Voltar ao resumo

Duas

Abismo de Luxo e Asfalto

O sol da manhã refletia intensamente nas superfícies de vidro e aço do tríplex, mas o clima dentro do apartamento permanecia gélido. Emanuel, ajustando o relógio de pulso enquanto conferia alguns e-mails em seu tablet, mal levantou os olhos quando as duas mulheres entraram na sala. Ele tinha uma reunião importante com investidores de uma nova unidade em Tóquio e precisava de paz, algo que parecia escasso naquela casa.

— Eu vou precisar que vocês duas resolvam as coisas hoje de forma civilizada — disse Emanuel, sua voz carregada de uma autoridade cansada. — O motorista teve um imprevisto familiar. Vou deixar a chave da SUV com você, Sara. Leve a Eduarda ao salão. Vocês duas têm aquele evento beneficente amanhã e eu quero ambas impecáveis. Sem brigas, sem escândalos. Estamos entendidos?

Sara, que terminava de retocar o batom vermelho vibrante diante do espelho do hall, deu um sorriso de lado, uma expressão que misturava triunfo e malícia. Ela adorava ter o controle, mesmo que fosse apenas o volante de um carro de luxo.

— Claro, querido. Vou cuidar muito bem da nossa bonequinha de porcelana — respondeu Sara, pegando as chaves da mão dele e lançando um olhar de soslaio para Eduarda.

Eduarda estava sentada na ponta do sofá, vestindo um vestido de linho azul-bebê que a fazia parecer ainda mais jovem e vulnerável. Ela apertava as mãos no colo, o semblante carregado de uma ansiedade que não tentava esconder.

— Emanuel... eu posso ir de aplicativo, não quero incomodar a Sara — murmurou Eduarda, a voz doce e levemente trêmula.

— Não seja boba, Duda — Emanuel interrompeu, aproximando-se e dando um beijo casto no topo da cabeça dela. — É um trajeto curto e o carro é seguro. Sara, eu estou falando sério. Juízo.

Assim que a porta do elevador privativo se fechou atrás de Emanuel, a máscara de Sara caiu. Ela se virou para Eduarda com um brilho predatório nos olhos.

— Vamos logo, "santinha". Não tenho o dia todo para esperar você criar coragem. Tenho que buscar a Paola e a Bianca no caminho.

O trajeto começou sob uma tensão palpável. Sara dirigia com uma agressividade desnecessária, enquanto as duas amigas que ela buscou no caminho, tão loiras e produzidas quanto ela, preenchiam o interior do veículo com risadas estridentes e fofocas ácidas. Eduarda estava espremida no banco de trás, ao lado de Bianca, tentando se tornar invisível enquanto segurava sua bolsa pequena contra o corpo.

— Ai, Sara, não acredito que o Emanuel ainda te faz carregar a "estagiária" de namorada para cima e para baixo — comentou Paola, soltando uma nuvem de perfume caro no ar. — Ela não tem pernas para andar sozinha?

— Ela tem é muita manha, isso sim — Sara respondeu, acelerando ao passar por um sinal amarelo. — Mas hoje a mamãe aqui vai ensinar uma lição de independência para ela.

Eduarda sentiu um frio na espinha. Ela olhou pela janela e percebeu que o caminho estava mudando. Elas não estavam mais nas avenidas arborizadas e seguras que levavam ao salão de luxo no Jardins. As ruas estavam se tornando estreitas, com calçadas quebradas, muros pichados e um movimento de pessoas que a fazia se encolher no banco.

— Sara... onde estamos indo? O salão não é por aqui — disse Eduarda, a voz falhando.

— Ah, eu esqueci de te avisar, Duda — Sara disse, reduzindo a velocidade em uma esquina deserta e sombria, onde alguns homens mal-encarados observavam o carro de luxo com curiosidade predatória. — O carro deu um problema. Um barulho estranho. Acho que você precisa descer para checar o pneu traseiro.

— O quê? Agora? Mas está estranho aqui fora... — Eduarda olhou para os lados, o coração disparado.

— Desce logo, Eduarda! Para de ser frouxa — ordenou Sara, destravando as portas.

Tremendo, Eduarda abriu a porta e colocou os pés no asfalto quente e sujo. Assim que ela fechou a porta para caminhar até a traseira do carro, o som do motor roncando alto ecoou pela rua estreita.

— Tchauzinho, Cinderela! Cuidado com os ratos! — gritou Sara, arrancando com o carro em alta velocidade.

As gargalhadas das três mulheres sumiram na distância, deixando apenas o silêncio ameaçador daquela vizinhança desconhecida. Eduarda ficou parada, paralisada pelo choque. Ela olhou ao redor e viu que estava em uma zona industrial decadente, longe de qualquer ponto de ônibus ou estação de metrô visível. Dois homens do outro lado da rua começaram a caminhar em sua direção, assobiando de forma desrespeitosa.

