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Duas

Ouro, Vidro e Veneno

O ar no tríplex de Emanuel era uma substância espessa, quase sólida, que se acumulava nos cantos das salas de estar e nos corredores de mármore. Três meses haviam se passado desde o incidente no setor industrial, e a dinâmica da casa havia se transformado em um jogo de xadrez psicológico onde cada movimento era calculado.

Emanuel, sentado em seu escritório doméstico, observava as planilhas de faturamento de seu novo estúdio em Tóquio. Ele havia devolvido os cartões a Sara há duas semanas. O silêncio dela, embora carregado de rancor, fora o preço que ele exigira pela retomada da vida de luxo. Ele era um homem de negócios; entendia de perdas e danos. Sara era uma peça vibrante demais para ser descartada sem deixar um buraco, mas Eduarda... Eduarda era o bálsamo que impedia que ele enlouquecesse com a pressão de seu império de tinta.

— Aqui está o seu café, Emanuel. Do jeito que você gosta, com aquele toque de canela. — A voz de Eduarda surgiu suave, como uma brisa que não pede licença.

Ela se aproximou, deslizando pelo tapete persa com a leveza de quem não pesa no mundo. O vestido de algodão branco, com rendas delicadas, contrastava com a pele alva. Ela pousou a xícara na mesa e, com um gesto natural, começou a massagear os ombros tensos do tatuador.

— Obrigado, Duda. Eu precisava disso — Emanuel fechou os olhos por um momento, entregando-se ao toque macio.

— Você trabalha demais — ela murmurou, inclinando-se para roçar o rosto no dele. — Eu estava pensando... hoje é o jantar da galeria, não é? Eu queria usar algo especial. Aquela gargantilha de safira que você me deu no mês passado... não consigo encontrá-la.

Emanuel abriu os olhos, a testa franzindo levemente.

— Eu vi a caixa no seu closet ontem, Duda. Procure com calma.

— Eu procurei, querido... — Ela suspirou, um som pequeno e triste. — Mas o closet da Sara estava aberto quando passei. Eu vi algo brilhando na penteadeira dela. Parecia muito com a minha joia.

O corpo de Emanuel enrijeceu instantaneamente. Ele conhecia aquele tom de voz de Eduarda — era o prelúdio de uma tempestade que ela jurava não querer causar. Antes que ele pudesse responder, o som de saltos agulha batendo com fúria contra o piso de porcelanato anunciou a chegada da terceira ponta daquele triângulo desgastado.

Sara entrou na sala como uma explosão de cores e arrogância. Vestia um conjunto de seda verde-esmeralda que abraçava suas curvas cirurgicamente perfeitas. O cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto e impecável, e seus olhos faiscavam.

— Se você vai me acusar de roubo, sua sonsa, tenha a decência de fazer isso na minha cara! — Sara gritou, parando no meio do escritório e jogando uma pequena caixa de veludo sobre a mesa de carvalho de Emanuel.

O impacto fez a xícara de café tremer. Eduarda recuou um passo, os olhos grandes enchendo-se de lágrimas instantâneas, as mãos voando para o peito como se tivesse sido fisicamente agredida.

— Eu não... eu só perguntei ao Emanuel... — Eduarda soluçou, escondendo-se atrás da poltrona dele.

— Você perguntou "plantando a sementinha", como sempre faz! — Sara se virou para Emanuel, as veias do pescoço saltando. — Eu encontrei essa porcaria de gargantilha caída no corredor, Emanuel! Provavelmente essa tonta deixou cair porque não consegue nem carregar o peso do próprio corpo, quanto mais de uma joia de verdade. E agora ela está insinuando que eu peguei? Eu tenho diamantes que valem três vezes essa safira de segunda categoria!

Emanuel levantou-se, sua estatura imponente projetando uma sombra sobre as duas. O rosto dele era uma máscara de gelo.

— Sara, abaixe o tom. Agora.

— Não abaixo! — Sara deu um passo à frente, desafiando a autoridade dele. — Eu cumpri todas as suas regras ridículas. Fiquei trancada naquele quarto de hóspedes como uma prisioneira, usei o dinheiro contado que você me dava como se eu fosse uma adolescente recebendo mesada. E agora que você me devolve o que é meu por direito, tenho que aguentar a "Mártir da História da Arte" me chamando de ladra?

