ela parou diante de uma Pietá de madeira policromada e soltou um suspiro profundo.

— Olhe para essa dor, Emanuel. É tão... autêntica. Diferente da dor de ter que escolher entre dois sapatos de verniz.

— Ei! Eu ouvi isso! — Sara retrucou, o som de seus saltos ecoando de forma sacrílega pelas naves da igreja transformada em museu. — Essa estátua está precisando de uma boa camada de verniz, isso sim. Está toda descascada. Que horror.

— É a pátina do tempo, sua ignorante! — Eduarda se virou, os olhos faiscando. — Você não entende nada que não brilhe ou que não tenha uma etiqueta de preço!

— E você não entende nada que não seja deprimente ou que não tenha sido esculpido por alguém que morreu de peste bubônica há trezentos anos!

Emanuel se colocou entre as duas, segurando uma sacola da Gucci em cada mão como se fossem escudos.

— Por favor! Silêncio! Estamos em um lugar de arte sacra! — sussurrou ele, a voz falhando.

— O senhor, por favor, as sacolas não podem entrar na área das esculturas — disse o segurança, aproximando-se.

Emanuel teve que voltar à recepção, deixar as sacolas e voltar correndo. Quando retornou, encontrou Sara tentando tirar uma selfie "conceitual" com um anjo barroco ao fundo, enquanto Eduarda tentava impedi-la, alegando que o flash estava "ferindo a alma da obra".

— Eu vou te matar, Sara! — Eduarda sibilou, perdendo a timidez por um segundo.

— Tenta a sorte, "Dudinha"! Meus saltos são ótimas armas de autodefesa!

Emanuel pegou cada uma por um braço e as arrastou para fora antes que o segurança chamasse a polícia.

O jantar foi o ápice do absurdo. Emanuel escolhera um restaurante "fusion", esperando que a mistura de culinárias agradasse a ambas. Ele estava exausto, com as mãos trêmulas e a cabeça explodindo. Ele só queria um perdão oficial e uma noite de sono.

— Então — disse ele, servindo o vinho —, o dia foi... produtivo? Estamos todos bem agora?

Sara olhou para a pulseira nova em seu braço e depois para Eduarda, que acariciava um catálogo da exposição que Emanuel fora obrigado a comprar por um preço exorbitante.

— Foi um dia aceitável — admitiu Sara, bebendo um gole generoso de vinho. — Mas você ainda não explicou por que não me defendeu quando aquela vendedora da Prada sugeriu que o número 36 ficaria apertado em mim. Você ficou lá, parado, como um poste!

— Eu estava segurando sete caixas, Sara! — Emanuel quase gritou.

— E você, Emanuel — Eduarda disse, com um tom de voz que era puro veneno destilado em mel —, não comentou nada sobre a minha análise da luz de caravaggio na última sala. Você estava olhando para o celular. Você não se importa com o que eu penso.

Emanuel soltou os talheres, que bateram no prato com um som metálico. Ele olhou para as duas mulheres à sua frente. Ambas lindas, ambas impossíveis, ambas unidas pelo prazer sadista de vê-lo implorar por uma paz que elas não tinham intenção de conceder.

Ele começou a rir. Uma risada nervosa, que começou baixa e foi crescendo até se tornar uma gargalhada histérica que atraiu os olhares de todas as mesas do restaurante.

— Do que você está rindo, Emanuel? — perguntou Sara, franzindo a testa. — Você enlouqueceu de vez?

— É o estresse — Eduarda diagnosticou, com um olhar de falsa preocupação. — Eu avisei que a aura dele estava fragmentada.

— Eu estou rindo — disse Emanuel, recuperando o fôlego e limpando uma lágrima do canto do olho — porque eu percebi uma coisa. Vocês duas se odeiam. Vocês brigam por destinos de viagem, por joias, por livros, por atenção. Mas vocês têm algo em comum que é mais forte do que qualquer rivalidade.

— O quê? — perguntaram as duas em uníssono.

— Vocês duas amam me ver sofrer — Emanuel sorriu para elas, um sorriso de quem finalmente aceitara sua própria derrota. — Vocês não estão com raiva de mim por algo que eu fiz. Vocês estão com raiva porque eu tentei parar de ser o brinquedo de vocês. Vocês se juntaram na "greve de afeto" só para ver quanto tempo eu aguentava antes de desmoronar.