Lágrimas de puro terror começaram a rolar pelo rosto de Eduarda. Ela tateou a bolsa e, com as mãos suando frio, pegou o celular.

Dez minutos depois, Sara deu a volta no quarteirão, rindo tanto que seus olhos chegavam a lacrimejar.

— Gente, a cara dela! Vocês viram a cara dela? — Sara dizia, batendo no volante. — Vamos voltar lá, só para ver ela chorando mais um pouco antes de levarmos a coitada para o salão.

No entanto, quando a SUV retornou ao ponto exato onde haviam deixado Eduarda, a calçada estava vazia. Sara franziu o cenho, diminuindo a velocidade.

— Ué... onde ela se meteu? — perguntou Bianca, olhando em volta.

— Deve ter entrado em algum bueiro para se esconder — debochou Paola. — Relaxa, Sara, ela deve ter caminhado até a avenida principal. Aquela ali é esperta para se fazer de vítima, mas não é burra.

Sara deu de ombros, sentindo uma leve pontada de irritação, mas não de culpa.

— Que se dane. Se ela pegou um ônibus ou um táxi, o problema é dela. Vamos para o salão, não vou estragar meu dia por causa daquela sonsa.

Enquanto isso, no escritório da matriz, o celular de Emanuel vibrou intensamente sobre a mesa de carvalho. Ele franziu o cenho ao ver o nome de Eduarda na tela. Ela raramente ligava durante o horário de trabalho, preferindo enviar mensagens curtas e carinhosas.

— Oi, Duda, eu estou em reunião, pode ser depoi...

— Emanuel! Por favor... por favor, me tira daqui! — O grito de desespero do outro lado da linha fez o sangue de Emanuel congelar.

O som de soluços convulsivos e respiração ofegante preenchia a ligação. Emanuel levantou-se abruptamente, ignorando os olhares confusos dos sócios à mesa.

— Eduarda? Onde você está? O que aconteceu? — Sua voz agora era um trovão contido, a calma profissional desmoronando em puro instinto de proteção.

— A Sara... ela me deixou... ela me expulsou do carro em um lugar horrível, Emanuel. Tem uns homens me seguindo... eu me escondi atrás de uns latões de lixo num galpão... eu estou com tanto medo! — O choro dela era de uma criança aterrorizada.

— Me manda sua localização agora! Não desliga o telefone, Eduarda! Fica na linha comigo! — Emanuel já estava saindo da sala, quase derrubando a secretária no corredor. — Se alguém encostar em você, eu juro que... Duda, respira. Eu estou indo.

O trajeto que levaria quarenta minutos foi feito por Emanuel em quinze. Ele dirigia seu próprio carro como se estivesse em uma pista de corrida, a mente em um estado de fúria fria que era muito mais perigosa do que qualquer explosão de raiva. Quando ele finalmente avistou a figura frágil de Eduarda, encolhida em um canto sujo, com o vestido manchado e os olhos inchados de tanto chorar, algo dentro dele se partiu — e depois se reconstruiu em forma de vingança.

Ele a pegou nos braços, sentindo-a tremer violentamente contra seu peito.

— Está tudo bem, meu amor. Eu estou aqui. Ninguém vai te tocar — ele sussurrou, a voz rouca, enquanto a acomodava no banco do passageiro com uma delicadeza extrema.

— Ela riu, Emanuel... elas riram de mim — Eduarda soluçava, agarrando-se à mão dele como se sua vida dependesse disso.

Emanuel não disse nada. Ele apenas apertou o volante até que os nós de seus dedos ficassem brancos. Ele a levou para casa, chamou uma enfermeira particular para dar um calmante a ela e garantiu que Eduarda estivesse dormindo profundamente antes de descer para a sala.

Duas horas depois, o som da porta se abrindo anunciou a chegada de Sara. Ela entrou saltitante, sacolas de marcas de luxo penduradas nos braços, o cabelo loiro perfeitamente escovado e um sorriso radiante no rosto.

— Emanuel! Você não acredita no dia maravilhoso que eu tive! O cabeleireiro fez um milagre e...

Ela parou de falar assim que viu a expressão no rosto dele. Emanuel estava sentado na poltrona individual, na penumbra, segurando uma taça de uísque que ele não bebia. O olhar que ele lançou a ela era o mesmo que ele usava para descartar um projeto de tatuagem malfeito: frio, definitivo e sem misericórdia.

— Onde está a Eduarda? — perguntou Sara, tentando manter o tom casual, embora o suor começasse a brotar em sua nuca. — Ela deve ter chegado, não? Aquela menina é um drama ambulante, aposto que te ligou chorando porque teve que andar dois quarteirões.