— Eu não te chamei de nada, Sara... — Eduarda disse, a voz trêmula, saindo de trás de Emanuel. — Eu só disse que vi na sua penteadeira. Por que você pegou do chão e não me devolveu na hora? Por que guardou no seu quarto?

Sara soltou uma risada estridente, carregada de veneno.

— Porque eu queria ver até onde ia o seu teatro! Eu sabia que você correria para o "papai" Emanuel para chorar e dizer que a loira má roubou seu brinquedinho. Você é previsível, Eduarda. Você é básica.

— Chega! — O grito de Emanuel ecoou pelas paredes, silenciando o ambiente por um segundo. Ele pegou a caixa de veludo e a guardou na gaveta da mesa, trancando-a. — Ninguém vai usar safira nenhuma hoje.

— Mas Emanuel... o jantar... — Eduarda começou, aproximando-se dele e segurando seu braço com os dedos finos. — Eu queria estar bonita para você.

— Você já é bonita, Duda. Mas eu não aguento mais ser o juiz de paz dessa casa — ele disse, a voz cansada, mas firme. — Sara, eu te avisei. Eu devolvi seus cartões e sua liberdade sob a condição de que haveria paz.

— Paz? Como pode haver paz com uma manipuladora que usa o silêncio como arma? — Sara apontou o dedo para Eduarda. — Olha para ela! Agora ela vai fazer aquele biquinho, vai dizer que está com dor de cabeça e você vai passar a noite inteira mimando ela enquanto eu sou a vilã. Eu estou cansada de ser a única que fala a verdade aqui!

— A sua verdade é sempre agressiva, Sara — Emanuel retrucou, estreitando os olhos. — Você é vulgar quando grita. Você perde a razão no momento em que abre a boca para ofender.

— E ela? — Sara riu, as lágrimas de raiva começando a borrar sua maquiagem cara. — Ela é o quê? Ela é a coitadinha que estuda quadros velhos e não sabe como funciona o mundo real? Ela sabe muito bem como funciona o seu mundo, Emanuel. Ela sabe que você tem esse complexo de herói e ela se faz de vítima para você se sentir o máximo. Ela te enrola com esse jeito manhoso e você, que se acha o mestre do controle, é o maior fantoche que eu já vi.

Eduarda começou a chorar de forma mais intensa, um choro silencioso que fazia seus ombros tremerem ritmicamente. Ela se sentou no sofá de couro, encolhendo as pernas, parecendo uma criança perdida em um castelo.

— Por favor... parem de brigar... — ela murmurou entre os soluços. — Sara, pode ficar com a gargantilha. Se ela te faz feliz, eu não me importo. Eu só quero que o Emanuel não fique triste.

Sara quase avançou sobre ela, mas o olhar de Emanuel a deteve.

— Viu só? — Sara disse, a voz agora num sussurro furioso. — "Pode ficar com a gargantilha". Ela é tão generosa, não é? Ela é tão santa! Ela acaba de te dar o xeque-mate, Emanuel. Ela se colocou na posição de sacrifício e me colocou na posição de agressora gananciosa. E você vai cair nisso. De novo.

Emanuel olhou de uma para a outra. A lógica de sua mente racional tentava processar o conflito. Ele via a agressividade de Sara — física, vocal, estética. Era um ataque frontal. E via a passividade de Eduarda — emocional, sutil, envolvente. Era uma guerra de desgaste.

— Sara, saia do meu escritório — Emanuel ordenou, sua voz voltando ao tom baixo e perigoso. — Vá para o seu quarto e só saia de lá quando estiver pronta para o jantar. Se você abrir a boca para provocar a Eduarda mais uma vez hoje, eu juro pela minha carreira que você dorme na rua. E eu não estou blefando.

Sara encarou-o por longos segundos. O ódio em seus olhos era palpável, mas o medo de perder a vida de privilégios que ela tanto prezava falou mais alto. Ela limpou o rosto com as costas da mão, um gesto brusco que desfez parte de sua imagem perfeita.

— Você vai se arrepender, Emanuel — ela disse, a voz carregada de uma promessa sombria. — Um dia, essa bonequinha vai quebrar, e você vai perceber que o que tem dentro dela é muito mais podre do que qualquer coisa que eu já tenha dito.

