Eddsworld outher space
O Silêncio das Estrelas e o Grito do Ferro
A manhã em Durdam Lane estava estranhamente bucólica. O sol brilhava com uma intensidade que parecia ignorar a tensão geopolítica que consumia o resto do mundo. Edd, vestindo seu moletom verde habitual, empurrava o cortador de grama pelo quintal, assobiando uma melodia qualquer enquanto o cheiro de grama cortada subia pelo ar. Dentro da casa, a rotina seguia seu curso previsível: Matt polia um de seus muitos bustos dourados, Tom tentava sintonizar o rádio enquanto bebia um gole de Smirnoff, e Tord lia um jornal técnico sobre engenharia aeroespacial, ocasionalmente lançando olhares de soslaio para a escada.
PK ainda estava dormindo no quarto de Tom. As últimas duas semanas haviam sido um borrão de carinhos escondidos, tensões palpáveis e uma calmaria que parecia o olho de um furacão. O resultado dos exames de sangue não havia chegado para nenhum deles, e o silêncio do governo começava a sugerir que, talvez, tudo não passasse de um alarme falso.
O silêncio foi quebrado não por um grito, mas pelo som rítmico e pesado de hélices cortando o ar.
Edd parou o cortador de grama. Ele olhou para cima e viu três helicópteros negros, sem identificação, pairando sobre a rua. Antes que pudesse processar a cena, uma frota de camburões blindados dobrou a esquina em alta velocidade, cercando a casa e o terreno baldio em frente com uma precisão militar assustadora.
— Mas que diabos...? — Edd murmurou, limpando o suor da testa.
Homens vestidos com trajes táticos pretos e máscaras de gás saltaram dos veículos, armados com rifles de pulso eletromagnético. Um alto-falante estalou, fazendo a voz de um comandante ecoar por toda a vizinhança.
— RESIDENTES DE DURDAM LANE, AFASTEM-SE DAS JANELAS. ESTAMOS À PROCURA DO INDIVÍDUO IDENTIFICADO COMO LIAM PEEKERS. ENTREGUEM O ALVO IMEDIATAMENTE E NINGUÉM SE MACHUCARÁ.
Dentro da casa, o pânico se instalou. Tom correu para o quarto, acordando PK com um solavanco.
— PK! Acorda! Eles estão aqui! — Tom gritou, a voz carregada de um pavor que ele raramente demonstrava.
PK sentou-se na cama, os olhos bicolores arregalados. Ele sentiu o zumbido em seus ouvidos novamente, a frequência magnética dos soldados lá fora vibrando em sua pele como agulhas.
— Eles me acharam, Tom... — PK sussurrou, tremendo. — Eles me acharam.
— Não se eu puder evitar — disse Tom, puxando PK pelo braço. — Vamos para o porão. Tord tem armas lá, podemos resistir.
Eles desceram as escadas correndo, encontrando Edd e Matt na sala, ambos pálidos. Tord estava perto da janela, observando o cerco com uma expressão de fúria calculada.
— São agentes federais de alto escalão — Tord comentou, sem desviar o olhar. — Eles não vieram para conversar.
A porta da frente foi derrubada com uma carga explosiva. O estrondo jogou Edd e Matt para trás. Uma nuvem de fumaça invadiu a sala, e dez agentes entraram, apontando as armas para o grupo.
— Liam Peekers! — gritou o líder. — Renda-se!
— Devem estar cometendo um erro! — Edd gritou, levantando as mãos. — Ele é só o nosso vizinho! Ele é canadense! Olhem os documentos dele!
— Afaste-se, civil — o agente ordenou.
Tom se colocou na frente de PK, os punhos cerrados.
— Vocês não vão tocar nele.
— Tom, não... — PK tentou puxá-lo, mas um dos agentes disparou um dardo eletrificado.
O dardo não atingiu Tom, mas sim PK, que tentou proteger o namorado. A descarga de cinco mil volts percorreu o corpo do rapaz. PK soltou um grito que não era humano. Era um som metálico, uma frequência que quebrou as janelas restantes da casa.
Diante dos olhos horrorizados de Edd, Matt, Tom e Tord, a forma humana de PK começou a se desintegrar. Sua pele pálida mudou para um verde neon pulsante; seus olhos negros consumiram a heterocromia; tentáculos brotaram de suas costas, chicoteando o ar em agonia enquanto o disfarce biológico falhava sob a tortura elétrica.
