Duas
Cinzas, Feitiços e Saltos Agulha
O silêncio no escritório de Emanuel foi quebrado apenas pelo som da respiração pesada de ambos e pelo clique metálico do cinto sendo afivelado novamente. Eduarda, com a saia agora devidamente ajustada e um sorriso de satisfação quase imperceptível nos lábios rosados, limpava os dedos delicadamente em um lenço de papel, mantendo aquele olhar de devoção que Emanuel tanto apreciava. Ela sabia que tinha vencido.
Emanuel respirou fundo, tentando recuperar a postura de controle que era sua marca registrada. Ele era um homem que comandava impérios de tinta e agulhas, mas ali, entre aquelas duas mulheres, sentia-se constantemente em um campo minado. Ele saiu do escritório primeiro, com Eduarda logo atrás, caminhando com passos leves, a imagem perfeita da timidez recuperada.
Na sala, Sara estava esparramada no sofá, lixando uma unha com fúria enquanto assistia a um programa de fofocas. O som da TV estava alto, uma cacofonia de vozes estridentes que parecia alimentar a irritação de Emanuel. Ao perceber a presença dele, ela jogou a lixa sobre a mesa de centro de vidro e se levantou, ajeitando o vestido apertado que marcava cada curva de seu corpo esculpido.
— E então? — Sara perguntou, cruzando os braços, o que fez seus seios siliconados saltarem ainda mais no decote. — Já terminou de consolar a "mártir"? Podemos finalmente reservar as passagens para Miami? O iate do Ricardo está disponível para o próximo fim de semana e eu não pretendo perder aquela festa na piscina por nada.
Emanuel parou no centro da sala, as mãos nos bolsos da calça escura. Ele olhou para Sara, depois para Eduarda, que permanecia um passo atrás dele, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo e os olhos baixos, a personificação da submissão.
— Nós vamos para Salem, Sara — disse Emanuel, a voz firme e sem margem para discussão.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo falatório inútil da televisão. O rosto de Sara passou de uma expectativa arrogante para um vermelho de pura fúria em questão de segundos.
— O quê? — Ela praticamente rugiu, dando um passo à frente. — Você está brincando, não é? Emanuel, você não pode estar falando sério! Você vai mesmo escolher aquele buraco úmido e mofado só porque essa sonsa fez biquinho?
— Eu já decidi — Emanuel rebateu, mantendo o tom de voz baixo, o que só servia para irritar Sara ainda mais. — Salem tem uma estética que me interessa para os novos desenhos do estúdio de Londres. E Eduarda precisa pesquisar para a faculdade. Miami pode esperar.
— Miami não espera, Emanuel! O sol não espera! — Sara começou a andar de um lado para o outro, os saltos agulha batendo com força no piso de madeira. — Isso é ridículo! É patético! Você está sendo manipulado por essa... essa mosca morta!
Eduarda soltou um pequeno suspiro, quase um soluço sufocado, e se encolheu levemente.
— Eu sinto muito, Sara... — murmurou Eduarda, a voz carregada de uma falsa culpa que Emanuel não conseguia detectar, mas que para Sara era como ácido. — Eu não queria que você ficasse brava. É que é tão importante para os meus estudos...
— Cala a boca, sua víbora! — Sara avançou na direção de Eduarda, mas Emanuel se colocou rapidamente entre as duas. — Não venha com esse tom de santinha para cima de mim! Eu sei o que você fez lá dentro daquele escritório. Você é vulgar, Eduarda! Você usa essa carinha de anjo, mas é mais suja que o chão de um estúdio de tatuagem de quinta categoria!
— Chega, Sara! — Emanuel segurou o braço da loira, não com força, mas com uma autoridade que a fez parar. — A decisão está tomada. Se você quiser vir, as passagens serão emitidas amanhã. Se preferir ficar e ir para Miami sozinha, sinta-se à vontade, mas não espere que eu pague por um iate que não vou usar.
Sara bufou, as narinas dilatadas. Ela olhou para Emanuel, depois para Eduarda — que agora permitia que uma única lágrima de "nervosismo" escapasse — e percebeu que, por ora, tinha perdido a batalha.
