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Encontro

Tranças de Ônix e o Brilho da Prata Lunar

O sol de Porto Livre era uma faca cega, persistente e quente, mas dentro da livraria "O Códice de Marfim", o ar era denso com o cheiro de pergaminho antigo, mirra e a magia latente que emanava das prateleiras. Lana deslizou os dedos pelas lombadas de couro de dragão, sentindo a vibração de feitiços que não eram conjurados há séculos. Ela não era mais a princesa adornada com rubis e sedas; agora, vestia uma túnica de linho escuro, prática e discreta, que permitia que ela se movesse pelas sombras do estabelecimento com a agilidade de uma pantera.

Sua maior mudança, entretanto, estava em sua coroa natural. Lana havia procurado uma elfa da noite nas favelas do porto, uma tecelã de destinos que transformara seu cabelo longo e cacheado em tranças nagô impecáveis, adornadas com pequenos anéis de ferro frio que retinham sua energia mágica. As tranças caíam pesadamente sobre seus ombros, dando-lhe um ar de autoridade ancestral que transcendia qualquer título real.

— Você está lendo esse grimório de cabeça para baixo há dez minutos — comentou o dono da livraria, um lich aposentado que preferia a companhia de livros à de exércitos de mortos-vivos.

— Estou apenas calibrando minha percepção, Mestre Silas — respondeu Lana, fechando o livro com um estalo seco. — A magia de sangue do meu pai é baseada em linhagem, mas aqui... aqui eu sinto que a magia vem da própria terra. Da dor e da liberdade deste lugar.

— É o veneno da cidade — disse o lich, rindo de forma seca. — Ele vicia.

Lana sorriu, mas seus pensamentos voaram para o outro lado do distrito comercial. Ela sentia Ana através do vínculo de sangue, uma pulsação constante e quente que batia no compasso de marteladas rítmicas.

No calor sufocante da ferraria "O Uivo do Ferro", Ana estava em seu elemento. O suor brilhava em seus músculos definidos, e o fuligem marcava seu rosto, mas seus olhos âmbar brilhavam com uma determinação feroz. O dono da ferraria, Bóris, um lobo grisalho de ombros largos que perdera um braço em uma guerra esquecida, observava a jovem guerreira com um respeito silencioso.

— Você está gastando muita energia nessa peça, pequena — disse Bóris, entregando-lhe uma caneca de água gelada. — Prata pura é temperamental. Ela não gosta de ser moldada por quem tem sangue de lobo nas veias.

— Esta não é uma prata comum, Bóris — respondeu Ana, limpando o suor da testa com o antebraço. — É a Prata Estelar que consegui no mercado negro. Ela brilha mais do que a própria lua. Se eu vou enfrentar um príncipe vampiro, preciso de algo que queime a alma dele antes mesmo de tocar a carne.

Ana voltou ao trabalho, golpeando o metal incandescente. Ela estava forjando uma montante, uma lâmina pesada mas equilibrada, projetada para decapitar em um único movimento. Simultaneamente, ela forçava seu corpo ao limite. Todas as noites, sob a luz da lua, ela praticava sua forma de ápice, forçando seus pulmões e músculos a aguentarem a transformação por horas, em vez de minutos. Ela precisava ser a fera absoluta se quisesse proteger Lana.

A lua cheia chegou como um presságio prateado sobre o oceano. Porto Livre transformou-se em um caldeirão de sombras e uivos. Lana fechou a livraria e caminhou apressadamente para o sótão que dividiam acima da ferraria. Quando entrou, parou bruscamente.

Ana estava de pé diante da janela aberta, banhada pela luz lunar. A transformação estava começando, mas era diferente de tudo o que Lana já vira. O cabelo de Ana, normalmente castanho com luzes loiras, estava mudando diante de seus olhos, tornando-se de um branco ofuscante, como neve sob o sol. Suas orelhas e cauda seguiram o exemplo, transformando-se em um marfim puro que contrastava lindamente com sua pele bronzeada.

— Ana? — sussurrou Lana, aproximando-se com cautela.

A loba virou-se. Seus olhos não eram apenas âmbar; eles pareciam conter galáxias inteiras de poder bruto. Ela rosnou, um som baixo de reconhecimento, e avançou para Lana, envolvendo-a em um abraço que quase tirou o fôlego da vampira.

— O sangue... o seu sangue — disse Ana, a voz mais grave, vibrando contra o peito de Lana. — Ele mudou a minha essência. Eu não sou mais apenas uma loba da alcateia. Eu sou... algo novo.

Lana passou a mão pelas tranças de Ana, maravilhada com a suavidade do pelo branco.

— Você é linda — disse Lana, puxando o rosto da loba para o seu. — Uma deusa da lua e do inverno.

— E você — Ana tocou as tranças de Lana, sentindo o poder mágico que emanava dos anéis de ferro frio — parece uma rainha que não precisa de trono para governar o mundo.

