Encontro?!!
O Mercado das Almas e o Lorde Domado
A manhã no continente ártico não trazia sol, apenas uma mudança na tonalidade do azul profundo para um cinza perolado. Dentro do castelo de gelo, Rimuru terminava de se preparar. Ele decidiu manter a forma feminina, mas hoje escolheu algo mais prático para caminhar: uma túnica de seda branca ajustada ao corpo, que delineava suas curvas de forma elegante, e calças de couro de dragão negro que realçavam suas pernas. Shuna teria ficado orgulhosa da escolha, embora Rimuru soubesse que o verdadeiro motivo de se vestir assim era ver a reação de Guy.
— Você está demorando, Rimuru — a voz de Guy ecoou pelo quarto, carregada de uma impaciência preguiçosa.
Rimuru virou-se, terminando de prender o cabelo azul-prateado em um rabo de cavalo alto. Guy estava encostado no batente da porta, observando-o com olhos que pareciam chamas vivas. Antes que Rimuru pudesse responder, o ruivo atravessou o quarto em passadas largas e, sem pedir licença, envolveu a cintura de Rimuru com um braço, puxando-o para trás contra seu peito.
— Eu disse que queria ver o mercado hoje — Rimuru reclamou, embora não fizesse esforço para se soltar. — E você prometeu me acompanhar.
— Eu vou — murmurou Guy, enterrando o rosto na curva do pescoço de Rimuru e aspirando o aroma de mel e magia que emanava dele. — Mas eu preferia ficar aqui. Esse corpo que você assumiu hoje... é um desperdício mostrá-lo para aqueles demônios de classe baixa.
— Deixe de ser possessivo, Guy — Rimuru deu uma risadinha, virando-se nos braços dele e colocando as mãos no peito largo do Lorde Demônio. — Agora, vamos. Eu quero ver o que o seu povo comercializa.
Caminhar pelo mercado interno do castelo com Guy Crimson era como desfilar com uma bomba atômica que decidiu se tornar um acessório de moda. O mercado era um lugar vasto, uma caverna esculpida em cristal onde demônios de diversas linhagens trocavam itens raros, almas engarrafadas e núcleos mágicos. Normalmente, quando Guy aparecia, o mercado parava em um silêncio absoluto de terror.
Hoje, o silêncio era de puro choque.
Rimuru caminhava na frente, apontando para as barracas com entusiasmo, enquanto Guy o seguia como uma sombra. Mas não era apenas a presença de Guy que assustava; era o comportamento dele. O Lorde Vermelho, o ser mais antigo e temível do Octagrama, carregava uma pequena sacola de compras e, a cada poucos passos, estendia a mão para tocar em Rimuru — ora um toque possessivo na base das costas, ora um aperto firme na cintura.
— Guy, olhe aquilo! — Rimuru exclamou, parando diante de uma barraca que vendia cristais de memória.
O mercador, um demônio de classe superior com chifres retorcidos, ficou pálido. Ele se ajoelhou tão rápido que seus joelhos estalaram contra o chão de gelo.
— S-Saudações, Lorde Guy! Saudações, ilustre convidado! — gaguejou o demônio, sem ousar levantar a cabeça.
— Olá! — Rimuru sorriu, inclinando-se sobre o balcão. — Esses cristais são de onde? Eles emitem uma ressonância muito interessante.
O demônio abriu a boca para responder, mas as palavras morreram em sua garganta. Guy tinha acabado de se posicionar logo atrás de Rimuru. O ruivo passou os braços ao redor da cintura do Slime, apoiando o queixo no ombro dele e lançando um olhar gélido para o mercador. A aura de Guy, embora contida, estava pulsando com um aviso silencioso: "Fale com ele, mas se você respirar na direção errada, sua existência termina agora".
O mercador começou a tremer violentamente. Seus olhos reviraram e, com um som seco, ele desabou no chão, desmaiado de puro pavor.
— Ah? O que aconteceu com ele? — Rimuru perguntou, piscando os olhos amarelos, confuso. — Ele estava bem agora mesmo.
Guy deu de ombros, apertando Rimuru com mais força e deslizando a mão para a curva lateral do peito do Slime, um gesto que fez Rimuru arfar levemente.
— Talvez a emoção de ver você tenha sido demais para ele — disse Guy, a voz carregada de um sarcasmo satisfeito.
Rimuru finalmente percebeu o que estava acontecendo. Ele olhou para trás, viu a expressão de predador no rosto de Guy e sentiu a pressão da aura dele.
— Guy Crimson! — Rimuru se soltou do abraço e se virou, com as mãos nos quadris. — Você está assustando as pessoas de propósito! Como eu vou fazer compras se todo mundo desmaiar antes de me dizer o preço?
— Eu não fiz nada — mentiu Guy, com um sorriso inocente que não combinava em nada com sua natureza.
— Fez sim! Você está agindo como um guarda-costas psicopata — Rimuru deu um tapinha audível no braço musculoso de Guy. — Fique aí. Não se mova. E pare de liberar essa aura de "eu vou comer sua alma".
Guy arqueou uma sobrancelha, surpreso com a audácia. Nenhum ser vivo ousava dar ordens a ele, muito menos dar-lhe um "tapinha" de advertência. Mas, para o horror dos demônios que observavam de longe, Guy apenas soltou uma risada ruidosa.
— Tudo bem, Rimuru. Eu vou me comportar.
Eles continuaram o passeio. Rimuru agora insistia em andar um passo à frente, mas Guy não conseguia se conter. Ele estendeu a mão e pegou a mão de Rimuru, entrelaçando seus dedos. Rimuru tentou puxar a mão, mas Guy segurou com firmeza, puxando-o para mais perto até que seus quadris se chocassem.
