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Duas namoradas

Marcas de Posse e Provocação

O clima no apartamento havia atingido uma calmaria suspeita nos dias que se seguiram àquela tarde no sofá. Eduarda andava mais misteriosa do que o habitual, com um sorrisinho contido nos lábios e um jeito de andar que parecia esconder um segredo delicioso. Emanuel, mergulhado em pilhas de contratos e reuniões via Zoom, mal teve tempo de notar, até que a noite de sexta-feira chegou, trazendo consigo uma revelação que abalaria os alicerces de sua racionalidade.

Emanuel estava no quarto, trocando a camisa social por algo mais leve, quando Eduarda entrou. Ela usava um vestido de seda branco, curtíssimo, que contrastava com sua pele pálida e delicada. Sem dizer uma palavra, ela caminhou até ele com aquele jeito manhoso, os olhos brilhando com uma travessura que ele raramente via.

— Manu... — ela sussurrou, puxando-o pela mão em direção à cama. — Eu fiz uma coisa. Uma surpresa para você.

— Outra surpresa, Duda? — Emanuel sorriu, sentindo o estresse do dia começar a dissipar-se diante da doçura dela. — O que você aprontou dessa vez?

Eduarda não respondeu com palavras. Ela se sentou na beira da cama e, lentamente, começou a levantar a barra do vestido. Emanuel sentiu a garganta secar. Quando o tecido subiu o suficiente, revelando a calcinha de renda minúscula, ele viu: logo acima do monte de vênus, em um local extremamente íntimo e estratégico, havia a tatuagem de um coelhinho pequeno, de traços finos e delicados, com um lacinho rosa no pescoço.

— Um coelhinho? — Emanuel exclamou, os olhos fixos na marca permanente na pele dela. — Duda... você fez uma tatuagem? Aí?

— Você gostou? — Ela mordeu o lábio inferior, inclinando o corpo para trás de forma provocante. — Eu achei que combinava comigo. Sou seu coelhinho, não sou?

Emanuel sentiu uma onda de desejo imediata. A visão daquela marca tão delicada em um lugar tão proibido o deixou em transe. Ele se aproximou, passando os dedos ao redor da tatuagem, sentindo a leve textura da pele ainda cicatrizando. O contraste entre a inocência do desenho e a ousadia do local era inebriante. Ele a beijou com uma intensidade selvagem, perdendo-se na maciez de Eduarda por alguns minutos de puro êxtase.

No entanto, Emanuel era um homem movido pela lógica e pelo controle. E, à medida que a adrenalina inicial baixava, uma engrenagem começou a girar em sua mente. Ele se afastou um pouco, olhando para o desenho com uma expressão que mudou rapidamente de desejo para uma seriedade sombria.

— Quem fez isso, Eduarda? — a voz dele saiu baixa, quase um rosnado.

Eduarda, ainda envolta na névoa do momento íntimo, piscou os olhos, confusa com a mudança repentina de tom.

— O quê? A tatuagem? — Ela deu um risinho nervoso, querendo manter o clima de brincadeira. — Ah, você sabe como são esses estúdios...

— Eu estou perguntando — Emanuel levantou-se, a postura rígida, as mãos na cintura — quem foi o tatuador. Foi um homem?

Eduarda sentiu um calafrio. Ela sabia que Emanuel era protetor, às vezes possessivo, mas a faísca de raiva nos olhos dele era nova. Na verdade, ela havia feito a tatuagem com uma profissional renomada, uma mulher, mas a vontade de testar o poder que exercia sobre ele, de ver até onde ia aquele ciúme, falou mais alto.

— E se tiver sido? — ela disse, fazendo um biquinho manhoso e desviando o olhar. — Ele foi muito profissional, Manu. Teve que ficar bem de pertinho, sabe? Para os detalhes ficarem perfeitos... as mãos dele eram bem firmes.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Emanuel sentiu o sangue ferver. A imagem mental de um estranho, um homem, tocando Eduarda naquele lugar, esticando sua pele, passando agulhas e limpando o sangue em uma área que ele considerava seu santuário particular, era insuportável.

— Você está me dizendo — ele começou, a voz tremendo de contenção — que deixou um cara ficar horas olhando e tocando na sua intimidade para desenhar a porra de um coelho? Você tem noção do quanto isso é desrespeitoso comigo?

