Voltar ao resumo

Encontro?!!

O Banquete dos Sentidos e o Rubor do Gelo

O salão de jantar privativo de Guy Crimson era uma obra-prima de opulência fria. Paredes de obsidiana polida refletiam a luz de candelabros feitos de ossos de dragão, cujas chamas azuis não emitiam calor, apenas uma luminosidade etérea. No centro, uma mesa de cristal negro transbordava com iguarias que a maioria dos mortais sequer ousaria imaginar: frutas das profundezas do submundo, vinhos envelhecidos em vácuo dimensional e carnes de feras místicas que habitavam os picos mais altos do continente ártico.

Rimuru, ainda sentado no colo de Guy, sentia o coração — ou o que quer que servisse como seu núcleo emocional naquele corpo — bater um pouco mais rápido. A provocação inicial, que antes parecia um jogo de xadrez divertido para desestabilizar os demônios, estava começando a cobrar seu preço em sua própria compostura.

A forma feminina que ele assumira era delicada; a seda do vestido azul deslizava sobre sua pele a cada movimento de Guy. E Guy não estava facilitando. O Lorde Vermelho parecia ter decidido que, se Rimuru queria brincar de ser um casal, ele levaria o papel às últimas consequências, com uma intensidade que beirava o possessivo.

— Você está muito quieto agora, Rimuru — sussurrou Guy contra o ouvido dele, sua respiração quente contrastando violentamente com o ar gélido do salão. — Onde foi parar aquele Slime atrevido que estava desabotoando minha camisa no corredor?

Rimuru sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele tentou manter o sorriso sarcástico, mas o rubor que subiu às suas bochechas leitosas era difícil de ignorar.

— Eu... eu só estou apreciando a comida, Guy. — Rimuru pegou uma uva roxa-escura, cujas propriedades mágicas brilhavam levemente. — E você deveria fazer o mesmo. Abra a boca.

Guy obedeceu, seus olhos vermelhos fixos nos de Rimuru com uma fome que não tinha nada a ver com a fruta. Quando Rimuru aproximou a mão, os dedos do Slime roçaram acidentalmente os lábios do Primordial. Guy, em um movimento lento e deliberado, fechou os dentes suavemente sobre a fruta, mas manteve os olhos presos aos de Rimuru, deixando sua língua tocar levemente a ponta do dedo do menor antes de soltá-lo.

Rimuru recolheu a mão como se tivesse levado um choque, o rosto agora de um vermelho vivo que rivalizava com o cabelo de Guy.

— Guy! — protestou Rimuru, a voz saindo um pouco mais aguda do que ele pretendia.

— O quê? — Guy sorriu, a diversão brilhando em seu rosto. — Eu apenas aceitei o que você me ofereceu.

Nesse momento, as portas duplas do salão se abriram. Misery e Rain, as duas empregadas e demônios primordiais que serviam Guy, entraram carregando novas bandejas. Elas eram a definição de estoicismo, mas ao cruzarem os olhos com a cena — seu mestre absoluto com os braços envoltos na cintura de um Slime de aparência feminina que estava sentado em seu colo, ambos em um clima de intimidade óbvia — o passo de Rain vacilou por um milésimo de segundo.

Rain, que geralmente era a mais expressiva das duas em sua apatia, sentiu uma gota de suor frio escorrer por sua nuca. Ver Guy Crimson sorrir daquela forma era mais assustador do que vê-lo decapitar um exército.

Rimuru, percebendo a entrada das subordinadas, tentou se levantar, movido por um instinto de decoro que sua vida anterior como Satoru Mikami ainda preservava.

— Ah, Rain, Misery! — Rimuru disse, tentando parecer casual enquanto lutava contra o aperto de Guy. — Eu... eu só estava...

— Ele não vai a lugar nenhum — interrompeu Guy, apertando o braço ao redor da cintura de Rimuru e puxando-o de volta contra seu peito com firmeza. — Deixem as bandejas e saiam. E avisem aos outros que não quero ser interrompido pelas próximas horas.

Misery curvou-se profundamente, seus olhos fixos no chão de cristal.

— Como desejar, Lorde Guy — respondeu ela, sua voz sem emoção, embora sua mente estivesse processando a informação de que o equilíbrio do mundo acabara de ser jogado pela janela.

Rain apenas assentiu, mas antes de sair, ela lançou um olhar rápido para Rimuru. O Slime parecia uma boneca de porcelana sendo reivindicada por um dragão. Ela sentiu uma pontada de... seria pena? Não, era apenas confusão. Como aquele pequeno ser conseguira domar a besta mais indomável da existência?

Assim que as portas se fecharam novamente, o silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo estalar das chamas mágicas. Rimuru escondeu o rosto nas mãos por um momento.

— Você é impossível, Guy. Elas vão pensar coisas... terríveis.

— Elas vão pensar a verdade — rebateu Guy, movendo uma das mãos para cima, acariciando o braço de Rimuru antes de deixar os dedos repousarem perigosamente perto da lateral de seu peito. — Que eu encontrei algo que me interessa mais do que o tédio eterno deste castelo.

Ele virou Rimuru um pouco mais, forçando-o a olhá-lo de frente. A proximidade era tanta que as pontas de seus narizes se tocavam. Rimuru, que sempre fora o mestre da situação em Tempest, sentia-se estranhamente vulnerável. Ele gostava da sensação de ser protegido, mas a intensidade de Guy era avassaladora.

