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Duas namoradas

O Labirinto de Gelo e Sol

A calmaria que se seguiu ao jantar francês foi, como tudo naquele apartamento, uma ilusão de ótica. Emanuel sentia-se como um equilibrista que, após atravessar um abismo, descobria que a corda agora estava em chamas. Eduarda, revigorada por sua vitória silenciosa, andava pela casa com uma aura de serenidade que beirava o misticismo, enquanto Sara, ferida em seu orgulho, acumulava uma pressão interna que ameaçava explodir as paredes de gesso.

O conflito da vez começou com um folheto de agência de viagens sobre a mesa de centro. Emanuel, em um esforço desesperado para "limpar o ambiente" e recompensar a paciência de ambas — ou talvez apenas para fugir da rotina sufocante —, havia sugerido que tirassem duas semanas de férias. O erro, claro, foi deixar que elas decidissem o destino.

— Eu já disse, Emanuel, não vou discutir o óbvio — Sara declarou, jogando-se na poltrona com uma taça de Martini na mão, o bracelete de ouro tilintando contra o cristal. — Miami é o único lugar aceitável. Sol, compras na Lincoln Road, festas em South Beach e aquele clima que faz a gente se sentir viva. Eu preciso de um bronzeado de verdade, não dessa palidez de hospital que essa casa exala.

Eduarda, que estava sentada no chão, organizando alguns livros de poesia, levantou o olhar lentamente. Ela usava um casaco de tricô oversized, apesar do calor lá fora, e segurava uma xícara de chá como se fosse um amuleto.

— Miami é vulgar, Sara — disse Eduarda, com uma voz tão suave que parecia flutuar. — É barulho, plástico e gente tentando ser o que não é. Eu estava pensando em algo com alma. Algo que nos faça sentir o peso do tempo e a beleza da melancolia. Eu quero ir para a Escócia.

Sara soltou uma gargalhada tão alta que Emanuel, na cozinha, fechou os olhos e apertou a borda da pia.

— Escócia? — Sara repetiu, limpando uma lágrima imaginária de tanto rir. — Você quer ir para um lugar onde chove o dia inteiro, as pessoas usam saia de lã e o prato nacional é bucho de ovelha recheado? Emanuel, me diz que você não está levando isso a sério. Eu não vou gastar meus biquínis novos em um castelo úmido cercado de neblina e fantasmas.

Emanuel entrou na sala, secando as mãos em um pano de prato. Ele olhou para as duas: Sara, vibrante e agressiva em seu desejo de exibicionismo; e Eduarda, frágil e persistente em sua busca por um isolamento romântico.

— Meninas, por favor — começou Emanuel, tentando usar o tom pragmático que costumava funcionar em reuniões de condomínio. — São dois destinos opostos. Precisamos encontrar um meio-termo. Talvez a Europa mediterrânea? Espanha?

— Não — Eduarda interrompeu, levantando-se devagar. Ela caminhou até Emanuel e segurou a ponta de sua camisa, olhando-o com aqueles olhos que pareciam sempre prestes a transbordar. — Eu preciso de silêncio, Manu. Eu preciso de Highlands, de campos verdes e de você me abraçando na frente de uma lareira enquanto o vento sopra lá fora. Miami vai te estressar. Você vai ter que lidar com a Sara querendo ir a dez festas por noite e gastando o que não tem em bolsas que ela não precisa. Na Escócia, seremos só nós.

— "Só nós" uma vírgula! — Sara levantou-se num salto, a agressividade emanando de cada movimento. — Eu também vou, esqueceu? E eu me recuso a ser enterrada viva em um pântano escocês só porque a santinha quer fingir que é uma personagem de Jane Austen. Emanuel, olha para mim. Eu preciso de luz! Eu preciso de fotos boas, de movimento, de vida! Miami é o investimento certo para a nossa felicidade. Você sabe como eu fico... animada... quando estou no sol.

Sara aproximou-se de Emanuel pelo outro lado, passando a mão pelo peito dele, as unhas vermelhas destacando-se contra o tecido escuro. Ela colou o corpo no dele, ignorando a presença de Eduarda.

