Duas namoradas
Presentes e Venenos
A atmosfera no apartamento estava, para os padrões de Emanuel, estranhamente silenciosa. Ele havia passado a tarde no centro da cidade, entrando e saindo de lojas de luxo, tentando encontrar algo que pudesse servir como um pedido de trégua — ou, ao menos, um suborno temporário para a paz. Carregava duas sacolas de grifes diferentes, sentindo o peso do que elas representavam. Ele sabia que, naquele lar, um presente nunca era apenas um presente; era uma métrica, uma prova de favoritismo e uma arma para a próxima discussão.
Ao abrir a porta, foi recebido pelo aroma de incenso de lavanda que Eduarda gostava de acender e pelo som abafado de uma música pop vibrante vindo do quarto de Sara.
— Cheguei — anunciou Emanuel, colocando as sacolas sobre a mesa de jantar de vidro.
Não demorou dez segundos para que as duas aparecessem. Sara saiu do corredor desfilando, usando um conjunto de lingerie de renda preta sob um robe de seda aberto, os saltos agulha estalando no chão. Eduarda surgiu logo atrás, com um pijama de flanela com estampas de nuvens, os cabelos levemente bagunçados e aquele olhar de sono que ela sabia que o derretia.
— Presentes? — Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada, um sorriso predatório surgindo em seus lábios pintados. — Espero que tenha bom gosto hoje, Manu. Meu humor exige algo brilhante.
— Eu não preciso de nada caro, Manu... — Eduarda murmurou, aproximando-se dele e segurando seu braço, encostando a cabeça em seu ombro. — Só de ter você aqui já é o melhor presente.
Sara soltou um som de escárnio, revirando os olhos tão forte que parecia que eles dariam uma volta completa.
— Poupe-nos do roteiro de comercial de margarina, Eduarda. Emanuel, abra logo isso.
Emanuel respirou fundo, tentando manter a neutralidade de um mediador da ONU. Ele pegou a primeira sacola, de uma joalheria renomada, e entregou a Sara. Depois, pegou a segunda, de uma marca de fragrâncias e cuidados corporais artesanais, e entregou a Eduarda.
Sara rasgou o papel de seda com impaciência. Dentro da caixa de veludo, um bracelete de ouro com pequenos diamantes incrustados brilhava sob a luz da sala.
— Uau... — ela murmurou, a ganância brilhando em seus olhos loiros. — Nada mal. Combina com meu estilo. É marcante, como eu.
Eduarda, por sua vez, abriu sua sacola com delicadeza, como se temesse quebrar o conteúdo. Retirou um frasco de perfume de edição limitada, com notas de flores brancas e sândalo, acompanhado de um óleo corporal cintilante e uma carta escrita à mão por Emanuel.
— É maravilhoso, Manu... — Eduarda cheirou o frasco, os olhos umedecendo. — Você lembrou que eu comentei sobre essa fragrância no mês passado. É tão delicado, tão... eu.
O silêncio de apreciação durou apenas alguns segundos. Sara, já com o bracelete fechado em seu pulso, inclinou o corpo para ver o que Eduarda havia ganhado. O sorriso de satisfação dela desapareceu, substituído por uma expressão de análise fria.
— Espera aí — disse Sara, a voz subindo um tom. — Deixa eu ver essa etiqueta da sacola da Eduarda.
— Por que, Sara? — Emanuel perguntou, sentindo a primeira pontada de dor de cabeça da noite.
— Porque esse perfume é aquela edição francesa que custa uma fortuna e é impossível de achar! — Sara apontou para o frasco. — Emanuel, você deu para ela algo que exige um esforço de busca muito maior do que entrar numa joalheria e apontar para uma vitrine.
Eduarda abraçou o frasco contra o peito, recuando um passo.
— O Emanuel sabe que eu valorizo o significado, Sara. Não é sobre o preço, é sobre ele ter ouvido o que eu gosto.
— Ah, não me venha com essa! — Sara deu um passo à frente, a agressividade emanando de cada poro. — Emanuel, você passou quanto tempo procurando essa porcaria para ela? Horas? Dias? E para mim, você só comprou ouro porque é fácil. Você deu o seu tempo para ela e o seu dinheiro para mim. O tempo é muito mais valioso.
— Sara, o bracelete custou três vezes o valor do kit da Eduarda! — Emanuel exclamou, gesticulando com as mãos. — Eu achei que você gostaria de algo que pudesse exibir, algo que combinasse com a sua presença.
— Exibir? Você acha que eu sou o quê? Uma árvore de Natal? — Sara cruzou os braços, fazendo o silicone dos seios saltar sob o robe. — Você deu ouro para a "vulgar" aqui para me calar a boca, mas deu o romance para a "santinha". Você ama mais a ela, não é? Você se esforça por ela. Eu sou só a mulher que você compra com joias.
