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Duas

O Labirinto de Tinta, Seda e Veneno

A memória de Emanuel era como uma galeria de arte: cada fase da sua vida estava marcada por uma tatuagem, um estilo ou uma mulher. Se ele fechasse os olhos, ainda conseguia sentir o cheiro de maresia e protetor solar do dia em que conheceu Sara, em uma festa exclusiva em uma cobertura no Rio de Janeiro. Ela era um furacão de energia loira, rindo alto com uma taça de champanhe na mão e um vestido que parecia desafiar as leis da física. Sara não pedia licença para entrar na vida de ninguém; ela simplesmente ocupava todo o espaço disponível.

Eles ficaram juntos por quatro meses intensos. Emanuel, acostumado com a precisão e o silêncio de seus estúdios, sentia-se atraído pela vulgaridade vibrante de Sara. Ela era o caos que ele não sabia que precisava. Mas, como todo caos, ele também cansava.

Foi durante uma dessas pausas para respirar, em uma tarde chuvosa em São Paulo, que ele entrou em uma pequena galeria de arte nos Jardins para fugir do trânsito. O ambiente era silencioso, com cheiro de papel antigo e verniz. E lá, parada diante de uma tela de Caravaggio, estava uma moça que parecia ter saído de outro século.

Eduarda usava um vestido de algodão leve e um cardigã que parecia grande demais para seu corpo esguio. Ela observava a pintura com uma intensidade que Emanuel raramente via em alguém. Quando ele se aproximou, ela não se assustou. Apenas virou o rosto delicado, com olhos grandes e expressivos que pareciam ver através da pele dele.

— O claro-escuro dele é quase violento, não acha? — murmurou ela, com uma voz tão doce e manhosa que Emanuel sentiu um arrepio imediato. — É como se a luz estivesse tentando desesperadamente salvar o que sobra da sombra.

Emanuel, o homem que desenhava sombras na pele das pessoas, ficou hipnotizado. Eles conversaram por horas. Eduarda era estudante de História da Arte, uma alma sensível que falava de texturas e emoções com uma fragilidade que despertava nele um instinto protetor avassalador.

Por algumas semanas, Emanuel viveu em dois mundos. Com Sara, eram noites de luxúria, festas barulhentas e uma paixão física exaustiva. Com Eduarda, eram tardes de café, visitas a museus e uma conexão emocional que o acalmava. Ele sabia que não conseguiria escolher. Sara era o sangue correndo nas veias; Eduarda era o ar nos pulmões.

A decisão de juntar as duas não foi planejada, foi uma necessidade de sobrevivência emocional. Emanuel não era um homem de meias medidas. Ele as convocou para um jantar em seu apartamento, o mesmo que hoje era palco de guerras constantes.

— Eu não entendi, Manu — disse Sara naquela noite, cruzando as pernas e exibindo o salto agulha enquanto olhava para Eduarda com um desprezo mal disfarçado. — O que essa menina de biblioteca está fazendo no nosso jantar? Você contratou uma babá?

Eduarda, encolhida na cadeira, apertava o guardanapo de linho com as mãos trêmulas. Ela olhou para Emanuel com os olhos marejados, buscando refúgio.

— Eu não sou babá, Sara — disse Emanuel, sua voz grave cortando a tensão. — Eu reuni vocês aqui porque eu não vou abrir mão de nenhuma das duas. Eu amo a força e a liberdade da Sara, e amo a sensibilidade e a doçura da Eduarda. Eu quero que vocês morem aqui. Comigo.

O silêncio que se seguiu foi denso. Sara soltou uma risada estridente, achando que era uma piada, mas ao ver a expressão séria de Emanuel, sua expressão mudou para algo predatório.

— Você quer um harém, é isso? — Sara se levantou, caminhando até ele e passando as mãos pelo seu pescoço tatuado. — Você acha que eu vou dividir você com essa... coisinha sem graça?

— Eu não sou sem graça — sussurrou Eduarda, levantando o rosto. — Eu só não preciso gritar para ser notada, Sara.

