Encontro
O Crepúsculo dos Tronos e a Alvorada das Renegadas
O cheiro de ozônio e sangue queimado ainda pairava sobre o cais de Porto Livre, mas para Lana e Ana, o mundo parecia subitamente silencioso. O corpo decapitado de Viktor era apenas um monte de roupas caras e carne inútil aos seus pés. A espada Eclipse, ainda morna nas mãos de Ana, pulsava com um brilho prateado residual, como se estivesse saboreando a vitória sobre a linhagem real.
Lana aproximou-se de Ana, cujas mãos ainda tremiam levemente pela adrenalina da batalha. As tranças nagô da vampira estavam levemente desalinhadas, e uma gota de sangue alheio manchava sua bochecha retinta, dando-lhe a aparência de uma divindade guerreira que acabara de descer de seu pedestal de sombras.
— Você conseguiu — sussurrou Lana, tocando o rosto de Ana com uma delicadeza que contrastava com a carnificina ao redor. — Você o derrubou. O príncipe herdeiro do Reino de Sangue não passa de carniça para os peixes agora.
Ana soltou um suspiro longo, sua forma humana sentindo o peso da exaustão. Seus olhos âmbar, ainda com resquícios do brilho lunar, fixaram-se nos de Lana.
— Nós o derrubamos — corrigiu Ana, sua voz rouca vibrando no peito de Lana. — Se não fosse pela sua magia, ele teria me cercado. Somos uma matilha de duas, Lana. Sempre fomos, desde aquela noite na floresta.
Lana sorriu, um sorriso que não carregava mais a arrogância da corte, mas a satisfação de uma mulher que encontrara seu lugar no caos. Ela limpou o sangue da bochecha com as costas da mão e olhou para os poucos guardas sobreviventes que, ao verem seu líder morto, fugiam para as sombras dos becos.
— Porto Livre não vai esquecer isso — disse Lana, olhando para as janelas que começavam a se abrir cautelosamente. — Amanhã, a notícia de que a Princesa Fugitiva e a Loba Branca mataram o carrasco do Rei chegará aos ouvidos do meu pai. Ele não enviará mais diplomatas ou pretendentes. Ele enviará a guerra.
Ana fincou a Eclipse na madeira do cais e puxou Lana para um abraço apertado, ignorando o suor e a fuligem que as cobria.
— Deixe que venham — rosnou Ana contra o pescoço de Lana. — Que venham os vampiros, que venham os lobos. Eu tenho a prata estelar e tenho o seu sangue correndo nas minhas veias. Eu morreria mil vezes antes de deixar que eles encostem em uma única trança sua.
Lana sentiu o calor de Ana, aquela fornalha viva que era o oposto de tudo o que ela fora ensinada a ser. Ela se afastou o suficiente para olhar nos olhos da loba, sua expressão tornando-se séria.
— Não vamos esperar por eles aqui, Ana. Porto Livre foi um refúgio, mas agora é um alvo. — Lana apontou para o horizonte, onde a linha do Mar de Névoa se encontrava com o céu que começava a clarear. — O navio de Viktor ainda está atracado, e a tripulação está em pânico. Se formos rápidas, podemos tomá-lo.
— Um navio real? — Ana arqueou uma sobrancelha, um sorriso selvagem surgindo em seus lábios. — Você quer roubar o navio do seu próprio clã?
— Não é roubo se eu sou a única herdeira viva que resta com coragem para usá-lo — rebateu Lana, seus olhos vermelhos brilhando com uma nova ambição. — Vamos para as Ilhas de Ferro Frio. Lá, os reinos não têm alcance, e o poder é medido pela força da vontade. Vamos construir algo novo, Ana. Algo que não dependa de coroas de ouro ou de leis de alcateia.
— Eu te sigo até o fim do mundo, minha princesa — disse Ana, pegando a Eclipse e colocando-a nas costas. — Mas antes de partirmos... eu preciso de você. A lua ainda está alta o suficiente, e o sangue de Viktor no ar está me deixando... faminta.
Lana sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O desejo entre elas era uma fera que nunca dormia, alimentada pelo perigo e pela traição. Ela agarrou as vestes de Ana e a puxou para um beijo voraz, um choque de dentes e línguas que selava o pacto que haviam feito sobre o cadáver do príncipe.
— Então vamos — disse Lana entre beijos. — Vamos tomar o que é nosso e deixar este continente para trás.
Elas correram em direção ao navio de guerra de Viktor, o *Soberano de Sangue*. Os marinheiros vampiros que restavam no convés, ao verem a princesa e a loba que acabara de matar seu senhor, não ofereceram resistência. Eles caíram de joelhos ou saltaram ao mar, apavorados pela aura de poder que as duas emanavam.
Assim que assumiram o controle, Lana ordenou que as âncoras fossem levantadas. Ana, com sua força descomunal, operava os guindastes e as velas, enquanto Lana usava sua magia de sombras para ocultar o navio da visão de qualquer observador no porto.
Quando o navio finalmente cortou as águas, deixando Porto Livre para trás, elas se retiraram para a cabine real — um espaço de luxo obsceno, decorado com veludo e ouro, que agora pertencia a elas.