Ela saiu batendo a porta com tanta força que um dos quadros na parede se inclinou.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Emanuel soltou um suspiro longo, passando as mãos pelo rosto, sentindo o peso dos seus 25 anos parecerem 50. Ele sentiu um movimento ao seu lado. Eduarda havia se levantado e agora o abraçava por trás, envolvendo sua cintura e apoiando a cabeça em suas costas.

— Desculpa, Emanuel... — ela sussurrou, a voz ainda embargada. — Eu não queria que isso acontecesse. Eu devia ter ficado quieta sobre a joia.

— Não, Duda. Você tem direito às suas coisas — ele se virou no abraço, segurando o rosto dela entre as mãos. — Mas eu não aguento mais esse clima. Eu trabalho o dia inteiro lidando com egos, com clientes difíceis, com prazos. Eu venho para casa para ter paz.

— Eu vou te dar paz — ela prometeu, os olhos brilhando com uma devoção que chegava a ser desconcertante. — Eu vou preparar um banho para você. Esqueça a Sara. Ela é infeliz porque não sabe amar como eu amo você.

Emanuel forçou um sorriso e a beijou na testa. Enquanto ela subia as escadas para preparar o banho, ele voltou para sua mesa e abriu a gaveta. Pegou a gargantilha de safira. O metal estava frio contra sua palma. Ele a observou sob a luz do abajur. Era uma peça linda, delicada.

Ele pensou na acusação de Sara. "Ela sabe que você tem esse complexo de herói".

Emanuel era um homem que construiu seu império do nada. Ele gostava de ter o controle sobre a dor — afinal, a tatuagem era exatamente isso: transformar dor em arte sob seu comando. No estúdio, ele era o mestre. Em casa, ele percebia que estava sendo a tela. Sara o riscava com linhas grossas e cores berrantes, sem medo de errar. Eduarda o tatuava com agulhas finas, quase imperceptíveis, mudando sua percepção pouco a pouco, sombra por sombra.

Ele guardou a joia novamente.

Horas depois, o jantar da galeria transcorreu sob uma polidez armada. Sara estava deslumbrante em um vestido preto justo, mantendo um silêncio gélido, bebendo taças de champanhe uma atrás da outra. Eduarda estava ao lado de Emanuel, usando um vestido rosa pálido, conversando docemente com os curadores sobre a influência do Renascimento na arte moderna. O pessoal da galeria, assim como o pessoal do estúdio, estava encantado com ela.

— Ela é uma joia, Emanuel — comentou um dos investidores, observando Eduarda de longe. — Tão autêntica, tão pura. É raro encontrar alguém assim hoje em dia.

Emanuel assentiu, mas seu olhar desviou para Sara, que estava no canto da sala, cercada por alguns fotógrafos, rindo de forma um pouco alta demais, o brilho do silicone e das joias chamando a atenção de forma quase desesperada.

No caminho de volta para casa, dentro do carro blindado, o silêncio era absoluto. Emanuel dirigia, Eduarda segurava sua mão no console central, e Sara olhava fixamente para a janela, o reflexo das luzes da cidade dançando em seu rosto amargo.

Ao chegarem ao tríplex, Sara desceu primeiro e subiu as escadas sem dizer uma palavra. Eduarda esperou que ela sumisse de vista para se aproximar de Emanuel.

— Eu acho que ela está planejando algo, Emanuel... — Eduarda disse em um sussurro, enquanto eles entravam no elevador. — O jeito que ela me olhou no jantar... eu estou com medo.

— Não tenha medo, Duda. Eu já disse que ela não vai te tocar.

— Mas e se ela tentar me afastar de você? — Eduarda se aproximou, pressionando seu corpo contra o dele no espaço confinado do elevador. — Eu não sei o que faria se te perdesse. Eu não tenho ninguém além de você.

Emanuel a abraçou, sentindo a fragilidade dela. Era um peso reconfortante, uma responsabilidade que o fazia se sentir necessário, sólido.

No entanto, quando entraram no andar superior, encontraram a porta do quarto de Eduarda aberta. Sara estava parada no meio do quarto, segurando um frasco de perfume caro de Eduarda.

— O que você está fazendo aqui, Sara? — Emanuel perguntou, sua voz carregada de uma paciência que estava prestes a se esgotar.

Sara se virou lentamente. Ela não estava gritando agora. Seus olhos estavam vermelhos, mas sua voz estava estranhamente calma.