Eduarda, percebendo a brecha, deixou uma lágrima solitária cair, a voz saindo trêmula e carregada de uma falsa modéstia que era sua especialidade.
— Não é verdade, Sara... você ganhou diamantes. Eu ganhei apenas... um cheiro. Um cheiro que vai sumir. O seu presente é eterno. O meu mostra que o Emanuel acha que eu sou passageira, algo que ele só quer sentir por um momento e depois esquecer.
Emanuel olhou para Eduarda, chocado com a interpretação.
— Duda, eu escrevi uma carta! Eu dediquei palavras a você!
— Justamente! — Sara gritou, batendo com a mão na mesa. — Você escreveu para ela! O que tem no meu cartão? "Com amor, Emanuel"? É isso? Você nem se deu ao trabalho de rimar "amor" com "pavor", que é o que eu sinto agora! Você ama a fragilidade dela. Você sente pena dela, e a pena é um sentimento muito mais forte que o desejo que você sente por mim.
— Eu não sinto pena da Eduarda! — Emanuel sentiu o suor frio descer por sua nuca. — Eu tentei ser justo! Eu tentei dar a cada uma algo que combinasse com suas personalidades!
— Então você acha que minha personalidade é "cara e sem alma"? — Sara se aproximou dele, o rosto a centímetros do seu, o hálito de vinho e fúria. — E a dela é "doce e poética"? Você me vê como um objeto de luxo, Emanuel. Algo que você exibe nos jantares da empresa para os seus amigos morrerem de inveja. Mas ela... ela é quem você quer proteger. Ela é quem você ama de verdade.
Eduarda sentou-se na cadeira, soluçando baixinho, o perfume ainda apertado entre as mãos.
— Se você a amasse mais, Manu... teria dado o bracelete para ela. Para mostrar que ela tem valor real. Para mostrar que ela não é só um "coelhinho" que fica escondido no quarto. Mas você quer que ela seja simples, para que ela nunca tenha confiança para te deixar. Você a mantém pequena.
Emanuel sentiu-se como se estivesse em um tribunal onde ele era o réu, o juiz e o carrasco ao mesmo tempo.
— Pelo amor de Deus! — Ele começou a andar de um lado para o outro na sala. — Se eu dou joias, sou frio. Se eu dou algo sentimental, estou me esforçando demais. Não existe vitória com vocês duas!
— Existe a verdade, Emanuel — Sara disse, agora com a voz perigosamente baixa e calma. — Admita. Se o apartamento estivesse pegando fogo e você só pudesse carregar uma de nós, você pegaria a Eduarda. Porque ela ia estar chorando e gritando que não consegue respirar, enquanto eu estaria tentando apagar o fogo. Você prefere a vítima.
— Isso não é verdade! — Eduarda levantou-se, os olhos brilhando com uma intensidade súbita. — Eu tentaria salvar o Emanuel! Eu morreria por ele! Você só salvaria suas bolsas e seu silicone, Sara!
— Sua sonsa! — Sara avançou, mas Emanuel se colocou entre as duas. — Você usa essa carinha de anjo para sugar a alma dele. Olha o que você fez com o presente. Você transformou um gesto de carinho em uma prova de que ele me despreza. Você é mestre em manipular a culpa dele!
— E você é mestre em transformar tudo em um espetáculo! — Eduarda rebateu, escondendo-se atrás de Emanuel. — Você não quer o bracelete, você quer que eu não tenha nada! Você quer ser a única!
— E eu deveria ser! — Sara gritou, jogando a mão para o alto, o bracelete de diamantes brilhando como uma acusação. — Eu sou a mulher que está com você nos momentos de força, Emanuel. Ela é a que te puxa para baixo para o fundo do poço emocional dela. E você deu o presente melhor para ela porque, no fundo, você sabe que ela é fraca e precisa de suborno para não desmoronar.
Emanuel parou. Ele olhou para o bracelete no pulso de Sara e para o perfume nas mãos de Eduarda. Ele viu a ganância transvestida de ciúme em uma, e a insegurança transvestida de dengo na outra. A racionalidade que ele tanto prezava estava sendo moída pela engrenagem daquelas duas mulheres.
— Querem saber? — Emanuel pegou as duas sacolas vazias da mesa e as amassou em uma bola. — Eu vou levar os dois presentes de volta. Segunda-feira eu devolvo tudo.
Um silêncio súbito caiu sobre a sala. Sara e Eduarda se entreolharam, uma trégua momentânea de choque unindo as rivais.
— Você não faria isso — disse Sara, estreitando os olhos.
