enemies to love
Fumaça, Sombras e o Limite do Abismo
A revelação na biblioteca deveria ter mudado tudo, mas para Anne Isabella, aceitar que Nick Salvatori não a odiava era como admitir que a gravidade funcionava ao contrário. Se ele não a odiava, se ele era realmente *obcecado* por ela, então toda a estrutura de sua vida escolar nos últimos meses — baseada em trocas de farpas e competições intelectuais — era uma mentira. E Anne não gostava de se sentir enganada, nem mesmo por si mesma.
Nas semanas que se seguiram, ela adotou uma nova estratégia: o teste de estresse. Se Nick dizia que gostava do seu jeito barulhento, ela seria ensurdecedora. Se ele dizia que sua inteligência o atraía, ela agiria com uma teimosia irracional. Anne Isabella transformou a convivência em um campo de minas, tentando desesperadamente encontrar o ponto de ruptura daquele gigante de 1,90 de altura.
— Salvatori, você derramou café na minha ficha de biologia de propósito! — exclamou ela no meio do refeitório, apontando para uma mancha minúscula que mal tocava a margem do papel.
Nick, que estava sentado com um livro de astrofísica, ergueu o olhar lentamente. Seus olhos marrom-escuros percorreram a figura de Anne — o cabelo mel levemente bagunçado, os brincos de cereja balançando com a indignação forçada, a blusa do uniforme apertada em seu corpo ampulheta.
— Foi um acidente, pequena — ele respondeu, a voz profunda e calma, sem um pingo de irritação. — Mas se isso te faz sentir melhor, pode usar o meu caderno. Eu já terminei o relatório e o meu está... impecável. Como você.
Anne bufou, sentindo o rosto esquentar.
— Eu não quero o seu caderno! Eu quero que você preste atenção por onde anda, seu brutamontes nerd.
— Eu estou sempre prestando atenção em você, Furacãozinho — ele murmurou, fechando o livro e se inclinando para frente. — É impossível não prestar. Mas tente outra coisa. Essa raiva fingida não combina com o brilho dos seus olhos.
Era sempre assim. Ela o insultava, ele a elogiava com uma intensidade sombria. Ela tentava tirá-lo do sério, e ele apenas a cercava com aquela aura possessiva que parecia diminuir o oxigênio do ambiente. Nick Salvatori era uma rocha, e Anne era a onda que se quebrava contra ele, sem causar um único arranhão.
Naquela quinta-feira, o treino na academia da escola tinha se estendido mais do que o esperado. Anne adorava a sensação de endorfina, o modo como o exercício ajudava a organizar seus pensamentos caóticos sobre o garoto que parecia ter roubado o controle de sua vida. Quando ela finalmente saiu do prédio, passava das nove da noite. O campus do Saint Jude estava mergulhado em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som de seus próprios passos e pelo tilintar metálico de seus brincos.
O ar da noite estava fresco, mas o asfalto ainda retinha o calor do dia. Anne Isabella caminhava apressada, a mochila da academia pendurada em um ombro, quando dobrou a esquina que levava ao portão lateral, perto do antigo bloco de artes.
Uma luz laranja tremeluzente chamou sua atenção. No canto mais escuro, encostado em uma parede de tijolos aparentes, estava Nick.
Ele não parecia o Nick da sala de aula. A jaqueta escura estava aberta, revelando uma camiseta preta que marcava cada músculo de seu peito e ombros. Ele estava com uma perna dobrada contra a parede e, entre os dedos longos, segurava um cigarro. A fumaça subia em espirais preguiçosas, emoldurando seu rosto esculpido e os cabelos pretos ondulados que caíam sobre a testa.
O que mais chamou a atenção de Anne, porém, foi o olhar dele. Nick parecia estar em outro lugar. Seus olhos estavam levemente avermelhados, as pupilas dilatadas, conferindo-lhe uma expressão de "bad boy" que Anne só vira em filmes de romance dark que lia escondida. Ele parecia perigoso. Ele parecia... chapado.
— Salvatori? — a voz de Anne saiu mais baixa do que ela pretendia.
