Duas
O Santuário de Tinta e a Flor de Lótus
O silêncio no estúdio privado de Emanuel era absoluto, quebrado apenas pelo zumbido quase imperceptível do purificador de ar e pelo som distante do trânsito de São Paulo, vinte andares abaixo. Emanuel estava sentado em sua mesa de desenho, a luz de LED focada em um esboço complexo, quando a porta se abriu.
Não era Sara, com seu caminhar ruidoso de saltos agulha e o perfume que anunciava sua chegada a quilômetros. Era Eduarda. Ela entrou como uma sombra suave, usando um vestido de seda branco perolado que deslizava por seu corpo esguio. Seus pés estavam descalços, e ela carregava aquela expressão de quem guardava um segredo precioso e perigoso.
— Manu... você está muito ocupado? — a voz dela era um fio de seda, carregada daquela manha que Emanuel já reconhecia como o prelúdio de um pedido extraordinário.
Emanuel largou a caneta digital e girou a cadeira, observando-a. Eduarda se aproximou e sentou-se no colo dele, entrelaçando os braços em seu pescoço. O cheiro de baunilha e pele limpa o atingiu, um contraste gritante com o ambiente de tinta e antisséptico do estúdio.
— Para você, nunca — disse ele, passando a mão pelo cabelo longo e escuro dela. — O que foi desta vez, Duda? Alguma joia nova que viu em algum catálogo de arte?
— Não é uma joia, Manu. — Ela escondeu o rosto no pescoço dele, dando um beijo leve logo acima da clavícula. — Eu estive pensando... você já tatuou o mundo inteiro. Mulheres famosas, modelos, homens poderosos. Mas você nunca marcou a minha pele.
Emanuel sorriu, surpreso. Ele sempre respeitara a pele imaculada de Eduarda. Para ele, ela era como uma tela de mármore renascentista que não precisava de adornos.
— Eu achei que você tivesse medo de agulhas, pequena. E sempre disse que sua pele era sagrada demais para ser riscada.
— E é sagrada. — Ela se afastou um pouco para olhar nos olhos dele, a expressão séria, mas com um brilho de determinação que ele raramente via. — Por isso eu quero que seja você. E quero que seja em um lugar que ninguém mais possa ver. Um lugar que pertença só a nós dois.
Emanuel arqueou uma sobrancelha, o interesse profissional e pessoal despertando simultaneamente.
— No quadril? Nas costelas?
Eduarda balançou a cabeça negativamente. Ela se inclinou e sussurrou no ouvido dele, a voz vibrando de uma forma que fez o sangue de Emanuel correr mais rápido.
— Eu quero... lá embaixo, Manu. Na minha intimidade. Bem no monte de Vênus, descendo para os lábios.
O tatuador ficou estático por um segundo. Ele já fizera tatuagens genitais em clientes diversas vezes, era um procedimento técnico como qualquer outro, mas a ideia de Eduarda — a sua Eduarda, tão tímida, tão reservada, tão "santa" aos olhos do mundo — querendo marcar justamente aquele santuário, o atingiu como um soco.
— Duda... você tem noção de como isso dói? — ele perguntou, a voz subitamente rouca. — É uma das áreas mais sensíveis do corpo. E a cicatrização é complicada.
— Eu sei — ela disse, fazendo um biquinho manhoso e acariciando a nuca dele. — Mas eu quero sentir a sua marca em mim. Quero que, toda vez que eu me olhar no espelho, ou toda vez que você estiver comigo, você saiba que aquela parte de mim foi desenhada por você. Por favor, Manu... faz uma flor de lótus? Bem delicada, em tons de cinza e lavanda?
Emanuel suspirou, fechando os olhos. Ele conseguia imaginar a cena. A pele claríssima de Eduarda contrastando com a delicadeza de uma lótus desabrochando. Era uma ideia de uma estética absurda e de um erotismo sufocante.
— Se a Sara descobrir isso, ela vai ter um colapso — comentou Emanuel, mais para si mesmo do que para ela.
— A Sara não precisa saber. — Eduarda sorriu, um sorriso pequeno e vitorioso. — Ela exibe o corpo dela para quem quiser ver. Eu quero que o meu segredo seja só seu. Só nós dois saberemos o que está escondido sob o meu vestido.
— Tudo bem — cedeu ele, incapaz de negar qualquer coisa àquela expressão suplicante. — Vou preparar o material. Mas se você sentir muita dor, nós paramos na hora.
— Eu aguento — prometeu ela, levantando-se e começando a desabotoar o vestido com uma lentidão calculada. — Por você, eu aguento tudo.
Emanuel preparou a bancada com a precisão de um cirurgião. Agulhas novas, tintas importadas, anestésico tópico de alta potência. Ele estava nervoso, algo que não sentia há anos. Tatuar a mulher que ele amava, em um lugar tão vulnerável, era um ato de intimidade que ultrapassava o sexo.