— Eu vou — cuspiu Sara, soltando-se do aperto dele. — Mas eu aviso logo: se eu pegar um resfriado ou se o meu cabelo estragar com aquela umidade maldita, você vai se arrepender de ter nascido, Emanuel. E você... — ela apontou o dedo com unhas de gel impecáveis para Eduarda — ...aproveite o seu momento, porque o inverno naquela cidade vai ser quente demais para você quando eu começar a me vingar.
Sara girou nos calcanhares e marchou em direção ao quarto, batendo a porta com tanta força que os quadros na parede tremeram.
Eduarda aproximou-se de Emanuel e tocou seu braço com delicadeza.
— Obrigado, Manu... — ela sussurrou, encostando a cabeça em seu ombro. — Você é tão bom para mim. Eu prometo que a viagem vai ser perfeita.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento. Ele sabia que "perfeita" era a última palavra que descreveria os próximos dias.
***
Três dias depois, o trio desembarcava no aeroporto de Boston, sob um céu cinzento e uma brisa gélida que parecia cortar a pele. Enquanto Eduarda usava um sobretudo elegante de lã batida e um cachecol de cashmere, parecendo uma personagem de um filme europeu, Sara estava uma visão do absurdo. Ela insistira em viajar com um conjunto de veludo justo, óculos escuros enormes e botas de salto fino que claramente não foram feitas para caminhar em calçadas históricas.
— Meu Deus, que cheiro de peixe e depressão! — reclamou Sara, assim que saíram do terminal para pegar o carro alugado. — Emanuel, por que está tão escuro? São três da tarde e parece que o mundo vai acabar!
— É o clima da Nova Inglaterra, Sara — explicou Emanuel, carregando as malas para o porta-malas. — Tente aproveitar a atmosfera.
— Atmosfera? Isso aqui parece o cenário de um filme de terror onde a loira morre primeiro — ela resmungou, entrando no carro e batendo a porta.
A viagem até Salem foi marcada pelo monólogo ininterrupto de Sara sobre como sua pele estava ficando seca e como ela sentia falta do ar-condicionado de São Paulo, enquanto Eduarda permanecia colada à janela, olhando as árvores de folhas secas com um deslumbramento genuíno.
Quando chegaram à cidade, Salem os recebeu com suas ruas de tijolos aparentes, casas coloniais preservadas e uma aura de mistério que parecia pulsar em cada esquina. O hotel onde se hospedaram era uma construção histórica, com móveis de madeira pesada e lustres de ferro forjado.
— Que lugar... rústico — disse Sara, olhando para o balcão de check-in com uma expressão de nojo. — Tem Wi-Fi aqui ou a gente tem que se comunicar por sinais de fumaça e feitiçaria?
— É lindo, Manu! — Eduarda exclamou, ignorando a provocação da outra. — Olha esses detalhes nos entalhes da escada. É exatamente como eu li nos livros de história.
— Que bom que você gostou, Duda — disse Emanuel, sentindo um raro momento de satisfação ao ver o brilho nos olhos da morena.
— "Duda", sério? — Sara revirou os olhos, jogando sua bolsa de grife sobre o balcão. — Eu quero o quarto maior, Emanuel. E eu quero um banho de espuma agora. Minha bunda está quadrada depois desse voo.
— Os quartos são conjugados, Sara — esclareceu Emanuel. — Um para mim e para a Eduarda, e o anexo para você.
— Ah, não! Nem pensar! — Sara começou a se exaltar. — Eu não vou ficar no "puxadinho" enquanto vocês dois ficam brincando de casinha histórica ao lado! Eu quero o meu espaço e quero que seja o melhor.
— Sara, pelo amor de Deus — Emanuel interveio, a voz já subindo de tom. — São os melhores quartos do hotel. Pare de reclamar por cinco minutos.
Eduarda aproximou-se de Sara com um sorriso doce, que só Emanuel não percebia ser carregado de veneno.
— Se você quiser, Sara, podemos trocar. Eu não me importo de ficar no quarto menor, desde que o Emanuel esteja perto de mim...
Sara estreitou os olhos.
