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Duas namoradas

Ouro e Cinzas

O sol da tarde atravessava as janelas do apartamento, mas a luz não parecia suficiente para dissipar a tensão que pairava na sala. Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro, o notebook fechado sobre o colo, observando o rastro de sacolas de grife que se estendia da porta de entrada até o sofá. Eram caixas de sapatos italianos, sacolas de seda de lojas da Oscar Freire e embalagens de cosméticos importados que custavam o equivalente a um carro popular.

No centro daquela ostentação, Sara desfilava com um par de botas novas, o salto agulha estalando contra o piso com uma arrogância ritmada. O cabelo loiro estava impecável, resultado de horas em um dos salões mais caros da cidade, e as unhas brilhavam com um esmalte dourado que parecia gritar "poder".

— Você exagerou, Sara — disse Emanuel, a voz baixa e perigosa.

Sara parou, uma mão na cintura e a outra segurando uma taça de espumante que ela mesma servira ao chegar.

— Exagerei? Emanuel, querido, eu apenas fiz o que você sugeriu. Você disse "usem o cartão para ficarem bonitas". Eu apenas levei o seu desejo a sério. — Ela deu um gole na bebida, lançando um olhar de soslaio para o corredor. — Se a outra é lenta demais para aproveitar uma oportunidade, o problema não é meu.

— Eu deixei o cartão e uma quantia em dinheiro para as duas — Emanuel levantou-se, a paciência esfiando. — O limite era generoso justamente para que Eduarda também pudesse renovar o guarda-roupa e ir ao salão. Ela passou o dia inteiro esperando por você para irem juntas, como eu pedi.

— Ah, por favor! — Sara revirou os olhos, jogando-se no sofá sobre uma pilha de roupas de seda. — Eu não sou babá de ninguém. Tentei chamar, mas ela estava lá, naquele quarto, com aquela cara de quem vai desmaiar a qualquer momento. Eu tenho horário marcado, Emanuel. O mundo não para porque a Eduarda precisa de cinco horas para decidir se quer um gloss rosa ou pêssego. Eu usei o que estava disponível. Se acabou o limite... bom, o banco que se entenda com você.

— Você zerou o cartão, Sara. Em quatro horas. — Ele caminhou até ela, a sombra de seu corpo cobrindo a loira. — Você agiu de má fé. Sabia que ela estava contando com aquilo.

— Eu não me arrependo de nada — ela retrucou, encarando-o de volta com um sorriso desafiador. — Olhe para mim. Eu valho cada centavo desse limite. A Eduarda ficaria igual a uma boneca de pano mesmo usando Chanel. Eu sou o investimento que dá retorno estético para a sua imagem.

Nesse momento, a porta do quarto de hóspedes se abriu silenciosamente. Eduarda apareceu, vestindo um robe de algodão simples e com os cabelos presos em um coque desfeito. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, e ela segurava as mãos juntas na frente do corpo, a imagem perfeita da desolação.

— Emanuel... — a voz dela saiu em um sussurro embargado. — Não brigue com ela. A culpa foi minha por ter demorado a me arrumar.

Emanuel desviou o olhar de Sara e sua expressão suavizou-se instantaneamente ao encontrar a fragilidade de Eduarda. Ele caminhou até ela, ignorando o riso de deboche que Sara soltou ao fundo.

— Não, Duda. A culpa não foi sua. Eu dei ordens claras.

— Eu só... eu queria muito ter ido fazer as unhas com ela — Eduarda disse, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha pálida. — Eu me senti tão sozinha hoje. O interfone tocava com entregas o tempo todo, e eu percebi que não tinha sobrado nada. Eu nem consegui comprar aquele hidratante que você disse que gostava no meu rosto.

Ela se apoiou no peito dele, escondendo o rosto. Emanuel sentiu o corpo dela tremer levemente. Era a manha clássica de Eduarda, a vulnerabilidade que o desarmava e o fazia sentir-se o único pilar capaz de sustentá-la.

— Está tudo bem, pequena — disse ele, passando a mão pelo cabelo dela. — Você não vai ficar sem nada.

— Ela é patética — Sara comentou de longe, examinando uma de suas bolsas novas. — Esse teatrinho de vítima já está saindo de moda, Eduarda. Aceite que você foi devagar e eu fui rápida. No mundo real, quem chega primeiro leva o prêmio.

— No mundo real, Sara — Emanuel virou-se, a voz fria como gelo —, quem não sabe compartilhar perde o direito de ter.