Emanuel viu, naquele momento, a primeira faísca de rivalidade. Ele explicou que tinha espaço para ambas, que proveria tudo o que elas precisassem, mas que queria a presença de ambas em sua vida. Para Sara, o incentivo foi o luxo, o cartão de crédito sem limite e o desafio de provar que era a favorita. Para Eduarda, foi a promessa de proteção, o amor de um homem poderoso e a chance de viver cercada pela arte que Emanuel tanto valorizava.

As primeiras semanas de convivência foram um experimento sociológico perigoso. Emanuel instalou Sara na suíte principal, mas Eduarda logo conquistou o direito de dormir com ele na maioria das noites, alegando que "tinha pesadelos" ou que "precisava de carinho para dormir".

— Manu, ela é tão barulhenta — reclamava Eduarda, manhosa, enquanto se aninhava no peito dele após uma manhã em que Sara tinha passado horas gritando ao telefone com uma amiga. — Ela não entende que você trabalha com arte, que precisa de paz. Ela é tão... vulgar.

— Ela é apenas intensa, Duda — Emanuel tentava mediar, embora a cabeça latejasse.

Enquanto isso, na cozinha, Sara deixava claro seu território.

— Escuta aqui, ô da faculdade — dizia Sara, empurrando as compras de Eduarda para o fundo da geladeira para dar espaço aos seus energéticos e champanhes. — Você pode até ser a "queridinha" dele para ler livrinhos, mas à noite, quando ele quer fogo de verdade, ele sabe onde encontrar. Você é só um passatempo para quando ele está cansado.

Eduarda não respondia com gritos. Ela simplesmente esperava Emanuel chegar em casa e, com os olhos vermelhos de quem "chorou o dia todo", contava como se sentia humilhada.

— Ela me chamou de inútil, Manu — soluçava Eduarda, escondendo o rosto no pescoço dele. — Eu só queria fazer um chá para nós e ela jogou minhas ervas fora. Eu não sei se aguento...

Emanuel, cego pela fragilidade dela, acabava discutindo com Sara, o que gerava mais gritos, mais portas batidas e, invariavelmente, mais estresse.

Mas o que Emanuel não percebia — ou talvez fingisse não perceber — era que Eduarda tinha uma faceta que Sara, em sua obviedade, nunca alcançaria.

Certa tarde, logo no primeiro mês de moradia conjunta, Sara tinha saído para o shopping. Emanuel estava no escritório, tentando finalizar o design de uma tatuagem complexa para um cliente em Tóquio. Ele estava tenso, a nuca rígida de preocupação com os negócios.

Eduarda entrou sem bater. Ela não estava com o cardigã habitual. Usava apenas uma camisa de linho de Emanuel, que ficava larga e curta nela, revelando as pernas brancas e macias.

— Você parece tão cansado, meu amor — disse ela, caminhando até ele com aquela leveza de quem flutua.

Ela começou a massagear os ombros dele. Suas mãos eram pequenas, mas firmes.

— A Sara me deixou louco hoje, Eduarda. Ela quer que eu compre um apartamento em Miami agora. Eu não tenho tempo para isso.

— Eu sei... ela é tão egoísta, não é? — Eduarda se inclinou, sussurrando no ouvido dele. — Ela só pensa no que você pode dar a ela. Eu só penso no que eu posso dar a você.

Emanuel sentiu a cadeira girar quando ela o puxou. Eduarda não chorava mais. Ela se sentou na mesa de carvalho, bem em cima dos desenhos dele, e abriu as pernas devagar, revelando que não usava nada por baixo da camisa.

— Duda... eu tenho trabalho — ele tentou dizer, mas sua voz falhou.

— O trabalho pode esperar, Manu — ela disse, a voz agora carregada de uma malícia crua. — A Sara acha que é a única que sabe te dar prazer porque ela é loira e operada. Mas ela não conhece você como eu conheço. Ela não sabe que você gosta de ser adorado... de ser possuído.

Ela levou os dedos à própria intimidade, os olhos fixos nos dele, desafiando a imagem de "menina pura" que ela mesma cultivava na sala de estar.

