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Duas

O Labirinto de Espelhos e Sombras

O tríplex de Emanuel amanheceu sob uma luz pálida, filtrada pelas enormes vidraças que davam para o horizonte cinzento da metrópole. O silêncio era absoluto, mas não era um silêncio de paz; era o vácuo que se segue a uma explosão controlada. No centro da imensa cama king-size, Emanuel despertou sentindo o peso dos dois mundos que tentava equilibrar. À sua direita, o calor de Sara, que dormia de forma expansiva, com o cabelo loiro espalhado como fios de ouro sobre o travesseiro de seda preta. À sua esquerda, Eduarda, encolhida em posição fetal, ocupando o mínimo de espaço possível, a respiração tão leve que parecia não querer incomodar o ar ao seu redor.

Emanuel levantou-se com cuidado, deslizando para fora dos lençóis sem despertar nenhuma das duas. Ele precisava de café e de distância. No andar de baixo, enquanto a máquina de café expresso trabalhava com um ruído mecânico, ele observou o tríplex. Tudo ali era caro, moderno e frio. Ele era um homem que vivia de marcar a pele dos outros, de tornar permanentes os desejos e as dores alheias, mas em sua própria casa, sentia que estava sendo apagado pela fricção constante entre as duas namoradas.

O som de passos leves no mármore o tirou de seus pensamentos. Eduarda apareceu no topo da escada, vestindo uma camisola de cetim pérola que a fazia parecer quase etérea sob a luz da manhã. Ela desceu os degraus lentamente, esfregando os olhos com as costas das mãos, um gesto que exalava uma vulnerabilidade infantil e calculada.

— Você saiu cedo da cama... — murmurou ela, aproximando-se e abraçando a cintura de Emanuel por trás, encostando o rosto em suas costas. — Senti frio quando você se levantou.

— Eu precisava pensar, Duda — respondeu Emanuel, sua voz soando mais rouca do que o normal. — O jantar de ontem... foi exaustivo.

— Eu tentei, Emanuel. Eu realmente tentei ser gentil com ela — Eduarda disse, a voz cheia de uma mágoa doce. — Mas a Sara não facilita. Ela me olha como se eu fosse um inseto. Ela me faz sentir pequena nesta casa que também é minha.

Emanuel virou-se no abraço, segurando o rosto dela entre as mãos. A pele de Eduarda era macia, os olhos úmidos de uma sensibilidade que sempre o desarmava.

— Você não é pequena, Duda. Você sabe o lugar que ocupa aqui.

— Ocupo? — Ela inclinou a cabeça, uma lágrima solitária ameaçando cair. — Às vezes parece que sou apenas o intervalo entre os gritos dela. Eu queria que pudéssemos ter um momento só nosso. Hoje é sábado. O estúdio está fechado. Poderíamos ir àquela exposição de arte barroca que eu te falei...

Antes que Emanuel pudesse responder, o som estridente de um salto alto batendo no andar de cima cortou a atmosfera. Sara não descia escadas; ela as conquistava. Ela apareceu usando um robe de seda vermelha vibrante, aberto o suficiente para exibir as curvas que Emanuel conhecia tão bem. O rosto estava perfeitamente limpo, mas a expressão era de puro sarcasmo.

— Mas que cena mais tocante! — exclamou Sara, descendo os degraus com uma energia que contrastava violentamente com a manhã nublada. — A bonequinha de porcelana já começou o teatro matinal? Deixe-me adivinhar: ela quer te levar para ver quadros de anjinhos gordinhos enquanto chora sobre como a vida é difícil?

Eduarda encolheu-se visivelmente, apertando a camisa de Emanuel.

— Eu só estava conversando com ele, Sara. Não precisa ser agressiva logo cedo.