— Fica na sua, garota. Eu fico com o anexo, mas se eu ouvir um gemido sequer através daquela parede, eu juro que entro lá com um balde de gelo.
O primeiro passeio pela cidade foi um exercício de paciência para Emanuel. Eduarda queria parar em cada placa informativa, em cada museu de bruxaria e em cada loja de antiguidades. Ela caminhava de braços dados com ele, fazendo perguntas inteligentes sobre a arquitetura e comentando sobre o julgamento das bruxas de 1692 com uma paixão que Emanuel achava fascinante.
— Veja, Manu, aquela é a Casa das Sete Torres! — Eduarda apontou, entusiasmada. — Hawthorne se inspirou nela para o seu romance. Não é incrível como a literatura e a realidade se fundem aqui?
— É realmente impressionante, Duda — Emanuel comentou, observando a estrutura escura e imponente.
— Impressionante é a minha paciência! — Sara interrompeu, tropeçando em um desnível da calçada de tijolos. — Minha bota quase quebrou! Emanuel, olha para este lugar. É tudo velho! Por que as pessoas pagam para ver casas que precisam de uma reforma urgente? E o que é aquela mulher ali na esquina? Ela está usando uma capa? É Halloween e ninguém me avisou?
— É o estilo da cidade, Sara — Emanuel suspirou. — As pessoas aqui celebram a história.
— Elas celebram a falta de um shopping center, isso sim — Sara retrucou, parando em frente a uma vitrine que exibia cristais e baralhos de tarô. — Olha isso. Dez dólares por uma pedra que eu encontro no jardim de casa. Isso é um esquema de pirâmide místico.
Eles entraram em uma pequena loja de ervas e poções. O ambiente era escuro, cheirando a sálvia queimada e incenso de sândalo. Eduarda parecia em transe, tocando os frascos de vidro com reverência.
— Manu, olha esse grimório — ela sussurrou, mostrando um livro encadernado em couro. — É tão lindo.
— Você quer? — Emanuel perguntou, já pegando a carteira.
— Por favor... — ela disse, fazendo aquela carinha de gata manhosa que sempre o dobrava.
— Ótimo, mais lixo para carregar — Sara resmungou, esbarrando em uma prateleira de cristais "por acidente". — Emanuel, eu estou com fome. E não quero comer ensopado de bruxa ou seja lá o que essas pessoas comem. Eu quero um bife, vinho caro e luz decente.
— Tem um restaurante excelente perto do porto, Sara. Vamos para lá em dez minutos — Emanuel tentou mediar.
— Dez minutos? Eu vou morrer de inanição em dez minutos! — Sara se aproximou de Emanuel, ignorando totalmente a presença de Eduarda, e começou a brincar com o colarinho da jaqueta dele. — Sabe, Manu... eu vi que o hotel tem um serviço de massagem. Talvez a gente pudesse voltar mais cedo, deixar a historiadora aqui com os fantasmas dela e aproveitar um pouco do conforto moderno... o que você acha?
Eduarda, que estava analisando o livro, sentiu o sangue ferver. Ela não ia deixar Sara estragar a viagem que ela tanto lutou para conseguir. Ela se aproximou por trás de Emanuel e abraçou sua cintura, colando o corpo ao dele.
— O Manu prometeu que ia me levar para ver o memorial das bruxas ao entardecer, Sara — Eduarda disse, a voz suave, mas com um tom de posse inegável. — É o momento mais místico do dia. Você pode ir para o hotel se estiver cansada. Temos o cartão do quarto extra, não temos?
Sara soltou uma risada debochada.
— Você adoraria isso, não é? Se livrar de mim para ficar sussurrando datas históricas no ouvido dele. Pois saiba que eu não vou a lugar nenhum. Eu vou para esse memorial, eu vou para esse jantar e eu vou garantir que você não tenha um segundo de paz com esse seu teatrinho de "menina culta".
Emanuel sentia a tensão entre as duas como uma corrente elétrica. Ele olhou para Eduarda, que parecia prestes a chorar com a agressividade de Sara, e depois para Sara, que exalava um desafio puro e vulgar.
— Vamos para o memorial — Emanuel decretou. — Todos nós.
