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Duas

O Labirinto de Vidro e os Cacos do Desejo

O silêncio no loft de Emanuel nunca era um sinal de paz; era apenas o intervalo entre duas tempestades. O retorno de Miami havia sido um desastre silencioso, uma viagem de volta onde a pressão atmosférica dentro do jato executivo parecia prestes a implodir. Emanuel, sentado em sua poltrona de couro no escritório, tentava focar nos novos designs de tatuagem inspirados na geometria sagrada, mas o som de um objeto de cerâmica se estilhaçando na sala de estar cortou sua concentração como uma lâmina.

Ele não se moveu. Sabia que se saísse agora, seria tragado pelo vórtice.

Na sala, o cenário era de guerra total. Sara, ainda usando os óculos escuros da Versace e exalando um perfume que custava o salário de um mês de um cidadão comum, estava de pé sobre os restos de um vaso de Murano. Seus olhos azuis faíscavam de uma fúria que o sol da Flórida só fizera intensificar.

— Eu cansei, Emanuel! Eu cansei desse teatrinho de museu! — gritou ela, embora Emanuel não estivesse lá para ouvir. — E você, sua ratinha de biblioteca, acha que ganhou porque ele nos trouxe de volta mais cedo?

Eduarda estava encolhida na poltrona giratória, abraçando um exemplar raro de "A História da Beleza", de Umberto Eco. Seus dedos pálidos apertavam a capa de couro com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela não gritava. Ela apenas olhava para Sara com uma mistura de pavor e um desprezo silencioso que era, para Sara, mais insultante do que qualquer grito.

— Eu não fiz nada, Sara — murmurou Eduarda, a voz saindo num tom manhoso e trêmulo. — Eu só queria vir para casa. Eu não me sinto bem naquele lugar... é tudo tão falso.

— Falso? Falsa é você! — Sara avançou, os saltos agulha estalando no piso de madeira nobre. — Essa sua carinha de quem pede desculpas por existir... eu sei o que você faz quando eu não estou olhando. Eu vi como você saiu do banheiro em Miami com aquele sorrisinho de quem acabou de engolir o canário.

Sara, num movimento súbito e violento, arrancou o livro das mãos de Eduarda.

— Você ama tanto esses papéis velhos, não é? Acha que isso te faz melhor que eu? — Antes que Eduarda pudesse reagir, Sara segurou a lombada do livro e, com a força de quem estava acumulando ódio por semanas, rasgou a primeira metade das páginas. — Pronto! Agora ele combina com a sua personalidade: destruído e inútil!

O grito que saiu da garganta de Eduarda foi agudo, um som de puro horror. Ela se jogou no chão, tentando catar as páginas que voavam como pétalas mortas pela sala.

— Não! Sara, por favor! Esse livro é uma edição de colecionador! — Eduarda soluçava, as lágrimas escorrendo livremente, manchando o papel. — Você é um monstro! Você é um monstro de plástico!

— De plástico e com o cartão de crédito do seu namorado no limite! — Sara riu, uma risada estridente e vulgar, jogando o que restou da capa sobre a cabeça de Eduarda. — Chora mais, quem sabe o Emanuel não vem te dar um doce?

Eduarda levantou-se devagar. O choro não parara, mas algo em sua expressão mudou. A fragilidade ainda estava lá, mas havia uma faísca de retaliação que Sara, em sua arrogância loira, não percebeu. Eduarda caminhou em direção ao corredor dos quartos em silêncio, os soluços sacudindo seus ombros pequenos.

— Isso mesmo, foge para o buraco! — gritou Sara, vitoriosa, servindo-se de uma dose generosa de uísque no bar de cristal.

Minutos depois, um som de tecido sendo rasgado — um som seco, longo e definitivo — veio do quarto principal.

Sara congelou com a taça nos lábios. Ela correu para o quarto e soltou um grito que poderia ter quebrado as janelas do loft.

Eduarda estava de pé diante do closet aberto. Em suas mãos, ela segurava o vestido de bandagem dourado da Hervé Léger que Sara usara na noite da virada em Miami — a peça favorita de Sara, a que ela dizia que a fazia parecer uma deusa. Eduarda o havia rasgado de cima a baixo, e agora usava uma tesoura de costura para retalhar as alças de uma bolsa Birkin rosa choque.