Ele virou a cabeça devagar. Um sorriso lento e perverso surgiu em seus lábios quando ele a reconheceu. Ele soltou a fumaça lentamente, o olhar fixo nela como um predador que acaba de encontrar sua presa favorita no meio da noite.
— Olha só quem resolveu aparecer nas sombras — Nick disse, a voz ainda mais rouca e arrastada. — O que uma garota tão brilhante está fazendo na escuridão a essa hora, bb?
— Eu estava saindo do treino — Anne respondeu, tentando recuperar sua postura de inimizade. Ela deu um passo à frente, cruzando os braços. — E você? Fumando nesse estado? Sabia que o tabaco e outras substâncias reduzem a capacidade pulmonar e afetam o desempenho cognitivo? Você vai acabar perdendo seu posto de primeiro da classe para mim se continuar assim.
Nick soltou uma risada sombria, um som que vibrou no peito de Anne. Ele jogou o cigarro no chão e o esmagou com a bota, sem nunca desviar os olhos dela.
— Você não desiste, não é? — Ele se desencostou da parede. Nick parecia ainda maior sob a luz fraca dos postes distantes. — Passou o dia inteiro tentando me irritar. Escondeu minhas canetas, derrubou meus livros... Eu percebi tudo, Isa.
— Eu não sei do que você está falando — ela mentiu, dando um passo para trás conforme ele avançava. — Eu só acho que você é um idiota arrogante que precisa de um choque de realidade.
— Um choque? — Nick deu mais um passo, diminuindo a distância entre eles. Anne sentiu o cheiro de tabaco, o perfume amadeirado dele e algo mais doce, inebriante. — É isso que você quer, pequena? Um choque?
Anne recuou até que suas costas encontraram a parede fria de tijolos. Antes que ela pudesse protestar, Nick espalmou as duas mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a em seu espaço pessoal. O calor que emanava do corpo dele era quase insuportável.
— Você me testa, Anne Isabella — ele sussurrou, inclinando o rosto até que seus narizes quase se tocassem. O brilho nos olhos dele era selvagem, desprovido da paciência que ele demonstrava na escola. — Você passa o dia tentando encontrar o meu limite. Quer saber onde ele está? Quer saber o que acontece quando eu finalmente perco a paciência?
Anne sentiu o coração martelar contra as costelas, uma mistura de medo e uma excitação proibida que ela não conseguia silenciar.
— Você não faria nada — ela desafiou, embora sua voz tivesse falhado no final. — Você é o nerd perfeito, Salvatori. O garoto de ouro que resolve equações complexas. Você não tem coragem de...
Nick interrompeu sua fala com um movimento brusco. Ele desceu uma das mãos da parede e a pressionou firmemente na cintura de Anne, puxando-a para mais perto, eliminando qualquer espaço que restasse entre seus corpos. Anne soltou um arquejo audível. A força dele era evidente, a mão grande cobrindo quase toda a lateral de seu tronco, os dedos apertando o tecido fino de sua roupa de academia.
— Eu não sou um garoto de ouro — ele rosnou contra o ouvido dela, os lábios roçando sua pele. — Eu sou um desastre quando se trata de você. Eu passo cada minuto daquelas aulas tentando não te agarrar na frente de todo mundo. Eu ouço o som dos seus brincos de cereja e sinto vontade de arrancar cada um deles com os dentes só para ter um motivo para tocar no seu pescoço.
Anne Isabella tremeu. A honestidade brutal dele, misturada ao estado alterado em que ele se encontrava, era uma arma poderosa. Ela olhou para cima, encontrando os olhos escuros de Nick, que agora brilhavam com uma possessividade nua e crua.
— Você está... você não está bem, Nick — ela murmurou, tentando manter a sanidade. — Você está chapado. Não sabe o que está dizendo.
— Eu nunca soube tão bem o que estou dizendo — ele rebateu, a mão na cintura dela subindo lentamente, traçando a curva de seu corpo até parar logo abaixo de seu seio, onde ele podia sentir as batidas frenéticas do coração dela. — Eu sou obcecado por você, Isa. O ódio que você finge sentir é a única coisa que me mantém longe de fazer algo que nos colocaria em sérios problemas.