— Pensa bem, Manu... South Beach. A gente em um conversível, o vento no rosto, e à noite, eu usando aquele vestido que você adora, sem nada por baixo. Você prefere isso ou ficar vendo chuva em Edimburgo com uma mulher que se veste como uma bibliotecária aposentada?

— Para de falar assim dela, Sara — Emanuel disse, embora sua respiração tivesse falhado por um segundo diante da provocação física.

— Eu não sou uma bibliotecária — Eduarda murmurou, a voz trêmula. Ela soltou a camisa de Emanuel e recuou, os ombros encolhendo-se. — Eu só valorizo coisas que o dinheiro não compra. Mas eu já deveria saber. O Emanuel sempre cai no seu jogo, Sara. Você usa o seu corpo como se fosse uma mercadoria e ele... ele simplesmente não resiste.

— Invejosa — sibilou Sara, virando o rosto para Eduarda. — Você usa essa sua fragilidade de vidro como se fosse uma coroa, mas é só manipulação. Você quer levar ele para a Escócia para ter o controle total, para que ele não tenha para onde fugir quando você começar com seus ataques de carência.

— Eu não sou manipuladora! — Eduarda gritou, e o som de sua voz elevada chocou Emanuel. — Eu só quero um pouco de paz! Eu passo o dia inteiro ouvindo seus saltos, seus gritos ao telefone, sua música alta! Eu mereço dez dias de paz!

— Então vá sozinha! — Sara rebateu. — Pegue o seu livrinho de poemas e vá morar numa caverna! O Emanuel vai comigo para a Flórida. Não é, Manu?

Emanuel sentiu a pressão aumentar. Ele olhou para o bracelete de Sara — o ouro que ele deu para aplacar a fúria dela — e para o rosto pálido de Eduarda — a fragilidade que ele prometeu proteger. Ele percebeu que, não importa o que escolhesse, ele seria o vilão. Se escolhesse Miami, Eduarda murcharia e passaria meses o punindo com um silêncio melancólico que drenaria sua energia. Se escolhesse a Escócia, Sara transformaria a viagem em um inferno de reclamações, deboches e gastos excessivos por vingança.

— Eu não vou escolher agora — Emanuel declarou, a voz firme, tentando retomar o controle. — Vou para o escritório terminar um relatório. Quando eu voltar, espero que vocês tenham considerado que o mundo é grande o suficiente para um compromisso.

— Não tem compromisso entre o sol e o gelo, Emanuel! — Sara gritou enquanto ele se afastava.

Emanuel trancou-se no escritório, mas não havia relatório no mundo capaz de silenciar o que começou a acontecer na sala.

— Você acha que ganhou, não é? — a voz de Sara chegou através da porta, carregada de veneno. — Só porque ele te levou para jantar naquele restaurante mofado, você acha que manda nele. Mas olha para você, Eduarda. Você é insossa. Você é um prato de sopa fria. O Emanuel gosta de tempero, de fogo. Ele gosta de mim.

— Ele tem pena de você, Sara — a voz de Eduarda respondeu, surpreendentemente afiada. — Ele te mantém por perto porque você é como um carro esporte: caro, barulhento e bom para exibir. Mas não se vive em um carro esporte. Vive-se em uma casa. E eu sou a casa dele.

— Uma casa caindo aos pedaços, cheia de goteiras de lágrimas! — Sara rebateu. — Sabe o que vai acontecer na Escócia? Ele vai olhar para aquela paisagem cinza, vai olhar para você de gola alta e vai sentir uma vontade desesperada de estar em qualquer lugar onde as mulheres saibam rir e usar um decote. Você vai enterrar o resto de tesão que ele tem por você naquelas montanhas.

— Você é vulgar, Sara. É triste que a sua única arma seja o que você tem entre as pernas.

— E a sua é o que você tem nos olhos? Esse choro eterno? — O som de algo quebrando — talvez um porta-retratos — ecoou. — Eu vou para Miami, Eduarda. Com ou sem ele. Mas se ele for comigo, eu vou garantir que ele esqueça que você existe antes de cruzarmos a linha do Equador.

Emanuel abriu a porta do escritório, o rosto transfigurado pela irritação.

— Chega! — ele berrou, e o silêncio que se seguiu foi imediato. — Eu não aguento mais ouvir a palavra "Miami" ou "Escócia". Vocês se comportam como duas crianças disputando um brinquedo, mas o brinquedo sou eu!

