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Duas

Ouro, Sangue e Caprichos

A manhã em São Paulo nasceu cinzenta, refletindo o humor de Emanuel. O peso de manter duas mulheres com naturezas tão opostas sob o mesmo teto começava a cobrar seu preço em olheiras discretas e um consumo excessivo de café expresso. No entanto, ele era um homem de palavra. Se havia prometido a Sara uma visita à Cartier para compensar o colar de ônix que agora adornava o pescoço de Eduarda, ele cumpriria.

Sara estava em seu elemento. Trajada em um conjunto de alfaiataria branco que contrastava com sua pele bronzeada artificialmente, ela exalava uma confiança agressiva. Seus saltos agulha estalavam contra o chão de mármore da boutique de luxo, um som que parecia marcar território. Ela não caminhava; ela desfilava, fazendo questão de que cada atendente notasse o brilho de seu relógio cravejado e a curva acentuada de seu busto, realçada pelo decote estratégico.

— Quero algo que não deixe dúvidas sobre quem eu sou, Emanuel — disse Sara, deslizando os dedos por cima de uma vitrine de vidro temperado. — Nada daquelas coisinhas "minimalistas" e sem graça que você gosta de dar para a vizinha de quarto. Quero fogo, quero brilho.

Emanuel apenas assentiu, as mãos nos bolsos da calça de sarja escura. Ele observava a cena com o distanciamento de um mediador de conflitos internacionais. Para ele, o luxo era uma ferramenta, não um fim. Ele preferia a arte da tinta na pele, a permanência de um desenho bem executado, mas entendia que para Sara, a joia era um troféu de guerra.

— O senhor gostaria de ver a coleção Panthère? — perguntou a vendedora, com um sorriso treinado e impecável.

— Sim, a Panthère — Sara respondeu antes que Emanuel pudesse abrir a boca. — É a minha cara. Predadora, forte e cara.

Enquanto a vendedora buscava as bandejas de veludo, o olhar de Emanuel começou a vagar pela loja. Ele tentava se concentrar no desejo de Sara, mas sua mente de artista era traiçoeira. Seus olhos, acostumados a buscar simetria e significado, foram atraídos por uma vitrine lateral, quase escondida sob uma iluminação suave.

Lá, repousava uma pulseira de ouro rosa, tão fina quanto um fio de seda, com pequenos berloques que imitavam folhas de hera em miniatura. Era uma peça bucólica, quase tímida, mas de uma execução técnica primorosa.

Imediatamente, a imagem de Eduarda surgiu em sua mente. Ele a imaginou sentada na biblioteca da faculdade, com o cabelo caindo sobre o rosto enquanto estudava iconografia medieval, e como aquela pulseira brilharia discretamente toda vez que ela virasse uma página. Seria o complemento perfeito para a natureza suave dela.

Sem pensar, movido por um instinto de cuidado que já se tornara automático, Emanuel deu alguns passos em direção à vitrine isolada.

— Aquela peça ali... — murmurou Emanuel para um segundo atendente que se aproximou. — Poderia me mostrar?

— Com certeza, senhor. É uma edição limitada, inspirada nos jardins franceses do século XVIII. Uma joia muito delicada.

Emanuel pegou a pulseira. Ela era leve, quase imperceptível ao toque, exatamente como a presença de Eduarda na casa — silenciosa, mas onipresente em sua consciência. Ele sentiu um aperto no peito, uma mistura de culpa e carinho. Eduarda não exigia nada, ela apenas agradecia com abraços manhosos e olhares de adoração. Ele sentia que precisava recompensar essa "paz" que ela trazia, especialmente depois do massacre verbal que Sara havia desferido na noite anterior.

— Emanuel?

A voz de Sara não foi um chamado; foi um chicote.

Ele se virou e viu a loira parada no centro da loja, com um anel de diamante colossal em uma das mãos e uma expressão de pura fúria no rosto. Ela tinha visto. Ela tinha visto o olhar dele, o jeito como ele segurava a peça delicada, a ternura que ele não conseguia esconder quando pensava na "outra".

— O que é isso na sua mão? — Sara caminhou até ele, os olhos semicerrados, as narinas levemente dilatadas.

— É só uma peça que achei interessante, Sara — Emanuel tentou manter a voz neutra, mas o atendente, percebendo o clima, recuou um passo.

