Duas namoradas
O Poder da Fragilidade
A manhã de domingo nasceu com uma luz pálida que mal conseguia atravessar as cortinas pesadas da sala, mas o clima dentro do apartamento já estava carregado de uma eletricidade estática que prometia uma tempestade. Emanuel estava sentado à mesa, o café esfriando em sua xícara enquanto ele observava o rastro de destruição emocional que as últimas doze horas haviam deixado.
Eduarda estava sentada no canto oposto do sofá, enrolada em uma manta de lã, os olhos fixos em um ponto qualquer da parede. Ela não chorava — o que, para Emanuel, era muito mais alarmante do que se estivesse soluçando. Havia um silêncio nela que parecia uma acusação silenciosa, uma barreira que ele não conseguia romper com sua lógica habitual.
Sara saiu do quarto usando um robe de seda vermelho, os cabelos loiros perfeitamente alinhados, apesar da hora. Ela carregava no pulso o bracelete de ouro que ganhara recentemente, fazendo questão de que o metal tilintasse contra o vidro da mesa ao se servir de suco.
— Nossa, que velório — comentou Sara, a voz cortando o silêncio com a sutileza de uma britadeira. — Alguém morreu e esqueceu de me avisar ou a princesinha está apenas ensaiando para um papel em algum drama trágico?
Eduarda nem sequer piscou. Sua voz saiu baixa, desprovida da manha habitual, soando quase etérea.
— Eu estava pensando, Emanuel. Estava pensando em como as coisas são claras nesta casa.
Emanuel deixou o jornal de lado, sentindo o estômago dar um nó.
— O que você quer dizer com isso, Duda?
— É sempre o que ela quer, não é? — Eduarda finalmente desviou o olhar para ele. Seus olhos estavam opacos. — As viagens são para onde ela quer. Os jantares são nos lugares que ela gosta. Até os presentes... você dá a ela o ouro, o brilho, o que é caro. Para mim, você dá o que é "fofo". O que é pequeno. O que é descartável.
— O que é isso agora? — Sara riu, encostando-se no balcão da cozinha. — Inveja do meu bracelete? Eu achei que você fosse superior a essas coisas materiais, "Dudinha". Achei que você vivesse de luz e poesia.
— Não é inveja, Sara — Eduarda respondeu, mantendo a calma de forma perturbadora. — É constatação. O Emanuel escolhe você todas as vezes que toma uma decisão. Eu sou apenas o descanso. O que ele procura quando está cansado da sua barulheira. Mas a preferência... a prioridade... é sempre sua.
— Eduarda, isso não é verdade — Emanuel interveio, a voz subindo de tom. — Eu tento equilibrar tudo. Eu me desdobro para que nenhuma de vocês se sinta deixada de lado. Eu trouxe presentes para as duas! Eu levei as duas para Ouro Preto!
— Você nos levou para Ouro Preto e passou metade do tempo tentando calar a boca da Sara para que ela não estragasse o meu passeio — Eduarda disse, levantando-se devagar. A manta escorregou de seus ombros, revelando sua estrutura delicada. — E no fim, quem ganhou? Ela. Nós saímos do museu porque ela queria. Nós voltamos porque ela estava entediada. O seu "equilíbrio" é sempre ceder ao grito mais alto.
— É claro! — Sara exclamou, batendo a taça de suco na mesa. — Porque eu não aceito migalhas, querida. Se você aceita ser tratada como um bibelô de prateleira, o problema é seu. Não culpe o Emanuel por você não ter personalidade para exigir o que quer.
Emanuel esperava que Eduarda se encolhesse, que pedisse desculpas pelo "mal-entendido" ou que corresse para o quarto. Mas ela permaneceu parada, olhando para Emanuel com uma decepção tão profunda que ele sentiu um calafrio.
— Você tem razão, Sara — disse Eduarda. — Eu não tenho personalidade para gritar. Mas eu tenho dignidade para perceber quando não sou respeitada. Emanuel, eu cansei de ser a sua segunda opção disfarçada de "protegida".
