Duas
O Silêncio Benevolente
O tríplex de Emanuel nunca pareceu tão vasto quanto naquela manhã de segunda-feira. O sol, entrando pelas janelas de vidro do chão ao teto, iluminava as partículas de poeira que dançavam no ar, mas não conseguia aquecer a frieza que se instalara nos corredores após a última e devastadora briga. Emanuel havia saído cedo para o estúdio central, mas não sem antes deixar transparecer, em cada gesto rígido e em cada olheira profunda, que estava no seu limite. Ele não discutira. Ele apenas olhara para as duas com uma fadiga tão profunda que parecia ter envelhecido dez anos em uma única noite.
Eduarda estava sentada na banqueta da cozinha, observando a xícara de café intocada. O silêncio da casa era interrompido apenas pelo som rítmico do relógio de parede. Ela pensava no rosto de Emanuel. Pensava na maneira como as mãos dele, sempre tão firmes ao tatuar, tremeram levemente ao amarrar os sapatos. Um medo gelado serpenteou por sua espinha. Ela o amava — amava com uma devoção que beirava o sacrifício. E, pela primeira vez, a percepção de que sua guerra particular com Sara estava matando o homem que ela queria salvar tornou-se insuportável.
O som de saltos pesados e agressivos anunciou a chegada de Sara. A loira entrou na cozinha como um furacão de seda e perfume caro, os olhos já faiscando, pronta para o primeiro round do dia.
— Espero que você esteja satisfeita, sonsa — disparou Sara, batendo a porta da geladeira com força desnecessária. — O Emanuel saiu daqui parecendo um fantasma. Você e esse seu teatrinho de vítima estão sugando a vida dele. Mas não pense que você venceu. Eu não vou a lugar nenhum.
Eduarda sentiu a habitual pontada de irritação, o desejo de retrucar com uma frase passivo-agressiva que faria Sara explodir. As palavras estavam na ponta da língua: "Talvez se você não fosse tão vulgar, ele tivesse paz". Mas ela parou. Ela olhou para as mãos de Sara, que também tremiam levemente enquanto ela tentava abrir uma garrafa de água. Sara também estava sofrendo. Sara também o amava, do seu jeito torto, barulhento e possessivo.
Eduarda respirou fundo. Um peso pareceu sair de seus ombros quando ela tomou a decisão. Ela não brigaria mais. Não por falta de munição, mas por excesso de amor.
— O café está fresco, Sara — disse Eduarda, a voz suave e desprovida de qualquer traço de ironia. — Se quiser, eu posso fritar uns ovos para você. Você não comeu nada ontem à noite.
Sara parou, a garrafa de água no meio do caminho para a boca. Ela estreitou os olhos, procurando a armadilha, o veneno escondido na doçura.
— O que você está planejando? — perguntou Sara, desconfiada. — Que tipo de jogo novo é esse? Vai tentar me envenenar com colesterol agora?
Eduarda deu um sorriso triste, um gesto que não alcançou seus olhos, mas que era genuíno.
— Nenhum jogo, Sara. Eu só percebi que o Emanuel não aguenta mais. Se continuarmos assim, vamos acabar perdendo ele. E eu prefiro dividir o Emanuel com você do que visitar o túmulo dele ou ser a razão do seu colapso nervoso.
Sara soltou uma risada ríspida, mas havia menos convicção nela do que de costume.
— Você está dizendo que vai desistir? Vai arrumar suas malas e ir estudar arte em outro lugar?
— Não — respondeu Eduarda, levantando-se e caminhando até a pia para lavar sua xícara. — Eu não vou a lugar nenhum. E aceito que você também não vá. Você é importante para ele, Sara. Você é o fogo que ele gosta, mesmo que às vezes ele se queime. Eu sou a água. E uma casa precisa dos dois. Eu só não vou mais colocar lenha na sua fogueira.
Sara ficou em silêncio por um longo tempo. A agressividade dela dependia da reação de Eduarda; sem o atrito, a faísca não virava incêndio. Ela se sentou na banqueta oposta, parecendo subitamente menor dentro de seu robe de grife.
— Você é muito esquisita, Eduarda — resmungou Sara, mas pegou a xícara de café que Eduarda empurrou em sua direção.
As horas seguintes foram estranhas. Eduarda manteve sua palavra. Quando Sara reclamou do canal de televisão que Eduarda estava assistindo, Eduarda apenas sorriu e entregou o controle remoto. Quando Sara fez um comentário maldoso sobre o vestido romântico de Eduarda, a moça apenas assentiu e disse que talvez experimentasse algo diferente no dia seguinte.