Ele se afastou apenas alguns milímetros para olhar nos olhos dela.
— Por que você continua me provocando? — ele perguntou, a voz carregada de uma dor doce. — Você quer que eu te quebre? Quer que eu mostre que você não tem poder nenhum sobre mim quando eu decido que te quero?
Anne engoliu em seco. Ela deveria gritar, deveria empurrá-lo e correr. Mas seus pés pareciam colados ao chão, e sua mão, de forma independente, subiu para tocar o braço musculoso de Nick. O músculo estava tenso como corda de piano.
— Eu só... eu queria que você reagisse — ela admitiu, a voz mal passando de um sussurro. — Você é sempre tão perfeito, tão calmo. Eu queria saber se eu significava alguma coisa para você além de uma rival de notas.
Nick soltou um riso curto, quase um rosnado, e colou sua testa na dela.
— Você é tudo, sua nerd barulhenta. Você é o motivo pelo qual eu acordo e o motivo pelo qual eu não consigo dormir. Se eu reagisse a cada vez que você me provoca, nós não estaríamos aqui conversando. Eu já teria te beijado até você esquecer como se fala.
O silêncio que se seguiu foi carregado de eletricidade. Anne podia sentir o hálito de Nick em seus lábios, o calor de seu corpo a envolvendo como um cobertor pesado. Ela olhou para a boca dele, o lábio inferior levemente mais cheio, e sentiu uma necessidade avassaladora de cruzar aquela linha.
— Então por que não faz isso? — ela perguntou, o desafio voltando à sua voz, mas dessa vez era um convite. — Mostre-me que você não é tão calmo assim, Salvatori.
Os olhos de Nick escureceram ainda mais, se é que isso era possível. Ele soltou um palavrão baixo e, antes que Anne pudesse processar, ele atacou. Não foi um beijo gentil. Foi uma colisão. Seus lábios se encontraram com uma fome que vinha sendo alimentada há meses por negação e provocações.
Nick a prensou com mais força contra a parede, seu corpo de 1,90 agindo como um escudo e uma prisão ao mesmo tempo. A mão que estava em sua cintura subiu para emaranhar-se em seu cabelo mel, puxando levemente a cabeça dela para trás para aprofundar o contato. Anne passou os braços pelo pescoço dele, sentindo a textura da jaqueta e a firmeza dos ombros dele.
O beijo tinha gosto de perigo, de fumaça e de uma inteligência que finalmente encontrava seu par. Nick a beijava como se estivesse tentando decifrar o mistério mais complexo do universo, e Anne respondia com a mesma intensidade, sua língua encontrando a dele em uma batalha que nenhum dos dois queria vencer.
Quando eles finalmente se separaram para buscar ar, Nick não se afastou. Ele manteve o rosto a centímetros do dela, a respiração pesada e descompassada.
— Você ainda acha que eu sou o nerd calmo? — ele perguntou, o polegar acariciando o lábio inferior dela, que agora estava inchado e avermelhado.
Anne Isabella sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto mesmo na penumbra. Seus brincos de cereja balançaram uma última vez antes que ela encostasse a cabeça no peito dele, ouvindo o coração de Nick batendo tão rápido quanto o dela.
— Eu acho — começou ela, a voz recuperando um pouco de sua vivacidade extrovertida — que a teoria da relatividade estava certa. O tempo parou agora pouco.
Nick soltou uma risada, desta vez mais leve, e beijou o topo da cabeça dela, envolvendo-a em um abraço protetor.
— Você é impossível, pequena.
— E você é meu — ela retrucou, apertando a camisa dele.
— Sempre fui — ele confessou, a voz sombria voltando. — Só você que era inteligente demais para perceber o óbvio.
Eles ficaram ali, na esquina escura do colégio, dois nerds que haviam transformado a inimizade em algo muito mais perigoso e viciante. Anne sabia que a escola no dia seguinte seria diferente. Ela ainda o provocaria, ela ainda tentaria ser melhor que ele em cada prova, mas agora ela sabia o que a esperava nas sombras. E Nick Salvatori, com sua obsessão silenciosa e seu jeito dark, era o único problema que ela não tinha pressa nenhuma em resolver.