— Ai, Manu, não seja tão antigo! — Ela tentou rir, mas o medo começava a aparecer em sua voz. — É arte! Ele nem estava olhando para "aquilo", ele estava focado no desenho. Embora tenha dito que minha pele é muito macia...

— Chega! — Emanuel explodiu, dando um soco na palma da própria mão. — Eu não acredito que você foi tão ingênua... ou tão cínica! Você gosta disso, não é? De saber que outro homem te viu de um jeito que só eu deveria ver?

Eduarda arregalou os olhos. Ela não esperava que a brincadeira escalasse tão rápido para um surto de fúria.

— Eu não fiz por isso! — Ela começou a soluçar, a fragilidade voltando com força total. — Eu fiz para você! Eu queria te agradar!

Nesse momento, a porta do quarto se abriu com um estrondo. Sara estava encostada no batente, usando um hobby de seda preta entreaberto, exibindo o decote generoso e o abdômen definido. Ela segurava uma taça de vinho e tinha um sorriso de pura satisfação no rosto.

— Mas o que é isso? O castelo está ruindo? — Sara perguntou, a voz carregada de ironia. — Eu ouvi gritos e achei que alguém estivesse sendo assassinado, mas é só o Emanuel descobrindo que a "santinha" dele andou abrindo as pernas para um tatuador.

— Cala a boca, Sara! — Emanuel gritou, sem sequer olhar para ela.

— Por que, querido? A verdade dói? — Sara entrou no quarto, caminhando com a elegância de um predador. — Eu sempre disse que ela era manipuladora. Olha só a carinha de choro agora. "Ai, Manu, eu só queria te dar um coelhinho". Por favor, que patético! Se eu quisesse fazer uma tatuagem na perseguida, eu te avisaria antes, ou melhor, te levaria junto para assistir. Mas ela? Ela gosta do segredinho, do toque do estranho...

— Não é verdade! — Eduarda gritou entre soluços, encolhendo-se na cama. — Manu, ela está mentindo! Eu fiz com uma mulher! Eu só estava brincando porque você ficou bravo!

Emanuel olhou para Eduarda com desconfiança. A raiva era tanta que a lógica estava nublada.

— Agora foi uma mulher? — ele perguntou, a voz fria como gelo. — Você mente com a mesma facilidade com que respira, Eduarda. Primeiro diz que foi um homem, descreve o toque dele, e agora muda a versão porque eu surtei?

— Ela é uma atriz nata, Manu — Sara provocou, parando ao lado de Emanuel e colocando a mão em seu ombro, sentindo a tensão de seus músculos. — Você devia dar um Oscar para ela, não um consolo. Imagina o tatuador... "fique quietinha, boneca, deixa eu limpar aqui". Deve ter sido uma sessão e tanto.

— Parem! As duas! — Emanuel se desvencilhou de Sara e caminhou até a janela, tentando respirar. Seu peito subia e descia violentamente. — Eu não aguento mais isso. Eu tento manter a ordem, tento cuidar de vocês, e o que eu recebo em troca é deboche de um lado e mentiras do outro.

Eduarda se jogou aos pés dele, abraçando suas pernas.

— Por favor, Manu... acredita em mim. Foi uma mulher, o nome dela é Marcela, eu te mostro o Instagram dela! Eu só queria te provocar um pouquinho porque você anda tão sério... eu sou sua, só sua!

Emanuel olhou para baixo. Eduarda parecia destruída, o rosto vermelho, as lágrimas molhando o tecido de sua calça. Aquele desamparo sempre o desarmava, mas a imagem do coelhinho — que antes era excitante — agora parecia um lembrete constante de sua falta de controle sobre a situação.

— Você é uma criança, Eduarda — disse ele, embora sua voz tivesse perdido um pouco da agressividade, substituída por um cansaço profundo. — Uma criança que brinca com coisas sérias.

— E você é um bobo por cair nesse teatrinho de novo — Sara interveio, bebendo um gole de vinho. — Olha para ela, Emanuel. Ela usa o choro como arma toda vez que você a confronta. Se foi homem ou mulher, não importa. O que importa é que ela sabia que isso ia te deixar louco e ela fez de propósito. Ela adora te ver assim, descontrolado por causa dela.

