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Duas namoradas

O Sangue e o Vidro

O som do impacto foi algo que Emanuel nunca esqueceria — o estridular do metal retorcendo, o estilhaçar do para-brisa que pareceu uma chuva de diamantes cortantes e, por fim, o silêncio súbito e sufocante. O carro, seu refúgio de ordem e lógica, agora era uma armadilha de fumaça e dor. Enquanto a consciência se esvaía, a última coisa que passou por sua mente não foi o relatório financeiro ou a reunião do dia seguinte, mas os rostos de Eduarda e Sara, distorcidos em uma briga que ele não estava mais lá para mediar.

Quando o hospital ligou, o apartamento, que já vivia sob uma guerra fria, tornou-se o epicentro de um terremoto.

Eduarda foi a primeira a chegar. Ela entrou na sala de espera como um espectro, o vestido de algodão amassado, os olhos grandes transbordando antes mesmo de receber notícias. Ela não perguntou sobre o seguro ou sobre o carro; ela apenas se encolheu em uma cadeira de plástico, abraçando os próprios joelhos e balançando o corpo num ritmo frenético de oração silenciosa.

Dez minutos depois, o som rítmico e agressivo de saltos altos anunciou a chegada de Sara. Ela estava com a maquiagem borrada — algo raríssimo — e segurava o celular com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

— Onde ele está? — gritou Sara para a recepção, ignorando as enfermeiras que pediam silêncio. — Eu sou a mulher dele! Emanuel Silva! Onde ele está?

Eduarda levantou o olhar, o rosto banhado em lágrimas.

— Ele está na cirurgia, Sara... — a voz de Eduarda saiu como um sopro. — O médico disse que foi um trauma torácico e uma fratura na perna.

Sara parou e olhou para Eduarda. Por um segundo, a máscara de agressividade caiu, revelando um terror genuíno. Mas a vulnerabilidade de Sara sempre se transformava em ataque.

— Se você não tivesse feito aquele drama todo antes de ele sair, ele não estaria nervoso! — acusou Sara, apontando o dedo perfeitamente manicurado. — Você e esse seu jeito de "vítima" tiraram a concentração dele no trânsito!

Eduarda não reagiu com o silêncio habitual. Ela se levantou, as mãos tremendo, e encarou a loira.

— Você não tem o direito... — soluçou Eduarda. — Você passou a semana provocando, gritando, infernizando a vida dele! Ele saiu de casa querendo fugir de você, não de mim!

— Parem! — Uma enfermeira interveio antes que a discussão escalasse. — O paciente está em recuperação. Só uma de cada vez pode entrar.

A disputa por quem entraria primeiro quase gerou um novo embate físico, mas a exaustão venceu. Emanuel sobreviveu, mas o retorno para casa, semanas depois, seria o verdadeiro teste de resistência.

O apartamento foi transformado em uma enfermaria de luxo. Emanuel estava instalado na cama king-size, a perna esquerda engessada e suspensa, várias costelas enfaixadas e um corte profundo que subia pela têmpora, agora escondido por curativos. Ele estava pálido, o semblante de controle substituído por uma fragilidade que ele detestava.

— Emanuel, querido, beba só mais um pouco de água — murmurou Eduarda, sentada na beira da cama. Ela segurava o copo com uma delicadeza quase religiosa, a mão livre acariciando o cabelo dele com toques suaves, como se ele fosse feito de porcelana. — Eu fiz aquele caldo de galinha que você gosta. Bem leve, para não pesar no estômago.

— Obrigado, Duda... — Emanuel sussurrou, a voz ainda fraca pelos analgésicos.

A porta do quarto se abriu com um estrondo. Sara entrou carregando uma sacola de farmácia e um notebook.

— Sai da frente, Eduarda. Ele precisa de vitaminas de verdade, não de sopinha de hospital — disse Sara, jogando uma caixa de suplementos importados sobre a mesa de cabeceira. — E Emanuel, eu trouxe o seu computador. O pessoal do escritório não para de ligar. Se você ficar parado sem produzir, vai entrar em depressão. Trabalho é o melhor remédio.