Houve um silêncio na mesa. Sara olhou para Eduarda. Eduarda olhou para Sara. Pela primeira vez, não houve ódio nos olhos delas; houve o reconhecimento mútuo de duas estrategistas que haviam sido descobertas.

Sara deu um sorriso de lado, o tipo de sorriso que ela usava quando conseguia um desconto impossível em uma joia.

— Bom... você demorou para perceber, Manu. Achei que você fosse mais rápido.

Eduarda deu um gole em seu chá de hibisco, com uma expressão de serenidade recuperada.

— O sofrimento é uma forma de purificação, Emanuel. Nós só queríamos que você valorizasse o esforço que fazemos para conviver sob o mesmo teto.

— Então o perdão está garantido? — Emanuel perguntou, sentindo que o peso em seu peito começava a diminuir, substituído por uma aceitação resignada do seu destino.

— Depende — disse Sara, inclinando-se para frente. — Eu vi um anel no shopping que combinaria perfeitamente com esse colar que a Eduarda tanto gosta de exibir. Se eu ganhar o anel, eu posso considerar um armistício de... digamos, uma semana?

— E eu — Eduarda tocou a mão de Emanuel com sua manha habitual — quero que você me leve àquela livraria de usados em Curitiba no próximo mês. É uma viagem de carro. Só nós três. Sem shoppings no caminho.

Emanuel fechou os olhos e recostou-se na cadeira. Ele era um tatuador rico, um homem de sucesso, dono de estúdios pelo mundo. Mas ali, naquele restaurante, ele percebeu que sua vida era como uma tatuagem complexa: dolorosa de fazer, impossível de apagar e cheia de detalhes que ele nunca terminaria de entender.

— Tudo bem — disse ele, levantando a taça. — O anel para a Sara e a viagem literária para a Eduarda. Mas eu quero uma coisa em troca.

— O quê? — perguntaram as duas, agora curiosas.

— Eu quero que, por hoje, vocês parem de fingir que são vítimas uma da outra. Vamos apenas jantar. Sem ironias, sem manha e sem silicone batendo na mesa.

Sara riu e bateu sua taça na dele.

— Fechado. Mas o anel tem que ser de pelo menos dois quilates.

Eduarda sorriu e tocou a taça de Emanuel também, com uma delicadeza vitoriosa.

— E a livraria tem que ter edições do século XIX.

O jantar terminou de forma estranhamente leve. Emanuel pagou a conta astronômica com um sorriso no rosto. Ele sabia que a paz era temporária. Sabia que amanhã Sara reclamaria do café e Eduarda teria uma crise existencial sobre a cor das cortinas. Mas, enquanto caminhavam para o carro, com Emanuel carregando as sacolas da Chanel e os catálogos de arte sacra, ele percebeu que, de uma forma distorcida e cômica, aquele caos era a sua casa.

Ele entrou no SUV, ligou o motor e olhou pelo retrovisor para as duas mulheres que ocupavam sua vida e sua conta bancária. Sara estava checando o Instagram, e Eduarda estava lendo o catálogo. Elas não se falavam, mas também não estavam se matando.

— Para casa, Manu — disse Sara, sem tirar os olhos do celular. — Eu preciso provar meus sapatos novos.

— Com cuidado, Emanuel — pediu Eduarda. — A noite está tão bonita para ser estragada com pressa.

Emanuel sorriu para a estrada. Ele ainda não sabia exatamente o que tinha feito de errado para deixá-las bravas, e suspeitava que elas também não sabiam. Mas no fim, o riso dele no restaurante quebrara o feitiço. Ele aceitara seu papel de mediador exausto, e elas aceitaram seu papel de divas insaciáveis.

A guerra entre o ouro e a pérola continuaria, com certeza. Miami e Salem ainda teriam muitas batalhas pela frente. Mas, naquela noite, sob as luzes de São Paulo, o tatuador sentiu que, mesmo sendo o alvo das flechas, ele era o dono do arco. E contanto que houvesse anéis de diamantes e livros raros para comprar, ele teria, pelo menos, alguns momentos de um silêncio que, desta vez, soava quase como paz.