O desejo que sempre existira entre elas, agora amplificado pela lua cheia e pelo vínculo místico, explodiu. Ana levantou Lana e a colocou sobre a mesa de trabalho, onde a nova espada de prata brilhava intensamente em um canto, como se observasse o encontro.

— Eu passei o dia inteiro sentindo o seu cheiro de pergaminho e magia — rosnou Ana, enterrando o rosto no pescoço de Lana. — Eu quase fui até aquela livraria para te arrancar de trás daquele balcão.

— E por que não foi? — provocou Lana, arqueando as costas enquanto as mãos de Ana, agora maiores e com garras afiadas, subiam por suas coxas. — Eu teria adorado ver a cara dos clientes quando uma loba branca gigante entrasse para reivindicar a dona.

— Eu estava guardando minha energia para agora — respondeu Ana.

Ela rasgou a túnica de linho de Lana com uma facilidade assustadora. A vampira não recuou; em vez disso, ela usou sua nova magia. Suas mãos brilharam com uma luz roxa sombria enquanto ela tocava o peito de Ana, enviando ondas de prazer diretamente para os nervos da loba.

— Isso é novo — ofegou Ana, sentindo seus sentidos dobrarem de intensidade.

— Eu andei estudando — sussurrou Lana, os olhos vermelhos brilhando de luxúria. — Quero que você sinta cada grama da minha possessão.

O encontro foi uma celebração de suas novas formas. Ana, em seu ápice lunar, era pura força e calor, um motor de carne e pelo branco que não conhecia exaustão. Lana, fortalecida pela magia ancestral, era uma sombra que envolvia a loba, guiando o prazer com uma precisão quase cruel.

As tranças de Lana chicoteavam o ar enquanto ela era movida pelo ritmo frenético de Ana. A loba a usava com uma fome que parecia querer devorar não apenas seu corpo, mas sua própria imortalidade. Ana cravou os dentes no ombro de Lana, marcando-a novamente, enquanto a vampira retribuía cravando as unhas nas costas musculosas de Ana, deixando trilhas de sangue que brilhavam sob a lua.

— Diga que você é minha — exigiu Ana, a voz falhando enquanto o ápice se aproximava. — Diga que nenhum príncipe, nenhum rei, ninguém jamais terá o que eu tenho.

— Eu sou o seu segredo e o seu pecado, Ana — respondeu Lana, puxando a cabeça da loba para um beijo que tinha gosto de sangue e promessa. — Eu sou sua até que o sol se apague.

Quando o êxtase as atingiu, foi como se a própria ferraria tremesse. Lana sentiu a magia de Ana fluir através do vínculo, uma onda de luz branca que limpou qualquer resquício de cansaço. Elas desabaram juntas sobre os sacos de carvão e peles, ofegantes, os corpos ainda vibrando com a energia da lua cheia.

— A espada está pronta — disse Ana depois de algum tempo, olhando para a lâmina de prata estelar que repousava no suporte. — Eu a chamei de "Eclipse". Porque é o que faremos com o reinado do seu pai. Vamos apagar a luz deles.

Lana levantou-se, nua e majestosa, e caminhou até a arma. Ela estendeu a mão, mas parou a centímetros da lâmina, sentindo o calor purificador da prata.

— É perfeita, Ana. Viktor não terá chance contra isso. Nem contra nós.

— Ele está perto, não está? — perguntou Ana, levantando-se e sentindo o ar. — O vínculo... eu sinto um frio vindo do norte. Um frio que não é da natureza.

Lana olhou para a janela, onde a lua começava sua descida.

— Ele está no porto. Eu sinto o cheiro do sangue dele. Ele trouxe uma guarda de honra, mas ele não sabe que Porto Livre não honra ninguém além dos fortes.

— Então vamos dar a ele o que ele quer — disse Ana, pegando a espada Eclipse. O metal brilhou em sua mão, reagindo ao seu toque. — Vamos dar a ele um encontro com a morte.

— Espere — disse Lana, aproximando-se de Ana. Ela pegou um pequeno frasco de tinta mágica que trouxera da livraria. — Deixe-me marcar você primeiro. Um feitiço de proteção que aprendi.

Lana desenhou runas complexas nos braços e no peito de Ana. As marcas brilhavam em um tom de violeta profundo antes de desaparecerem sob a pele.

— Agora — continuou Lana, seus olhos vermelhos tornando-se fendas verticais de puro poder —, vamos mostrar a esse príncipe o que acontece quando uma vampira se cansa de ser uma princesa e uma loba decide que não quer mais um senhor.

Elas saíram da ferraria em direção ao cais, onde a névoa estava mais espessa. O silêncio da cidade era artificial, como se todos os habitantes tivessem sentido a chegada de algo terrível e se escondido. No final do píer principal, cercado por doze guardas de armadura negra, estava Viktor.