Emanuel fechou os olhos, sentindo uma pontada na costela.

— Sara, ele não pode trabalhar! — Eduarda se levantou, a voz subindo de tom, perdendo a doçura habitual. — O médico disse repouso absoluto! Ele precisa de paz, de silêncio, de carinho. Não de planilhas!

— Ele precisa se sentir útil, sua tonta! — rebateu Sara, cruzando os braços, o decote do top esportivo subindo enquanto ela bufava. — Ficar aqui sendo paparicado por você como se fosse um bebê de colo vai atrofiar o cérebro dele. Ele é um homem, não um boneco de pano!

— Você é insensível! — Eduarda gritou, as lágrimas voltando a brilhar. — Você só pensa no status dele, no dinheiro, no que ele produz! Eu me preocupo com o coração dele!

— Ah, poupe-me! — Sara deu um passo à frente, invadindo o espaço de Eduarda. — Você se preocupa em ser a enfermeira boazinha para ele ficar dependente de você. É puro egoísmo disfarçado de fofura!

Emanuel soltou um gemido de dor que não era totalmente físico.

— Por favor... — murmurou ele —... as duas. Minha cabeça está explodindo.

Imediatamente, as duas voltaram a atenção para ele, mas de formas opostas. Eduarda mergulhou uma toalha em água fria e começou a passar na testa dele, com movimentos lentos e rítmicos.

— Viu o que você fez? — sussurrou Eduarda para Sara. — Você o deixa agitado.

— Eu o deixo vivo! — Sara pegou o controle do ar-condicionado e diminuiu a temperatura drasticamente. — Está um calor infernal aqui dentro, ele vai ter febre desse jeito. E essa toalha está pingando no travesseiro, você é desastrada até para cuidar de alguém!

Sara arrancou a toalha da mão de Eduarda.

— Me dá isso aqui. Eu sei fazer uma compressa que presta.

— Não toque em mim! — Eduarda tentou recuperar a toalha, e as duas começaram um cabo de guerra silencioso e feroz sobre o rosto de Emanuel.

— Chega! — Emanuel tentou se levantar, mas a dor nas costelas o atingiu como uma facada. Ele perdeu o fôlego, o rosto ficando subitamente cinzento.

O pânico uniu as duas por um breve segundo. Eduarda segurou a mão dele, beijando seus dedos e soluçando, enquanto Sara corria para pegar o frasco de remédios para dor, despejando a dose exata com uma precisão cirúrgica.

— Toma, Emanuel. Engole logo — ordenou Sara, embora sua voz estivesse tremendo.

Ele tomou o remédio e afundou nos travesseiros, esperando o efeito entorpecente.

— Eu não aguento mais vocês duas brigando sobre o meu corpo — disse ele, a voz falhando. — Eu sofri um acidente. Eu quase morri. E a única coisa que vocês fazem é disputar quem é a melhor cuidadora.

— Eu só quero o seu bem, Emanuel — disse Eduarda, escondendo o rosto no ombro dele, buscando o contato físico que sempre fora sua âncora. — Eu tive tanto medo de te perder... eu não saberia o que fazer sem você para me proteger.

— E eu tive medo de não ter mais ninguém para me desafiar — disse Sara, sentando-se aos pés da cama, sua mão apertando o tornozelo dele por cima do lençol. — Você sabe que eu sou difícil, Emanuel. Mas eu cuidaria de você até no inferno, só não espere que eu faça isso choramingando como ela.

Emanuel olhou para as duas. Eduarda, a imagem da devoção sensível, cujo amor era um abraço sufocante e doce. Sara, a força bruta e provocadora, cujo amor era um campo de batalha constante. Ele as amava, de formas terrivelmente diferentes, mas a convalescença estava revelando o lado mais sombrio daquela tríade: a incapacidade de coexistirem sem que ele fosse o preço a ser pago.