O silêncio que se seguiu na sala foi absoluto, quebrado apenas pelo som da respiração pesada da criatura que agora ocupava o lugar de seu amigo.
— Alvo transformado. Confirmado: Espécime ARKOPS — disse o agente friamente.
Eles lançaram uma rede de contenção de fibra de carbono sobre PK, que estava fraco demais para lutar. Enquanto era arrastado para fora, PK olhou para os meninos. Suas antenas tremiam.
— Eu... eu nunca deixaria nada acontecer com vocês — sua voz ecoou telepaticamente na mente de cada um deles, carregada de uma tristeza infinita. — Eu não sabia... eu juro que não sabia.
E então, ele foi jogado dentro de um camburão e levado embora sob o som das sirenes.
Na sala em ruínas, os quatro amigos ficaram parados. Tom caiu de joelhos, olhando para o lugar onde PK estivera segundos atrás.
— Ele é um deles — Edd disse, a voz trêmula de choque e uma pontada de traição. — Ele mentiu para nós esse tempo todo. Ele era um desses monstros que o governo avisou.
— Ele não é um monstro! — Tom explodiu, levantando-se e agarrando Edd pelo colarinho. — Você viu o jeito que ele nos olhou? Ele estava aterrorizado!
— Tom, ele tem tentáculos! — Matt exclamou, abraçando a si mesmo. — Ele é um alienígena! E se ele estivesse nos estudando para nos comer?
— Se ele quisesse nos comer, já teria feito isso há meses! — Tord interveio, sua voz surpreendentemente calma, embora seus olhos estivessem fixos na porta. — Parem com essa discussão estúpida.
— Você está defendendo ele, Tord? — Edd perguntou, indignado. — Logo você?
— Eu estou sendo lógico — Tord respondeu, cruzando os braços. — Eu conheço o Liam... ou o PK... há anos. Se ele fosse uma ameaça imediata, Durdam Lane já seria uma cratera. Ele é imprevisível, sim, mas ele nos protegeu naquele dia na pedreira. Vocês viram o estado em que ele voltou.
Matt olhou para o chão, lembrando-se de algo.
— Ele fez cupcakes para a gente — Matt sussurrou. — E ele me deu aquele hidratante caro de presente porque eu disse que minha pele estava seca. Aliens invasores não dão hidratantes.
— Ele é o nosso amigo — Tom disse, a voz embargada. — E ele está sendo torturado em algum laboratório agora porque nós não fizemos nada.
Edd suspirou, a raiva dando lugar à culpa. Ele olhou para os amigos e assentiu.
— Certo. Temos um vizinho para resgatar. Tord, onde você guarda as coisas pesadas?
Enquanto isso, em uma base militar escondida nas entranhas de uma montanha, Ymir estava preso em uma câmara de vácuo. Do outro lado do vidro, ele viu rostos conhecidos, mas que pareciam pertencer a um sonho feio. Umbra e Fenhir estavam lá, vestindo uniformes de oficiais humanos capturados.
— Ymir, você finalmente acordou — disse Umbra, sua voz soando na mente dele. — O General Galaczor está furioso. O plano de enfraquecimento está atrasado. Precisamos que você ative o sinal de pulso para a frota principal.
— Eu não vou fazer nada — Ymir respondeu, sua voz alienígena soando firme. — Eu não sou o capitão de vocês. Meu nome é Liam.
Antes que Umbra pudesse responder, o teto da base explodiu. Uma nave de transporte ARKOPS, roubada e modificada, desceu violentamente. Galaczor, agora com o corpo parcialmente reconstruído por próteses cibernéticas, saltou da nave.
— Chega de brincadeiras! — Galaczor rugiu. Ele usou suas garras para rasgar a câmara de vácuo, pegando Ymir pelo pescoço. — Se você não vai liderar por vontade própria, o Imperador o forçará.
Galaczor jogou Ymir, Umbra e Fenhir para dentro da nave e partiu em direção à estratosfera, deixando um rastro de destruição na base.
Minutos depois, um carro vermelho modificado freou bruscamente na entrada da base em chamas. Edd, Tom, Matt e Tord saltaram, armados até os dentes. Eles viram a nave partindo, um ponto brilhante no céu diurno.
