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Duas

Véu de Ilusões e Promessas de Marfim

A viagem para a fazenda da família de Emanuel, no interior de Minas Gerais, deveria ser um refúgio de paz antes do casamento de seu primo, mas o ar pesado dentro do SUV de luxo indicava que a trégua era apenas uma fachada fina como papel. Emanuel dirigia em silêncio, as mãos firmes no volante, enquanto Sara, no banco do passageiro, retocava o batom vermelho vibrante pela décima vez, e Eduarda, no banco de trás, lia um livro de poesias, parecendo alheia ao mundo exterior.

Ao chegarem à propriedade colonial, a recepção foi calorosa. A família de Emanuel era tradicional, composta por mulheres de olhares aguçados e homens de poucas palavras. Para as tias e primas, Sara era uma visão exótica e um tanto alarmante — com suas curvas acentuadas pelo vestido justo e sua risada alta —, enquanto Eduarda, com seus vestidos fluidos e modos contidos, foi imediatamente adotada como a "queridinha".

— Ela tem um olhar tão doce, Emanuel — comentou a tia governante da família, Dona Margarida, enquanto observava Eduarda ajudar a colher flores para os arranjos. — É o tipo de moça que traz estabilidade para uma casa. Já a outra... bem, ela parece mais interessada no brilho das pratarias.

Emanuel apenas sorria, dividido. Ele amava a energia vulcânica de Sara, o jeito como ela o desafiava e a paixão desenfreada que compartilhavam, mas não podia negar que, nos jantares de família, era a presença silenciosa de Eduarda que o fazia relaxar.

Na manhã que antecedia a cerimônia, um imprevisto mudou o curso dos acontecimentos. A noiva, Beatriz, prima de Emanuel, teve uma crise alérgica súbita devido ao pólen das flores e precisou ser medicada, ficando de repouso absoluto. O problema era que a costureira francesa, trazida especialmente para os ajustes finais, precisava terminar o vestido naquela hora.

— Emanuel, por favor, peça para uma das meninas nos ajudar — implorou Beatriz, do quarto escuro. — O vestido precisa de um modelo com as minhas medidas exatas para que os últimos cristais sejam aplicados.

Emanuel reuniu as duas namoradas no ateliê improvisado na ala leste da fazenda. Sara cruzou os braços, olhando para o vestido de noiva — uma obra-prima de renda francesa e seda — com um misto de cobiça e desdém.

— Eu adoraria provar, mas meu busto nunca caberia nessa estrutura delicada — disse Sara, com um sorriso malicioso. — O silicone tem seu preço, não é?

— O corpo da Eduarda é quase idêntico ao da Beatriz — observou a costureira, ajustando os óculos. — Seria perfeito se ela pudesse vestir.

Eduarda hesitou, olhando para Emanuel com aqueles olhos grandes e hesitantes que sempre o desarmavam.

— Você se importa, Manu? É só para ajudar a Bia...

— Claro que não, Duda. Vá em frente.

Sara sentou-se em uma cadeira de veludo, observando com tédio enquanto Eduarda desaparecia atrás do biombo com a costureira e duas assistentes. Emanuel ficou parado perto da janela, observando a luz do sol filtrar-se pelas cortinas.

Dez minutos se passaram. O silêncio no ateliê era quebrado apenas pelo tilintar de agulhas e tesouras. Quando o biombo finalmente foi afastado, o tempo pareceu congelar para Emanuel.

Eduarda emergiu como se tivesse saído de um sonho de outra época. O vestido, de um branco marfim profundo, abraçava sua silhueta esguia com uma perfeição quase divina. A renda subia delicadamente pelo pescoço, e o véu, que a costureira insistira em colocar para testar o peso, caía sobre seus ombros como uma névoa. Ela não parecia mais a menina tímida e manhosa; havia uma aura de sacralidade e pureza nela que emanava de forma avassaladora.

Emanuel sentiu o ar escapar de seus pulmões. Ele já vira muitas mulheres bonitas, já vira Sara em lingeries caríssimas que o deixavam louco, mas nunca sentira aquele aperto específico no peito. Ver Eduarda vestida de noiva não despertava nele o desejo carnal imediato, mas sim uma necessidade visceral de proteção, de permanência. Ele visualizou, por um segundo terrível e maravilhoso, aquela imagem caminhando em sua direção em uma catedral, sob o olhar de aprovação de todo o seu mundo.

— O que achou, Manu? — Eduarda perguntou, a voz quase um sussurro, enquanto brincava com a barra da renda. — Ficou muito estranho em mim?

