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É só chegar nela

O Aroma de Algodão-Doce e Segredos

O céu de quarta-feira amanheceu com uma tonalidade cinza-chumbo, e a temperatura em Anakt havia caído drasticamente durante a madrugada. O vento cortante soprava pelos corredores abertos da escola, fazendo as janelas vibrarem. Para a maioria, era o clima perfeito para se enterrar em camadas de lã, mas para Till e Sua, o frio parecia não passar de um detalhe irrelevante.

Till caminhava pelo corredor com sua habitual expressão de poucos amigos, vestindo apenas a camiseta branca do uniforme, as mangas dobradas revelando os braços cruzados. Ele parecia emanar o próprio calor através da raiva constante que nutria pelo sistema escolar. Ao seu lado, Sua mantinha o passo silencioso. Ela usava a saia plissada padrão e a camisa social de botões, sem qualquer agasalho por cima. Sua palidez natural parecia quase azulada sob a luz fria, mas ela não tremia; sua melancolia servia como uma espécie de isolante térmico.

— Você vai acabar pegando um resfriado e eu vou ter que carregar suas apostilas — resmungou Hyuna, que estava envolta em um casaco marrom pesado, parecendo um urso elegante.

— Eu estou bem, Hyuna. O frio ajuda a manter o foco — Sua respondeu, a voz saindo baixa e estável.

— A homeostase do corpo humano é prejudicada em temperaturas abaixo de dezesseis graus sem a proteção adequada — pontuou Luka, ajeitando os óculos. Ele vestia uma blusa de frio branca, impecavelmente limpa, que o fazia parecer ainda mais alto e formal. — Estatisticamente, Sua, você tem 40% a mais de chance de desenvolver uma infecção respiratória até o final da semana.

— Que se dane a estatística, Luka — Till interrompeu, chutando uma pedrinha no corredor. — Se ela tá dizendo que tá bem, ela tá bem.

Do outro lado do pátio, o contraste era evidente. Mizi caminhava com a leveza de quem possuía o sol dentro de si, apesar de estar usando um moletom preto largo, sem estampas, com as mãos enterradas nos bolsos frontais. O contraste do preto com o rosa vibrante de seu cabelo era hipnotizante. Ivan a seguia de perto, também de preto, mastigando o que parecia ser um pedaço de alcaçuz preto, o olhar vagando distraidamente pela nuca de Till.

— Você está encarando de novo, Ivan — Mizi murmurou, sem olhar para trás. — E ele está sem casaco. Se você oferecer o seu, ele provavelmente usa pra te enforcar.

— Eu não estava encarando — mentiu Ivan, a voz um pouco anasalada por causa do doce. — Só estava pensando que ele é um idiota por não sentir frio. E você? Por que está com essa cara de quem está tramando um crime?

— Não é um crime. É observação social — Mizi rebateu, o sarcasmo pingando de sua voz sedutora.

As aulas da manhã passaram como um borrão de fórmulas e datas históricas. Mizi, como de costume, passou metade do tempo cochilando sobre o braço, mas seus olhos dourados se abriam estrategicamente sempre que Sua se movia no lado esquerdo da sala. Havia algo na quietude daquela garota que atraía Mizi como um ímã.

Quando o sinal do intervalo tocou, o grupo de Sua se dirigiu aos armários. O corredor estava lotado, um mar de adolescentes barulhentos. Mizi estava saindo da sala com Lexy pendurada em seu braço e Ivan logo atrás, reclamando da falta de açúcar na cantina.

Foi quando ela viu.

Sua estava de costas, conversando com Hyuna enquanto guardava um livro pesado no armário. Na parte de trás da saia cinza clara, uma mancha vermelha, pequena mas inegável, começava a se expandir.

O coração de Mizi deu um solavanco. Ela sabia exatamente o que era. E sabia que, naquele ambiente cruel de ensino médio, aquilo seria motivo de piadas maldosas por semanas se alguém do grupo popular — ou qualquer idiota aleatório — percebesse.

— Mizi? Você ouviu o que eu disse? — Lexy perguntou, puxando a manga da namorada. — A gente vai sentar com o pessoal do clube de teatro ou...

— Espera um segundo, Lex — Mizi interrompeu, sua voz perdendo o tom brincalhão e assumindo uma autoridade súbita. — Ivan, segura a Lexy aí.

