Duas namoradas
O Labirinto de Vidro e a Teimosia do Silêncio
— Por favor, Manu... é só um final de semana! — A voz de Eduarda saiu como um fio, carregada daquela doçura melancólica que costumava desarmar qualquer um, mas que naquele dia parecia apenas arranhar os nervos já expostos de Emanuel.
Ele estava sentado à mesa de jantar, o notebook aberto e uma pilha de contratos que precisavam ser revisados até o amanhecer. A luz do pendente sobre a mesa criava sombras profundas em seu rosto, acentuando as olheiras de uma semana exaustiva.
— Duda, eu já dei a minha resposta. Três vezes. — Emanuel não tirou os olhos da tela. Sua voz era um barulho seco, desprovido de qualquer paciência. — Você não vai para o litoral com esse grupo. Eu conheço a índole daquelas meninas e sei exatamente o tipo de festa que elas frequentam. Você é ingênua demais para lidar com aquele ambiente sozinha.
— Eu não sou uma criança, Emanuel! — Ela bateu o pé levemente no chão, um gesto que pretendia ser firme, mas que soou apenas como o capricho de uma menina contrariada. — Elas são minhas amigas da faculdade. A Bia, a Carol... elas só querem comemorar o aniversário da Marina. Eu nunca saio, eu nunca faço nada!
No canto da sala, jogada em uma poltrona de couro com as pernas por cima do braço do móvel, Sara soltou uma gargalhada anasalada, carregada de escárnio. Ela segurava uma taça de vinho tinto, o batom vermelho deixando uma marca vulgar no cristal. Seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto e apertado, que dava ao seu rosto uma expressão ainda mais predatória.
— Ouviu isso, Manu? A "santinha" quer liberdade — debochou Sara, girando o vinho na taça. — Ela quer ir para uma casa de praia cheia de universitários bêbados e "amigas" que trocam de namorado como quem troca de roupa. Fala a verdade, Eduarda, você só quer um pretexto para ver se o mundo é maior do que este apartamento, não é?
Eduarda virou-se para ela, os olhos grandes já transbordando. Uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha pálida.
— Cala a boca, Sara! Você não sabe de nada. Você viaja para onde quer, faz o que quer, e o Emanuel nunca diz não para você!
— Porque eu sei me cuidar, querida — Sara levantou-se, caminhando com passos lentos e provocantes até a mesa. Ela usava um short de cetim preto tão curto que revelava o início de suas tatuagens nas coxas. — Eu não sou uma boneca de porcelana que quebra se alguém olhar torto. Eu sou mulher, você é... bem, você é esse projeto de criança que chora por tudo.
— Emanuel, olha o que ela está dizendo! — Eduarda buscou o braço dele, tentando encontrar o refúgio habitual. — Diz para ela parar! E deixa eu ir, por favor... eu prometo que ligo de hora em hora. Eu juro!
Emanuel fechou o notebook com um estrondo que fez as duas pularem. Ele se levantou, a cadeira arrastando no piso de porcelanato com um som estridente. Ele parecia um gigante prestes a explodir, a veia em sua têmpora latejando visivelmente.
— Chega! — O grito de Emanuel ecoou pelas paredes do apartamento, fazendo o silêncio cair como uma guilhotina. — Eu não aguento mais ouvir a sua voz implorando por essa viagem, Eduarda! Eu disse não! Não é uma negociação, não é um debate. É uma ordem!
Eduarda recuou, o rosto vermelho, os lábios tremendo violentamente. O tom dele nunca fora tão agressivo, tão desprovido de proteção.
— Você é um monstro... — ela sussurrou, a voz embargada pelo choro que agora vinha em soluços. — Você me prende aqui como se eu fosse um objeto seu.
— E você é o quê, se não isso? — Sara interveio, encostando-se no ombro de Emanuel, uma mão possessiva subindo pelo peito dele. — Você vive do dinheiro dele, mora na casa dele e usa essa fragilidade para manipular todo mundo. Se ele diz que você não vai, é porque ele sabe que você não dura dez minutos sem alguém para te limpar o nariz.