Eduarda deitou-se na maca de couro negro, o vestido subido até a cintura. Ela estava nua da cintura para baixo, as pernas entreabertas de forma hesitante, a respiração curta. Emanuel colocou as luvas de látex, o som do estalo do material ecoando no silêncio.
— Vou aplicar o anestésico primeiro — explicou ele, aproximando-se. — Vai demorar uns vinte minutos para fazer efeito.
Enquanto esperavam, o silêncio era preenchido pela tensão. Emanuel limpava a área com álcool e sabão cirúrgico, seus dedos tocando a pele de Eduarda com uma reverência quase religiosa. Ela fechou os olhos, as mãos agarradas às bordas da maca.
— Está tudo bem? — perguntou ele.
— Sim... só estou nervosa. Mas feliz.
Emanuel começou o decalque. O desenho era minúsculo e detalhado: uma flor de lótus entreaberta, com pétalas que pareciam flutuar sobre a pele. Ele posicionou o desenho com cuidado milimétrico.
Quando o zumbido da máquina de tatuagem começou, Eduarda deu um sobressalto.
— Calma, pequena. — Emanuel segurou a pele dela com firmeza, mas delicadeza. — Vou começar.
A primeira agulhada fez Eduarda soltar um gemido baixo, uma mistura de dor e uma estranha satisfação. Ela enterrou o rosto no travesseiro, as unhas cravando no couro da maca. Emanuel trabalhava com uma concentração absoluta. Cada traço era uma carícia de dor. Ele via as pequenas gotas de sangue brotarem na pele alva, limpando-as com cuidado antes que pudessem manchar o desenho.
O processo durou quase duas horas. Para Emanuel, foi a tatuagem mais difícil de sua carreira. Não pela técnica, que ele dominava como ninguém, mas pela carga emocional. Ele sentia cada tremor de Eduarda, cada respiração travada. Ele estava marcando sua posse, mas também sua devoção.
— Terminei, Duda. — Ele desligou a máquina, o silêncio voltando a reinar como um peso.
Eduarda respirou fundo, o corpo relaxando finalmente. Emanuel limpou a área uma última vez e aplicou uma camada de pomada cicatrizante.
— Quer ver? — ele perguntou, pegando um espelho de mão.
Eduarda se sentou devagar, o rosto pálido e suado, mas com um brilho de triunfo nos olhos. Ela pegou o espelho e olhou para baixo. Lá, adornando sua intimidade, estava a flor de lótus. Era perfeita. Parecia que sempre estivera ali, emergindo da pele como um segredo ancestral.
— É a coisa mais linda que eu já vi, Manu — ela sussurrou, as lágrimas finalmente caindo. — Obrigada. Agora eu sou sua por inteiro.
Emanuel a ajudou a se vestir e a sentar-se no sofá do estúdio. Ele estava exausto, a adrenalina baixando. Foi então que o som de passos pesados e decididos ecoou no corredor.
A porta foi aberta com um estrondo. Sara entrou, carregada de sacolas de compras, usando um vestido justo de oncinha e óculos escuros enormes.
— Que cheiro de hospital é esse aqui? — Sara disparou, jogando as sacolas no chão. — Emanuel, eu passei na joalheria e vi um par de brincos que...
Ela parou no meio da frase, os olhos fixos em Eduarda, que estava sentada de forma estranha, com as pernas um pouco afastadas, e em Emanuel, que ainda usava o avental de tatuador manchado.
— O que está acontecendo aqui? — Sara perguntou, a voz subindo de tom. — O que essa garota está fazendo no seu estúdio privado a essa hora? E por que você está com essa cara de quem acabou de fazer uma cirurgia cardíaca?
— A Eduarda decidiu fazer uma tatuagem, Sara — Emanuel disse, tentando manter a voz neutra enquanto guardava o material. — Foi só isso.
Sara soltou uma risada estridente, cruzando os braços sobre os seios siliconados.
— Uma tatuagem? A "boneca de porcelana" criou coragem? Deixe-me ver! Onde foi? Um coraçãozinho no pulso? Uma borboleta no tornozelo para combinar com o seu estilo infantil?
Eduarda olhou para Sara com uma serenidade que a loira não esperava. Ela se levantou devagar, sentindo o incômodo da área recém-tatuada, mas manteve a postura.
— Não é da sua conta, Sara — disse Eduarda, a voz suave, mas firme. — É algo privado. Entre o Emanuel e eu.
— Privado? — Sara deu um passo à frente, o perfume forte sufocando o ambiente. — Nada neste apartamento é privado para mim. Emanuel, mostre-me o que você fez nela. Eu quero ver se você não estragou a pele "perfeita" da sua protegida.