— Olha como eu estou por sua causa — ela ofegou, começando a se tocar com uma sem-vergonhice que faria Sara parecer uma amadora. — Eu sou sua, Manu. Só sua. E eu nunca vou te dar o trabalho que ela dá. Eu só quero te fazer feliz. Por que você não escolhe o que eu quero? Por que não vamos para Salem, como eu pedi? Lá eu vou poder ser assim para você o dia todo... sem ninguém para gritar.

Emanuel sentiu o controle escorregar por seus dedos. Ele a puxou pela cintura, sentindo o contraste entre a pele fria do escritório e o calor dela. Eduarda usava sua "bucetinha" e sua manha como uma moeda de troca infalível. Ela sabia que Emanuel, por mais racional que fosse, era um homem visual e tátil.

Naquela noite, durante o jantar, Eduarda voltou a ser a menina sensível que mal conseguia cortar a carne. Sara, alheia ao que tinha acontecido no escritório, continuava a destilar seu veneno.

— Eu já vi as passagens para Miami, Emanuel. Vamos na primeira classe. E a "estudiosa" pode ficar aqui cuidando das plantas, o que acha?

Emanuel olhou para Eduarda. Ela não disse nada. Apenas lançou um olhar rápido para ele, um olhar que lembrava exatamente o gosto da pele dela e a audácia de seus dedos no escritório.

— Nós vamos para Salem, Sara — disse Emanuel, por fim.

— O quê? Você enlouqueceu? — Sara gritou, jogando o garfo no prato. — Salem? Aquele lugar de gente morta?

— Eduarda precisa para a faculdade. E eu preciso de paz — Emanuel respondeu, firme.

Eduarda baixou a cabeça, escondendo o sorriso vitorioso. Ela sabia que Sara tinha o volume, mas ela tinha a frequência certa para sintonizar o desejo de Emanuel.

A convivência no apartamento seguiu esse padrão de guerrilha. Sara era a força de ataque, barulhenta e frontal. Eduarda era a resistência silenciosa, infiltrando-se nas brechas da mente de Emanuel através da vulnerabilidade e do sexo calculado.

— Você é uma falsa! — gritou Sara em outra manhã, após encontrar uma calcinha de renda de Eduarda dentro de uma das botas de grife dela. — Você fez isso de propósito para me provocar!

— Eu não fiz nada, Sara... — Eduarda começou a chorar, correndo para os braços de Emanuel, que acabara de sair do banho. — Eu devo ter deixado cair sem querer quando estava lavando... ela é tão agressiva comigo, Manu. Eu tenho medo dela.

— Medo? Eu vou te dar um motivo para ter medo, sua sonsa! — Sara avançou, mas Emanuel a segurou.

— Chega, Sara! Para o seu quarto agora! — Emanuel ordenou, protegendo Eduarda com o próprio corpo.

No quarto, enquanto Emanuel a consolava, Eduarda se aninhava nele, sentindo o cheiro de sabonete e poder. Ela sabia que, para Emanuel, ela era o porto seguro, a mulher que precisava de cuidado, enquanto Sara era o problema a ser resolvido.

O que Emanuel não entendia era que ele não era o mestre daquela situação. Ele achava que tinha o controle por ser o provedor, por ser o homem da casa, por ter decidido ter as duas. Mas, na verdade, ele era o prêmio em uma guerra de atrito.

Sara lutava com o que tinha: sua aparência impactante, sua vulgaridade assumida e sua demanda constante por atenção. Ela queria ser a rainha, a mulher que Emanuel exibia nos eventos e que dominava a cama com acrobacias e gritos.

Eduarda lutava com o que Sara desprezava: o silêncio, a manha, a intelectualidade e uma safadeza que era guardada apenas para os momentos em que Emanuel estava mais vulnerável. Ela queria ser a alma, a mulher que ele buscava para descansar, mas que o prendia através de uma dependência emocional e sexual muito mais profunda.

E assim, o apartamento de luxo tornou-se um teatro de sombras. Emanuel, o tatuador que dominava a dor alheia com suas agulhas, era agora a tela onde duas mulheres pintavam suas próprias versões de domínio. Entre um grito de Sara e um suspiro manhoso de Eduarda, ele seguia, acreditando que Salem seria o lugar onde tudo se resolveria, sem perceber que estava levando o próprio inferno dentro de uma mala de grife e de um livro de História da Arte.