— Eu te odeio, Sara! — Eduarda gritou, avançando um passo, as mãos pequenas fechadas em punhos. — Você só quer me ver mal porque tem inveja! Tem inveja porque ele me trata com carinho e com você ele é bruto porque você é vulgar!
O rosto de Sara se transformou. A ironia deu lugar a uma fúria gélida. Ela largou a taça sobre a mesa e caminhou até Eduarda, ficando a poucos centímetros do rosto da garota.
— Vulgar? — Sara sibilou. — Eu sou a mulher que ele procura quando cansa de brincar de casinha com você. Eu sou o desejo real, a carne, o fogo. Você é só uma distração melosa que ele mantém por pena. Você acha que ele te ama? Ele só tem instinto de salvador, e você é a vítima perfeita.
— Não é verdade! — Eduarda soluçou, cobrindo os ouvidos. — Manu, diz que não é verdade!
Emanuel massageou as têmporas, sentindo uma enxaqueca latejar. Ele olhou para as duas: Sara, exalando agressividade e testando seus limites; Eduarda, desabando em uma poça de autocompaixão e teimosia.
— Sara, vai para o quarto — Emanuel ordenou, a voz baixa e perigosa.
— O quê? Eu não fiz nada! Só estou dizendo a verdade que você não tem coragem de falar para essa sonsa! — Sara cruzou os braços sobre o busto siliconado, desafiando-o.
— Para o quarto. Agora. — Ele deu um passo em direção a ela, o olhar tão sombrio que Sara, pela primeira vez na noite, hesitou. Ela bufou, jogando o cabelo para trás e caminhando em direção ao corredor, mas não antes de lançar um último olhar de desprezo para Eduarda.
— Aproveita o seu "ninho", passarinho. Ele está bem irritado hoje.
Quando a porta do quarto de Sara bateu, Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ela ainda estava lá, em pé, os ombros subindo e descendo com os soluços, parecendo pequena e desprotegida.
— Manu... — ela tentou se aproximar, as mãos estendidas. — Me desculpa, eu só queria...
— Eu não quero saber o que você queria, Eduarda. — Ele a interrompeu, a voz fria como gelo. — Eu trabalho doze horas por dia para sustentar os seus caprichos. Eu te dou tudo. E você me retribui com essa teimosia infantil, me desgastando com uma briga por causa de uma viagem irrelevante?
— Não é irrelevante para mim! — Ela gritou, a teimosia vencendo o medo por um instante. — Eu me sinto sufocada! Você e ela... vocês me tratam como se eu não tivesse vontade própria!
Emanuel segurou-a pelos ombros, não com carinho, mas com uma firmeza que a imobilizou.
— Você não tem vontade própria enquanto viver sob o meu teto e sob a minha proteção. Entendeu? O mundo lá fora é cruel, e você não tem pele para ele. Você vai ficar aqui. E se eu ouvir mais uma palavra sobre essa viagem, eu tiro o seu celular, tiro o seu cartão e te deixo trancada neste quarto até você aprender a me respeitar.
Eduarda olhou para ele, os olhos cheios de uma mágoa profunda. O Emanuel que a abraçava e a chamava de "Duda" com doçura parecia ter desaparecido, substituído por um carcereiro impiedoso.
— Você está me machucando... — ela sussurrou.
Emanuel soltou os ombros dela, sentindo um lampejo de culpa, mas a raiva ainda era maior. O estresse acumulado da semana parecia ter encontrado um alvo.
— Vá para o seu quarto. — Ele apontou para o corredor. — Eu não quero te ver pelo resto da noite. Amanhã, se você acordar com uma atitude melhor, talvez eu considere te levar para jantar. Mas a viagem está fora de questão. Acabou.
Eduarda não se moveu de imediato. Ela ficou ali, olhando para o chão, as lágrimas pingando no tapete caro da sala. Ela era teimosa, uma teimosia silenciosa e resiliente que Emanuel muitas vezes confundia com fragilidade.
— Eu não vou jantar com você amanhã — ela disse, a voz subitamente calma, mas carregada de veneno. — Eu não quero nada de você.
— Ótimo. Menos um gasto e menos dor de cabeça. — Emanuel voltou para a mesa e abriu o notebook, ignorando-a completamente.