Emanuel olhou para Sara. Ela estava radiante na discórdia.

— E você adora colocar lenha na fogueira, não é? — ele rebateu. — Você não perde uma oportunidade de humilhá-la.

— Eu não humilho quem já se humilha sozinha, querido. Eu só exponho os fatos. — Sara se aproximou de Eduarda e soltou uma risada anasalada. — Um coelhinho? Sério? Que falta de criatividade. Se fosse eu, faria algo que realmente combinasse com o que eu posso oferecer. Algo que você não esqueceria nem se quisesse.

Eduarda levantou o rosto, os olhos faiscando de ódio através das lágrimas.

— Você é vulgar, Sara! Você não entende nada de carinho, de delicadeza... você só entende de aparecer!

— E você só entende de ser um peso morto que precisa de proteção 24 horas por dia! — Sara retrucou, inclinando-se sobre ela. — O Emanuel está exausto de você. Olhe para o rosto dele. Você não é um doce, você é um fardo!

— Chega! Sai daqui, Sara! — Emanuel ordenou, apontando para a porta.

— Ah, agora a culpa é minha? — Sara revirou os olhos, mas começou a caminhar em direção à saída. — Divirta-se secando as lágrimas da sua boneca de porcelana. Mas não esqueça: o coelhinho está lá, marcado para sempre. E toda vez que você olhar para ele, vai se perguntar quem mais andou olhando também.

Sara saiu do quarto com um bater de porta triunfante, deixando o silêncio pesado e o som dos soluços de Eduarda para trás.

Emanuel sentou-se na cama, cobrindo o rosto com as mãos. Ele sentia uma dor de cabeça latejante. Eduarda se arrastou até ele, apoiando a cabeça em seu colo, agindo de forma manhosa, buscando o perdão que sabia que acabaria recebendo.

— Me desculpa, Manu... eu juro que foi uma mulher. Eu nunca deixaria outro homem me tocar assim... eu te amo tanto...

Emanuel passou a mão pelos cabelos dela, um gesto quase automático de consolo, mas seu olhar estava fixo na parede oposta.

— Eu vou verificar, Eduarda — ele disse, a voz monótona. — Se eu descobrir que você mentiu de novo...

— Eu não menti! Eu te mostro tudo, eu juro! — Ela ergueu o rosto, beijando a mão dele com devoção. — Não fica bravo comigo... eu não aguento quando você me olha desse jeito frio.

Ele suspirou, puxando-a para um abraço. O cheiro de baunilha de Eduarda o envolvia, tentando acalmá-lo, mas as palavras de Sara ecoavam em sua mente. O apartamento era pequeno demais para as duas egoístas que ele amava. Uma o consumia com sua necessidade constante de ser salva, a outra o queimava com sua necessidade constante de ser o centro do conflito.

— Por que vocês não podem ser normais? — ele murmurou contra o cabelo de Eduarda.

— Porque você não nos quer normais, Manu — ela sussurrou de volta, com uma ponta de lucidez que o assustou. — Você gosta de como a gente luta por você.

Emanuel não respondeu. Ele sabia que, no fundo, havia uma verdade amarga naquelas palavras. Ele deitou-se na cama com Eduarda ainda agarrada a ele, tentando ignorar a imagem do coelhinho que agora parecia zombar de sua autoridade.

Enquanto isso, na sala, Sara servia-se de mais uma taça de vinho, sorrindo para o vazio. Ela havia plantado a semente da dúvida, e sabia que, naquela casa, a dúvida era o veneno mais eficaz. A guerra estava longe de terminar, e ela estava apenas começando a se divertir. O coelhinho de Eduarda poderia ter atraído a atenção de Emanuel por uma noite, mas a discórdia que Sara semeava duraria muito mais tempo.

No quarto, entre o choro e o dengo, Emanuel fechou os olhos, sentindo que estava afundando em um pântano de emoções do qual não tinha forças para sair. Ele era o mestre daquela casa, mas sentia-se cada vez mais como um prisioneiro de duas vontades que nunca se saciavam. E a tatuagem, pequena e delicada, era apenas a mais nova cicatriz em um relacionamento que vivia de ferir para depois curar.