Ele tirou a carteira do bolso e sacou um cartão preto, de uso exclusivo e sem limites pré-estabelecidos, algo que ele raramente deixava nas mãos de qualquer uma delas.

— Eduarda, troque de roupa. Vou levar você pessoalmente para fazer o que quiser.

Eduarda levantou o rosto, os olhos brilhando com uma esperança tímida.

— Mas as lojas já vão fechar, Emanuel...

— Eu ligo para o gerente do shopping. Eles abrem a loja que eu quiser para você — ele deu um beijo na testa dela. — E amanhã, o melhor cabeleireiro da cidade vai vir aqui atender apenas você.

O sorriso que surgiu no rosto de Eduarda foi vitorioso, embora ela o tenha escondido rapidamente no ombro dele. Sara, por outro lado, levantou-se de um salto, a taça de espumante quase caindo de sua mão.

— Você vai dar o cartão Black para ela? — Sara gritou, a voz subindo oitavas de indignação. — Eu gastei o limite de um cartão comum e você vai dar o mundo para ela por causa de umas lágrimas de crocodilo?

— Você gastou o que não era só seu, Sara — Emanuel respondeu, pegando a chave do carro. — Agora, você vai ficar aqui, cercada pelas suas sacolas, e vai organizar cada uma dessas coisas. Se eu encontrar uma única caixa fora do lugar quando eu voltar, eu devolvo tudo o que você comprou amanhã mesmo.

— Você não faria isso!

— Tente para ver — ele sentenciou.

Eduarda correu para o quarto para se trocar, um passo muito mais leve do que o de minutos atrás. Emanuel ficou na sala com Sara, o silêncio entre eles carregado de eletricidade.

— Você a mima demais — Sara rosnou, cruzando os braços sobre o biquíni de grife. — Ela está te manipulando, Emanuel. Ela usa essa carinha de santa para te tirar tudo.

— E você usa essa agressividade para tentar me controlar — ele rebateu. — A diferença é que a doçura dela me traz paz. A sua vulgaridade só me traz dor de cabeça. Hoje, a noite é dela.

Eduarda voltou vestindo um vestido de seda clara que ele lhe dera no mês passado, parecendo uma visão de pureza. Ela se aproximou de Emanuel e segurou seu braço, lançando um olhar rápido para as sacolas de Sara.

— Emanuel... — ela murmurou, manhosa — ... será que eu posso comprar aquele conjunto de joias que vimos na revista? Aquele com safiras? Combinaria com os meus olhos quando eu choro, você disse.

Emanuel sorriu, um gesto raro de indulgência plena.

— Você pode comprar o que quiser, Duda. O que o seu coração desejar.

Sara assistiu, lívida, enquanto os dois saíam do apartamento. O som da porta batendo foi como um tapa em sua face. Ela olhou para as suas sacolas, para os sapatos caros e para as roupas de luxo, e pela primeira vez, aquilo tudo pareceu cinza. Ela tinha as coisas, mas Eduarda tinha o homem. Ela tinha gasto o dinheiro, mas Eduarda tinha ganhado o poder.

No shopping, o clima era de exclusividade absoluta. Emanuel caminhava com Eduarda como se ela fosse uma peça de porcelana rara. Ele a observava escolher tecidos, experimentar perfumes e selecionar joias com uma delicadeza que o encantava. Diferente de Sara, que comprava com fúria e exibicionismo, Eduarda comprava com gratidão, sempre perguntando se ele aprovava, se ele gostava, se ela ficaria bonita para ele.

— Este fica bom, meu amor? — ela perguntou, segurando um colar de diamantes contra o pescoço.

— Fica perfeito — ele respondeu, aproximando-se para fechar o fecho da joia. — Você não precisa de muito para brilhar, mas eu gosto de ver você adornada com o que há de melhor.

— Eu me sinto uma rainha com você — ela sussurrou, virando-se para beijá-lo. — Obrigada por não me deixar brava com a Sara. Eu fico tão triste quando ela faz essas coisas... sinto que ela me odeia.

— Ela tem inveja de você, Duda. Inveja da sua luz. Não se preocupe com ela. Ela tem as roupas dela, mas você tem a minha proteção.

Ao final da noite, Emanuel carregava apenas três sacolas pequenas, mas o valor do que havia dentro superava em três vezes tudo o que Sara havia comprado durante o dia. Era a compensação de Emanuel, o seu jeito de equilibrar a balança emocional que Sara sempre tentava pender para o seu lado através do caos.