A falta de conflito deixou Sara desorientada. Ela andava pelo apartamento como um animal enjaulado que encontrou a porta da cela aberta, mas teme a liberdade.
Ao final da tarde, a porta principal se abriu. Emanuel entrou, os ombros caídos, a cabeça baixa. Ele esperava o habitual coro de reclamações, as acusações cruzadas, o peso de ter que decidir quem tinha razão em uma disputa onde todos perdiam.
— Emanuel! — Sara correu até ele, mas parou antes de começar o habitual interrogatório sobre onde ele estivera. Ela olhou para Eduarda, que estava sentada no sofá com um livro, e depois voltou para ele. — Você... você parece exausto. Quer um banho? Eu posso preparar.
Emanuel piscou, confuso. Ele olhou para Eduarda, esperando o biquinho de ciúmes ou a reclamação de que ela queria atenção primeiro.
— Oi, querido — disse Eduarda, levantando-se com calma. Ela caminhou até ele e depositou um beijo leve em seu rosto, sem tentar prendê-lo em um abraço possessivo. — A Sara tem razão. Você está pálido. Vá descansar. Nós preparamos um jantar leve. Sem discussões.
Emanuel olhou de uma para a outra, o cenho franzido em total incredulidade.
— O que aconteceu aqui? — perguntou ele, a voz rouca. — Vocês quebraram algum vaso de cristal caro e estão tentando me esconder?
— Nada aconteceu, Manu — disse Sara, pegando a pasta dele. — Só decidimos que você precisa chegar em casa e encontrar um lar, não um campo de batalha. Não é, Duda?
Eduarda assentiu, mantendo a expressão serena.
— Exatamente. Vá tomar seu banho.
Emanuel subiu as escadas como se estivesse caminhando em um sonho. O silêncio da casa não era mais tenso; era, pela primeira vez em meses, acolhedor.
No jantar, a dinâmica se manteve. Eduarda serviu a comida, e quando Sara começou a falar sobre um evento de moda para o qual queria ser convidada, Eduarda ouviu com atenção genuína, fazendo perguntas sobre os designers. Emanuel observava tudo em silêncio, o apetite voltando aos poucos enquanto o nó em seu estômago se desfazia.
— Eu não entendo — disse Emanuel, largando os talheres e olhando para as duas. — Ontem vocês quase se mataram por causa de um comentário sobre o estúdio. Hoje, vocês estão... agindo como seres humanos civilizados. O que mudou?
Eduarda olhou para Sara, que parecia desconfortável, e depois para Emanuel.
— Eu mudei, Emanuel — disse Eduarda, segurando a mão dele sobre a mesa. — Eu percebi que meu amor por você é maior do que meu orgulho. Eu não quero te ver doente. Eu não quero que você sinta medo de voltar para casa. Eu aceitei que a Sara faz parte da sua vida, e se ela te faz feliz de alguma forma, eu vou respeitar isso.
Sara desviou o olhar, mexendo na comida com o garfo.
— É — murmurou Sara. — E eu percebi que brigar sozinha não tem graça. Se ela não vai me atacar, eu não tenho por que ficar na defensiva o tempo todo. É cansativo ser a vilã vinte e quatro horas por dia.
Emanuel sentiu um alívio tão grande que seus olhos arderam. Ele estendeu a outra mão para Sara, unindo as duas mulheres naquela mesa de mármore que tantas vezes fora palco de tragédias.
— Obrigado — sussurrou ele. — Vocês não fazem ideia do que isso significa para mim.
Nas semanas que se seguiram, a nova ordem se estabeleceu. Não era uma amizade perfeita — Sara ainda era impulsiva e vulgar em seus comentários, e Eduarda ainda tinha momentos de retraimento sensível —, mas a hostilidade direta cessara. Eduarda tornara-se o amortecedor da casa. Quando sentia que Sara estava prestes a explodir, ela simplesmente saía do recinto ou mudava de assunto com uma suavidade que desarmava a loira.
Sara, por sua vez, começou a baixar a guarda. Sem a necessidade de competir por cada segundo de atenção através do conflito, ela descobriu que Emanuel era muito mais carinhoso quando não estava estressado.
Certa noite, Emanuel estava no escritório terminando um projeto de tatuagem para um cliente internacional. O silêncio era absoluto, até que a porta se abriu e as duas entraram, trazendo um lanche e vinho.
— Fizemos uma pausa para o mestre — disse Sara, colocando a bandeja na mesa. Ela usava um conjunto de lingerie provocante sob o robe, enquanto Eduarda vestia um pijama de seda comportado.