— Ah, eu faria. Eu vou — ele disse, a voz agora fria e decidida. — Já que nenhum dos dois prova o meu amor de forma satisfatória, e já que eu sou um "monstro" que ama uma mais que a outra dependendo do valor da nota fiscal ou do tempo de procura, então ninguém ganha nada.
Emanuel estendeu a mão para Sara.
— O bracelete. Agora.
Sara recuou, protegendo o pulso com a outra mão.
— Nem morta! Eu adorei essa peça. Só estou dizendo que você é um idiota por ter sido mais romântico com ela!
— Eduarda, o perfume — Emanuel virou-se para a outra.
Eduarda abraçou o frasco com ainda mais força, os olhos arregalados.
— Não, Manu... eu já abri. Eu já passei um pouco no pulso. Você não pode devolver... é o nosso cheiro agora.
Emanuel soltou uma risada amarga, sentando-se no sofá e enterrando a cabeça nas mãos.
— Vocês viram? Vocês acabaram de provar o meu ponto. Vocês não se importam com o que eu sinto ou com o que eu tento fazer. Vocês só querem ter certeza de que a outra não está ganhando. É uma competição de quem é mais amada, mas nenhuma de vocês para para me amar de volta sem exigir uma prova de exclusividade.
Eduarda, sentindo que o clima tinha passado do ponto de sua manipulação habitual, aproximou-se devagar. Ela sentou-se no chão, entre as pernas de Emanuel, e apoiou o queixo em seus joelhos, olhando para cima com aqueles olhos de corça.
— Desculpa, Manu... eu sou insegura. Eu vejo a Sara, toda poderosa, ganhando joias, e sinto que sou pequena demais para você. Eu achei que o perfume era um consolo por eu não ser... brilhante como ela.
Sara, vendo que Eduarda estava ganhando terreno na base da humildade, bufou e sentou-se ao lado de Emanuel no sofá, cruzando as pernas e deixando o robe deslizar propositalmente para revelar mais da coxa.
— E eu sou reativa, Emanuel. Você sabe. Eu vejo você escrevendo cartinhas para ela e sinto que sou apenas a mulher da diversão, enquanto ela é a mulher da alma. O bracelete é lindo, mas eu queria que você tivesse me olhado com os olhos que olha para ela quando ela está sendo... essa coisa fofa aí no chão.
Emanuel suspirou, sentindo uma mão de cada uma delas. Eduarda acariciava seus joelhos, enquanto Sara passava a mão por sua nuca, os dedos brincando com seus cabelos curtos.
— Eu amo as duas — ele disse, a voz rouca. — De formas diferentes, porque vocês são pessoas diferentes. Se eu desse um perfume para a Sara, ela diria que eu fui pão-duro. Se eu desse um bracelete de diamantes para a Eduarda, ela diria que eu estou tentando comprar o afeto dela porque não tenho tempo para conversar. Eu nunca vou ganhar esse jogo, vou?
— Não — disse Sara, com um sorriso de canto, inclinando-se para beijar o canto da boca dele. — Mas você pode continuar tentando. É divertido ver você se esforçando.
— Eu só quero paz — Emanuel murmurou, fechando os olhos.
— A paz é entediante, Manu — Eduarda sussurrou, subindo para o colo dele e escondendo o rosto em seu pescoço, o cheiro do novo perfume inundando os sentidos de Emanuel. — O conflito mostra que a gente se importa. Se a gente não brigasse por você, seria porque você não vale a pena.
Emanuel sentiu o peso das duas sobre si. O bracelete de Sara arranhou levemente seu braço enquanto ela o abraçava por trás, e a maciez de Eduarda o sufocava pela frente. Ele era o centro daquele universo caótico, o sol em torno do qual dois planetas em rota de colisão giravam eternamente.
— Fiquem com os presentes — ele disse, finalmente cedendo. — Mas se eu ouvir mais uma comparação sobre quem é mais amada hoje, eu vou dormir em um hotel. Sozinho.
— Prometo ser boazinha... por enquanto — Sara sibilou em seu ouvido, a mão descendo perigosamente pelo seu peito.
— Eu vou ser o seu anjo, Manu — Eduarda prometeu, dando um beijo casto em seu queixo, embora tenha lançado um olhar triunfante para Sara por cima do ombro dele.
Emanuel sabia que a trégua duraria apenas até a próxima manhã. Sabia que as joias seriam usadas como troféus e o perfume como uma marca de território. Mas, enquanto as duas o disputavam com beijos e carícias competitivas na penumbra da sala, ele se permitiu esquecer a lógica. Naquele apartamento, o amor não era um porto seguro; era um campo de batalha, e ele, por mais que fingisse cansaço, era o general que não sabia viver sem a guerra.