Quando voltaram para casa, o apartamento estava silencioso. Sara havia se trancado no quarto, provavelmente remoendo a derrota. Eduarda, sentindo-se vitoriosa e revigorada, levou Emanuel para o quarto dele.

— Deixe-me mostrar como o colar ficou com o meu conjunto de lingerie novo — ela disse, com aquele tom de voz suave que ele sabia que precedia uma noite de entrega total.

Emanuel sentou-se na cama, observando-a. Ele sabia que Eduarda usava sua fragilidade como arma, assim como sabia que Sara usava o sexo e a agressividade. Ele não era cego às manipulações de nenhuma das duas. Mas, naquela noite, o sabor da doçura recompensada era muito mais atraente do que o amargor da ganância de Sara.

No dia seguinte, o café da manhã foi um campo de batalha silencioso. Sara apareceu com um vestido novo, maquiada para a guerra, mas Eduarda estava apenas com um robe de seda branca, as safiras brilhando em seu pescoço, sem dizer uma palavra.

— Gostou das compras, "santa"? — Sara perguntou, golpeando a torrada com a faca de manteiga.

— Foram maravilhosas, Sara — Eduarda respondeu, com um sorriso calmo e doce. — Emanuel tem um gosto impecável. Ele até escolheu este colar para mim. Disse que joias de verdade pertencem a mulheres que sabem valorizar o que recebem.

Sara apertou o cabo da faca até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Emanuel, temos aquela festa da galeria hoje à noite — Sara disse, tentando mudar o foco. — Eu vou usar o vestido Versace que comprei ontem. Vou ser a mulher mais comentada daquela sala.

— Eduarda também vai — Emanuel disse, sem tirar os olhos do jornal. — E ela vai usar as safiras.

— Ela vai parecer uma dama de companhia perto de mim! — Sara explodiu.

— Ela vai parecer a minha mulher — Emanuel corrigiu, levantando os olhos com uma frieza que fez Sara recuar. — E você, Sara, vai se comportar. Se eu ouvir um único comentário sarcástico sobre o que ela está vestindo ou sobre como ela conseguiu as coisas dela, eu retiro todos os cartões de você por um mês. Fui claro?

Sara bufou, levantando-se da mesa com um movimento brusco.

— Você está sendo injusto! Ela começou isso com aquele choro falso!

— Eu não comecei nada — Eduarda disse, a voz pequena e trêmula novamente, os olhos começando a brilhar com as lágrimas de reserva. — Eu só queria que fôssemos amigas, Sara...

— Chega — Emanuel sentenciou. — Sara, para o quarto. Eduarda, venha aqui.

Sara saiu batendo os pés, o som de sua fúria ecoando pelo corredor. Eduarda aproximou-se de Emanuel e sentou-se em seu colo, escondendo o rosto em seu pescoço.

— Por que ela me trata assim, Emanuel? Eu só queria um dia feliz.

— Esqueça ela, Duda — ele disse, abraçando-a com força. — Você teve o seu dia. E terá a sua noite.

Emanuel sabia que o ciclo nunca terminaria. Sara continuaria a gastar e a provocar, buscando reafirmar seu espaço através da posse material e da dominação verbal. Eduarda continuaria a chorar e a se apoiar, usando sua fraqueza para extrair dele proteção e luxo. E ele continuaria ali, no centro, pagando as contas de ambas — as financeiras e as emocionais — para manter aquele paraíso disfuncional funcionando.

Mas, enquanto sentia o perfume de Eduarda e via o brilho das safiras em seu pescoço, Emanuel sentia que, por enquanto, o preço daquela paz frágil valia cada centavo. Ele era o mestre daquela casa, o provedor de duas mulheres que se odiavam, e aquela guerra, por mais exaustiva que fosse, era o que o fazia sentir-se verdadeiramente no controle.

A noite da galeria prometia ser mais um palco para a disputa. Sara brilharia como ouro, chamativa e agressiva. Eduarda seria como a safira, profunda, rara e silenciosa. E Emanuel caminharia entre as duas, o homem que possuía o brilho de uma e a profundidade da outra, ciente de que, no fim das contas, ele era o único que realmente ganhava naquele jogo de vaidades e sombras.

— Vamos nos preparar — ele sussurrou para Eduarda. — Quero que o mundo veja o que é meu.

Eduarda sorriu contra a pele dele. Ela sabia que tinha vencido aquela rodada. Sara podia ter ficado com as sacolas, mas ela tinha ficado com o coração — e com o cartão Black — de Emanuel. E para ela, isso era mais do que suficiente.