Ele caminhou até o centro da sala. Eduarda estava encolhida no sofá, abraçando as próprias pernas, o rosto escondido nos joelhos. Sara estava de pé, ofegante, o rosto vermelho de raiva, os punhos cerrados.

— Eu tomei uma decisão — Emanuel disse, a voz gélida. — Nós não vamos para lugar nenhum.

As duas o olharam com expressões de choque.

— O quê? — Sara perguntou, a voz falhando. — Mas Manu, as férias...

— As férias foram canceladas — ele disse, cruzando os braços. — Eu vou trabalhar. E vocês duas vão passar as próximas duas semanas aqui dentro, olhando uma para a cara da outra, até aprenderem que eu não sou um prêmio de consolação. Se não conseguem concordar em um destino de viagem, não merecem sair deste apartamento.

Eduarda levantou o rosto, as lágrimas agora correndo livremente.

— Mas Manu... eu só queria um momento com você... longe dela...

— E você acha que a Escócia ia resolver isso, Eduarda? — Emanuel virou-se para ela, a paciência esgotada. — Você acha que o clima de Edimburgo ia fazer a Sara desaparecer? E você, Sara, acha que Miami ia transformar a Eduarda em uma festeira? Vocês são quem são. E eu estou exausto de tentar moldar o mundo para que vocês não se matem.

Emanuel pegou a pasta de trabalho e a chave do carro.

— Eu vou para o escritório. Vou passar a noite lá. Não me liguem, a menos que o apartamento esteja realmente pegando fogo. E se estiver, salvem primeiro os passaportes, porque parece que é a única coisa que importa para vocês.

Ele saiu, batendo a porta com uma violência que fez os cristais da cristaleira de Sara tilintarem.

O silêncio que ficou para trás era denso, quase sólido. Sara e Eduarda permaneceram em suas posições, como estátuas de uma guerra interrompida.

Após alguns minutos, Sara soltou um suspiro longo e sentou-se na poltrona, servindo-se de mais Martini.

— Viu o que você fez? — Sara disse, mas sem a agressividade de antes. Havia apenas um cansaço amargo em sua voz. — Agora vamos ficar presas aqui, nesse calor, ouvindo o barulho do trânsito, enquanto eu podia estar bebendo uma Margarita em Ocean Drive.

Eduarda limpou o rosto com a manga do casaco de tricô. Ela sentia-se vazia. A vitória que sentira no restaurante francês havia evaporado, substituída pela percepção de que, não importa o quanto ela se esforçasse para ser a "escolhida", a presença de Sara era uma mancha indelével em sua vida.

— Eu só queria que ele visse o que eu vejo — Eduarda murmurou. — Que a gente não precisa de barulho para ser feliz.

— Felicidade é subjetiva, Eduarda — Sara disse, olhando para o líquido transparente em sua taça. — Para você, é um livro e um chá. Para mim, é sentir que o mundo está me olhando. O Emanuel... o Emanuel quer as duas coisas. E é por isso que ele está sofrendo. Ele quer a sua paz quando o mundo o cansa, e quer o meu fogo quando a paz o entedia. Ele é um ganancioso.

Eduarda olhou para Sara. Pela primeira vez em meses, ela não viu apenas a rival vulgar e siliconada. Viu uma mulher que, assim como ela, estava presa em uma órbita que não conseguia controlar.

— Ele não vai voltar hoje — disse Eduarda.

— Não. Ele vai dormir naquele sofá desconfortável do escritório, sentindo-se o mártir da relação — Sara deu um gole no drink. — E amanhã vai chegar aqui com flores ou joias, tentando compensar o fato de que ele não consegue escolher.

Eduarda levantou-se e caminhou até a janela. O sol estava se pondo, pintando o céu de São Paulo com tons de laranja e cinza.

— Eu odeio Miami — disse Eduarda baixinho.

— E eu odeio o frio — Sara respondeu.

Houve uma pausa longa.

— Mas eu odeio mais ainda ficar presa aqui — continuou Sara. — Sabe, Eduarda... a gente podia ter feito um trato. Uma semana em cada lugar. Ou um lugar que tivesse as duas coisas.