— Eu não sou agressiva, querida. Eu sou acordada — Sara caminhou até a bancada, servindo-se de café sem olhar para os dois. — Emanuel, esqueça essa ideia de museu. O pessoal do estúdio me ligou. Eles estão organizando um churrasco na casa de praia do Rodrigo. Todo mundo vai estar lá. E adivinhe? Eles fizeram questão de dizer que eu deveria ir.

Emanuel franziu o cenho, a menção ao seu estúdio despertando uma irritação latente.

— O Rodrigo te ligou? — perguntou ele, a voz ganhando um tom de autoridade.

— Claro. Ele disse que o ambiente fica muito mais animado quando eu estou por perto — Sara deu um gole no café, olhando para Eduarda com um triunfo maligno. — Ao contrário de certas pessoas que ficam num canto com cara de quem está cheirando algo estragado, eu sei como tratar a sua equipe. Eles me amam, Emanuel. E eles acham a Eduarda... como foi que o Marcos disse? Ah, sim. "Uma sonsa que drena a energia da sala".

— Isso é mentira! — Eduarda soltou Emanuel, o rosto ficando vermelho de vergonha e raiva. — Eu sou educada com todos eles! Eu até levei aqueles doces artesanais na semana passada...

— Doces que ninguém comeu porque pareciam ter sido feitos por uma freira em jejum — Sara riu, uma risada alta e vulgar que ecoou pelo pé-direito duplo. — Eles querem cerveja, churrasco e alguém que saiba rir, Eduarda. Coisa que você não faz desde que a faculdade de História da Arte sugou o resto de alma que você tinha.

— Sara, chega — ordenou Emanuel, batendo a xícara na bancada. — Não quero ouvir fofocas sobre o meu pessoal. Se o Rodrigo te ligou, eu vou ter uma conversa com ele sobre os limites da vida profissional e pessoal.

— Ah, não seja chato, Manu! — Sara aproximou-se, deslizando a mão pelo peito dele, ignorando completamente o recuo defensivo de Eduarda. — Vamos para a praia. Você trabalha demais. Precisa de sol, de pele, de diversão. Deixe a santinha aqui com os livros dela. Ela vai ser muito mais feliz no silêncio do que no meio de gente de verdade.

Eduarda começou a chorar silenciosamente, os ombros tremendo. Ela não gritava; ela desmoronava. E esse desmoronamento era a sua arma mais letal.

— Eu não quero ficar sozinha... — soluçou Eduarda, sentando-se em um dos bancos da ilha da cozinha. — Eu sinto que todos me odeiam por causa das coisas que a Sara diz. Ela espalha veneno sobre mim no estúdio, Emanuel. É por isso que eles me olham estranho. Ela quer me isolar de você.

— Isolar? — Sara deu um passo à frente, os olhos faiscando. — Você se isola sozinha com essa sua mania de ser superior! Você trata os tatuadores como se fossem vândalos e os clientes como se fossem inferiores porque não sabem quem pintou a porcaria da Capela Sistina!

— Eu não faço isso! — gritou Eduarda, levantando-se. — Eu valorizo o trabalho do Emanuel! Eu vejo a arte onde você só vê dinheiro e status!

— Você vê uma forma de prendê-lo nessa sua bolha de fragilidade! — Sara retrucou, a voz subindo de tom. — Você usa essa sua carinha de choro para que ele sinta pena de você. Você é uma manipuladora, Eduarda. Uma manipuladora barata que se esconde atrás de pérolas e vestidos claros!

— E você é o quê, Sara? — Eduarda deu um passo em direção à outra, algo raro em seu comportamento. — Você é apenas um acessório barulhento. Você gasta o dinheiro dele, usa o nome dele para entrar em festas e trata o estúdio como se fosse o seu playground pessoal. Você é vulgar, barulhenta e desesperada por atenção!

Emanuel observava a cena, sentindo a pressão subir. Ele via as duas mulheres diante dele: uma, um labirinto de sombras e silêncios; a outra, um incêndio de cores e ruídos.

