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Duas namoradas

O Batom e a Cicatriz

Os meses que se seguiram ao acidente de Emanuel foram um exercício de paciência e manipulação refinada. A poeira das brigas explosivas havia baixado, dando lugar a uma rotina de tensões veladas, onde cada uma das mulheres buscava seu próprio território. Sara continuava a ser o furacão de unhas feitas e roupas justas, dominando as noites com sua energia voraz, enquanto Eduarda havia se tornado uma mestre na arte da vulnerabilidade estratégica.

Eduarda sabia que não podia competir com a vulgaridade magnética de Sara no campo da agressividade. Sua força residia na fragilidade, no toque suave e na capacidade de fazer Emanuel se sentir o único protetor de um mundo cruel. E naquela tarde de terça-feira, o destino — ou um descuido calculado — deu a ela a oportunidade perfeita para consolidar seu império emocional.

Ela havia ido ao salão para uma sessão completa de depilação. A esteticista, talvez apressada, talvez desatenta, acabou cometendo um erro com a cera quente demais em uma área extremamente sensível. O resultado foi uma pequena queimadura, uma irritação avermelhada e ardida bem na dobra da virilha, descendo para os lábios delicados. Para qualquer outra mulher, seria apenas um incômodo doméstico; para Eduarda, era uma arma de sedução em massa.

Emanuel estava no escritório do apartamento, cercado por planilhas e o som do ar-condicionado, quando ouviu o clique suave da porta. Ele não precisou olhar para saber quem era. O perfume de lavanda e o caminhar quase inaudível eram a assinatura de Eduarda.

— Emanuel... — A voz dela saiu em um fio, carregada de uma dor contida que fez os ombros dele tensionarem imediatamente.

Ele girou a cadeira, encontrando-a parada no portal. Ela usava um vestidinho de alças finas, de um tom rosa pálido, que mal chegava ao meio das coxas. Seus olhos estavam úmidos, e ela mordia o lábio inferior de um jeito que gritava por socorro.

— O que aconteceu, Duda? — perguntou ele, fechando o notebook. O instinto de proteção, aquele reflexo que ela sabia cultivar tão bem, já estava em alerta máximo.

— Eu fui me depilar... — Ela deu um passo trêmulo para dentro da sala, as mãos apertando a barra do vestido. — A moça foi tão bruta, Emanuel. Está doendo tanto. Acho que ela me machucou de verdade.

— Deixe-me ver isso — disse ele, a voz assumindo aquele tom prático e sério que usava para resolver crises.

Eduarda hesitou, um rubor subindo pelas bochechas, o que só serviu para torná-la mais atraente aos olhos dele. Ela se aproximou da mesa, ficando entre as pernas de Emanuel.

— Aqui? — sussurrou ela, com uma timidez que beirava o teatral, mas que funcionava perfeitamente.

— Sim, Duda. Como vou saber se precisa de remédio se não olhar?

Com movimentos lentos e dedos trêmulos, Eduarda começou a levantar a barra do vestido. Ela não usava calcinha — um detalhe que ela sabia que Emanuel notaria antes mesmo do ferimento. À medida que o tecido subia, a pele alva e macia de suas coxas era revelada, até que ela exibiu a região íntima, onde uma mancha avermelhada contrastava com a perfeição de sua pele.

Emanuel sentiu a garganta secar. O machucado estava lá, de fato, uma pequena irritação causada pela cera, mas o cenário era muito mais estimulante do que clínico. A visão de Eduarda, vulnerável, expondo-se daquela maneira sob a luz forte do escritório, disparou algo primitivo em seu sangue.

— Está vendo? — murmurou ela, inclinando-se um pouco mais, o que escancarou a visão para ele. — Está ardendo tanto... você acha que vai ficar cicatriz?

Emanuel estendeu a mão, os dedos roçando de leve a borda da pele irritada. Eduarda soltou um suspiro baixinho, um som entre a dor e o deleite, e suas mãos pousaram nos ombros dele para se equilibrar.

— Não vai ficar cicatriz, Duda — disse ele, a voz agora mais baixa, perdendo a autoridade médica para uma rouquidão perigosa. — Mas está bem irritado.

— Você pode passar uma pomada? — pediu ela, manhosa, os olhos fixos nos dele. — Eu não consigo alcançar direito sem me machucar mais. Só confio em você para tocar aí.