Emanuel demorou a responder. Ele deu um passo à frente, os olhos fixos nos dela.

— Você está... — ele parou, buscando a palavra. — Você está perfeita, Eduarda.

Sara, que até então mantinha uma expressão de indiferença, sentiu o golpe. Ela viu o olhar de Emanuel. Era um olhar que ele nunca dirigira a ela, nem mesmo nos momentos de maior luxo ou paixão. Era um olhar de reverência. Ela viu a forma como as mãos dele tremeram levemente ao tocar o tecido do véu.

— Bom, já chega de teatro, não é? — Sara levantou-se bruscamente, o som do salto batendo no assoalho de madeira como um tiro. — A costureira já viu o que precisava. Eduarda, tire isso antes que você suje de maquiagem.

— Só mais um minuto, por favor — pediu a costureira, concentrada em um ajuste na cintura. — Preciso marcar este ponto.

Emanuel continuou ali, hipnotizado. Ele não conseguia desviar o olhar. A fragilidade de Eduarda, que às vezes o irritava, agora parecia a coisa mais preciosa do mundo sob aquele tecido branco. Era como se o vestido tivesse revelado a verdadeira essência dela, e essa essência clamava por um compromisso que ele ainda não tivera coragem de assumir plenamente.

O clima durante o resto do dia foi de uma tensão elétrica. Eduarda, sentindo a mudança na energia de Emanuel, tornou-se ainda mais carinhosa, apoiando a cabeça em seu ombro e sussurrando como se sentira "estranha e pequena" dentro de um vestido tão importante. Sara, por outro lado, era uma bomba-relógio.

Assim que voltaram para o casarão onde estavam hospedados, a porta mal se fechou atrás deles quando Sara explodiu.

— Você acha que eu não vi, Emanuel? — ela gritou, jogando a bolsa de grife sobre a cama. — Você ficou babando por aquela sonsa! Parecia um idiota que nunca viu uma mulher de branco!

— Sara, pelo amor de Deus, ela estava apenas ajudando a minha prima — Emanuel respondeu, tentando manter a voz baixa para não atrair a atenção da família no corredor.

— Ajudando? Ela estava se exibindo! — Sara avançou para o centro do quarto, os olhos faiscando de uma raiva que beirava o desespero. — Ela sabe exatamente o que faz. Ela usa essa carinha de santa para te prender por um lado que eu não toco. Você olhou para ela como se ela fosse a solução de todos os seus problemas!

Eduarda apareceu na porta do quarto, com os olhos já cheios de lágrimas, apertando as mãos contra o peito.

— Eu não fiz por mal, Sara... eu juro. Eu nem queria vestir, mas a Beatriz precisava...

— Cala a boca, Eduarda! — Sara virou-se para ela, a voz carregada de veneno. — Você adorou. Adorou ver o jeito que ele te olhou. Você quer o pacote completo, não quer? O anel, a igreja, o nome dele. Você quer me transformar na "outra" enquanto você brinca de casinha com as tias dele!

— Isso não é verdade! — Eduarda soluçou, correndo para o lado de Emanuel e escondendo o rosto em seu braço. — Manu, diz para ela que eu não fiz por mal... eu estou com medo, ela está sendo tão agressiva...

Emanuel sentiu a pressão habitual. De um lado, a fúria legítima e ferocidade de Sara, a mulher que ele desejava e que administrava sua vida com mão de ferro. Do outro, a fragilidade de Eduarda, que parecia quebrar ao menor sinal de conflito. Mas, desta vez, a imagem de Eduarda no vestido de noiva flutuava entre eles, mudando o peso da balança.

— Sara, chega de escândalo — Emanuel disse, sua voz assumindo um tom de autoridade que raramente usava com ela. — O que eu senti hoje não foi nada planejado pela Eduarda. Foi uma reação minha. E se você não consegue lidar com o fato de que eu a vejo como uma mulher que pode estar ao meu lado em qualquer altar, talvez o problema seja a sua insegurança, não a manha dela.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Sara recuou um passo, o rosto empalidecendo por baixo da maquiagem perfeita.

— Você está dizendo que... que ela é a mulher para casar e eu sou a mulher para se ter nos estúdios? — Sara perguntou, a voz trêmula pela primeira vez.

— Eu estou dizendo que eu amo as duas de formas diferentes — Emanuel respondeu, sentindo o cansaço de uma vida dividida. — Mas hoje eu vi algo que eu não esperava ver. Eu vi um futuro que eu não tinha imaginado.