— Eu quero dormir — disse Emanuel. — Mas eu quero que as duas fiquem aqui. Sem gritos. Sem acusações. Se eu ouvir uma palavra de insulto, eu juro que volto para o hospital agora mesmo.

Eduarda assentiu, limpando o rosto no lençol. Ela se acomodou de um lado dele, apoiando a cabeça em seu braço bom. Sara, num gesto raro de concessão, tirou os saltos e deitou-se do outro lado, por cima das cobertas, mantendo uma distância vigilante de Eduarda, mas mantendo a mão sobre o peito de Emanuel, sentindo o ritmo do coração dele.

O silêncio finalmente se instalou, mas era um silêncio carregado de eletricidade.

Na manhã seguinte, a trégua foi quebrada pelo cheiro de café.

— O que é isso? — perguntou Sara, entrando no quarto com uma bandeja de frutas tropicais e iogurte grego. — Eu disse que ele precisa de proteína de manhã.

Eduarda já estava lá, segurando uma tigela de mingau de aveia morno.

— Ele precisa de algo que conforte o estômago, Sara. O estômago dele está sensível por causa dos remédios fortes. O seu café é puro ácido.

— O meu café é o que o mantém acordado para a vida! — Sara colocou a bandeja sobre a cama, empurrando a tigela de Eduarda para o lado. — Olha esse mingau, parece cola de papel de parede. Emanuel, não come isso. Experimenta o mamão, eu mesma escolhi.

— Ele vai comer o mingau — insistiu Eduarda, levando a colher à boca de Emanuel.

— Ele vai comer a fruta! — Sara pegou um pedaço de mamão com o garfo e tentou competir pela atenção da boca dele.

Emanuel olhou para as duas colheres diante de seu rosto. A situação era absurda, quase cômica, se não fosse tão exaustiva.

— Eu não sou um bebê no zoológico! — Emanuel empurrou ambas as mãos para longe, o que lhe causou um novo espasmo de dor. — Saiam! As duas! Agora!

— Mas Emanuel... — começou Eduarda, o lábio inferior tremendo.

— Fora! — rugiu ele. — Eu vou tomar o café sozinho. Eu vou me trocar sozinho. Se eu cair e quebrar a outra perna, ao menos terei paz no chão!

As duas saíram em silêncio, mas assim que a porta se fechou, a discussão recomeçou no corredor.

— Viu? Você o estressou de novo com essa sua mania de ser a "mãezinha"! — sibilou Sara.

— Eu o estressei? Você entrou aqui como um furacão, Sara! Você não tem respeito pelo tempo de cura das pessoas!

Emanuel ouviu o som de algo quebrando na cozinha — provavelmente um prato — e o choro subsequente de Eduarda, seguido pelas risadas sarcásticas de Sara. Ele se recostou nos travesseiros, olhando para o teto.

Ele percebeu que o acidente não mudara nada. A fragilidade de Eduarda continuava sendo sua arma de manipulação emocional, atraindo-o para um papel de salvador que o esgotava. A agressividade de Sara continuava sendo sua forma de exigir espaço, testando seus limites até que ele explodisse.

Ele estava sendo cuidado por duas mulheres que o amavam, mas que se odiavam mais do que o amavam.

Horas mais tarde, Eduarda entrou no quarto, aproveitando que Sara estava no banho. Ela estava com um vestido leve, de flores miúdas, e trazia um livro de poemas.

— Emanuel... — ela sussurrou, sentando-se ao lado dele. — Me perdoa. Eu só fico tão nervosa quando ela está por perto. Ela me faz sentir pequena, me faz sentir que eu não sou boa o suficiente para você.

Ela deitou a cabeça no peito dele, e Emanuel sentiu a umidade das lágrimas dela através da camiseta.

— Você é ótima, Duda — disse ele, passando a mão pelo cabelo dela. — Mas você precisa aprender a se defender sem usar o meu cansaço como escudo.

— Eu tento — mentiu ela, a voz manhosa. — Mas ela é tão vulgar, tão bruta... eu sinto que se eu não me apoiar em você, ela vai me apagar.