— Rimuru — começou Guy, sua voz perdendo o tom de brincadeira e tornando-se algo mais profundo, mais rouco. — Você veio aqui para me provocar, para ver meus servos entrarem em pânico. Mas você esqueceu que eu sou um demônio. E demônios são criaturas de desejo.

Rimuru engoliu em seco. Seus olhos amarelos brilharam sob a luz fraca.

— Eu não esqueci. Só... eu não achei que você levaria isso tão a sério.

— Eu levo tudo o que envolve você a sério — disse Guy, sua mão descendo agora para a coxa de Rimuru, apertando a carne macia por cima do tecido fino do vestido. — Desde o momento em que você sobreviveu à nossa primeira conversa, você se tornou a única coisa neste mundo que não me entedia.

Rimuru sentiu o calor se espalhar por seu corpo. Ele levou as mãos ao peito de Guy, sentindo a batida firme do coração do ruivo.

— Você também é... interessante, Guy. — Rimuru desviou o olhar por um segundo, a timidez vencendo sua fachada de confiança. — Eu nunca imaginei que o "Lorde Vermelho" pudesse ser tão... carente de atenção.

Guy soltou uma risada curta, mas não se ofendeu.

— Apenas da sua atenção.

Ele inclinou a cabeça e, desta vez, não houve provocação ou brincadeira. Guy selou seus lábios nos de Rimuru em um beijo que começou lento, quase exploratório, como se estivesse provando uma nova e rara essência. Rimuru soltou um suspiro suave, seus dedos se fechando na camisa de Guy enquanto ele se entregava ao momento. O beijo aprofundou-se, tornando-se mais exigente, e por um instante, o frio eterno do continente ártico pareceu desaparecer completamente.

Quando se separaram, Rimuru estava ofegante, seus lábios levemente inchados e seus olhos nublados por uma mistura de choque e prazer.

— Isso... — Rimuru começou, mas as palavras falharam.

— Isso foi apenas o começo — completou Guy, com um sorriso predatório, mas estranhamente doce.

Ele levantou-se, carregando Rimuru em seus braços como se o Slime não pesasse nada. Rimuru, instintivamente, entrelaçou os braços ao redor do pescoço de Guy, escondendo o rosto no ombro dele para esconder o rubor que se recusava a diminuir.

— Para onde estamos indo? — perguntou Rimuru em um sussurro.

— Para as varandas superiores. Quero te mostrar a aurora boreal — disse Guy, caminhando em direção à saída privativa de seus aposentos. — E depois, quero descobrir se esse seu corpo pode assumir formas ainda mais... interessantes.

Rimuru deu um tapinha fraco no ombro dele, mas não protestou.

— Você é um pervertido, Guy Crimson.

— E você é o Slime que se apaixonou por um — retrucou o ruivo, saindo do salão.

Enquanto caminhavam pelos corredores agora vazios — já que os servos tinham aprendido a lição e se escondido em qualquer buraco disponível para evitar mais choques psicológicos — Rimuru sentiu uma paz estranha. O jogo de provocações tinha se transformado em algo real, algo que ele ainda não sabia como nomear, mas que o aquecia mais do que qualquer magia de fogo.

Eles chegaram à varanda, um parapeito de cristal que se projetava sobre o abismo de neve. Acima deles, o céu estava vivo com cortinas de luz verde, roxa e azul, dançando entre as estrelas. O vento soprava forte, mas Guy envolveu Rimuru em sua aura, criando uma bolha de calor absoluto.

Rimuru olhou para as luzes, maravilhado.

— É lindo, Guy.

Guy não olhou para o céu. Ele olhou para Rimuru, a luz da aurora refletida nos olhos amarelos do pequeno ser em seus braços.

— Sim — concordou Guy. — É a coisa mais linda que já vi em milênios.

Rimuru olhou para ele, percebendo que Guy não estava falando das luzes. O Slime sentiu seu coração saltar novamente. Ele se aconchegou mais no peito de Guy, deixando a timidez de lado por um momento para simplesmente aproveitar a presença do outro.

— Sabe — disse Rimuru, com um pequeno sorriso — se o pessoal em Tempest nos visse agora, Shuna provavelmente desmaiaria e o Benimaru teria um ataque cardíaco.

— E meus subordinados provavelmente começariam uma religião em sua homenagem por ter conseguido me manter calmo por mais de dez minutos — acrescentou Guy, beijando o topo da cabeça de Rimuru.

Eles ficaram ali, em silêncio, observando a dança das luzes no fim do mundo. Não havia mais necessidade de jogos ou de testar os limites um do outro. Naquele momento, entre as torres de gelo e o céu infinito, o Lorde Demônio Primordial e o Slime que desafiou o destino eram apenas dois seres encontrando conforto um no outro.

— Guy? — chamou Rimuru suavemente.

— Sim?

— Não me solte por enquanto. Está frio lá fora.

Guy sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto de forma mais brilhante do que qualquer aurora.

— Eu nunca tive a intenção de soltar, Rimuru. Nunca.

E assim, sob o olhar silencioso das estrelas e o sussurro do vento ártico, o relacionamento que começou como um desafio em Walpurgis selou-se sob as luzes do norte, prometendo um futuro onde o caos e a ordem, o gelo e o fogo, caminhariam de mãos dadas, para o terror e o fascínio de todo o mundo.