— Sara, chega — Emanuel interveio, colocando-se entre as duas. — A Eduarda tem direito à privacidade dela. Eu não vou mostrar nada.
— Ah, entendi! — Sara apontou o dedo para Eduarda, os olhos brilhando de fúria. — É em algum lugar escondido, não é? Algum lugar que você acha que vai te dar poder sobre ele. Você é tão previsível, Eduarda! Acha que um desenho na pele vai te tornar mais mulher?
— Eu não preciso provar nada para você, Sara — Eduarda disse, aproximando-se de Emanuel e segurando o braço dele. — O Manu sabe o que o desenho significa. E ele sabe por que eu escolhi o lugar que escolhi.
Sara bufou, a fúria lutando com a curiosidade. Ela olhou para Emanuel, buscando algum sinal de fraqueza, mas ele estava impenetrável.
— Você está gastando o seu talento com essa sonsa, Emanuel — Sara disse, pegando suas sacolas com violência. — Enquanto eu me esforço para manter a sua imagem, para estar nos melhores eventos, você fica aqui brincando de desenhar na "santinha". Espero que tenha valido a pena o tempo perdido.
— Valeu cada segundo — Emanuel respondeu, olhando nos olhos de Sara.
Sara saiu batendo a porta, o som ecoando pelo corredor como um trovão. Eduarda soltou um suspiro de alívio e encostou a cabeça no peito de Emanuel.
— Ela vai tentar descobrir — sussurrou Eduarda. — Ela vai revirar as minhas coisas, vai tentar me pegar no banho. Ela é obcecada pelo que eu tenho.
— Deixe que ela tente — Emanuel disse, beijando o topo da cabeça dela. — Ela nunca vai entender o que aconteceu aqui hoje.
— Manu... — Eduarda olhou para ele, os olhos brilhando com uma malícia que ela só mostrava entre quatro paredes. — Agora que você terminou o trabalho... você não quer ver como a lótus fica quando eu estou feliz?
Emanuel sentiu um arrepio. Ele sabia que Eduarda estava usando sua fragilidade e sua nova marca para prendê-lo ainda mais. E o pior era que funcionava.
— Você precisa descansar, Duda. A área está sensível.
— Só um pouquinho, Manu... — ela manhou, puxando-o em direção ao sofá. — Eu prometo que serei cuidadosa.
Naquela noite, enquanto Sara descontava sua raiva em compras online no quarto principal, Emanuel e Eduarda compartilhavam um silêncio cúmplice no estúdio. A flor de lótus, escondida sob a seda branca, era mais do que uma tatuagem; era um pacto.
Eduarda sabia que tinha vencido mais uma batalha. Sara tinha os diamantes, tinha o status público, tinha a voz alta. Mas ela, Eduarda, tinha a marca de Emanuel gravada em sua carne mais íntima. Ela tinha o segredo que o faria olhar para ela com uma mistura de culpa e desejo toda vez que estivessem em público.
Enquanto Emanuel a observava dormir mais tarde, ele não pôde deixar de pensar na ironia da situação. Ele, um homem que vivia de expor a arte na pele das pessoas, agora era o guardião do segredo mais bem guardado de sua própria vida.
A tatuagem de Eduarda era um lembrete constante de que, por trás da timidez e da manha, havia uma mulher que sabia exatamente como marcar seu território. E Emanuel, o mestre das agulhas, percebeu que, naquela tarde, quem realmente fora marcado não fora Eduarda, mas sim ele próprio, acorrentado por uma flor de lótus que ele mesmo criara.
No dia seguinte, Sara apareceu na sala usando um biquíni minúsculo e um robe transparente, desfilando sua perfeição plastificada como um desafio.
— Gostou do meu novo bronzeado, Manu? — ela perguntou, ignorando Eduarda, que lia um livro de arte no sofá.
— Está ótimo, Sara — ele respondeu, sem desviar os olhos do jornal.
Eduarda levantou os olhos do livro e sorriu para Sara. Um sorriso doce, calmo, quase piedoso.
— Você está linda, Sara — disse Eduarda. — O brilho do sol combina muito com você.
Sara franziu a testa, desconfiada da gentileza. Ela não sabia que, sob o vestido leve de Eduarda, a flor de lótus estava cicatrizando, um símbolo de uma intimidade que Sara, com toda a sua exuberância, jamais alcançaria.
A guerra na cobertura continuava, mas as armas haviam mudado. Sara lutava com o que era visível, com o brilho e o barulho. Eduarda lutava com as sombras, com o silêncio e com a tinta que agora fazia parte de seu ser. E Emanuel, no centro de tudo, percebia que seu apartamento se tornara um santuário de segredos, onde a pele escondia muito mais do que os olhos podiam ver.