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É só chegar nela

O Peso do Preto e o Brilho do Ouro

A manhã seguinte trouxe consigo uma névoa densa que parecia combinar perfeitamente com o estado de espírito de Sua. Ela havia passado metade da noite lavando o moletom de Mizi à mão, secando-o com um secador de cabelo para garantir que estivesse impecável, e a outra metade da noite apenas encarando o tecido escuro sobre sua cama. Agora, com a peça cuidadosamente dobrada dentro de uma sacola de papel, ela caminhava pelos corredores do Colégio Anakt sentindo que carregava uma bomba relógio.

Ao avistar o grupo de Mizi perto dos armários centrais, o coração de Sua falhou uma batida. Mizi estava encostada no metal frio, a postura relaxada de sempre, cercada por Ivan e Lexy. Lexy ria de algo, as pupilas vermelhas brilhando com uma intensidade que sempre intimidava Sua.

— Inspira, expira... — sussurrou Sua para si mesma, antes de dar o passo final.

Ela se aproximou devagar. A presença de Mizi parecia distorcer o espaço ao redor, tornando tudo mais brilhante e, ao mesmo tempo, mais perigoso.

— Mizi? — A voz de Sua saiu quase como um sopro.

O grupo parou de falar instantaneamente. Ivan arqueou uma sobrancelha, surpreso pela audácia da garota, enquanto Lexy estreitou os olhos pretos, analisando Sua de cima a baixo com um desprezo mal disfarçado. Mizi, por outro lado, desencostou do armário lentamente, um sorriso de canto começando a brincar em seus lábios.

— Olha só quem apareceu — disse Mizi, a voz sedutora vibrando no ar frio do corredor. — Sobreviveu à noite, pequena?

Sua estendeu a sacola, evitando contato visual.

— Vim devolver... o seu moletom. Obrigada por ontem.

Antes que Mizi pudesse estender a mão, Lexy se atravessou entre as duas, arrancando a sacola da mão de Sua com uma força desnecessária.

— Ah, então foi pra "isso" que você deu sua blusa favorita, Mizi? — Lexy riu, uma risada estridente que atraiu a atenção dos alunos que passavam. Ela abriu a sacola e tirou o moletom, segurando-o com as pontas dos dedos como se estivesse sujo. — Sério mesmo? Pra essa coisinha melancólica que nem consegue olhar na cara das pessoas? O que foi, Sua? Esqueceu como se usa um absorvente e teve que pedir esmola pra minha namorada?

O corredor mergulhou em um silêncio mortal. Sua sentiu o sangue fugir de seu rosto, deixando-a ainda mais pálida. As lágrimas de humilhação pinicaram seus olhos roxos, e ela deu um passo para trás, querendo que o chão se abrisse.

— Lexy, devolve a blusa — a voz de Mizi soou baixa, mas havia um fio de aço nela que ninguém costumava ouvir.

— Ah, qual é, Mizi! — Lexy continuou, ignorando o aviso. — Você é a garota mais linda dessa escola, é popular, é perfeita. Por que tá perdendo tempo com essa esquisita horrorosa? Ela provavelmente nem toma banho, olha esse cabelo...

— Eu disse — Mizi deu um passo à frente, e a atmosfera mudou instantaneamente. Ela arrancou o moletom da mão de Lexy com um movimento brusco — para calar a porra da boca, Lexy.

Lexy piscou, chocada.

— O quê? Você tá me mandando calar a boca por causa dela?

— Não é por causa dela. É por causa de você ser uma idiota — Mizi rebateu, os olhos dourados faiscando de uma forma que fez até Ivan dar um passo para trás. — A Sua não me pediu nada. Eu ajudei porque eu quis. E se você tem um problema com isso, o problema é seu, não dela. Agora sai da minha frente antes que eu perca a paciência que eu nem tenho.

Mizi se virou para Sua, ignorando Lexy, que permanecia estática e vermelha de raiva no meio do corredor.

— Ignora ela, Sua. Ela tem cérebro de ervilha — Mizi disse, a voz suavizando instantaneamente, voltando àquele tom que deixava qualquer um sem ar.

Sem olhar para trás, Mizi começou a caminhar em direção à sala de aula, deixando um rastro de choque e sussurros por onde passava. Ivan deu de ombros para uma Lexy furiosa e seguiu a amiga, enquanto Sua permanecia ali, o coração martelando contra as costelas, sentindo que o mundo tinha acabado de virar de cabeça para baixo. Mizi a tinha defendido. Mizi tinha humilhado a própria namorada por ela.

A primeira aula foi de História, e o clima na sala estava mais tenso que uma corda de violino prestes a arrebentar. O professor, um homem grisalho que claramente já tinha desistido da vida, entrou na sala batendo a porta com força. O barulho de conversas, risadinhas sobre o incidente no corredor e o som de cadeiras se arrastando pareciam irritá-lo profundamente.

