Duas namoradas
O Voo das Borboletas de Vidro
A partida de Eduarda deixou um vácuo estranho no apartamento. Sem o aroma suave de lavanda e o som inaudível de seus passos, o lugar parecia ter se transformado em um cubo de gelo e metal. Para Emanuel, o silêncio não era paz; era um lembrete constante de que uma parte do seu controle havia escapado por aquela porta.
Emanuel não era apenas um homem de negócios; ele era um artista cuja marca estava gravada na pele de celebridades e magnatas ao redor do globo. Seus estúdios de tatuagem, verdadeiros templos de luxo e arte em Londres, Tóquio e Nova York, eram o reflexo de sua personalidade: precisão absoluta, traços inquestionáveis e uma necessidade visceral de domínio sobre a estética. Mas, naquela manhã, diante de uma tela em seu escritório particular, ele não conseguia desenhar uma linha sequer.
O celular sobre a mesa vibrou pela décima vez em duas horas. Ele o pegou com uma urgência que beirava o desespero.
— Duda? Por que demorou tanto para atender? — A voz de Emanuel saiu mais ríspida do que ele pretendia, carregada de uma ansiedade que ele tentava mascarar como autoridade.
— Emanuel, eu estava na trilha com as meninas! — A voz de Eduarda veio acompanhada pelo som de vento e risadas distantes. Ela soava ofegante, mas estranhamente feliz. — Aqui quase não tem sinal. Eu te mandei uma foto da cachoeira, você viu?
— Eu vi uma imagem borrada, Eduarda. Que tipo de segurança esse lugar tem? Se você cair ou se perder, quem vai te achar nesse fim de mundo? — Ele massageava as têmporas, os olhos fixos nas câmeras de segurança do apartamento que mostravam Sara na sala.
— Eu estou bem, de verdade. As meninas conhecem o guia. Eu preciso desligar agora, vamos almoçar em uma vila próxima. Eu te ligo à noite, tá? Beijo!
O sinal caiu antes que ele pudesse protestar. Emanuel bufou, jogando o aparelho sobre a mesa. A independência de Eduarda era como uma tatuagem mal feita que ele não conseguia retocar: incomodava, distorcia sua visão de perfeição e o deixava inseguro.
— Você vai acabar tendo um aneurisma antes do jantar — disse uma voz vinda da porta.
Sara estava encostada no batente, usando um biquíni de tiras douradas que deixava muito pouco para a imaginação, coberto apenas por uma saída de praia transparente. Ela segurava uma taça de champanhe e o observava com um misto de diversão e impaciência.
— Ela está bem, Emanuel. Deixe a santinha respirar um pouco de ar puro sem o seu oxigênio tóxico.
— Não comece, Sara. Eu só estou garantindo que nada aconteça com ela.
— Você está garantindo que ela não perceba que pode viver sem você — Sara caminhou até ele, o quadril balançando de forma rítmica. Ela parou atrás da cadeira dele e começou a massagear seus ombros, as unhas longas e bem feitas cravando-se levemente no tecido da camisa dele. — Esquece a Duda por um segundo. Ela está nas montanhas. Eu estou aqui.
Emanuel fechou os olhos, sentindo o perfume forte e amadeirado de Sara substituir o vazio deixado pela lavanda. Era um contraste violento. Sara era o fogo que ele usava para forjar sua vontade; Eduarda era a água que ele usava para temperar sua alma. Sem a água, o fogo estava começando a queimar tudo ao redor.
— Eu tenho muito trabalho, Sara. Os projetos do estúdio de Berlim estão atrasados.
— O trabalho pode esperar — sussurrou ela, inclinando-se para que seus lábios roçassem a orelha dele. — Ou você vai me dizer que prefere ficar olhando para essas planilhas do que aproveitar que a "fiscal de bons costumes" não está aqui para nos julgar?
Emanuel virou a cadeira, encarando a loira. A vulgaridade de Sara era magnética. Ela não pedia proteção; ela exigia atenção. Ela não se apoiava nele; ela o desafiava a aguentar o peso de sua personalidade.