O memorial era um lugar de silêncio e reflexão, com bancos de pedra gravados com os nomes das vítimas e suas últimas palavras. Eduarda caminhava lentamente, tocando cada nome, parecendo genuinamente afetada pela tragédia local.
— "Deus sabe que eu sou inocente" — ela leu em voz alta, a voz embargada. — É tão triste, Manu. Como a ignorância pode destruir vidas.
Emanuel sentiu uma onda de proteção por ela. Eduarda era sensível, profunda, exatamente o oposto do caos que sua vida profissional costumava ser. Ele a abraçou de lado, beijando o topo de sua cabeça.
Sara, alguns metros atrás, bufava alto o suficiente para ser ouvida em Boston.
— Inocente? Elas provavelmente eram só chatas como você e o povo não aguentou mais — Sara comentou, alto demais para o ambiente solene. — Emanuel, olha para o meu pé! Está inchado! Essa umidade está acabando com a minha retenção de líquido!
— Sara, por favor, tenha um pouco de respeito — Emanuel pediu, perdendo a paciência. — Estamos em um memorial.
— Respeito por gente que morreu há trezentos anos? Me poupe! — Sara caminhou até um dos bancos de pedra e sentou-se, cruzando as pernas e deixando a coxa bem à mostra, apesar do frio. — Eu quero ir embora. Agora.
Eduarda olhou para Emanuel, os olhos grandes e úmidos brilhando sob a luz fraca do poste.
— Manu... eu queria tanto ficar mais um pouco. O clima aqui é tão especial... mas se a Sara quer estragar tudo, talvez seja melhor voltarmos mesmo. Eu não quero ser um peso.
Aquele "eu não quero ser um peso" foi a gota d'água para Emanuel. Ele olhou para a arrogância vulgar de Sara e para a fragilidade (aparente) de Eduarda.
— Sara, se você não consegue se comportar por meia hora em um lugar público, volte para o hotel agora. Pegue um táxi.
Sara arregalou os olhos.
— Você está me mandando embora? Por causa dela?
— Estou mandando você embora porque você está sendo inconveniente e desrespeitosa — Emanuel disse, a voz fria como o vento de Salem.
Sara levantou-se, o rosto em uma máscara de choque e ódio.
— Ótimo! Fique aí com a sua bruxinha de araque! Espero que os fantasmas puxem o pé de vocês à noite!
Ela saiu pisando duro, os saltos batendo com violência nas pedras do memorial, até desaparecer na escuridão da rua.
Um silêncio abençoado caiu sobre os dois. Eduarda relaxou o corpo contra o de Emanuel, um pequeno sorriso vitorioso escondido no cachecol.
— Obrigado por ficar comigo, Manu — ela sussurrou. — Eu sei que ela é difícil, mas eu só queria esse momento com você.
— Ela passa dos limites às vezes — Emanuel suspirou, sentindo o peso do estresse diminuir levemente.
— Eu vou fazer você esquecer todo esse estresse quando voltarmos para o hotel — Eduarda disse, a voz mudando de tom, tornando-se aquela melodia safada que só ele conhecia. — Salem tem histórias de feitiçaria, sabia? E eu estudei alguns feitiços novos... só para você.
Ela se inclinou e mordeu levemente o lóbulo da orelha de Emanuel, enquanto sua mão descia discretamente para a frente da calça dele, por cima do tecido.
Emanuel fechou os olhos, sentindo o desejo despertar com força total. Eduarda podia ser tímida e manhosa para o mundo, mas entre quatro paredes — ou em um memorial sombrio de Salem — ela era a dona de sua vontade.
— Vamos para o jantar, Duda — ele disse, com a voz rouca. — E depois... você me mostra que tipo de bruxa você realmente é.
Eduarda riu, um som doce e perigoso, enquanto o guiava para fora do memorial. Ela tinha conseguido o que queria: Salem, o controle sobre Emanuel e a humilhação de Sara. A viagem estava apenas começando, e ela pretendia garantir que cada segundo fosse uma lição para a loira de que, no jogo da sedução, a inteligência e a manha sempre venceriam a vulgaridade barulhenta.