Sem dar explicações e sem fazer nenhum alarde, Mizi começou a tirar o moletom preto. Por baixo, ela usava apenas uma regata branca que realçava seus ombros e a pele natural. Ela caminhou com passos decididos, mas silenciosos, em direção ao grupo dos quatro.

Till a viu se aproximar e instintivamente fechou a cara, dando um passo à frente como se esperasse um confronto. Hyuna arqueou as sobrancelhas, surpresa com a aproximação da "rainha da escola". Sua, no entanto, continuava de costas, alheia ao que acontecia.

Mizi não disse uma palavra. Ela simplesmente parou atrás de Sua e, com uma agilidade surpreendente, passou as mangas do moletom pela cintura da garota menor, dando um nó firme e preciso na frente.

Sua deu um pulo, soltando um arquejo de susto. Ela virou o rosto por cima do ombro, os olhos roxos arregalados de confusão e um toque de pânico.

— O que... o que você está fazendo? — a voz de Sua falhou.

Mizi apenas a encarou por um breve segundo. O olhar dourado, geralmente carregado de deboche, estava estranhamente suave, quase protetor. Ela deu um tapinha leve no ombro de Sua, um gesto rápido que deixou um rastro de calor na pele da outra.

— Fica melhor em você do que em mim — Mizi disse, a voz num tom baixo que só os quatro podiam ouvir, carregada daquela rouquidão sedutora que sempre deixava as pessoas sem palavras.

E, sem esperar resposta, Mizi deu meia-volta e caminhou de volta para Ivan e Lexy, que a observavam de queixo caído.

— Mizi, o que diabos foi aquilo? — Ivan perguntou, genuinamente confuso. — Você acabou de dar seu casaco favorito pra "nuvenzinha"?

— Estava calor, Ivan. Não enche — Mizi respondeu, voltando ao seu tom sarcástico habitual, embora suas bochechas tivessem um leve toque rosado que ela tentou esconder ao começar a andar mais rápido.

No corredor, o grupo dos quatro estava estático.

— Por que ela fez isso? — Till rosnou, olhando para as costas de Mizi com desconfiança. — Aquela garota é louca?

Luka ajustou os óculos, analisando a situação com sua lógica fria.

— É uma conduta social altamente atípica para alguém da posição dela. A menos que...

Hyuna, que tinha ficado em silêncio observando a expressão de choque de Sua, subitamente arregalou os olhos. Ela olhou para a parte de trás da amiga e, com um movimento rápido, puxou Sua para um canto mais reservado entre os armários.

— Sua... amiga, acho que entendi — Hyuna sussurrou, verificando a situação. — A natureza te fez uma visita surpresa e a Mizi percebeu antes de todo mundo.

O rosto de Sua passou de pálido para um vermelho intenso em questão de segundos. A vergonha a atingiu como uma onda. Ela olhou para o moletom preto amarrado em sua cintura. Ele era grande, cheirava levemente a um perfume floral caro misturado com algo que lembrava chiclete de morango.

— Ela... ela viu? — Sua cobriu o rosto com as mãos, sentindo o desejo de desaparecer.

— Ela salvou sua pele, isso sim — Hyuna disse, dando um abraço de lado na amiga. — Se não fosse por ela, você ia desfilar pelo refeitório assim. E você sabe como as pessoas aqui são babacas.

— Mas por que ela me ajudaria? — Sua murmurou contra as próprias mãos. — Ela nem fala comigo. Ela é a Mizi.

— Talvez ela não seja tão superficial quanto a gente pensava — Luka comentou, aproximando-se. — De qualquer forma, a ação dela foi eficiente. Sugiro que você mantenha o agasalho até o final do dia letivo.

Sua passou o resto das aulas em um estado de transe. O peso do moletom em seus quadris era um lembrete constante da presença de Mizi. O tecido era macio e quente, e cada vez que ela se movia, o aroma do perfume de Mizi subia, envolvendo-a. Ela se sentia protegida, mas também profundamente exposta. Do outro lado da sala, Mizi parecia ter esquecido o incidente, rindo de algo que Ivan dizia, mas Sua podia jurar que, em certos momentos, sentia o olhar dourado queimando em sua direção.