— Eu só vim ver se a "santinha" tinha mais alguma coisa minha escondida aqui. Sabe, Emanuel, eu comecei a pensar... como a minha gargantilha foi parar no chão do corredor se eu nem saí do meu quarto ontem à noite?

Eduarda empalideceu, apertando o braço de Emanuel.

— Eu já disse... eu não sei...

— Mas eu sei — Sara deu um passo à frente, soltando o frasco de perfume na cama. — Eu chequei as câmeras do corredor, Emanuel. Aquelas que você instalou depois que fomos assaltados no ano passado. Lembra? Você esqueceu de tirar o acesso do meu iPad.

O coração de Emanuel deu um salto descompassado. Ele olhou para Eduarda, que permanecia imóvel, os olhos fixos no chão.

— E o que as câmeras mostram, Sara? — Emanuel perguntou, o tom de voz mudando para algo mais sombrio.

— Mostram a Eduarda saindo do quarto dela às duas da manhã, indo até a minha penteadeira — Sara sorriu, um sorriso sem alegria, cheio de uma satisfação amarga. — Mostram ela pegando a gargantilha, caminhando até o corredor e deixando-a cair propositalmente perto da porta do escritório. Tudo para que, de manhã, ela pudesse fazer aquele teatrinho de "ai, Emanuel, acho que a Sara me roubou".

O silêncio que se seguiu foi o mais profundo que o apartamento já conhecera. Emanuel soltou lentamente o braço de Eduarda. Ele se virou para ela, buscando em seu rosto doce qualquer sinal de negação.

Eduarda não negou. Ela não chorou. Ela apenas levantou o rosto, e a expressão de timidez e fragilidade havia desaparecido, substituída por uma calma gélida e calculista.

— Ela me odeia, Emanuel — Eduarda disse, sua voz agora firme, sem o tom manhoso de costume. — Eu só queria que você visse o que eu sinto todos os dias. Eu queria que você a tirasse daqui de uma vez por todas. Ela é um ruído na nossa vida. Ela estraga tudo o que temos.

Emanuel sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. A revelação não era apenas sobre a mentira, mas sobre a profundidade da manipulação.

— Você mentiu para mim — Emanuel disse, a voz rouca. — Você me fez punir a Sara por algo que você planejou.

— Eu fiz por nós! — Eduarda deu um passo em direção a ele, tentando segurar suas mãos. — Ela é vulgar, Emanuel! Ela é barulhenta! Você mesmo diz que ela te estressa. Eu só te dei o motivo que você precisava para se livrar dela sem culpa.

Sara soltou uma risada curta, sentando-se na beirada da cama de Eduarda.

— E aí, "herói"? O que você vai fazer agora? A "vulgar" aqui disse a verdade, e a sua "bonequinha de porcelana" é quem estava puxando as cordas o tempo todo.

Emanuel olhou para as duas. Sara, com sua agressividade honesta e ferida. Eduarda, com sua sensibilidade estratégica e perigosa. Ele percebeu que estava preso entre dois tipos diferentes de veneno. Um queimava a pele instantaneamente; o outro paralisava o coração aos poucos.

Ele caminhou até a porta e parou, olhando para o corredor luxuoso que agora parecia um labirinto de espelhos distorcidos.

— Saiam as duas do quarto — Emanuel ordenou, sem olhar para trás. — Eu vou dormir no escritório. E amanhã... amanhã nós vamos decidir como essa casa vai funcionar. Ou se ela vai continuar existindo.

Ele saiu, deixando as duas mulheres sozinhas no quarto. Sara e Eduarda se encararam. Não havia mais máscaras. A guerra havia mudado de nível. Sara tinha a verdade, mas Eduarda ainda tinha a pele de Emanuel sob suas unhas.

— Você acha que venceu, não é? — Sara cuspiu as palavras.

Eduarda ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha, voltando a ter aquela expressão doce e inofensiva que tanto irritava a outra.

— Ele pode estar bravo agora, Sara. Mas no final da noite, quando ele estiver cansado e com dor de cabeça... é para o meu quarto que ele vai vir buscar silêncio. E você sabe disso.

Eduarda passou por Sara com um sorriso vitorioso, deixando a loira sozinha na penumbra, cercada pelo cheiro do perfume caro e pelo gosto metálico de uma vitória que ainda parecia muito com uma derrota.