— Ela está lá em cima, sedada — disse Emanuel, sua voz baixa e vibrante de ódio. — Ela estava em um setor industrial, Sara. Cercada por pessoas que não teriam a menor piedade dela.

— Ah, menos, Emanuel! Foi só uma brincadeira para ela deixar de ser tão mimada — Sara deu de ombros, caminhando em direção ao bar. — Ela precisa aprender a viver no mundo real.

— O mundo real é um lugar cruel, Sara. E você acabou de descobrir que ele pode ser muito cruel para você também.

Sara parou, com a mão na garrafa.

— Do que você está falando?

— Eu acabei de ligar para o banco — começou Emanuel, levantando-se lentamente e caminhando em direção a ela. — Todos os seus cartões de crédito foram cancelados. A conta conjunta que eu mantinha para suas "despesas de administração" foi encerrada.

O rosto de Sara empalideceu instantaneamente.

— Você o quê? Emanuel, você não pode fazer isso! Como eu vou pagar as minhas coisas?

— Você não vai. A SUV que você dirigiu hoje? Já mandei o guincho buscar no salão. Ela vai ser vendida amanhã. Suas joias, as que eu comprei? Estão todas em um cofre no meu escritório agora. Eu as peguei enquanto você estava fora.

— Você enlouqueceu por causa daquela sonsa? — Sara gritou, a voz subindo de tom, a vulgaridade transparecendo em cada gesto. — Eu sou sua mulher! Eu estou com você desde o começo! Você não pode me deixar sem nada!

— Eu posso. E eu vou — Emanuel parou a poucos centímetros dela, sua presença física emanando uma pressão insuportável. — Você gosta de poder, Sara. Você gosta de se sentir superior porque tem dinheiro no bolso e um carro caro. Pois bem. A partir de hoje, você não tem um centavo que não venha do seu próprio esforço. E como você mesma disse que não precisa trabalhar porque é "dona do caos", vamos ver como você administra a sua vida sem o meu suporte.

— Emanuel, por favor... — Sara tentou mudar de tática, aproximando-se e tentando tocar o braço dele, as lágrimas agora sendo reais, fruto do desespero financeiro. — Eu sinto muito, foi uma brincadeira idiota, eu perdi a mão... eu peço desculpas para ela, eu me ajoelho se você quiser!

Emanuel afastou o braço com nojo.

— Suas desculpas são tão falsas quanto o seu caráter. Você colocou a vida de uma pessoa que eu amo em risco por puro sadismo. Você queria que ela visse como o mundo é perigoso? Pois eu vou te mostrar como o mundo é frio quando você não tem ninguém para pagar suas contas.

— Você vai me expulsar? — ela perguntou, a voz falhando.

— Não. Você pode ficar no quarto de hóspedes do andar de baixo. Mas não haverá mais jantares caros, não haverá motorista, não haverá salão. E se eu ouvir você dirigir uma única palavra ofensiva à Eduarda, eu te coloco na rua com a roupa do corpo e nada mais.

Sara caiu sentada no sofá, as sacolas de compras agora parecendo lixo ao seu redor. Ela olhou para Emanuel e viu que não havia caminho de volta. O homem prático e racional havia tomado uma decisão lógica: ela era um ativo tóxico, e ele estava cortando os investimentos.

Nesse momento, Eduarda apareceu no topo da escada. Ela vestia uma camisola de seda branca, parecendo um anjo pálido e frágil. Ela olhou para baixo, viu Sara destruída no sofá e Emanuel protegendo a base da escada como um sentinela.

Um observador comum veria apenas uma menina assustada buscando conforto. Mas Sara, em meio à sua ruína, captou o exato momento em que os olhos de Eduarda encontraram os seus. Não havia medo ali. Havia um brilho gélido de satisfação, um sorriso quase imperceptível que dizia, sem palavras: "Eu ganhei".

Eduarda desceu os degraus lentamente e se aninhou no abraço de Emanuel, que a acolheu instantaneamente, escondendo o rosto dela em seu pescoço.

— Está tudo bem agora, Duda — Emanuel murmurou, beijando sua têmpora. — Ela nunca mais vai te machucar.

— Obrigada, Emanuel... — Eduarda sussurrou, a voz manhosa e doce. — Eu sabia que você me salvaria.

Sara assistia à cena, sentindo um gosto amargo de bile na garganta. Ela percebeu, tarde demais, que enquanto ela usava gritos e ataques diretos como armas, Eduarda usava o próprio Emanuel como um escudo e uma espada. E, naquela guerra de sombras, a "vulgar" tinha sido desarmada pela "santa" da forma mais dolorosa possível.

Emanuel subiu as escadas carregando Eduarda no colo, deixando Sara sozinha na sala luxuosa que agora parecia uma prisão de mármore, cercada pelo silêncio de sua própria derrota.