Ela começou a caminhar em direção ao quarto, mas Emanuel se levantou e segurou seu braço.
— Duda, espera. Vamos conversar. Você está sendo injusta. Eu faço tudo por você!
Eduarda soltou o braço com uma firmeza que o deixou boquiaberto. Não houve drama, não houve choro. Apenas um olhar frio.
— Você faz o que é fácil, Emanuel. O difícil seria enfrentar a Sara e dizer "não" para ela em favor de algo que me faz feliz. Mas você não tem coragem para isso. Você tem medo dela. E agora, você me perdeu.
Ela entrou no quarto e trancou a porta. O som da chave girando ecoou pela sala como um tiro.
Emanuel ficou parado no meio da sala, a respiração acelerada. Ele sentia uma irritação crescente, uma vontade de socar a parede. Como ela ousava dizer aquilo? Ele, que sustentava aquele estilo de vida, que aguentava as sogras, que mediava cada conflito.
— Deixa ela, Manu — Sara disse, aproximando-se e passando os braços pelo pescoço dele. — Ela está fazendo cena. Daqui a pouco ela sai pedindo colo, como sempre. Vamos aproveitar que a chata se trancou e vamos sair para almoçar? Só nós dois.
Emanuel olhou para Sara. Pela primeira vez, a beleza vibrante dela e o toque provocante não tiveram efeito. Ele só conseguia pensar no olhar de Eduarda. Havia algo diferente dessa vez. Não era manha. Era um desligamento.
— Agora não, Sara — ele disse, afastando as mãos dela.
— Como é? — Sara arqueou a sobrancelha, a fúria começando a surgir. — Você vai ficar aqui fazendo vigília na porta daquela sonsa? Ela está te manipulando, Emanuel! Ela está usando o silêncio porque viu que o choro não estava mais funcionando!
— Ela tem razão em uma coisa — Emanuel murmurou, mais para si mesmo do que para Sara. — Eu sempre cedo para você porque você faz um inferno se eu não fizer.
— Ah, pronto! Agora a culpa é minha por ser decidida? — Sara gritou, a voz subindo várias oitavas. — Se ela é uma frouxa que não sabe abrir a boca, o problema é dela! Eu não vou pedir desculpas por existir!
Emanuel ignorou Sara e caminhou até a porta do quarto de Eduarda. Ele bateu de leve.
— Duda? Abre aqui. Vamos conversar direito.
Nenhuma resposta.
— Eduarda, eu estou falando com você. Não torne as coisas mais difíceis.
Silêncio absoluto.
Emanuel passou as próximas duas horas tentando se concentrar no trabalho, mas era impossível. Sara andava pelo apartamento como um leão enjaulado, batendo portas, aumentando o volume da TV, tentando chamar sua atenção de todas as formas possíveis. Mas Emanuel estava hipnotizado por aquela porta trancada.
A ideia de que Eduarda — a doce, maleável e dependente Eduarda — pudesse realmente estar desistindo dele, criou um vácuo em seu peito. Ele percebeu o quanto dependia daquela adoração silenciosa dela para equilibrar a agressividade de sua vida cotidiana. Sem ela, ele seria apenas um homem em guerra constante com Sara.
Por volta das três da tarde, ele não aguentou mais. Ele buscou a chave reserva no escritório e abriu a porta do quarto.
Eduarda estava sentada na poltrona perto da janela, lendo um livro. Ela nem sequer levantou os olhos quando ele entrou. Não havia malas prontas, não havia desordem. Apenas uma indiferença gélida.
— Duda... — Emanuel começou, sentando-se na beira da cama. — Eu pensei muito no que você disse.
Ela continuou lendo, virando uma página com uma calma exasperante.
— Eu sei que às vezes eu acabo cedendo à Sara porque... bem, você sabe como ela é. Ela faz escândalo, ela cria situações insuportáveis. Com você, eu sempre senti que tinha paz. Eu achei que você entendia que o meu silêncio com você era um elogio, uma forma de dizer que eu não precisava lutar para estar ao seu lado.