Seu rosto estava curado, mas uma cicatriz fina cruzava seu olho esquerdo, um lembrete da explosão no navio. Ele sorriu ao ver as duas se aproximarem.

— Que cena patética — disse Viktor, sua voz carregada de desdém. — A princesa das sombras e sua cadela albina. Vocês realmente acharam que poderiam se esconder em um chiqueiro como este?

— Nós não estávamos nos escondendo, Viktor — disse Lana, dando um passo à frente, suas tranças balançando com o vento. — Estávamos nos preparando.

— Preparando-se para quê? Para morrerem juntas? — Viktor desembainhou sua espada de prata real. — Mate a loba. Traga a princesa viva, mas quebrada.

Os guardas avançaram. Mas eles não esperavam o que viria a seguir.

Ana soltou um uivo que quebrou as vidraças das casas próximas. Ela moveu-se como um borrão branco, a espada Eclipse descrevendo arcos de luz prateada que cortavam as armaduras negras como se fossem papel. Cada golpe da espada de Ana liberava uma onda de energia lunar que desorientava os vampiros, queimando sua pele sensível.

Lana, por sua vez, não usou lâminas. Ela ergueu as mãos e as sombras ao redor dos guardas ganharam vida. Tentáculos de escuridão sólida agarraram os tornozelos dos soldados, puxando-os para baixo, enquanto Lana conjurava agulhas de sangue endurecido que disparavam com a força de balestras.

— Isso é impossível! — gritou Viktor, vendo sua guarda de elite ser dizimada em questão de segundos. — De onde veio essa magia? De onde veio essa força?

— Veio da liberdade, Viktor! — gritou Ana, saltando sobre o último guarda e cravando a Eclipse em seu peito antes de girar para encarar o príncipe. — Algo que você nunca entenderá trancado em seu castelo de ossos!

Viktor avançou contra Ana, e o choque das espadas de prata criou uma explosão de faíscas que iluminou todo o porto. Ele era rápido, um mestre milenar da esgrima, mas Ana era puro instinto e fúria. A cada golpe que Viktor desferia, Ana respondia com uma força que o obrigava a recuar.

Lana circulava o duelo, mantendo os outros inimigos à distância com suas sombras. Ela viu o momento em que Viktor tentou um golpe baixo, visando a perna ferida de Ana.

— Agora, Ana! — gritou Lana, lançando um feitiço de paralisia momentânea que atingiu as sombras sob os pés de Viktor.

O príncipe hesitou por apenas um milésimo de segundo, mas foi o suficiente. Ana girou o corpo, usando todo o peso de sua forma de ápice, e desferiu um golpe ascendente com a Eclipse. A lâmina de prata estelar cortou o braço da espada de Viktor, separando-o do ombro em um jorro de sangue negro e fumaça.

Viktor caiu de joelhos, urrando de dor. A prata da Eclipse estava consumindo sua carne, impedindo qualquer regeneração.

— Por favor... Lana... — implorou Viktor, olhando para a princesa. — Somos da mesma espécie... você não pode deixar que essa... essa fera me mate.

Lana aproximou-se dele, o rosto impassível. Ela inclinou-se e sussurrou em seu ouvido:

— Você errou em uma coisa, Viktor. Nós não somos da mesma espécie. Eu sou o que eu escolhi ser. E eu escolhi ela.

Lana acenou com a cabeça para Ana. A loba branca aproximou-se, a espada Eclipse brilhando com uma luz final e absoluta.

— Pelo meu exílio — disse Ana, erguendo a lâmina. — E pela mulher que eu amo.

O golpe foi limpo. A cabeça de Viktor rolou pelo cais antes de cair nas águas escuras do porto. O silêncio voltou, mas desta vez era um silêncio de vitória.

Ana voltou à sua forma humana, exausta, seu cabelo branco tornando-se castanho novamente à medida que a lua se escondia atrás das nuvens. Lana a segurou antes que ela caísse, envolvendo-a em seus braços.

— Acabou — sussurrou Lana.

— Não — disse Ana, olhando para o horizonte, onde o primeiro raio de sol começava a aparecer. — Está apenas começando.

Elas caminharam de volta para a ferraria, deixando os restos do passado para trás. Porto Livre acordaria com uma nova lenda: a da vampira de tranças de sombra e da loba de prata estelar que desafiaram um reino e venceram. Elas não sabiam o que o futuro lhes reservava, se o Rei Vampiro enviaria exércitos ou se a alcateia viria em busca de vingança. Mas, enquanto caminhavam de mãos dadas, sabiam que, independentemente do que viesse, elas o enfrentariam juntas. Porque no final, o ódio que as unira na floresta transformara-se em algo muito mais perigoso para seus inimigos: uma lealdade que nem a morte poderia quebrar.