enemies to love
Eclipses, Marcas e o Ritmo das Estrelas
O despertador tocou às seis da manhã com uma insistência que parecia perfurar os tímpanos de Anne Isabella. Ela esticou o braço, tateando o criado-mudo até silenciar o aparelho, e permaneceu imóvel por alguns minutos, encarando o teto. O quarto estava mergulhado naquela penumbra cinzenta que precede o nascer do sol, e sua mente estava uma confusão de fragmentos. O cheiro de floresta e couro, o toque áspero da parede de tijolos, a voz rouca de Nick...
— Foi um sonho — murmurou para si mesma, a voz rouca pelo sono. — Só pode ter sido um sonho. O Nick Salvatori não me beijaria daquele jeito. Ele não diria aquelas coisas.
Ela se levantou, sentindo o corpo estranhamente pesado, como se cada músculo tivesse sido exercitado ao limite. Caminhou até o banheiro e ligou o chuveiro no máximo. A água quente batendo em suas costas ajudou a dissipar a névoa mental, mas não a sensação de que algo fundamental havia mudado em sua estrutura molecular.
Ao sair do banho, Anne limpou o vapor do espelho com a palma da mão. O reflexo que a encarava era o de sempre: os olhos marrom-mel, o cabelo curto na altura dos ombros. Mas, conforme a névoa desaparecia por completo, os detalhes começaram a saltar aos olhos.
Seus lábios estavam visivelmente mais cheios, com um tom avermelhado que não era natural. Ela inclinou a cabeça para o lado, afastando os fios úmidos do pescoço, e o coração deu um solavanco. Ali, na junção entre o pescoço e o ombro, havia uma marca arroxeada, um "chupão" perfeitamente circular que gritava a possessividade de quem o fizera.
As mãos de Anne tremeram quando ela soltou a toalha por um instante para se avaliar por completo. Na cintura, onde a mão de Nick a prensara contra a parede com tanta força, havia marcas avermelhadas. Não eram hematomas feios, mas sombras claras no formato de dedos longos e fortes, um mapa tátil de onde ele a segurara.
— Meu Deus... — sussurrou, cobrindo a boca com a mão. — Não foi um sonho.
Um suspiro pesado escapou de seus lábios. Ela enrolou a toalha novamente, sentindo um calor súbito subir pelas bochechas. A realidade a atingiu como um trem de carga: Nick Salvatori, o garoto que ela acreditava ser seu maior inimigo, o gênio sombrio de 1,90 de altura, era obcecado por ela. E ela, de alguma forma, havia cedido a essa obsessão com uma fome que a assustava.
Anne vestiu o uniforme escolar com uma urgência quase febril. Escolheu uma blusa de gola um pouco mais alta para esconder a marca no pescoço e, em vez dos seus habituais brincos de cereja, optou por um par de estrelas prateadas pendentes. Elas eram delicadas, mas faziam um tilintar metálico, um som de "clink-clink" a cada movimento de sua cabeça. Era um som diferente, mais frio, talvez uma tentativa subconsciente de se proteger da doçura perigosa das cerejas.
Ela arrumou seus cachos mel com cuidado, garantindo que emoldurassem o rosto de forma a esconder qualquer vestígio da noite anterior. Durante o café da manhã, ela mal tocou na comida. Sua mente estava em um loop infinito, reprisando o momento em que Nick a chamara de "Furacãozinho" com aquela voz carregada de fumaça.
Ao chegar no Colégio Saint Jude, Anne Isabella adotou uma postura de indiferença absoluta. Ela caminhou pelos corredores com o queixo erguido, os olhos fixos em qualquer lugar que não fosse o armário de Nick ou os lugares onde ele costumava ficar.
— Bom dia, Isa! — cumprimentou uma colega de classe.
— Bom dia — respondeu Anne, sem parar de caminhar.
Ela sentia o olhar dele. Mesmo sem olhar para trás, ela sabia exatamente onde Nick estava. A presença dele era como uma massa gravitacional; ela podia sentir o peso de seus olhos escuros seguindo cada movimento seu, desde a entrada até a sala de aula.
Durante a primeira aula, de História, Nick sentou-se em seu lugar habitual, duas fileiras atrás dela. O silêncio dele era mais barulhento do que qualquer conversa. Anne sentia a nuca formigar. Ela se recusava a virar. Estava mergulhada em uma mistura de vergonha, confusão e um arrependimento que ela sabia ser mentiroso. Ela não se arrependia do beijo, mas se arrependia de ter perdido o controle, de ter deixado que ele visse o quanto ela o queria de volta.
— Senhorita Isabella? — o professor chamou. — Poderia nos dizer as consequências do Tratado de Versalhes?
Anne piscou, saindo do transe.
— Ah, sim... O tratado impôs reparações financeiras severas à Alemanha, além de perdas territoriais e desmilitarização, o que gerou um ressentimento profundo que... — Ela hesitou por um segundo, sentindo o tilintar de seus brincos de estrela. — Que serviu de combustível para conflitos futuros.
— Excelente — disse o professor.