Eduarda fechou o livro lentamente e o colocou no colo. Ela olhou para ele, e Emanuel viu que o fundo de seus olhos ainda estava magoado, mas havia uma nova camada de determinação ali.
— O seu silêncio comigo é negligência, Emanuel. Você usa a minha paz como um tapete para a Sara pisar. Você me deu um perfume e escreveu uma carta, mas no momento em que ela reclamou, você quase o levou de volta. Você não me protegeu. Você não me deu o meu lugar.
— Eu sei... — Emanuel baixou a cabeça. — Eu errei. Eu não deveria ter deixado ela falar aquelas coisas de você hoje cedo. Eu não deveria ter deixado ela estragar o passeio em Ouro Preto.
— Você não deveria ter feito muitas coisas — ela disse, a voz suave, mas cortante. — Mas o pior é que você acha que, por ser o "provedor", você tem o direito de nos tratar como peças de um jogo que você organiza para o seu próprio conforto.
Emanuel sentiu um peso no estômago. Ele percebeu que a lógica não o salvaria dessa vez. A racionalidade não funcionava contra uma dor que ele mesmo havia alimentado por omissão.
— Me perdoa — ele disse, a palavra saindo com dificuldade. Emanuel não era um homem de pedir perdão. Ele era o homem que resolvia problemas. — Eu fui um idiota. Eu não valorizei a sua forma de amar. Eu deixei a presença da Sara ofuscar a sua, e isso foi a coisa mais burra que eu já fiz.
Eduarda soltou um longo suspiro. Ela não correu para os braços dele. Ela permaneceu na poltrona, observando-o.
— Um pedido de desculpas não muda o que aconteceu, Emanuel.
— Eu sei. Mas eu quero mudar as coisas. Eu vou mudar. Eu vou garantir que você tenha o seu espaço. Eu vou aprender a dizer "não" para ela quando for por você. Por favor, Duda... não se afaste de mim assim. Eu não sei o que fazer com esse seu silêncio.
Eduarda estendeu a mão, e Emanuel a pegou imediatamente, apertando-a como se fosse uma tábua de salvação. Ela finalmente deu um pequeno sorriso, mas não era o sorriso submisso de antes. Era o sorriso de quem sabia que tinha ganhado uma guerra sem disparar um único tiro.
— Você vai ter que provar, Manu — ela sussurrou, voltando a usar o apelido carinhoso, mas com uma nota de comando oculta. — Eu quero que hoje à noite nós saiamos. Só nós dois. Para aquele restaurante francês que você disse que a Sara achava "lento demais".
— Mas a Sara vai ter um ataque... — Emanuel começou, mas parou ao ver o olhar de Eduarda. — Tudo bem. Nós vamos. Eu aviso a ela.
— Não — disse Eduarda, puxando-o para perto e acariciando seu rosto com as pontas dos dedos. — Você não vai avisar. Você vai apenas dizer que está saindo comigo. Sem explicações. Sem negociações.
Emanuel engoliu em seco. Ele sabia que aquilo seria o início de uma terceira guerra mundial no apartamento, mas a perspectiva de perder Eduarda era pior.
— Tudo bem. Como você quiser.
Eduarda inclinou-se e deu um beijo leve em seus lábios. Foi um toque de posse, de vitória.
— Agora saia, querido. Eu preciso me arrumar. Quero estar linda para o meu namorado.
Emanuel saiu do quarto sentindo-se estranhamente leve e, ao mesmo tempo, completamente dominado. Ele caminhou até a sala, onde Sara o esperava com os braços cruzados e uma expressão de triunfo que desapareceu assim que viu o rosto dele.
— E então? Ela já parou com o teatro? Já pediu perdão por ter sido uma ingrata? — Sara perguntou, esperando o relatório habitual de como ele havia "resolvido" a situação.