— Silêncio! — ele gritou, batendo um maço de papéis na mesa. — Eu já estou farto da falta de disciplina desta turma. Eu ia deixar vocês escolherem as duplas para o trabalho de hoje, mas já que vocês preferem agir como animais no cio, eu mesmo farei a divisão.

Um coro de reclamações surgiu, mas foi rapidamente silenciado por um olhar mortal do professor.

— Vai ser uma prova em dupla. Oito pontos. Sem consulta, sem conversa com outras mesas. Apenas você e seu parceiro. Se eu ouvir um pio de uma dupla com outra, é zero para os quatro.

Ele começou a apontar os nomes.

— Hyuna e Luka.

— Ótimo, a probabilidade de tirarmos a nota máxima acaba de subir para 98% — comentou Luka, ajeitando os óculos enquanto se sentava ao lado de Hyuna, que apenas deu um joinha para Till.

— Ivan e Till.

— O QUÊ?! — Till gritou, levantando-se da cadeira. — O senhor só pode estar brincando! Eu não vou sentar com esse... esse projeto de porta-malas de doces!

— Sente-se, senhor Till, ou prefere um zero agora? — o professor rosnou.

Ivan, por outro lado, abriu um sorriso de orelha a orelha, mostrando os dentes brancos enquanto pegava seu estojo.

— Relaxa, revoltado. Eu sou ótimo em datas — Ivan piscou para Mizi, que revirou os olhos.

— E, por fim... Mizi e Sua.

O tempo pareceu parar. Mizi sentiu um frio súbito na barriga, uma sensação que ela não sentia nem quando subia no palco para apresentações. Ela olhou para a esquerda e viu Sua, que parecia estar tentando se fundir com a própria cadeira.

Mizi se levantou com sua elegância habitual e caminhou até o lado esquerdo da sala. Ela puxou uma cadeira e se sentou ao lado de Sua. O perfume de morango e o aroma de "perfeição" de Mizi imediatamente invadiram o espaço pessoal da garota menor.

— Parece que o destino quer que a gente passe um tempo juntas, não é? — Mizi sussurrou, inclinando-se levemente para perto do ouvido de Sua.

Sua não respondeu, apenas abriu o caderno com as mãos levemente trêmulas.

A prova começou. Do outro lado da sala, a dupla Ivan e Till era um desastre anunciado.

— Não encosta no meu lápis, Ivan! — Till sibilou, a voz carregada de ódio.

— Eu só ia apontar que a Revolução Francesa não foi em 1990, seu energúmeno — Ivan respondeu calmamente, mastigando uma bala de caramelo. — Toma um doce e cala a boca, você fica lindo quando não está gritando.

Till ficou vermelho, não se sabia se de raiva ou de outra coisa, e voltou a escrever com tanta força que quase rasgou o papel.

Enquanto isso, na mesa de Mizi e Sua, o ritmo era diferente. Sua estava fazendo praticamente tudo. Seus dedos ágeis escreviam parágrafos complexos sobre o Império Romano, enquanto Mizi estava com a cabeça deitada sobre os braços cruzados na mesa, observando Sua trabalhar.

— Você escreve rápido — comentou Mizi, a voz abafada pelo braço, mas ainda assim carregada de um charme perigoso.

— Eu estudei — Sua respondeu secamente, tentando manter o foco nas questões.

— Eu sei. Você é inteligente. E fica muito fofa quando está concentrada, sabia? Suas sobrancelhas ficam franzidas assim... — Mizi estendeu o dedo e tocou levemente o espaço entre os olhos de Sua.

Sua paralisou. O toque foi breve, mas pareceu queimar. Ela olhou para Mizi, encontrando aqueles olhos dourados que pareciam ler sua alma.

— Mizi, a prova... — Sua tentou protestar.

— A prova está em boas mãos. Você é perfeita nisso — Mizi deu um sorriso preguiçoso. — Sabe, eu gostei do jeito que você lavou meu moletom. O cheiro de amaciante de lavanda combinou com você.

Sua sentiu o rosto esquentar novamente. Ela voltou a escrever, tentando ignorar a presença magnética ao seu lado. Quando finalmente terminaram, faltavam dez minutos para o sinal. O professor estava distraído corrigindo outros papéis, e o burburinho baixo na sala era abafado pelo som da chuva lá fora.

Mizi se espreguiçou, o movimento fazendo sua regata subir um pouco, revelando uma linha de pele natural que fez Sua desviar o olhar rapidamente. Mizi então apoiou o queixo na mão, olhando fixamente para o perfil de Sua.