— Parem as duas! — O grito de Emanuel silenciou o ambiente. Ele respirava com dificuldade, a paciência esgotada. — Eu não vou a museu nenhum e não vou a churrasco nenhum. Eu vou para o estúdio trabalhar. Sozinho.

— Mas Emanuel... — Eduarda tentou alcançá-lo.

— Nem mais uma palavra, Eduarda! — ele se virou para ela, o olhar gélido. — E você, Sara, se eu souber que você está usando o meu nome para criar discórdia entre os meus funcionários, eu juro que você não pisa mais no estúdio. Estamos entendidos?

Sara cruzou os braços, fazendo um biquinho de insatisfação, mas assentiu. Eduarda apenas baixou a cabeça, deixando as lágrimas caírem sobre o mármore.

Emanuel subiu para se trocar, deixando as duas na cozinha. O silêncio que se seguiu foi carregado de uma eletricidade perigosa. Sara sentou-se à mesa, pegando uma torrada com uma calma irritante.

— Viu o que você fez? — disse Sara, a voz agora num tom baixo e venenoso. — Estragou o sábado dele. Ele está farto de você, Eduarda. Ele só não te expulsa porque tem esse complexo de herói e acha que você morreria se tivesse que pagar o próprio aluguel.

Eduarda limpou o rosto com as costas da mão, olhando para Sara com uma clareza que a loira raramente via.

— Ele não está farto de mim, Sara. Ele está farto do barulho. E o barulho é sempre você. Você pode ter o corpo que ele deseja, mas eu tenho a paz que ele precisa. E no final do dia, um homem como o Emanuel sempre volta para a paz.

— A paz? — Sara soltou uma gargalhada curta. — Você é o caos disfarçado de calmaria. Você é uma armadilha, querida. E eu vou garantir que ele perceba isso antes que você consiga colocar uma aliança nesse dedo trêmulo.

Eduarda não respondeu. Ela virou-se e subiu para o quarto, deixando Sara sozinha com seu café e sua fúria.

Pouco depois, Emanuel desceu, vestido com calças escuras e uma camiseta preta que exibia as tatuagens em seus braços. Ele não olhou para Sara ao sair. O som da porta principal batendo ecoou como um veredito.

O dia passou de forma arrastada. No estúdio, Emanuel tentava se concentrar em um desenho complexo de uma fênix, mas as linhas pareciam se confundir com os rostos de suas namoradas. Ele amava Sara? Amava. Amava a energia dela, a forma como ela o desafiava, a paixão desenfreada que ela trazia para a cama. Amava Eduarda? Amava. Amava a doçura, a compreensão silenciosa, o modo como ela parecia ler sua alma através de um olhar. Mas a convivência entre as duas estava se tornando um câncer que devorava sua sanidade.

Por volta das cinco da tarde, o celular de Emanuel vibrou. Era uma mensagem de Rodrigo, seu gerente de estúdio.

— "Cara, a Sara apareceu aqui no churrasco. Ela está criando um clima estranho com o pessoal, falando que a Eduarda está tentando convencer você a demitir o pessoal mais antigo para 'limpar o ambiente'. O pessoal está tenso."

Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele largou o tablet de desenho e pegou as chaves do carro. A imprudência de Sara passara dos limites.

Ao chegar à casa de praia de Rodrigo, o som da música alta e o cheiro de carne assada o receberam, mas o clima era visivelmente pesado. No centro de um grupo de tatuadores, Sara estava sentada com uma caipirinha na mão, rindo alto enquanto gesticulava.

— ...e ela disse que o estilo de vocês é 'ultrapassado'. Que o Emanuel precisa de gente com formação acadêmica, não 'artistas de rua' — dizia Sara, a voz carregada de uma malícia embriagada.

— Isso é verdade, Emanuel? — perguntou Marcos, um dos seus tatuadores mais antigos, assim que o viu se aproximar.

Emanuel caminhou até o centro do grupo, seus olhos fixos em Sara, que empalideceu ao vê-lo.