Emanuel parou diante dela, a postura firme.
— Na verdade, Sara, eu pedi perdão a ela.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que poderia ser cortado com uma faca. Sara abriu a boca, fechou, e abriu de novo, os olhos arregalados de choque puro.
— Você... o quê? Emanuel, você enlouqueceu? Pedir perdão pelo quê? Por dar joias para mim e perfume para ela? Por ser o homem que sustenta essa casa?
— Por não ter dado a ela o respeito que ela merece — Emanuel disse, a voz calma e decidida. — E hoje à noite, eu e a Eduarda vamos sair sozinhos.
Sara soltou uma risada histérica, que rapidamente se transformou em um grito de indignação.
— Sozinhos? No domingo à noite? E eu? O que eu vou fazer?
— O que você quiser, Sara. Mas nós vamos ao Le Petit. Aquele restaurante que você odeia porque "demora para servir".
— Você não pode estar falando sério! — Sara avançou para cima dele, batendo no peito de Emanuel com as mãos fechadas. — Ela te enfeitiçou! Aquela sonsa, aquela manipuladora de meia-tigela! Ela usou esse silêncio ridículo para te dobrar e você, como um idiota, caiu!
— Chega, Sara! — Emanuel segurou os pulsos dela, segurando-os no ar. — Eu tomei uma decisão. Se você não consegue aceitar que a Eduarda também tem desejos e necessidades, talvez seja você quem precise repensar o seu lugar aqui.
Sara recuou, como se tivesse levado um tapa físico. Ela olhou para a porta do quarto de Eduarda e depois de volta para Emanuel. Ela via agora o que não queria ver antes: Eduarda não era frágil por fraqueza; ela era frágil por estratégia. E aquela estratégia tinha acabado de colocar o homem mais racional e controlador que Sara conhecia na palma da mão de uma menina que mal falava alto.
— Você é um fraco, Emanuel — Sara sibilou, as lágrimas de raiva começando a manchar sua maquiagem perfeita. — Ela te tem enrolado no dedo mindinho. Ela te faz pedir perdão por coisas que você nem fez, só para sentir que manda em você. E você, como um cachorrinho, abana o rabo.
— Pense o que quiser — Emanuel disse, voltando-se para o espelho da sala para ajeitar a camisa. — Mas hoje a noite é dela.
Duas horas depois, Eduarda saiu do quarto. Ela estava deslumbrante em um vestido de veludo azul-marinho, os cabelos presos em um coque elegante que deixava seu pescoço à mostra. Ela usava o perfume de flores brancas, e o rastro de sua fragrância parecia dominar todo o ambiente.
Ela caminhou até Emanuel e passou o braço pelo dele, lançando um olhar calmo e quase piedoso para Sara, que estava sentada no sofá, roendo as unhas de fúria.
— Vamos, Manu? — perguntou Eduarda, a voz doce e manhosinha, mas com um brilho de aço nos olhos.
— Vamos, meu amor — Emanuel respondeu, abrindo a porta para ela.
Sara assistiu aos dois saírem, o som da porta se fechando parecendo um veredito final. Ela olhou para o bracelete de ouro em seu pulso. Ele brilhava intensamente, mas agora parecia frio e sem vida. Pela primeira vez, Sara sentiu medo. Ela percebeu que a agressividade e o corpo perfeito podiam atrair a atenção de Emanuel, mas era a vulnerabilidade calculada de Eduarda que detinha o verdadeiro poder.
No elevador, Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, sentindo a vitória pulsar em suas veias. Ela não precisava gritar, não precisava de silicone, não precisava de ouro. Ela só precisava saber exatamente onde apertar para que Emanuel se ajoelhasse. E enquanto eles seguiam para o jantar que ela havia escolhido, Eduarda sorriu para o próprio reflexo no espelho do elevador. Ela não era mais a sombra. Ela era a mão que movia as peças, e Emanuel, o seu prêmio mais fiel, estava exatamente onde ela queria: completamente rendido à sua fragilidade.