Emanuel sorriu, recostando-se na cadeira. Ele observou as duas interagindo sem farpas. Eduarda serviu o vinho, e Sara arrumou os papéis na mesa.
— Vocês realmente conseguiram — disse Emanuel, admirado. — Eu achei que era impossível.
— Foi uma questão de sobrevivência, Manu — disse Sara, sentando-se no braço da poltrona dele. — A Duda é teimosa. Ela decidiu que não ia mais brigar e eu não tive escolha a não ser seguir o fluxo.
Eduarda aproximou-se, ficando atrás de Emanuel e massageando seus ombros.
— Eu só quero que você seja feliz, Emanuel. Se a felicidade inclui a Sara, então eu também quero a Sara por perto.
Emanuel puxou Eduarda para sua frente, mantendo Sara ao seu lado. Ele se sentia, pela primeira vez, o dono de seu próprio império, tanto profissional quanto pessoal.
— Eu tenho sorte — disse ele. — Muita sorte.
No entanto, a paz interna de Eduarda tinha um preço. À noite, às vezes, ela chorava baixinho no travesseiro quando Emanuel estava no quarto de Sara. A dor de dividir o homem que amava ainda estava lá, crua e real. Mas então ela lembrava do rosto dele naquela manhã de segunda-feira, da palidez de sua pele e do tremor de suas mãos, e sua resolução se fortalecia.
Ela preferia a dor da partilha à dor da perda definitiva.
Um mês depois, Emanuel organizou uma festa para inaugurar a expansão de um de seus estúdios. Era um evento glamouroso, cheio de celebridades e artistas. Sara estava em seu elemento, brilhando em um vestido de lantejoulas que atraía todos os olhares, rindo alto e circulando entre os convidados. Eduarda estava mais discreta, em um vestido de veludo rubro que exalava uma elegância silenciosa, conversando com os curadores de arte.
Em certo momento, Sara aproximou-se de Eduarda no bar.
— O pessoal do estúdio está perguntando por que você não está mais tentando me expulsar das fotos — disse Sara, com um meio sorriso.
Eduarda olhou para a loira, vendo o brilho de insegurança que Sara tentava esconder sob a maquiagem carregada.
— Eu disse a eles que você é a imagem pública do Emanuel, Sara. Você é o brilho. Eu sou a base. Não há por que competir. Há espaço para as duas.
Sara ficou em silêncio por um momento, observando Eduarda. Ela percebeu que a fragilidade de Eduarda era, na verdade, uma força inquebrável.
— Você é muito mais esperta do que eu pensava, Eduarda — disse Sara, levantando sua taça de champanhe. — Um brinde ao nosso homem.
— Ao Emanuel — respondeu Eduarda, brindando com seu vinho.
Emanuel, observando as duas de longe, sentiu um calor no peito que nenhuma riqueza ou sucesso profissional poderia proporcionar. Ele caminhou até elas, abraçando-as no meio do salão lotado.
— Vocês estão maravilhosas — disse ele.
— Nós sabemos — disse Sara, piscando para ele.
— Estamos felizes porque você está feliz — completou Eduarda, encostando a cabeça no ombro dele.
Naquela noite, ao voltarem para o tríplex, a dinâmica foi diferente. Não houve disputa sobre quem dormiria com quem. Emanuel, sentindo-se revigorado e amado, levou as duas para o quarto principal. O silêncio que antes era preenchido por gritos agora era preenchido por suspiros e pela aceitação mútua de um amor incomum.
Eduarda, deitada no peito de Emanuel enquanto Sara dormia do outro lado, percebeu que seu sacrifício valera a pena. Emanuel estava saudável, sua pele tinha cor, suas mãos estavam firmes. Ela aceitara o papel de mediadora, de sombra e de luz, tudo para manter o coração dele batendo no ritmo certo.
Ela sabia que Sara ainda teria seus surtos, que a vulgaridade da loira ainda a irritaria e que haveria dias difíceis. Mas o medo de perdê-lo para a doença ou para o estresse fora substituído pela segurança de que, naquela configuração peculiar, todos estavam protegidos.
— Eu te amo — sussurrou ela no escuro.
Emanuel, quase dormindo, apertou a mão dela.
— Eu amo vocês duas.
E no labirinto de luxo, mármore e tinta, a paz finalmente encontrou uma morada permanente. Eduarda fechou os olhos, sabendo que a maior prova de amor não era possuir alguém por inteiro, mas garantir que esse alguém tivesse tudo o que precisava para ser feliz, mesmo que isso significasse dividir o trono com sua maior rival. O silêncio agora era seu aliado, e a manha, sua forma de curar as feridas que a guerra deixara para trás.