— Você é insuportável — disse ele, embora sua mão já estivesse subindo pela coxa dela.
— E você adora isso — respondeu Sara, sentando-se no colo dele com uma agilidade predatória. — Você adora o fato de que eu não choro quando você grita. Eu devolvo o grito.
O beijo que se seguiu foi uma batalha de línguas e dentes. Não havia a doçura ou a hesitação que marcavam seus momentos com Eduarda. Com Sara, Emanuel não precisava ser o protetor; ele podia ser o animal. Ele a puxou para mais perto, as mãos explorando as curvas siliconadas e firmes que ela exibia com tanto orgulho. Naquele momento, no escritório cercado por esboços de agulhas e tinta, Emanuel tentou afogar a preocupação por Eduarda na intensidade carnal de Sara.
No entanto, mesmo enquanto suas mãos percorriam o corpo da loira, parte de sua mente ainda estava na pousada. Ele se perguntava se Eduarda estava usando o protetor solar que ele comprou, se ela estava sentindo sua falta ou se, pela primeira vez, ela estava descobrindo que o mundo não era tão assustador quanto ele a fizera acreditar.
— Você está pensando nela de novo — Sara se afastou bruscamente, os olhos faiscando de raiva. — Eu sinto, Emanuel. Você está aqui, mas o seu rastro está lá naquela montanha maldita.
— Não seja ridícula, Sara.
— Ridícula? Eu estou aqui me oferecendo em uma bandeja de prata e você está com a cabeça em uma mulher que provavelmente está rindo de você agora mesmo! — Sara levantou-se, ajeitando a saída de praia com um movimento brusco. — Quer saber? Fica aí com o seu celular. Eu vou sair. Se você quiser me encontrar, estarei no clube. E não me ligue.
Ela saiu batendo a porta, deixando Emanuel sozinho com o zumbido do ar-condicionado e o silêncio ensurdecedor.
Os dias seguintes foram uma tortura. Emanuel ligava para Eduarda cinco, seis vezes por dia. Quando ela não atendia, ele ligava para a recepção da pousada, fingindo ser uma emergência de negócios para garantir que ela ainda estava lá. Ele enviou flores, enviou um motorista particular para ficar de prontidão na cidade vizinha "caso ela precisasse de algo", e monitorou as redes sociais das amigas dela como um detetive obcecado.
— Emanuel, para! — Eduarda exclamou no quarto dia, quando ele ligou pela terceira vez antes do meio-dia. — Você enviou uma cesta de café da manhã para quatro pessoas! As meninas estão achando que você é louco. Eu não consigo nem conversar com elas sem que um funcionário traga um bilhete seu.
— Eu só quero que você saiba que estou aqui, Duda.
— Eu sei que você está aí. Você sempre está aí. Mas eu precisava estar aqui. Por favor, me deixe aproveitar as últimas 24 horas. Eu volto amanhã. Prometo.
Quando o domingo finalmente chegou, a tensão no apartamento era palpável. Sara estava de mau humor, sentindo-se negligenciada pela obsessão de Emanuel, e ele estava em um estado de alerta constante, verificando o aplicativo de trânsito a cada cinco minutos para ver se havia algum acidente na rodovia que trazia Eduarda de volta.
O som da chave na fechadura por volta das seis da tarde fez Emanuel se levantar do sofá como se tivesse levado um choque.
A porta se abriu e Eduarda entrou. Mas não era a Eduarda que havia saído.
Ela usava um vestido de linho bege, os cabelos estavam mais claros, queimados pelo sol, e presos em um coque despojado. Sua pele tinha um brilho bronzeado e saudável, e o mais impressionante: seus olhos. Eles não estavam baixos ou úmidos; eles estavam abertos, curiosos e vibrantes.
— Cheguei! — disse ela, deixando a mala de mão de lado e abrindo os braços.
Emanuel caminhou até ela, envolvendo-a em um abraço esmagador.
— Você demorou. Eu estava quase indo te buscar.