Sara soltou uma risada amarga, limpando uma lágrima solitária que ameaçava estragar seu rímel.

— Você é um covarde, Emanuel. Você quer o fogo e quer a paz, mas não tem coragem de escolher. Pois saiba que, se você decidir que ela é a "esposa", eu não vou ficar aqui para ser a sombra de ninguém.

Ela entrou no banheiro e bateu a porta com tanta força que um dos quadros na parede entortou.

Emanuel suspirou, sentando-se na beira da cama. Eduarda ajoelhou-se entre suas pernas, colocando as mãos pequenas sobre os joelhos dele, olhando-o com uma devoção que beirava a adoração.

— Você realmente gostou de me ver daquele jeito, Manu? — ela perguntou, a voz doce e manhosamente baixa.

Emanuel acariciou o rosto dela, sentindo a suavidade da pele.

— Eu nunca vi nada tão bonito em toda a minha vida, Duda.

— Eu faria qualquer coisa para te fazer feliz — ela sussurrou, aproximando o rosto do dele. — Eu não preciso de joias caras como a Sara. Eu só preciso saber que eu sou a sua escolha quando o sol nasce.

Emanuel a beijou, um beijo carregado de uma promessa silenciosa que ele ainda não sabia se conseguiria cumprir. No fundo, ele sabia que Sara tinha razão: ele era um homem dividido. Ele amava a vulgaridade inteligente e a força de Sara, a forma como ela o impulsionava para o mundo. Mas a visão de Eduarda de branco plantara uma semente de desejo por algo mais profundo, algo que o dinheiro e o sucesso não podiam comprar: a sensação de que ele pertencia a algum lugar sagrado.

Naquela noite, durante o jantar de ensaio, a dinâmica mudou drasticamente. As mulheres da família, percebendo o brilho nos olhos de Emanuel e a aura de vitória silenciosa de Eduarda, começaram a tratá-la abertamente como a futura integrante do clã. Sara, apesar de estar deslumbrante em um vestido vermelho, sentia-se como uma intrusa em uma peça de teatro onde todos já conheciam o final.

— Veja como eles combinam — comentou Dona Margarida para uma das primas, alta o suficiente para que Emanuel ouvisse. — Ele tem a força, ela tem a doçura. É o equilíbrio que o avô dele sempre dizia ser necessário para um casamento durar cem anos.

Emanuel olhou para Eduarda, que conversava timidamente sobre o significado iconográfico das flores no altar, e depois para Sara, que bebia vinho em silêncio, o olhar fixo no horizonte, como uma rainha exilada.

Ele sabia que a briga no quarto fora apenas o começo. O vestido de noiva fora o catalisador de uma verdade que ele tentava esconder de si mesmo: ele estava cansado da guerra constante. A manha de Eduarda, que antes parecia uma manipulação, agora parecia um refúgio. E a força de Sara, que antes era seu combustível, agora parecia um incêndio que ameaçava consumir tudo o que ele construíra.

— Manu? — Eduarda tocou sua mão por baixo da mesa. — Você está bem?

— Estou, Duda. Só estou pensando.

— No quê?

Emanuel olhou para o altar improvisado no jardim da fazenda, onde o primo se casaria no dia seguinte.

— Em como algumas imagens ficam gravadas na pele mais do que qualquer tatuagem — ele respondeu.

Sara levantou-se da mesa sem dizer uma palavra e caminhou em direção ao pomar. Emanuel fez menção de segui-la, mas Eduarda segurou seu braço com uma pressão suave, porém firme.

— Deixe ela, Manu. Ela precisa de um tempo para aceitar que nem tudo pode ser comprado com gritos ou diamantes. Fique aqui comigo. A noite está tão bonita.

Emanuel hesitou, olhando para a silhueta de Sara desaparecendo na escuridão e depois para o rosto iluminado de Eduarda. Ele sentou-se novamente.

Pela primeira vez em anos, o homem que controlava impérios de tinta e agulhas sentiu que não tinha controle nenhum sobre o próprio destino. Ele estava preso entre o marfim e o sangue, entre a paz que o acalmava e a fúria que o mantinha vivo. Mas, enquanto Eduarda encostava a cabeça em seu ombro, ele não pôde deixar de pensar que, se um dia tivesse que caminhar em direção a um altar, ele já sabia exatamente qual imagem estaria esperando por ele. E essa percepção, mais do que qualquer joia gótica ou anel de rubi, era o que realmente o assombrava.