Emanuel sabia o que ela estava fazendo. Sabia que aquele era o jogo dela, a "manhã" que ela usava para prendê-lo. Mas o cheiro dela, a textura da pele sob seus dedos e a visão proibida de sua intimidade ferida eram demais para sua lógica resistir.

Ele abriu a gaveta da mesa, onde guardava alguns itens de primeiros socorros, e encontrou um tubo de pomada cicatrizante. Seus movimentos eram deliberadamente lentos. Ele colocou um pouco do creme nos dedos e voltou a tocar a pele de Eduarda.

— Avisa se doer — disse ele.

— Hum... dói um pouquinho — mentiu ela, arqueando levemente as costas, o que aproximou ainda mais seu corpo do rosto dele. — Mas seu toque é tão bom, Emanuel. Você é sempre tão cuidadoso comigo.

A aplicação da pomada transformou-se rapidamente em algo diferente. Os dedos de Emanuel começaram a se desviar da área machucada, explorando a maciez das coxas internas e a umidade que começava a surgir, provando que Eduarda estava tão excitada quanto ele pelo próprio jogo.

— Duda... — ele começou a dizer, mas ela o interrompeu, inclinando-se para frente e selando seus lábios em um beijo doce, mas exigente.

— Eu sou sua, não sou? — sussurrou ela contra a boca dele. — Cuida de mim, Emanuel. Me faz esquecer que dói.

Ele a puxou pela cintura, sentando-a sobre a mesa do escritório, espalhando papéis e canetas para os lados. O vestido rosa foi puxado para cima, e Emanuel se entregou àquela necessidade de possuir a fragilidade que ela lhe oferecia. Era um contraste absoluto com Sara; com Eduarda, ele sentia que cada gemido era uma entrega, cada carícia era um pedido de proteção que ele estava mais do que disposto a atender.

O sexo foi intenso, marcado por uma urgência que os meses de tensão haviam acumulado. Eduarda gemia o nome dele, agarrando-se ao seu pescoço, usando sua "ferida" como o pretexto final para desarmar qualquer resistência que ele ainda tivesse. Naquele momento, ela era a rainha do apartamento.

No entanto, a bolha de intimidade foi estourada pelo som da porta da sala batendo.

— Emanuel! Cheguei e trouxe aquele vinho que você... — A voz de Sara morreu no ar quando ela entrou no escritório e se deparou com a cena.

Emanuel se afastou de Eduarda, ajeitando a calça com uma rapidez desajeitada. Eduarda, no entanto, não pareceu nem um pouco apressada. Ela deslizou da mesa com uma elegância lânguida, ajeitando o vestido com um sorriso pequeno e vitorioso nos lábios.

— Sara... não ouvimos você chegar — disse Eduarda, a voz ainda rouca, mas carregada de uma satisfação que fez o sangue de Sara ferver.

Sara olhou para a mesa bagunçada, para o tubo de pomada aberto e para o rosto corado de Emanuel. Seus olhos loiros faiscaram de ódio puro.

— Mas o que é isso? — gritou Sara, jogando a bolsa de grife no chão. — Emanuel, você está transando com ela em cima dos seus documentos de trabalho? No meio da tarde?

— Ela se machucou, Sara — disse Emanuel, tentando recuperar a postura de autoridade, embora soubesse que era uma batalha perdida. — Foi um acidente no salão. Eu estava ajudando.

— Ajudando! — Sara soltou uma risada estridente e amarga. — Ela te mostrou um arranhãozinho e você caiu como um patinho, não foi? Olha para a cara dela, Emanuel! Ela está rindo da sua cara!

Eduarda caminhou até Emanuel e abraçou seu braço, escondendo o rosto em seu ombro, a imagem perfeita da namorada acuada.

— Ela está gritando de novo, Emanuel... minha cabeça começou a doer — murmurou Eduarda, fazendo um biquinho.

— É claro que dói! — Sara avançou para dentro da sala, o salto agulha martelando o piso. — Dói porque você é uma falsa! Você usa essa bucetinha machucada para manipular ele porque sabe que é a única forma de ganhar atenção, já que não tem personalidade nenhuma!

— Sara, chega! — Emanuel interveio, mas a loira estava fora de controle.

— Chega nada! — Sara apontou para Eduarda. — Você é patética, Duda. Sério. Acha que ganhou alguma coisa? Ele transa com você por pena, por instinto de caridade! Comigo é desejo, é fogo! Você é só um curativo que ele usa quando está cansado!