— Interessante para quem? — Ela arrancou a pulseira da mão dele com uma rapidez violenta. — Isso aqui não entra no meu pulso nem se eu cortasse a mão fora. É pequena, é ridícula... é a cara daquela sonsa!

— Sara, não comece um escândalo aqui dentro — Emanuel avisou, sua voz ficando mais baixa e perigosa. — Eu vim aqui para comprar o que você quisesse.

— Você veio aqui para me calar a boca com um anel enquanto o seu coração e o seu dinheiro continuam indo para aquela pirralha de vinte anos! — Sara gritou, ignorando completamente o protocolo da loja. — Você não consegue, não é? Você não consegue passar dez minutos comigo sem pensar em como proteger a "Dudinha".

— Ela não fez nada hoje, Sara. Estamos aqui por você.

— Mentira! — Ela jogou a pulseira de volta na bandeja com tanto desprezo que a joia ricocheteou no veludo. — Você está comprando o meu silêncio e o prêmio de consolação dela ao mesmo tempo. Você acha que eu sou burra? Eu sou formada em administração, Emanuel, eu sei ler as pessoas! Você dá o brilho para mim porque eu exijo, mas você dá a alma para ela porque ela te faz sentir como um herói de filme antigo.

Emanuel sentiu a têmpora latejar. O controle que ele tanto prezava estava escorrendo por seus dedos.

— Eu vou comprar o anel que você escolheu — disse ele, tentando encerrar o assunto. — E vou levar essa pulseira também. É um presente para ela. Ponto final.

O rosto de Sara ficou vermelho sob a base de alta cobertura. Ela soltou uma risada estridente, atraindo os olhares de outros clientes que fingiam não observar o drama.

— Se você comprar essa pulseira, Emanuel, eu juro por tudo o que é mais sagrado que eu vou quebrá-la no meio na frente dela! — Sara se aproximou, o hálito de menta e o perfume forte invadindo o espaço pessoal dele. — Eu não aceito ser dividida assim. Ou você é meu homem, ou você é o babá daquela esquisita. Escolha. Agora. Na frente de todo mundo.

Emanuel olhou para Sara. Viu a beleza exuberante, a força de vontade, a vulgaridade que às vezes o excitava e às vezes o enojava. Depois, olhou para a pulseira delicada na vitrine. Ele pensou em Eduarda chorando no sofá, no cheiro de baunilha da pele dela e em como ela nunca o faria passar por um vexame público como aquele.

— Eu não recebo ultimatos, Sara — Emanuel disse, a voz gélida como aço. — Principalmente de alguém cujas contas eu pago.

Ele se virou para a vendedora, que estava pálida atrás do balcão.

— Vou levar o anel de diamante que ela escolheu. E vou levar a pulseira de hera. Embrulhe para presente. Separadamente.

Sara ficou estática. O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que os gritos. Ela não esperava que ele a enfrentasse de forma tão direta. Sua tática de choque geralmente funcionava, mas Emanuel estava no seu limite.

— Você vai se arrepender disso — Sara sibilou, as lágrimas de raiva borrando levemente o rímel. — Você acha que ela é um anjo, mas ela vai te destruir com essa manha toda. E quando você perceber, eu não vou estar lá para administrar o estrago.

— Você vai para o carro — Emanuel ordenou, sem olhar para ela. — Agora. Ou eu cancelo a compra do anel e você volta de Uber.

Sara bufou, pegou sua bolsa de grife e saiu da loja como um furacão, batendo a porta de vidro com uma força que fez os cristais dos lustres tilintarem.

Emanuel suspirou, fechando os olhos por um segundo. Ele pagou as joias — uma pequena fortuna que não faria falta em suas contas, mas que pesava toneladas em sua consciência.

Quando chegou ao apartamento, o clima era de um campo de batalha após o cessar-fogo. Sara havia se trancado no quarto principal, e o som de música eletrônica alta saía de lá, indicando que ela estava em seu processo de "recuperação" através da fúria.

Eduarda estava na varanda, observando o pôr do sol. Ela usava um vestido de algodão branco e o colar de ônix que ele dera na noite anterior. Quando ouviu os passos dele, ela se virou, com um sorriso tímido e doce que parecia iluminar o ambiente.

— Você demorou, Manu... — ela disse, aproximando-se e envolvendo a cintura dele com os braços finos. — Eu fiz chá para você. Você parece tão cansado.