— Não! — Tom gritou, socando o capô do carro. — Nós chegamos tarde demais!
O General da base, ferido e cercado por soldados, aproximou-se deles.
— Afastem-se! Isso é uma zona de guerra!
Tord caminhou até o General. Ele não parecia mais o vizinho sarcástico; ele era o Líder Vermelho. Ele sacou uma pistola de plasma e a encostou no queixo do General, enquanto Paul e Patrick surgiam das sombras atrás dele, armados com rifles pesados.
— Escute aqui, seu burocrata insignificante — Tord sibilou, seus olhos brilhando com uma frieza assassina. — Você vai nos dar uma nave de interceptação. Agora. Ou eu vou mostrar por que o meu exército costumava ser o pesadelo deste continente.
O General engoliu em seco, olhando para Paul e Patrick, que apenas assentiram com sorrisos sombrios.
— Ele não está brincando, senhor — disse Paul. — É melhor obedecer.
— Preparem o hangar 4 — o General ordenou pelo rádio, a voz trêmula. — Deem a eles o que querem.
Eles correram para o hangar. A nave era um protótipo de caça espacial, elegante e perigosa. Edd assumiu o controle, Matt verificou os sistemas de suporte de vida (enquanto admirava seu reflexo no painel), e Tom sentou-se na artilharia, pronto para explodir qualquer coisa que ficasse entre ele e PK.
— Próxima parada: o fim do universo — disse Tord, sentando-se ao lado de Edd.
A viagem pelo espaço foi um borrão de estrelas e silêncio tenso. Eles seguiram o rastro de radiação da nave de Galaczor até chegarem a um sistema solar envolto em uma nebulosa roxa. O planeta natal dos ARKOPS, Arkos-Prime, era uma massa de metal e luzes neon, cercado por anéis de naves de guerra.
Eles conseguiram infiltrar a nave no palácio imperial, usando os códigos que Tord "gentilmente" extraiu do sistema da base terrestre. O palácio era uma estrutura colossal, onde a gravidade parecia opressiva.
No centro da sala do trono, Ymir estava de joelhos diante de uma figura gigantesca. O Imperador ARKOPS era uma massa de tentáculos e olhos, envolto em uma armadura de ouro negro.
— Ymir — a voz do Imperador vibrou nos ossos de todos os presentes. — Galaczor me diz que você se esqueceu de quem é. Que você desenvolveu afeição pelas pragas que deveria erradicar.
— Eu não pertenço a este lugar — Ymir disse, ainda em sua forma híbrida, mantendo o moletom rasgado de Tom como uma última âncora de sua humanidade.
— Você pertence a mim — o Imperador declarou. — Você é a minha maior criação. A vanguarda da destruição. Se as palavras não o trazem de volta, a memória o trará.
O Imperador estendeu um tentáculo longo e afiado, tocando a testa de Ymir.
— LEMBRE-SE.
Luzes brancas explodiram na mente de Ymir. Ele viu séculos de conquistas. Viu o sangue de milhares de raças em suas mãos. Lembrou-se do prazer da batalha, da lealdade cega ao Imperador, do desprezo que sentia por qualquer forma de vida fraca. O Liam, o vizinho brincalhão que amava cupcakes e discos de vinil, começou a ser sufocado por milênios de instinto assassino.
Edd e os outros entraram na sala do trono bem a tempo de ver a transformação final.
O corpo de Ymir arqueou-se. Um grito de agonia e poder rasgou o ar. Sua pele tornou-se mais escura, sua estatura aumentou, e quatro asas de quitina negra brotaram de suas costas. A energia neon que ele emitia mudou de azul para um roxo imperial sinistro.
Ele se levantou, virando-se para os amigos. Mas não havia reconhecimento em seus olhos. Apenas o vazio frio de um predador estelar.
— PK...? — Tom chamou, dando um passo à frente, a voz trêmula.
Ymir inclinou a cabeça, as antenas captando o batimento cardíaco de Tom. Ele estendeu a mão, e uma lâmina de plasma brotou de seu pulso.
— O Liam está morto — disse Ymir, sua voz agora um trovão que fez o palácio tremer. — Eu sou Ymir, o Devorador de Mundos. E vocês estão no meu caminho.