— O que você fez?! — berrou Sara, avançando como uma leoa ferida. — Sua desgraçada! Esse vestido custou dez mil dólares!

— E o meu livro não tinha preço — respondeu Eduarda, a voz agora fria, embora os olhos ainda estivessem vermelhos de tanto chorar. Ela largou o vestido retalhado no chão e encarou Sara. — Você destrói o que eu amo, eu destruo o que te faz sentir bonita. Agora estamos iguais, não estamos?

Sara não respondeu com palavras. Ela voou sobre Eduarda, agarrando seus cabelos castanhos. Eduarda gritou e tentou se defender, as duas caindo sobre o tapete persa, uma massa de unhas de gel, sedas rasgadas e insultos.

— Eu vou acabar com você! Eu vou arrancar esse seu couro cabeludo! — rugia Sara.

— Me solta! Você é louca! Emanuel! Socorro! — Eduarda gritava, usando sua voz mais frágil, a voz que ela sabia que funcionava como um gatilho para o homem no escritório.

A porta do quarto se abriu com um estrondo. Emanuel estava parado no batente, a expressão ilegível. Ele não parecia zangado, nem preocupado. Ele parecia... exausto. Um tipo de exaustão que beirava a apatia. Ele observou Sara montada sobre Eduarda, as duas cercadas por roupas de grife destruídas e páginas de livros rasgadas.

— Emanuel! Olha o que essa vagabunda fez com as minhas roupas! — Sara gritou, sem soltar o cabelo de Eduarda. — Ela enlouqueceu de vez! Expulsa ela daqui agora!

— Manu... olha o meu livro... ela o matou... — soluçou Eduarda, deixando o corpo amolecer no chão, a imagem perfeita da vítima agredida. — Eu só queria que ela me deixasse em paz. Ela é tão violenta... eu tive tanto medo...

Emanuel caminhou até o centro do quarto. Ele olhou para o vestido dourado destruído e depois para as páginas de Umberto Eco espalhadas pelo corredor. Ele deu um suspiro longo, passando a mão pelo cabelo curto.

— Levantem-se — disse ele, a voz baixa e sem emoção.

— Você não vai fazer nada? — Sara levantou-se, ajeitando o busto e limpando o suor da testa. — Ela destruiu o meu closet, Emanuel!

— E você destruiu a biblioteca dela — Emanuel retrucou, olhando para Sara com um desinteresse que a feriu mais do que um tapa. — Vocês duas se merecem.

— Como você pode dizer isso? — Eduarda sentou-se no chão, cobrindo o rosto com as mãos, os ombros tremendo. — Eu sou a pessoa que cuida de você, Emanuel. Eu sou a que te dá paz. Ela é o caos.

— Paz? — Emanuel soltou uma risada amarga. — Eduarda, não há paz nesta casa desde que vocês duas decidiram que este apartamento é um ringue. Você manipula com o silêncio e ela manipula com o grito. Mas o resultado é o mesmo.

— Você vai tomar o partido dela? — Sara perguntou, incrédula. — Depois de tudo o que eu represento para você?

— Eu não vou tomar partido de ninguém — Emanuel disse, caminhando em direção à porta. — Eu vou para o estúdio. Vou trabalhar em peles que não reclamam e que não rasgam vestidos nem livros.

— Você não pode nos deixar assim! — gritou Sara.

Emanuel parou na porta e olhou por cima do ombro.

— Posso. E vou. Se quando eu voltar vocês ainda estiverem se matando, eu ligo para a polícia e deixo que eles resolvam. Resolvam suas próprias bagunças. Eu cansei de ser o prêmio de uma guerra que ninguém ganha.

Ele saiu, e o som da porta principal batendo ecoou pelo loft como um veredito.

O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado com o cheiro de perfume caro e o pó das páginas rasgadas. Sara e Eduarda ficaram no quarto, separadas por um abismo de ódio e roupas destruídas.

Sara caminhou até o espelho, observando um arranhão em seu pescoço.