Eduarda caminhou lentamente pelo corredor. Ao passar pela porta do quarto de Sara, ela ouviu a risada abafada da loira. A humilhação queimava em seu peito. Ela entrou em seu próprio quarto, o santuário de cores pastéis e cheiro de baunilha, e trancou a porta.
Ela se jogou na cama, enterrando o rosto no travesseiro para abafar o grito de frustração. Ela sabia que Emanuel não mudaria de ideia. Ele era uma rocha, impenetrável e controlador. E Sara era a tempestade que sempre soprava a favor dele para desestabilizá-la.
Na sala, Emanuel tentava se concentrar nas letras miúdas do contrato, mas a imagem de Eduarda chorando não saía de sua mente. Ele sentia a necessidade de ir até lá, de abraçá-la e pedir desculpas pelo grito, mas o seu lado racional dizia que, se cedesse agora, perderia o controle sobre ela para sempre. E o controle era a única forma que ele conhecia de mantê-la segura.
Sara apareceu na porta do quarto novamente, agora usando apenas uma camisola de seda que deixava pouco para a imaginação.
— Ela ainda está chorando? — perguntou Sara, caminhando até ele e começando a massagear seus ombros.
— Deixe-a, Sara. Ela precisa aprender.
— Você foi duro com ela, Manu. Gostei de ver. — Sara inclinou-se, beijando o pescoço dele. — Esquece aquela menina. Ela é um peso. Por que você não vem descansar um pouco comigo?
Emanuel segurou a mão de Sara, mas não a puxou para perto.
— Eu tenho trabalho, Sara. E não estou com humor para os seus jogos agora.
— Jogos? Eu estou tentando te ajudar a relaxar. — Ela se afastou, a irritação voltando ao rosto. — Você fica todo tenso por causa dessa garota. Ela dita o humor desta casa! Se ela chora, você fica um urso. Se ela está feliz, você vira um bobo. Eu estou cansada disso.
— Todo mundo está cansado hoje, pelo visto — Emanuel retrucou, fechando os olhos por um momento. — Vá dormir, Sara.
— Vou. Mas não reclame depois se eu procurar diversão em outro lugar. — Ela deu as costas e saiu, batendo a porta com força deliberada.
Emanuel ficou sozinho no silêncio pesado da sala. De um lado, o quarto de Sara, exalando fúria e desafio. Do outro, o quarto de Eduarda, mergulhado em um silêncio sofrido e uma teimosia que ele sabia que duraria dias.
Ele sentia-se exausto. O apartamento, que deveria ser seu refúgio, era um campo de minas emocional. Ele olhou para a porta de Eduarda. Sabia que, se entrasse agora, ela se aninharia em seus braços, manhosa, pedindo perdão e, logo em seguida, voltaria a implorar pela viagem. Era o ciclo delas. A agressividade de uma, a fragilidade manipuladora da outra.
E ele, no centro, tentando manter as duas sob seu domínio, sem perceber que era ele quem estava preso naquele jogo de poder.
Eduarda, em seu quarto, pegou o celular. Viu as mensagens das amigas no grupo, as fotos dos biquínis, os planos para as festas. Uma parte dela queria fugir, pegar uma mochila e sumir na noite. Mas então ela olhou para o luxo ao seu redor, para as roupas caras, para a segurança que o nome de Emanuel lhe proporcionava.
Ela limpou as lágrimas e soltou um suspiro longo. Ela não iria à festa. Mas também não facilitaria a vida de Emanuel. Se ele queria uma boneca silenciosa, era exatamente o que ele teria. Ela usaria seu silêncio como uma arma, punindo-o com a ausência de seus sorrisos e de seus carinhos manhosos até que ele implorasse para que ela voltasse a ser sua "pequena Duda".
Naquela noite, não houve sexo. Não houve gemidos vulgares de Sara nem sussurros doces de Eduarda. Houve apenas o som do relógio na parede e o peso de três vontades colidindo no escuro. Emanuel permaneceu na sala até as quatro da manhã, os olhos ardendo, o coração pesado, sendo o rei de um império feito de lágrimas, cetim e uma insuportável solidão a três.