— Combustível para conflitos futuros... — uma voz grave murmurou atrás dela, baixo o suficiente para que apenas Anne ouvisse. — Uma análise muito apropriada para o dia de hoje, não acha, pequena?
Anne sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela apertou a caneta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, mas não respondeu. Ela o ignorou durante toda a manhã. Nas trocas de aula, ela passava por ele como se ele fosse feito de vidro transparente, embora o perfume de madeira e couro dele parecesse segui-la como um fantasma.
Na hora do recreio, a necessidade de extravasar a energia acumulada a levou para a quadra de vôlei. O sol estava forte, e o jogo estava intenso. Anne Isabella era uma jogadora ágil, seus movimentos rápidos faziam o uniforme subir levemente, expondo a pele da barriga e o contorno de suas curvas enquanto ela saltava para cortar a bola.
Ela jogava com uma fúria silenciosa, tentando expulsar a imagem de Nick de sua cabeça. A cada manchete, a cada saque, ela sentia o suor escorrer por seu pescoço, mas a marca que ele deixara ali parecia queimar sob o tecido, como um segredo que ansiava por ser descoberto.
— Minha vez de sair! — gritou ela após alguns sets, ofegante.
Anne caminhou até o canto da quadra, pegou sua garrafa de água e se sentou no chão, encostando as costas contra a parede de concreto. Ela estava exausta. O suor colava alguns fios de cabelo em sua testa, e ela fechou os olhos, tentando acalmar o coração que batia descompassado.
Mas fechar os olhos foi um erro.
Assim que a escuridão das pálpebras se instalou, a cena da noite anterior voltou com força total. Ela sentiu novamente a pressão das mãos de Nick em sua cintura, o calor do corpo dele contra o seu, a urgência ríspida de seus lábios. Ela conseguia ouvir o som da respiração dele, o modo como ele rosnara seu nome...
— Beber água ajuda na recuperação muscular, mas não parece estar ajudando a baixar sua pressão, Furacãozinho.
Anne abriu os olhos de sobressalto. Nick Salvatori estava parado bem à sua frente. Sob a luz do sol, ele parecia ainda mais imponente. O uniforme escolar parecia pequeno demais para seus ombros largos, e o cabelo preto ondulado estava levemente bagunçado pelo vento. Ele segurava uma toalha pequena e a estendeu para ela.
— O que você quer, Nick? — ela perguntou, tentando manter a voz firme, embora estivesse sentada em uma posição vulnerável aos pés dele.
— Você passou o dia fugindo — disse ele, ignorando a pergunta. Ele se agachou, ficando na altura dela. A proximidade fez o tilintar dos brincos de estrela de Anne soar frenético. — Por quê? Ontem você parecia bem corajosa quando me desafiou a beijar você.
— Ontem foi... — ela começou, desviando o olhar para os próprios joelhos. — Ontem você não estava em si. E eu estava cansada.
Nick soltou um riso seco e, com uma audácia que só ele possuía, estendeu a mão e tocou a gola da blusa dela, puxando-a apenas o suficiente para ver a borda da marca arroxeada em seu pescoço.
— Eu estava perfeitamente em mim, Isa. Eu sabia exatamente o que estava fazendo quando marquei você. E pelo que vejo — ele deslizou o olhar pela cintura dela, onde o uniforme estava levemente desalinhado — minhas mãos deixaram lembranças bem claras.
— Shh! Alguém pode ouvir! — sibilou Anne, o rosto queimando de vergonha.
— Deixe que ouçam — Nick murmurou, aproximando o rosto do dela. — Deixe que saibam que você é minha. Que esse joguinho de inimigos intelectuais acabou no momento em que você sentiu o gosto da minha boca.
— Não acabou nada — ela retrucou, finalmente encontrando coragem para olhar nos olhos dele. Aquelas orbes marrom-escuro estavam carregadas daquela mesma obsessão sombria da noite anterior. — Você ainda é um idiota arrogante, e eu ainda vou tirar notas melhores que as suas em Química.
Nick sorriu de canto, um sorriso que não era de deboche, mas de pura adoração possessiva.
— Você pode ter as notas, pequena. Mas você sabe quem te possui quando as luzes se apagam.
Ele se levantou, a sombra de seu corpo de 1,90 cobrindo-a completamente.
— Use as estrelas se quiser — ele disse, fazendo menção aos brincos dela. — Elas fazem um barulho bonitinho. Mas não se esqueça de que eu prefiro as cerejas. Elas combinam com o sabor que você tem.
Nick se afastou, caminhando com a confiança de quem já havia vencido a guerra, deixando Anne Isabella sentada no chão da quadra, suada e com o coração em frangalhos. Ela levou a mão ao pescoço, tocando a pele por cima da gola.
Ela o odiava. Tinha que odiá-lo. Mas, enquanto observava Nick se afastar, Anne percebeu que a gravidade dele era forte demais para ser ignorada. Ela não era mais apenas uma nerd extrovertida tentando provar seu valor; ela era o alvo de um predador que não aceitaria nada menos que sua entrega total. E o pior de tudo, enquanto o tilintar das estrelas morria no ar, era que ela não tinha certeza se queria fugir.