— Eu disse para ficar longe! — Rimuru protestou, embora houvesse um brilho divertido em seus olhos.
— Você disse para não assustar os mercadores. Não disse nada sobre não tocar no meu parceiro — rebateu Guy, parando Rimuru no meio do corredor.
Ele puxou Rimuru para um abraço completo, ignorando os olhares de centenas de demônios que pareciam estar tendo colapsos mentais coletivos. Guy desceu a mão e deu um aperto firme e deliberado na bunda de Rimuru, fazendo o Slime soltar um som de surpresa.
— Guy! Estamos em público! — Rimuru sussurrou, o rosto queimando.
— Eu sou o dono deste lugar, Rimuru. O público é meu, o mercado é meu, e você... — ele inclinou-se, sussurrando no ouvido dele — ...você é o meu convidado mais precioso. Deixe que olhem. Deixe que saibam que o Lorde Vermelho foi finalmente domado por um Slime atrevido.
Rimuru bufou, mas não conseguiu evitar o sorriso. Ele esticou os braços e ajeitou a gola da capa de Guy, um gesto doméstico que parecia um sacrilégio naquele ambiente infernal.
— Você é um idiota exibicionista — disse Rimuru suavemente. — Mas acho que é por isso que eu gosto de você.
Eles pararam em uma barraca de tecidos mágicos. A vendedora, uma súcubo de alto nível chamada Elara, estava visivelmente lutando para não sair correndo. Ela viu como Guy olhava para Rimuru — não com o olhar de um mestre para um servo, mas com uma adoração possessiva que beirava a obsessão.
— Eu quero este tecido de seda estelar — Rimuru disse, apontando para um rolo que brilhava como uma galáxia. — Quanto custa?
Elara olhou para Guy, que estava parado atrás de Rimuru, brincando com uma mecha do cabelo azul do Slime. Guy fez um sinal sutil com dois dedos.
— É... é um presente, milorde! — Elara disse rapidamente. — Seria uma honra ver tal tecido adornando alguém de sua beleza.
Rimuru franziu a testa e virou-se para Guy.
— Você ameaçou ela?
— Eu? — Guy colocou a mão no peito, fingindo ofensa. — Eu apenas sugeri, mentalmente, que ela fosse generosa.
— Guy! — Rimuru deu outro tapinha no braço dele, desta vez com mais força. — Pague a ela agora mesmo. Eu não quero caridade, eu sou um rei, eu tenho dinheiro!
Guy suspirou, mas para o choque absoluto de Elara, ele realmente tirou uma bolsa de moedas de ouro purificado e a jogou sobre o balcão sem discutir.
— Satisfeito? — perguntou o ruivo.
— Muito — Rimuru sorriu, pegando o tecido e entregando-o a Guy. — Agora carregue isso.
Observar Guy Crimson, o mediador do mundo, carregando rolos de tecido e sacolas de compras enquanto recebia ordens de um pequeno ser de cabelos azuis foi uma visão que mudou a cultura do continente ártico para sempre. Os demônios começaram a sussurrar que Rimuru Tempest não era apenas um Lorde Demônio, mas sim a única fraqueza de seu mestre absoluto.
Ao final do passeio, eles voltaram para a sacada principal do castelo. O vento soprava frio, mas Rimuru sentia-se aquecido. Guy o abraçou por trás, envolvendo-o com sua capa pesada e mantendo as mãos firmes sobre o ventre de Rimuru, puxando-o para perto.
— Você se divertiu? — Guy perguntou, sua voz vibrando contra as costas de Rimuru.
— Sim — Rimuru admitiu, recostando a cabeça no ombro de Guy. — Embora você seja um péssimo acompanhante de compras. Você intimida as pessoas só de existir.
— É o meu charme natural — Guy zombou, virando Rimuru em seus braços para que pudessem se olhar. — Mas eu admito... ver você no comando é uma visão fascinante.
Rimuru olhou para os olhos vermelhos de Guy, notando que, sob a arrogância e o poder, havia uma centelha de algo genuíno. Guy não estava apenas brincando; ele estava aprendendo a compartilhar seu espaço, sua vida e seu território com alguém que o tratava como um igual.
— Você sabe que eu vou ter que voltar para Tempest em breve, não é? — Rimuru disse suavemente.
O aperto de Guy em sua cintura aumentou instantaneamente.
— Eu sei. Mas não hoje. E nem amanhã.
Guy inclinou-se e beijou Rimuru com uma intensidade que selava aquela promessa. Rimuru correspondeu, sentindo que, naquele castelo de gelo, algo muito quente e duradouro estava florescendo.
Enquanto isso, nas sombras do corredor, Misery e Rain observavam a cena. Rain anotava algo em um pequeno pergaminho.
— O que você está escrevendo? — perguntou Misery.
— Novas regras de etiqueta — respondeu Rain com sua voz monótona. — Regra número um: Se o Lorde Rimuru bater no Lorde Guy, nós devemos fingir que não vimos. Regra número dois: Se o Lorde Guy estiver carregando sacolas, nós nunca, sob hipótese alguma, devemos oferecer ajuda. Ele parece estar gostando da humilhação.
Misery suspirou, olhando para o casal na sacada.
— O mundo realmente mudou, Rain.
— Sim — concordou a outra primordial. — E, estranhamente, o castelo parece menos frio agora.
Lá fora, a aurora boreal começou a brilhar, iluminando o abraço dos dois Lordes Demônios, enquanto Rimuru, rindo, dava mais um tapinha brincalhão no peito de Guy por ele ter tentado deslizar a mão para baixo novamente. Guy apenas riu, o som ecoando pelas montanhas geladas, o som de um demônio que, finalmente, tinha encontrado alguém que não tinha medo de desafiá-lo — ou de amá-lo.