— Pelo menos ele quer me "curar" — retrucou Eduarda, sua voz subindo de tom pela primeira vez, os olhos brilhando com uma malícia que raramente mostrava. — Ele quer estar comigo, Sara. Ele gosta da minha doçura. Coisa que você nunca vai ter com esse seu jeito de mulher de beira de estrada.

O tapa de Sara foi rápido e certeiro, mas Eduarda se esquivou parcialmente, escondendo-se atrás de Emanuel.

— VOCÊ ME CHAMOU DE QUÊ? — berrou Sara, tentando alcançar a outra por cima do ombro de Emanuel.

— PAREM AS DUAS! — O grito de Emanuel ecoou pelo escritório, fazendo os vidros vibrarem.

Ele empurrou Sara gentilmente, mas com firmeza, para longe da mesa e soltou o braço de Eduarda. Seu rosto estava vermelho, a veia da têmpora saltada. O prazer de instantes atrás havia sido completamente substituído por uma irritação profunda e crônica.

— Eu não aguento mais um dia disso — disse Emanuel, a voz vibrando de raiva contida. — Eduarda, você usa qualquer desculpa para criar um drama e me puxar para esse seu mundo de carência. E você, Sara, não consegue ver um movimento sem achar que é um ataque pessoal e transformar a casa em um hospedeiro de gritos.

— Ela me provocou, Emanuel! — exclamou Sara, ajeitando o decote do vestido justo, a respiração ofegante. — Você viu o que ela disse!

— E você entrou aqui querendo sangue! — rebateu ele. — Eu estava tentando trabalhar, tive que parar para cuidar dela e agora tenho que lidar com o seu show de ciúmes.

Eduarda aproximou-se novamente, tentando tocar a mão dele com seus dedos delicados.

— Emanuel, meu amor... eu só queria que você me ajudasse com a dor...

— A dor já passou, Eduarda! — cortou ele, afastando a mão. — Eu vi como você olhou para ela. Você queria que ela visse. Você queria o confronto tanto quanto ela.

Eduarda baixou os olhos, as lágrimas prontas para cair, mas desta vez Emanuel não se deixou amolecer. Ele caminhou até a porta do escritório e a abriu totalmente.

— Saiam. As duas.

— O quê? — perguntou Sara, incrédula.

— Eu quero silêncio. Eu vou terminar o meu trabalho e depois vou sair para jantar sozinho. Se quando eu voltar, houver um único grito, um único suspiro de reclamação ou uma única indireta, eu juro que coloco as malas de vocês duas no corredor.

Sara bufou, pegando sua bolsa do chão com um movimento brusco.

— Ótimo! Fica aí com o seu silêncio e com essa mosca morta. Eu vou para a academia descarregar o ódio que eu sinto dessa casa!

Ela saiu batendo os saltos, deixando um rastro de perfume caro e agressividade no ar.

Eduarda permaneceu parada, olhando para Emanuel com uma expressão de desamparo que costumava desarmá-lo em segundos.

— Você está bravo comigo também? — perguntou ela, a voz minúscula.

Emanuel olhou para ela. Viu o vestidinho rosa, o cabelo levemente bagunçado pela transa na mesa e a marca da pomada em sua coxa. Ele sentiu um desejo residual, mas o cansaço mental era maior.

— Vá descansar, Eduarda — disse ele, sem emoção. — E da próxima vez que se machucar, use o espelho do banheiro.

Eduarda sentiu o golpe. Sua "manhã" havia funcionado para conseguir o sexo, mas havia falhado em manter a exclusividade emocional que ela tanto desejava. Ela assentiu silenciosamente e saiu do escritório, fechando a porta com a delicadeza de quem pisa em ovos.

Emanuel voltou para sua cadeira. Ele olhou para a mesa bagunçada, para um documento importante que agora tinha uma mancha de pomada cicatrizante. Ele suspirou, esfregando o rosto com as mãos.

Ele tinha duas mulheres lindas, cada uma atendendo a uma parte diferente de seus desejos. Uma era o bálsamo, a outra era o incêndio. Mas, naquele momento, sentado no silêncio tenso de seu escritório, ele percebeu que o preço de ter tudo era viver em um estado permanente de reparos. O machucado de Eduarda tinha sido curado com prazer, mas a ferida aberta na convivência entre elas parecia cada vez mais profunda, e ele começava a desconfiar que nem toda a pomada do mundo seria capaz de fechar aquela cicatriz.