— O trânsito estava calmo, Emanuel. Você que é impaciente — ela se afastou um pouco, olhando-o nos olhos. Ela não desviou o olhar como costumava fazer. — Oi, Sara.
Sara, que observava da cozinha, arqueou uma sobrancelha.
— Olha só... a borboleta saiu do casulo. O que te deram naquela pousada? Chá de audácia?
Eduarda riu, um som leve e seguro.
— Deram-me silêncio, Sara. E espaço. É incrível o que a gente descobre sobre si mesma quando não tem ninguém dizendo o que a gente deve sentir o tempo todo.
Emanuel sentiu um calafrio. Aquela frase soou como uma declaração de independência que ele não estava pronto para assinar.
— Você está diferente, Duda — disse ele, a voz carregada de uma cautela nova. — Está mais... falante.
— Estou feliz, Emanuel. As meninas e eu conversamos muito. Eu percebi que passei muito tempo com medo de tudo. Medo de te desagradar, medo da Sara, medo de não ser o que vocês esperavam.
Ela caminhou até a varanda, olhando para a vista da cidade que Emanuel tanto amava.
— Eu decidi uma coisa — continuou ela, virando-se para eles. — Eu vou voltar a estudar. Quero fazer aquele curso de História da Arte que eu sempre adiei. E já fiz a matrícula hoje de manhã, pelo celular, no caminho de volta.
Emanuel abriu a boca para dizer que ela não precisava disso, que ele podia ensinar tudo o que ela quisesse sobre arte, que ele tinha livros e contatos... mas as palavras morreram em sua garganta. O olhar de Eduarda era firme. Era a doçura de sempre, mas agora temperada com uma espinha dorsal de aço.
— História da Arte? — Sara deu um passo à frente, o deboche habitual falhando. — E quem vai cuidar das suas "crises de choro" quando as provas chegarem?
— Eu mesma, Sara — respondeu Eduarda, com um sorriso calmo. — E se eu precisar chorar, vou chorar porque estou cansada de estudar, não porque alguém me fez sentir pequena.
Emanuel sentiu uma mistura contraditória de orgulho e terror. Ele a queria segura, mas a segurança que ele oferecia era uma gaiola. Agora, ela estava abrindo a porta por conta própria.
— Eu te apoio, Duda — disse ele, a voz saindo mais rouca do que o normal. — Se é o que você quer... eu te apoio.
— Eu sei que apoia, Emanuel. Mas eu não estou pedindo permissão. Estou apenas contando como vai ser de agora em diante.
Ela passou por ele, dando um beijo leve em sua bochecha, e seguiu para o quarto para desfazer as malas.
Emanuel e Sara ficaram sozinhos na sala. O silêncio voltou, mas agora era diferente. Não era o vazio da ausência de Eduarda; era a pressão de sua nova presença.
— Você viu isso? — perguntou Sara, a voz subitamente baixa. — Ela não gaguejou. Ela nem sequer olhou para o chão.
— Eu vi — respondeu Emanuel, sentindo que o equilíbrio de poder no apartamento havia mudado irrevogavelmente.
Ele caminhou até a janela, observando o reflexo de si mesmo no vidro. Ele era o mestre das agulhas, o homem que gravava sua vontade na pele dos outros. Mas ali, sob o seu próprio teto, ele percebia que a tatuagem mais profunda não era aquela que ele fazia, mas aquela que a vida estava desenhando neles três.
Eduarda havia voltado. Mas a menina manhosa que se escondia atrás dele havia ficado em algum lugar naquelas montanhas. O que restava era uma mulher que ainda o amava, mas que começava a amar a si mesma um pouco mais. E Emanuel, pela primeira vez em sua vida de controle e luxo, não sabia se seu amor seria suficiente para mantê-la por perto sem as correntes da fragilidade.
— Vai ser uma noite longa — murmurou Sara, servindo-se de mais champanhe.
— Vai ser uma vida nova — corrigiu Emanuel, enquanto ouvia o som de Eduarda cantarolando no quarto, uma melodia que ele não conhecia, mas que, pela primeira vez, ele estava ansioso para aprender.