— Não, Marcos. Não é verdade — disse Emanuel, a voz vibrando de ódio contido. — Tudo o que a Sara disse aqui é fruto da imaginação doentia dela para atacar a Eduarda.

— Manu, eu só estava... — Sara tentou se levantar, mas Emanuel a segurou pelo braço com firmeza.

— Você vai embora agora, Sara. E nós vamos ter uma conversa definitiva em casa.

O trajeto de volta foi um inferno de gritos e acusações. Sara alternava entre a fúria e o choro, alegando que apenas queria protegê-lo da "influência nefasta" de Eduarda. Emanuel permanecia em silêncio, o que era muito mais assustador.

Ao entrarem no tríplex, a cena que encontraram foi inesperada. Eduarda estava sentada no sofá, cercada por livros e catálogos de arte. Ela usava óculos de leitura e parecia a personificação da serenidade, embora seus olhos estivessem vermelhos de choro recente.

— Você voltou... — disse Eduarda, levantando-se e indo ao encontro de Emanuel. — Eu preparei um jantar leve para nós. Imaginei que você estaria cansado.

— Jantar leve? — Sara explodiu, soltando-se do aperto de Emanuel. — Você é uma cobra, Eduarda! Você fica aqui bancando a dona de casa perfeita enquanto eu sou a vilã!

— Você se torna a vilã sozinha, Sara — respondeu Eduarda, a voz calma, mas firme. — Eu soube o que você foi fazer no estúdio. O Rodrigo me mandou uma mensagem perguntando se era verdade que eu queria que eles fossem demitidos. Como você pôde ser tão baixa?

— Baixa? Eu estou lutando pelo meu espaço! — gritou Sara. — Você quer me apagar da vida dele!

— Chega! — Emanuel gritou, sua voz ecoando por todo o apartamento. — Sara, vá para o quarto de hóspedes. Agora. Eu não quero ver o seu rosto pelo resto da noite.

— O quê? Você vai me expulsar do nosso quarto por causa dela? — Sara estava incrédula.

— Eu não estou te expulsando do quarto, estou te expulsando da minha presença antes que eu diga algo de que me arrependa — Emanuel apontou para a escada. — Vá.

Sara subiu as escadas batendo os pés, soltando insultos em voz baixa. Eduarda aproximou-se de Emanuel, colocando a mão em seu peito.

— Está tudo bem, meu amor. Eu estou aqui. Eu cuido de você.

Emanuel olhou para Eduarda. Por um momento, ele viu a paz que ela oferecia. Mas, no fundo de seus olhos, ele também captou um brilho de satisfação. Um brilho que dizia que ela sabia exatamente como usar a vulgaridade de Sara a seu favor.

Ele a abraçou, mas seu olhar estava perdido no vazio. Ele percebeu que estava preso em um labirinto onde cada saída levava a uma nova forma de manipulação. Sara o atacava com fogo e fúria; Eduarda o envolvia em seda e veneno.

— Emanuel? — chamou Eduarda, a voz manhosa. — O jantar vai esfriar.

— Eu não estou com fome, Duda — disse ele, soltando-se dela. — Eu vou para o escritório. Preciso terminar um desenho.

Ele caminhou para o seu refúgio, deixando Eduarda sozinha na sala luxuosa. Ela sentou-se novamente, pegando um de seus livros, mas não leu. Ela sorriu para o vazio, ouvindo o som abafado do choro de Sara no andar de cima.

A guerra pelo coração e pela mente de Emanuel continuava. No tríplex de luxo, as luzes se apagaram uma a uma, mas nas sombras, as garras de seda e as chamas de fúria permaneciam prontas para o próximo round. E Emanuel, o mestre das marcas permanentes, percebia que a cicatriz mais profunda estava sendo desenhada em sua própria alma, por duas mulheres que o amavam de formas que poderiam, eventualmente, destruí-lo.