— Viu o que você fez? — sibilou ela para Eduarda. — Ele está perdendo o interesse. Por sua culpa.

Eduarda levantou-se, limpando as lágrimas com as costas das mãos. O rosto manhoso desapareceu, dando lugar a uma expressão de cálculo frio.

— Por minha culpa? Foi você quem começou, Sara. Você sempre tem que ser a mais barulhenta, a mais brilhante. Você não percebe que o Emanuel odeia o barulho?

— Ele ama o que eu dou para ele — Sara rebateu, embora a confiança estivesse abalada. — Ele ama o meu corpo, o meu luxo.

— Ele ama o controle — corrigiu Eduarda, caminhando até a porta. — E enquanto nós estivermos brigando assim, ele perde o controle. Você é burra, Sara. Você acha que ganha no grito, mas você só o afasta.

— E você? Acha que ganha como? Com esses livrinhos e esse choro de criança?

Eduarda parou e olhou para trás. Um sorriso pequeno e cruel dançou em seus lábios.

— Eu ganho porque eu sei o que ele quer quando está cansado de você. E agora, graças a você, ele vai estar muito, muito cansado.

Eduarda saiu do quarto, deixando Sara sozinha em meio aos seus trapos de grife. Ela foi para a cozinha, preparou um chá e sentou-se na varanda, observando a cidade. Ela sabia que Emanuel voltaria tarde, estressado e precisando de silêncio. E ela estaria lá, pronta para ser o refúgio dele, a "vítima" que o perdoaria por não ter tomado partido.

Enquanto isso, no quarto, Sara chutou o que restava do seu vestido dourado. Ela pegou o celular e começou a procurar por novas compras, uma forma de preencher o vazio que a indiferença de Emanuel deixara. Mas, pela primeira vez, o brilho do ouro na tela do celular parecia opaco.

Horas depois, Emanuel voltou. As luzes do loft estavam baixas. Sara havia se trancado no quarto de hóspedes, recusando-se a sair. Eduarda estava sentada no sofá da sala, com uma manta sobre as pernas, lendo um novo livro, como se nada tivesse acontecido. O chá dele estava pronto sobre a mesa de centro, ainda quente.

Emanuel olhou para ela. Eduarda levantou os olhos e deu um sorriso tímido, quase imperceptível.

— O chá está bom, Manu — disse ela, a voz doce. — Eu limpei a sala. Sinto muito pelo vaso.

Emanuel não disse nada. Ele pegou a xícara, sentindo o calor do líquido. Ele sabia que Eduarda estava jogando. Sabia que o silêncio dela era uma armadilha tanto quanto os gritos de Sara eram uma prisão. Mas, naquele momento, ele estava exausto demais para lutar contra a correnteza.

— Obrigado, Eduarda — ele murmurou.

Ele caminhou para o seu escritório e trancou a porta. Ali, cercado por suas tintas e agulhas, ele se sentia seguro. Mas, mesmo no silêncio, ele ainda podia ouvir o som das páginas sendo rasgadas e o cheiro do perfume de Sara.

Ele percebeu, com uma clareza dolorosa, que não importava quem ganhasse aquela rodada. No final, ele era o território conquistado, e as cicatrizes que elas deixavam umas nas outras eram as tatuagens que ele seria obrigado a carregar para sempre. O loft, com todo o seu luxo e vidro, não era uma casa; era um labirinto onde ele era, ao mesmo tempo, o mestre e o prisioneiro. E as duas mulheres que o amavam — ou que amavam o poder que ele lhes dava — continuariam a rasgar, gritar e chorar até que não sobrasse nada além de cacos.

Eduarda, na sala, fechou seu livro e sorriu para a escuridão. Ela ouvira o som da tranca do escritório. Ela sabia que ele estava lá dentro, tentando escapar. Mas ela também sabia que, eventualmente, ele teria que sair. E quando saísse, ela estaria esperando, com sua manha, sua fragilidade e sua tesoura escondida sob a seda. A guerra estava longe de terminar, mas ela já havia decidido qual seria o próximo vestido de Sara a ser sacrificado no altar de sua paciência.