— Como o quê? — Eduarda perguntou, virando-se.

— Sei lá. Algum lugar na Itália. Tem sol, tem compras, e tem ruínas velhas e mofadas para você chorar em cima.

Eduarda soltou um risinho involuntário.

— Você é impossível, Sara.

— Eu sou prática. E agora, graças ao seu drama de "Highlander", eu vou passar o meu domingo à noite pedindo pizza e assistindo reality show.

Eduarda caminhou até o sofá e, para a surpresa de Sara, sentou-se na outra extremidade.

— Eu também quero pizza — disse Eduarda.

Sara arqueou a sobrancelha, um sorriso de canto surgindo.

— Olha só... a santinha tem apetite. Tudo bem. Mas eu escolho o sabor. Nada de abobrinha ou essas coisas verdes que você come. Vai ser calabresa, com muita cebola.

— Tudo bem — Eduarda cedeu, sentindo uma estranha trégua se instalar.

Enquanto a pizza não chegava, o silêncio entre as duas mudou de natureza. Não era mais o silêncio da guerra, mas o da coabitação forçada. Sara começou a mexer no celular, mostrando fotos de hotéis em Miami, comentando sobre os preços e as celebridades que frequentavam. Eduarda, por sua vez, pegou o tablet e mostrou fotos das Highlands, explicando a história dos clãs e a beleza dos lagos.

Por um breve momento, as vozes de Emanuel e suas exigências de mediador não faziam falta. Elas eram duas mulheres compartilhando o mesmo homem, o mesmo teto e a mesma insatisfação.

— Sabe — disse Sara, enquanto olhava uma foto de um castelo escocês que Eduarda lhe mostrava —, se a gente fosse para esse lugar... eu ia precisar de muitos casacos de pele. Legítima, claro.

— E se fôssemos para Miami — Eduarda retrucou —, eu ia precisar de um chapéu enorme e de muitos protetores auriculares para não ouvir a música dos clubes.

Elas se olharam e, pela primeira vez, riram juntas. Foi uma risada curta, quase proibida, que morreu assim que o interfone tocou anunciando o entregador.

Naquela noite, Emanuel não voltou. Ele dormiu no escritório, sentindo o peso da decisão de "castigá-las". Ele imaginava as duas brigando, gritando ou chorando em quartos separados. Ele sentia-se o mestre da situação, o homem que impunha a ordem através da ausência.

Mal sabia ele que, no apartamento, Sara e Eduarda dividiam uma pizza de calabresa no chão da sala, assistindo a um programa de fofocas e criticando o figurino das atrizes. A rivalidade ainda estava lá, enterrada sob camadas de necessidade e hábito, mas a disputa por Miami e Escócia havia revelado uma rachadura na armadura de Emanuel.

Ele achava que elas precisavam dele para mediar a vida. Elas começavam a perceber que, talvez, o verdadeiro problema fosse ele não conseguir decidir quem elas deveriam ser.

— Eduarda? — Sara perguntou, já tarde da noite, enquanto limpava as migalhas do sofá.

— Oi?

— Se a gente convencer ele a ir para a Grécia... você para de chorar por causa das Highlands?

Eduarda pensou por um momento, visualizando o mar azul e as construções brancas e antigas.

— Se você prometer não usar biquínis menores que um guardanapo na frente dos padres ortodoxos... eu aceito.

— Fechado — disse Sara, estendendo a mão.

Eduarda apertou a mão de Sara. O toque foi rápido, quase elétrico. Elas eram aliadas de conveniência contra o homem que as amava demais e de menos ao mesmo tempo. Emanuel voltaria no dia seguinte esperando encontrar duas mulheres submissas e arrependidas. Ele encontraria, em vez disso, uma frente unida que já havia decidido o próximo destino — e ele, o grande provedor, apenas pagaria a conta.

Afinal, no jogo de poder daquele apartamento, o gelo e o sol podiam até se odiar, mas ambos sabiam que, sem um território para disputar, a guerra perdia o sentido. E Emanuel era o território que elas pretendiam explorar até a última fronteira, fosse ela em Miami, na Escócia ou em qualquer lugar onde pudessem continuar sendo as donas de seu desejo.