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Duas

Reflexos de Vidro e Veneno

O brilho do sol da tarde entrava pelas janelas panorâmicas da cobertura, mas para Sara, nada parecia iluminado o suficiente. Ela estava parada à porta do quarto de Eduarda, observando a jovem de vinte anos organizar sua penteadeira. O colar de ônix gótico e a pulseira de ouro rosa com folhas de hera estavam dispostos sobre uma bandeja de cristal, reluzindo com uma elegância discreta que ofendia os sentidos de Sara. Para a loira, aquelas peças eram insultos silenciosos, lembretes de que a fragilidade de Eduarda tinha um preço que Emanuel estava disposto a pagar com devoção, enquanto a ela restava apenas o brilho frio dos diamantes que ela mesma tinha que exigir.

— Você acha que essas bijuterias finas te tornam especial, não é? — Sara disparou, encostada no batente, cruzando os braços de forma que o anel de diamante recém-adquirido captasse toda a luz possível. — São peças para quem quer se esconder, Eduarda. Você é como esse ouro rosa: pálida, sem graça e fácil de dobrar.

Eduarda não se virou de imediato. Ela terminou de ajeitar o colar com dedos trêmulos, um gesto que sabia que irritaria Sara por denotar sua suposta vulnerabilidade. Quando finalmente olhou para trás, seus olhos estavam úmidos, a expressão de uma corça acuada.

— Eu só gosto delas porque o Emanuel escolheu pensando em mim — sussurrou Eduarda, a voz carregada de uma doçura que parecia veneno nos ouvidos de Sara. — Não é sobre o valor, Sara. É sobre o que ele sente quando olha para elas... e para mim.

— Sente pena! — Sara deu um passo para dentro do quarto, o perfume forte e marcante atropelando o aroma suave de baunilha que Eduarda exalava. — Ele sente que você é um bichinho de estimação que precisa de proteção. Mas não se esqueça, quem administra a imagem dele, quem está nos eventos e quem realmente aguenta o tranco sou eu. Você é só uma distração de porcelana.

— Por favor, não comece... — Eduarda se encolheu, sentando-se na beira da cama e abraçando os próprios joelhos. — Minha cabeça já está doendo.

— A sua cabeça sempre dói quando a verdade aparece! — Sara soltou uma risada ríspida, seus olhos fixos nas joias sobre a mesa. Por um segundo, o ódio foi tão palpável que ela teve vontade de varrer tudo para o chão, mas o som de passos pesados no corredor a deteve.

Emanuel apareceu na porta, já trocado, usando uma camiseta de algodão cinza que marcava seus ombros largos e a postura sempre tensa. Ele olhou de uma para a outra, sentindo o ar rarefeito da disputa.

— Chega de discussões por hoje — sentenciou Emanuel, a voz grave cortando a tensão. — Temos compromisso. Vamos, as duas.

— Onde vamos, Manu? — Eduarda perguntou, levantando-se e caminhando até ele com passos miúdos, apoiando a mão em seu antebraço tatuado.

— Vocês duas reclamaram que a semana foi estressante. Vou levá-las ao centro de estética. Depilação, massagem, o que quiserem. Quero que relaxem para o jantar de hoje à noite.

Sara revirou os olhos, mas não recusou. Adorava ser mimada, e a ideia de Emanuel pagando por tratamentos caros era um bálsamo para seu ego ferido. Eduarda apenas assentiu, fazendo um biquinho manhoso enquanto se aninhava no ombro dele.

— Eu tenho a pele tão sensível, Manu... a cera sempre me deixa vermelha — reclamou a morena.

— Eu sei, Duda. Vou pedir para usarem aquela de algas que você gosta — Emanuel respondeu, passando a mão pelo cabelo dela, um gesto automático que fez Sara morder o lábio de raiva.

O trajeto até a clínica foi um exercício de paciência para Emanuel. No banco de trás do carro de luxo, o silêncio era pontuado pelos suspiros dramáticos de Sara e pelo som baixo da respiração de Eduarda. Ao chegarem à clínica de estética ultraexclusiva nos Jardins, o recepcionista os atendeu com a reverência dedicada aos clientes que movimentavam fortunas.

— Senhor Emanuel, que prazer — disse o homem. — As salas já estão preparadas.

Enquanto eram conduzidas para as salas de procedimento, Sara fazia questão de dar instruções em voz alta, exigindo os produtos mais caros e comentando sobre como sua pele precisava estar impecável para os eventos internacionais de Emanuel. Eduarda, por outro lado, entrou na sala quase pedindo desculpas por existir, mantendo sua aura de "menina-mulher" que precisava de cuidados especiais.

Emanuel ficou na sala de espera, mexendo no tablet, resolvendo problemas de um de seus estúdios em Londres. Ele só queria algumas horas de silêncio. Mas o destino, ou talvez o círculo social de um homem rico e influente, tinha outros planos.

A porta da clínica se abriu e um homem alto, de terno bem cortado, entrou acompanhado de uma mulher elegante, de aparência clássica e discreta.