Ana fechou a porta pesada e trancou-a. O silêncio da cabine era absoluto, quebrado apenas pelo som rítmico das ondas contra o casco. Ela se virou para Lana, removendo a espada e jogando-a sobre um divã de seda.
— Eu nunca pensei que me sentiria tão livre em um território de vampiros — comentou Ana, aproximando-se de Lana com passos predatórios.
— Este navio não é mais deles — disse Lana, desfazendo os fechos de sua túnica. — Nada mais é deles. O mundo é nosso agora, Ana.
Lana deixou a roupa cair, revelando o corpo que Ana conhecia tão bem, mas que parecia sempre novo sob a luz das velas. As tranças nagô emolduravam seu rosto, e os anéis de ferro frio brilhavam suavemente.
— Venha aqui — ordenou Lana, sua voz carregada de uma autoridade que não vinha de seu título, mas de seu desejo.
Ana não esperou. Ela avançou, envolvendo Lana em seus braços e levantando-a como se ela não pesasse nada. Ela a colocou sobre a mesa de carvalho onde Viktor costumava planejar suas conquistas.
— Você tem ideia do que faz comigo? — rosnou Ana, sua respiração quente batendo contra a pele de Lana. — Ver você lutar, ver você comandar... isso me desperta uma fome que nenhum sangue pode saciar.
— Então me devore — desafiou Lana, entrelaçando as pernas na cintura de Ana. — Mostre-me a fera que você esconde sob essa pele de guerreira.
O encontro foi uma explosão de sentidos acumulados. Ana não foi gentil; ela usou sua força para dominar Lana, submetendo a princesa ao prazer bruto que apenas uma loba em seu ápice poderia proporcionar. Suas mãos grandes exploravam cada centímetro da pele de Lana, enquanto suas orelhas de lobo, que haviam retornado com a excitação, moviam-se para captar cada gemido que escapava dos lábios da vampira.
Lana, por sua vez, usava sua magia para intensificar cada toque. Ela envolvia Ana em sombras que pareciam carícias sólidas, elevando a sensibilidade da loba a níveis quase insuportáveis.
— Lana... — ofegou Ana, sentindo a magia da companheira vibrar em seus ossos. — O seu sangue... eu ainda sinto o gosto dele na minha alma.
— É porque você é parte de mim agora — sussurrou Lana, puxando a cabeça de Ana para baixo para que ela pudesse morder seu pescoço. — E eu sou parte de você. Somos o eclipse, lembra?
Ana rugiu de prazer quando Lana cravou as presas, não para sugar, mas para marcar sua posse. A loba respondeu com uma urgência renovada, seus movimentos tornando-se mais rápidos, mais selvagens, acompanhando o balanço do navio que parecia dançar com elas.
Naquele momento, não havia reinos, não havia guerras, não havia passado. Havia apenas o calor de Ana, o frio mágico de Lana e a promessa de um futuro que elas mesmas escreveriam com sangue e suor.
— Eu te amo — disse Ana subitamente, as palavras saindo como um rosnado suave, mas carregadas de uma verdade que a assustava. — Eu te amo mais do que à minha própria vida, mais do que à lua.
Lana parou por um segundo, seus olhos vermelhos suavizando-se. Ela nunca ouvira aquelas palavras, nem mesmo de sua própria família. No mundo dos vampiros, o amor era uma fraqueza; no mundo dos lobos, era um dever de alcateia. Mas entre elas, era uma revolução.
— E eu te amo, minha fera branca — respondeu Lana, puxando Ana para um beijo profundo. — Eu trocaria mil milênios de imortalidade por uma única vida ao seu lado.
O clímax as atingiu como uma tempestade no mar, deixando-as exaustas e entrelaçadas sobre a mesa de mapas, cercadas por pergaminhos rasgados e o cheiro inebriante de sua união.
Horas depois, enquanto o sol nascia de verdade sobre o Mar de Névoa, elas estavam no convés superior, observando o horizonte. Lana usava o manto real de Viktor, mas o brasão fora arrancado e substituído por uma marca que Ana fizera com uma faca: o desenho de uma lua sendo abraçada por uma sombra.
— Para onde agora, capitã? — perguntou Ana, abraçando Lana por trás, seu queixo apoiado no ombro da vampira.
— Para o desconhecido — respondeu Lana, segurando a mão de Ana. — Para onde quer que possamos ser livres. O Reino de Sangue e a Floresta das Almas podem queimar em sua própria ignorância. Nós temos o mar, temos a Eclipse e temos uma à outra.
— É um bom plano — concordou Ana, olhando para as velas negras que se enchiam com o vento do oceano. — Um plano excelente.
Enquanto o navio desaparecia na névoa matinal, a lenda de Lana e Ana começava a se espalhar. Não como as traidoras que fugiram, mas como as renegadas que provaram que o ódio ancestral era apenas uma mentira contada por reis velhos e medrosos. Elas eram o novo mundo, um mundo onde o sangue não definia o destino, e onde o amor, em sua forma mais selvagem e proibida, era a força mais poderosa de todas.
E assim, entre o sal do mar e o brilho das estrelas, a princesa vampira e a guerreira loba navegaram em direção à sua própria eternidade, deixando para trás os tronos de cinzas para construírem um império de liberdade.