Antes que Emanuel pudesse responder, Sara apareceu na porta, enrolada em um roupão de seda vermelha, o cabelo loiro úmido e selvagem.

— Que cena linda — debochou Sara. — A princesa e o cavaleiro ferido. Já contou para ele que você "acidentalmente" derramou o suco detox dele na pia porque foi eu quem fiz?

Eduarda ficou tensa nos braços de Emanuel.

— Eu não fiz isso! — mentiu Eduarda, a voz falhando ligeiramente.

— Fez sim. Eu vi. Você é uma sonsa, Eduarda. Usa essa carinha de quem não quebra um prato para sabotar tudo o que eu faço por ele.

— Parem... — Emanuel tentou intervir, mas Sara já atravessava o quarto.

— Não, Emanuel! Ela precisa ouvir! — Sara parou diante de Eduarda. — Você acha que ele não percebe? Ele é um homem inteligente. Ele sabe que esse seu choro é calculado. Ele sabe que você se apoia nele para não ter que caminhar com as próprias pernas.

— E você? — Eduarda se levantou, a sensibilidade dando lugar a uma raiva fria. — Você o trata como um troféu! Você quer que ele se recupere logo para poder desfilá-lo por aí, para mostrar para as suas amigas o homem que você "conquistou". Você não o ama, Sara. Você ama o poder que ele te dá.

— Eu o amo com a verdade! — gritou Sara. — Eu não finjo ser quem eu não sou! Se eu estou com raiva, eu grito! Se eu o quero, eu pego! Eu não fico rastejando e pedindo permissão para existir como você faz!

Emanuel sentiu a pressão subir. A dor nas costelas parecia pulsar no ritmo dos gritos delas. Ele olhou para a mesa de cabeceira, vendo os frascos de remédio, o computador, o mingau frio e as frutas intocadas. Era o resumo de sua vida: um caos de excessos e carências.

— Sabe o que é o pior? — Emanuel disse, sua voz cortando o grito de Sara.

As duas pararam e olharam para ele.

— O pior é que, enquanto eu estava naquele carro, vendo o vidro estourar, eu tive um segundo de paz. — Ele riu, um som seco e doloroso. — Um segundo onde não havia cobranças. Onde ninguém estava chorando por atenção e ninguém estava gritando por domínio.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda recuou, o rosto pálido. Sara desviou o olhar, as unhas cravadas no tecido do roupão.

— Se vocês querem realmente cuidar de mim — continuou Emanuel —, comecem cuidando do respeito que vocês deveriam ter por esta casa. Eu não sou um campo de batalha. Eu sou um homem quebrado, tentando colar os pedaços. E se vocês não conseguirem ficar no mesmo cômodo sem se rasgarem, então talvez eu deva terminar essa recuperação sozinho.

Eduarda começou a soluçar, mas desta vez, não se aproximou dele. Ela saiu do quarto, escondendo o rosto nas mãos. Sara ficou parada por um longo tempo, olhando para o nada. Depois, caminhou até a cama e ajeitou o lençol sobre os pés de Emanuel, um gesto desprovido de sua arrogância habitual.

— Eu vou para a sala — disse Sara, a voz rouca. — Se precisar de algo... chama ela. Eu não quero te estressar mais hoje.

Ela saiu e fechou a porta com cuidado.

Emanuel ficou sozinho na penumbra do quarto. Ele sabia que a paz duraria pouco. Logo, Eduarda voltaria com mais chá e mais desculpas manhosas, e Sara voltaria com alguma provocação para testar sua paciência. O acidente de carro fora grave, mas o acidente que era sua vida sentimental era uma colisão contínua, uma sucessão de impactos que nenhum gesso ou curativo poderia curar.

Ele fechou os olhos, ouvindo o som abafado de uma nova discussão começando na cozinha, longe o suficiente para ele não entender as palavras, mas perto o bastante para saber que a guerra nunca terminaria. Ele era o centro do mundo delas, mas naquele momento, ele se sentia o homem mais isolado da terra.