— Emanuel? Não acredito! — exclamou o homem, aproximando-se com um sorriso largo.

Emanuel levantou-se, reconhecendo o velho amigo de negócios e colecionador de arte, Ricardo.

— Ricardo! Quanto tempo. O que faz por aqui?

— Acompanhando a Patrícia — Ricardo indicou a esposa, que cumprimentou Emanuel com um aceno elegante. — Viemos para um tratamento rápido antes de um evento. E você? Não me diga que o grande tatuador está fazendo limpeza de pele?

— Não — Emanuel riu levemente, embora o cansaço estivesse presente em seus olhos. — Estou com as minhas... companheiras.

Nesse exato momento, as portas das salas de procedimento se abriram simultaneamente. Sara saiu primeiro, exuberante, ajustando o decote e conferindo o brilho do anel. Logo atrás, Eduarda apareceu, parecendo um pouco zonza, com as bochechas levemente coradas e a pulseira de hera reluzindo no pulso delicado.

Ricardo e Patrícia olharam para as duas. O contraste era absoluto. Sara era o excesso, a provocação, a imagem que muitos associavam ao submundo do luxo e da exibição. Eduarda era a suavidade, a erudição silenciosa que transparecia em seus traços finos.

Ricardo, movido por uma percepção social muito específica, dirigiu-se imediatamente a Eduarda.

— Ah, Emanuel, você finalmente nos apresenta a sua esposa! — Ricardo disse, estendendo a mão para Eduarda com uma reverência genuína. — Patrícia tinha me dito que você tinha encontrado alguém que combinava com a sua sensibilidade artística, mas ela não mencionou que era uma jovem tão encantadora.

Eduarda arregalou os olhos, a surpresa estampada no rosto, mas não corrigiu o homem. Ela apenas deu um sorriso tímido, abaixando a cabeça de um jeito que parecia a personificação da modéstia.

— É um prazer conhecer os amigos do Emanuel — sussurrou Eduarda, sua voz soando como música clássica no ambiente refinado.

Patrícia aproximou-se, ignorando completamente Sara, que estava parada a dois passos de distância, com a boca entreaberta de choque.

— Querida, esse colar de ônix é uma peça magnífica — disse Patrícia, tocando levemente o braço de Eduarda. — É tão raro ver alguém tão jovem com um gosto tão apurado e clássico. Emanuel, você tem muita sorte. Ter uma mulher que traz essa paz e essa classe para a sua vida é o segredo do sucesso de qualquer homem.

O silêncio que se seguiu foi o prelúdio de um terremoto. Emanuel sentiu o suor frio descer por sua nuca. Ele conhecia Ricardo e Patrícia; eles eram da "velha guarda", valorizavam a discrição e a aparência de estabilidade. Para eles, Sara, com seus seios siliconados em evidência e sua maquiagem pesada, era no máximo uma assistente ou uma acompanhante de ocasião. Eduarda, com seu jeito de estudante de História da Arte e suas joias minimalistas, preenchia todos os requisitos do que eles consideravam uma "esposa de elite".

Sara sentiu o sangue ferver. A humilhação de ser invisível em um ambiente de luxo — o seu habitat natural — era insuportável.

— Esposa? — Sara explodiu, a voz subindo várias oitavas, quebrando a atmosfera de sofisticação da clínica. — Você só pode estar brincando! Essa garota mal saiu das fraldas e não sabe nem combinar as cores de um batom!

Ricardo e Patrícia deram um passo atrás, visivelmente desconfortáveis com a explosão vulgar.

— Sara, por favor... — Emanuel tentou intervir, colocando a mão no ombro dela, mas ela se esquivou bruscamente.

— "Sara, por favor" nada, Emanuel! — Ela apontou o dedo para o casal de amigos, que agora olhavam para ela com uma mistura de pena e desdém. — Eu sou a mulher que está com ele nos negócios! Eu sou a formada em administração! Essa aí é só uma parasita que vive de brisa e de joias que eu deixo ela ter!

Patrícia lançou um olhar rápido para Emanuel, um olhar que dizia tudo sem precisar de uma única palavra. Era um olhar de decepção, como se ele tivesse levado uma criatura selvagem para um jardim de chá.

— Emanuel, nós... nós temos um horário — Ricardo disse, a voz agora fria e formal. — Foi um prazer ver você. Com licença.

Eles saíram rapidamente, deixando para trás um vácuo de constrangimento. Eduarda, agindo com uma precisão cirúrgica em sua manha, começou a soluçar. Não era um choro alto, era aquele choro silencioso que fazia os ombros tremerem e o rosto parecer ainda mais angelical.

— Eles me acharam legal, Manu... e ela estragou tudo — Eduarda murmurou, escondendo o rosto nas mãos. — Eu me senti tão bem sendo tratada com respeito pela primeira vez... e a Sara me chamou de parasita na frente deles.