Quando as aulas finalmente terminaram, Sua caminhou para casa quase correndo. O frio da noite não a atingia, pois o moletom de Mizi era grosso e mantinha o calor do seu corpo preso.

Horas depois, após um banho quente e o alívio de ter resolvido o "problema", Sua estava em seu quarto. O silêncio da casa era absoluto, quebrado apenas pelo som da chuva fina que começava a cair lá fora. Ela estava sentada na beira da cama, olhando para o moletom preto dobrado sobre a cadeira da escrivaninha.

Ela se sentia uma intrusa. Aquela peça de roupa pertencia a um mundo ao qual ela não tinha acesso. O mundo da beleza, da popularidade, da confiança inabalável.

Lentamente, como se estivesse cometendo um pecado, Sua estendeu a mão e pegou o moletom. Ela o trouxe para perto do rosto. Algo dentro dela, uma curiosidade que ela não conseguia controlar, venceu sua timidez habitual. Ela fechou os olhos e respirou fundo, afundando o nariz no tecido de algodão.

O cheiro de Mizi ainda estava lá. Era doce, mas não enjoativo. Era o cheiro de alguém que vivia intensamente, que dormia nas aulas mas brilhava nos corredores. Era reconfortante. Por um momento, Sua sentiu como se a própria Mizi estivesse ali, abraçando-a, dizendo que tudo ficaria bem, que ela não era "horrorosa" como pensava ao se olhar no espelho todas as manhãs.

Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, Mizi estava jogada em sua cama, o cabelo rosa e azul espalhado pelo travesseiro, segurando o celular acima do rosto.

— ...e aí eu disse que se ele não parasse de mastigar tão alto, eu ia enfiar o pacote de balas pela garganta dele — a voz de Ivan saía pelo alto-falante, animada e sem noção.

— Você é muito agressivo, Ivan — Mizi riu, mas era uma risada distraída.

— E você está muito calada. O que foi? Sentindo falta do seu moletom favorito? A Lexy ficou perguntando por que você deu ele pra "esquisita". Eu tive que inventar que você tinha derramado suco nele e a Sua se ofereceu pra lavar. De nada, a propósito.

Mizi suspirou, olhando para o teto do quarto decorado com luzes de LED.

— Ela não é esquisita, Ivan. Ela é só... quieta.

— Sei. E você é uma santa altruísta — Ivan debochou. — Admite logo, Mizi. Você tá caidinha por ela desde que a gente entrou nessa escola de loucos.

— Cala a boca, jumento. Eu tenho namorada.

— Tem uma namorada que você olha como se fosse um enfeite de estante — Ivan retrucou, o tom ficando subitamente sério. — Mizi, sério. Você não engana ninguém. Nem a si mesma.

Mizi ficou em silêncio por um longo tempo. O som da respiração de Ivan do outro lado da linha era a única coisa que ela ouvia.

— Ela parecia tão assustada, Ivan — Mizi finalmente confessou, a voz suave e desprovida de qualquer sarcasmo. — Quando eu amarrei a blusa nela... ela cheirava a papel antigo e melancolia. Eu só queria... não sei. Que ela não se sentisse mal.

— Você é uma romântica incurável fantasiada de garota má — Ivan riu, mas era uma risada gentil. — Só toma cuidado. O Till já me odeia, se o grupo deles achar que você está tirando sarro da Sua, eles vão declarar guerra. E eu não quero levar outra bolada na cara.

— Ninguém vai declarar guerra — Mizi disse, fechando os olhos e lembrando da sensação da pele de Sua sob seus dedos por aquele breve segundo. — Eu só devolvi um favor ao universo.

— Que favor?

— O favor de me deixar estudar na mesma sala que alguém como ela.

Ivan soltou um assobio longo.

— É, você está perdida. Boa noite, Romeu.

— Vai se ferrar, Ivan. Boa noite.

Mizi desligou o celular e o jogou para o lado. Ela se encolheu debaixo das cobertas, sentindo falta do peso do seu moletom preto. Ela se perguntou se Sua já tinha lavado a peça, ou se a tinha jogado em um canto com nojo.

Ela não podia imaginar que, naquele exato momento, Sua estava adormecendo abraçada ao moletom, deixando que o aroma de algodão-doce e segredos a guiasse para um sonho onde ela não precisava se esconder atrás de livros, e onde o olhar dourado de Mizi era a única luz de que ela precisava.