— Ei, Sua — chamou ela, num tom quase inaudível, mas que carregava a potência de um segredo compartilhado.

Sua virou o rosto lentamente.

— O que foi?

— Você sabe por que eu defendi você hoje de manhã? — Mizi perguntou. O sarcasmo tinha sumido. Seus olhos estavam semicerrados, um olhar tão sedutor que Sua sentiu o ar faltar em seus pulmões.

— Porque... porque a Lexy estava sendo injusta? — Sua arriscou.

Mizi soltou uma risadinha baixa, um som que parecia veludo.

— Também. Mas principalmente porque eu não suporto ver ninguém estragando a vista. E você, Sua... — Mizi inclinou-se mais, o rosto a centímetros do de Sua, o hálito fresco de hortelã roçando sua bochecha — ... você é a vista mais bonita que eu tive o prazer de observar neste terceiro ano. Se você deixar, eu posso te mostrar que meu moletom não é a única coisa quente que eu tenho pra te oferecer.

Sua arregalou os olhos, a boca entreaberta em choque. Antes que pudesse processar o que tinha acabado de ouvir, Mizi piscou um dos olhos dourados, endireitou as costas e fechou os olhos, fingindo cochilar como se nada tivesse acontecido.

O sinal tocou segundos depois, anunciando o intervalo.

Sua saiu da sala em transe, sendo arrastada por Hyuna e Till para o pátio coberto. Luka vinha logo atrás, anotando algo em seu tablet.

— Aquela prova foi um teste de paciência divina — reclamou Till, passando a mão pelo cabelo cinza bagunçado. — O Ivan não cala a boca! Ele tentou me dar um beijinho de açúcar! Aquele cara é doente!

— Pelo menos vocês terminaram — disse Hyuna, olhando para Sua, que parecia estar em choque. — E você, Sua? Como foi com a "Rainha"? Ela te tratou bem ou foi sarcástica o tempo todo?

Sua parou no meio do pátio, as mãos apertando as alças da mochila.

— Gente... — ela começou, a voz trêmula. — Eu acho... eu acho que a Mizi deu em cima de mim.

Houve um silêncio súbito. Till soltou uma risada curta e seca.

— O quê? A Mizi? A garota que namora a Lexy e que tem o fã-clube da escola inteira? Sua, você deve ter batido a cabeça no armário.

— É, amiga, você deve estar delirando por causa do estresse da prova — Hyuna disse, colocando a mão na testa de Sua. — A Mizi é legal, mas ela vive em outro planeta. Ela provavelmente só foi gentil.

— A probabilidade de Mizi, uma figura de alto status social e relacionamento estável, flertar com alguém fora de seu círculo imediato é de aproximadamente 2% — acrescentou Luka, sem tirar os olhos do tablet.

Sua balançou a cabeça, sentindo-se frustrada.

— Não! Ela disse... ela disse que eu era a vista mais bonita do terceiro ano. E disse que o moletom dela não era a única coisa quente que ela tinha pra me oferecer!

Till parou de rir. Hyuna deixou o queixo cair. Até Luka levantou os olhos do tablet, as sobrancelhas sumindo atrás da franja loira.

— Ela disse O QUÊ? — Hyuna gritou, fazendo alguns alunos olharem.

— Ela disse exatamente isso — Sua repetiu, o rosto queimando. — E ela me olhou de um jeito... um jeito que parecia que ela ia me devorar.

Till olhou para o outro lado do pátio, onde Mizi estava sentada em uma mesa com Ivan. Ela estava rindo, jogando o cabelo rosa para trás, parecendo a imagem da inocência provocativa. Ivan parecia estar contando uma piada suja, e Mizi agia como se nada tivesse acontecido na aula de História.

— Porra... — Till murmurou, cruzando os braços. — Se a Mizi realmente deu em cima de você, Sua... a gente não tá mais em uma escola. A gente tá em um campo de guerra. E a Lexy vai querer o seu couro.

— Eu não me importo com a Lexy — Sua sussurrou, lembrando-se da sensação do dedo de Mizi em sua testa. — Eu só... eu não sei o que fazer.

Longe dali, na mesa central, Ivan cutucou Mizi.

— Você contou pra ela, não contou?

Mizi deu um gole em seu suco, um sorriso vitorioso iluminando seu rosto perfeito.

— Eu não contei, Ivan. Eu demonstrei.

— Você é um perigo para a sociedade, Mizi — Ivan riu, jogando uma bala para o alto e pegando-a com a boca.

— Talvez — Mizi olhou de relance para o grupo de Sua, encontrando os olhos roxos da garota à distância. — Mas eu sempre consigo o que eu quero. E eu decidi que quero a melancolia daquela garota só para mim.