— Porque você É uma parasita! — Sara gritou, avançando para cima de Eduarda. — Você fica aí, com essa carinha de santa, deixando as pessoas pensarem que você é a senhora da casa! Você é uma farsa, Eduarda!

Emanuel perdeu o controle. Ele segurou Sara pelo braço com uma firmeza que a fez parar imediatamente. Seus olhos, geralmente serenos, estavam em chamas.

— Chega, Sara! Você passou de todos os limites! — Emanuel sibilou, a voz vibrando de ódio contido. — Você se comportou como uma pessoa vulgar, sem classe nenhuma. O Ricardo e a Patrícia são pessoas importantes, e você deu um show de baixo nível porque não aguenta ver a Eduarda ser elogiada.

— Eles a chamaram de esposa, Emanuel! — Sara gritou, lágrimas de frustração agora escorrendo por seu rosto. — E você não disse nada! Você deixou que eles pensassem que ela é a principal!

— E você queria que eu fizesse o quê? — Emanuel soltou o braço dela com desprezo. — Que eu desse uma aula sobre a nossa vida pessoal no meio de uma clínica? Eles tiraram as conclusões deles baseadas no comportamento de vocês. E olha só: a Eduarda foi educada, e você foi... você.

Eduarda aproveitou o momento para se aproximar de Emanuel, abraçando sua cintura e olhando para Sara com um olhar que, por trás das lágrimas, carregava um triunfo absoluto.

— Eu não queria que eles pensassem isso, Sara... eu juro — mentiu Eduarda, a voz doce e trêmula. — Mas eles foram tão gentis comigo. Eu só queria que você não me odiasse tanto.

— Eu te odeio com cada fibra do meu corpo! — Sara declarou, mas sua voz agora estava quebrada. Ela percebeu que, naquela tarde, o diamante em seu dedo não valia nada perto do status que Eduarda havia acabado de roubar dela sem esforço algum.

Emanuel suspirou, sentindo o peso do mundo em suas costas. Ele olhou para as duas mulheres — a loira que representava seu lado impulsivo e carnal, e a morena que representava a paz e a estética que ele tanto buscava.

— Vamos para casa — disse Emanuel, exausto. — O jantar está cancelado. Não tenho clima para levar ninguém a lugar nenhum.

— Mas Manu... — Eduarda começou, fazendo uma expressão de decepção infantil.

— Sem "mas", Eduarda. E Sara, se você abrir a boca para gritar mais uma vez hoje, eu juro que você vai passar a noite em um hotel.

O caminho de volta foi um funeral. Sara olhava pela janela, mordendo o lábio até quase sangrar, planejando como recuperaria seu território. Eduarda, encostada no ombro de Emanuel, brincava com a pulseira de hera, sentindo o metal frio contra a pele quente.

Ao chegarem na cobertura, Sara correu para o quarto e bateu a porta com tanta força que um dos quadros minimalistas no corredor entortou. Eduarda permaneceu na sala com Emanuel.

— Desculpe por hoje, Manu — ela disse, puxando-o para o sofá e começando a massagear seus ombros. — Eu sei que eu sou um peso às vezes.

— Você não é um peso, Duda — Emanuel fechou os olhos, entregando-se ao toque suave dela. — Você é só... diferente da Sara. Eu só queria que houvesse um jeito de vocês coexistirem sem que eu sinta que estou em uma zona de guerra.

— Talvez seja porque ela não aceita que você precisa de doçura também — Eduarda ronronou, beijando a nuca dele, exatamente onde uma de suas tatuagens terminava. — Eu nunca vou te dar esses sustos, Manu. Eu só quero que você se sinta em casa quando estiver comigo.

Emanuel a puxou para o seu colo, buscando naquele abraço o silêncio que o mundo lá fora — e Sara — lhe negavam. Ele sabia que a confusão na clínica teria repercussões em seu círculo social, que Ricardo e Patrícia comentariam sobre a "esposa adorável" e a "acompanhante histérica". Parte dele sentia que deveria defender Sara, mas a outra parte, a parte que estava cansada de batalhas, só queria se afogar na fragilidade planejada de Eduarda.

No quarto ao lado, Sara ouvia o silêncio da sala. Ela caminhou até o espelho e arrancou os cílios postiços com violência. Olhou para o anel de diamante e, pela primeira vez, ele pareceu pequeno. Ela percebeu que Eduarda não lutava com joias ou gritos; ela lutava com sombras e silêncios, moldando a percepção das pessoas até que Sara se tornasse a vilã de sua própria história.

— Isso não acabou — Sara sussurrou para o seu reflexo. — Se ela quer brincar de esposa, eu vou mostrar para ela o que acontece quando o império resolve revidar.

Mas, naquela noite, quem dormiu nos braços de Emanuel, adornada com ouro rosa e protegida por uma farsa de inocência, foi Eduarda. E enquanto o tatuador rico e poderoso mergulhava em um sono inquieto, ele mal percebia que a joia mais perigosa de sua coleção não era feita de diamantes ou ônix, mas sim de uma timidez que escondia uma vontade de ferro.