Emanuel sentiu a tensão deixar seus ombros por um momento. Ele tirou a pequena caixa da Cartier do bolso.

— Trouxe algo para você.

Os olhos de Eduarda brilharam. Ela abriu a caixa e soltou um arquejo de surpresa ao ver a pulseira de hera.

— É linda... parece que saiu de um livro de contos de fadas — ela sussurrou, estendendo o pulso para que ele a colocasse. — Por que você é tão bom para mim?

— Porque você é a única coisa que me acalma nesta casa, Duda — ele respondeu, beijando-lhe a testa.

Nesse momento, a porta do quarto principal se abriu com um estrondo. Sara apareceu no corredor, já usando o anel de diamante que brilhava como uma supernova em sua mão. Ela viu a cena: Emanuel prendendo a pulseira delicada no pulso de Eduarda, a proximidade física, o carinho evidente.

— Aproveite enquanto dura, sua sonsa — Sara disparou, encostada no batente da porta, com um sorriso cruel. — Ele só te deu essa porcaria de ouro rosa porque eu o fiz gastar dez vezes mais nesse diamante. Você é o resto, Eduarda. Você é o que sobra quando ele termina de me satisfazer.

Eduarda encolheu-se instantaneamente, os olhos se enchendo de lágrimas. Ela se apertou contra o peito de Emanuel, escondendo o rosto.

— Por que ela tem que ser assim? — Eduarda soluçou baixinho. — Eu não fiz nada... eu só queria ser feliz com você...

— Viu? — Sara apontou para ela, rindo. — Começou o show! A pequena órfã de luxo vai chorar de novo.

— Sara, chega! — Emanuel rugiu, sua voz ecoando por todo o apartamento. — Eu não vou falar de novo. Vá para o seu quarto e fique lá até aprender a se comportar como uma mulher adulta, e não como uma adolescente invejosa.

Sara parou de rir. O desprezo no olhar de Emanuel a atingiu mais do que qualquer grito. Ela deu as costas e bateu a porta novamente, mas desta vez, o som pareceu final.

Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ele a pegou no colo, sentindo como ela era leve, quase etérea, e a levou para o sofá.

— Não escute ela, meu amor — ele murmurou, acariciando o cabelo dela. — Eu estou aqui. Eu sempre vou te proteger.

Eduarda assentiu, limpando as lágrimas com as costas da mão, onde a pulseira de hera brilhava suavemente. Por cima do ombro de Emanuel, ela olhou para a porta fechada do quarto de Sara. Por um breve segundo, o brilho de fragilidade em seus olhos desapareceu, dando lugar a uma satisfação fria e calculista.

Ela sabia que tinha vencido mais uma rodada. Sara tinha o diamante, mas ela tinha a devoção de Emanuel. Ela tinha o controle emocional do homem que movia o mundo por ela.

— Manu? — ela chamou com a voz mais manhosa que conseguiu produzir.

— Sim, pequena?

— Você pode dormir comigo hoje? Eu estou com medo de ter pesadelos com os gritos dela...

Emanuel suspirou, sentindo o peso da responsabilidade e do cansaço. Ele sabia que Sara ficaria furiosa, que no dia seguinte haveria mais brigas, mais gastos e mais estresse. Mas, naquele momento, o calor de Eduarda era o único refúgio que ele conseguia aceitar.

— Durmo, Duda. Eu durmo com você.

Enquanto a levava para o quarto, Emanuel não viu Sara abrir uma fresta da porta, observando-os com um olhar que prometia vingança. O apartamento, com todo o seu luxo e suas joias de grife, não passava de uma gaiola dourada onde o amor era uma moeda de troca e a paz era apenas o intervalo entre duas guerras.

Emanuel era um mestre da tatuagem, capaz de criar beleza eterna na dor da agulha. Mas ali, entre a loira vulcânica e a morena manhosa, ele percebia que algumas feridas não podiam ser cobertas com tinta, e que o preço de ter tudo era, muitas vezes, não ter paz nenhuma.

Eduarda se aninhou nos lençóis de seda, a pulseira de ouro rosa tilintando contra a cabeceira da cama. Ela fechou os olhos com um sorriso vitorioso. Ouro rosa para a sensibilidade, diamantes para a vulgaridade. No fim, Emanuel pertencia a quem sabia chorar melhor. E Eduarda era uma artista completa.