enemies to love
O Altar da Devocidade e a Geometria da Dor
O isolamento acústico da cabine VIP transformava o mundo exterior em uma lembrança distante e irrelevante. Ali dentro, o ar era denso, saturado pelo perfume amadeirado de Nick e pelo cheiro de couro novo que revestia as paredes. A luz âmbar, posicionada estrategicamente no teto, criava um efeito de eclipse, deixando o rosto de Nick em uma penumbra constante, ressaltando apenas o brilho predatório de seus olhos marrom-escuros.
Anne Isabella sentiu o suéter do uniforme ser jogado displicentemente no chão. Ela tremia, mas não era de frio. A presença de Nick Salvatori ocupava todo o espaço oxigenado da sala. Ele era uma força da natureza, um gigante de 1,90 que parecia ter sido esculpido em granito e sombras.
— Você está trêmula, pequena — Nick observou, a voz vibrando como um trovão baixo no peito dela. — É medo ou é a antecipação de finalmente ser tratada como a minha propriedade?
Anne engoliu em seco, as mãos subindo para o peito, cobrindo a renda preta do sutiã que agora estava à mostra. Os brincos de cereja tilintaram furiosamente com o movimento de sua cabeça.
— Eu não sou um objeto, Nick. Você sabe disso. Eu sou a pessoa que te desafia em cada aula de física — ela tentou manter a voz firme, mas o desafio soava mais como um convite.
Nick soltou um riso sombrio e deu um passo à frente, forçando-a a se sentar no sofá de couro negro. Ele não se sentou; ele se ajoelhou entre as pernas dela, uma posição de falsa submissão que apenas ressaltava o controle absoluto que ele exercia sobre o ambiente.
— Sua inteligência é o que me atrai, Isa. Mas aqui, nesta sala, sua mente não vai te salvar. Aqui, nós vamos falar a linguagem do corpo. Uma geometria de dor e êxtase que você ainda não aprendeu nos livros.
Ele estendeu a mão para a mesa de vidro lateral e, com um movimento lento e deliberado, pegou uma tira de seda preta. Anne observou, hipnotizada, enquanto ele enrolava o tecido nos próprios dedos longos e fortes.
— Você confia em mim, Furacãozinho? — ele perguntou, os olhos fixos nos dela.
— Eu não deveria — ela sussurrou.
— Mas confia.
Nick não esperou por uma resposta. Ele segurou os pulsos de Anne com uma firmeza inabalável e os uniu acima da cabeça dela, prendendo-os com a tira de seda ao gancho metálico que estava embutido na parede acolchoada, logo acima do sofá. Anne soltou um arquejo quando sentiu os braços esticados, expondo a curva de seu pescoço e a vulnerabilidade de seu corpo ampulheta.
— O que você está fazendo? — a voz dela saiu em um fio.
— Estou garantindo que você não fuja da intensidade do que eu sinto por você — Nick respondeu, levantando-se e ficando de pé sobre ela. — Eu passei meses vendo você usar esse corpo para me provocar, cruzando as pernas na sala, mordendo o lábio quando não conseguia resolver um problema... Agora, você vai aprender que cada reação sua tem um preço.
Ele caminhou até um pequeno armário de nogueira no canto da sala e retirou um objeto que fez o coração de Anne disparar: um pequeno chicote de tiras de couro macio, conhecido como flogger.
— Nick... — ela começou, mas ele colocou um dedo sobre os lábios dela.
— Shh. Não lute contra isso, bb. Deixe que o calor da noite te leve.
Ele testou o instrumento na palma da própria mão, produzindo um som seco que chicoteou o silêncio da cabine. Anne fechou os olhos, sentindo o suor escorrer entre seus seios. A noite estava abafada, a tempestade lá fora parecia ter se transferido para dentro daquelas paredes.
— Olhe para mim, Anne Isabella — ele ordenou.
Ela obedeceu. Nick estava com a camisa aberta, revelando o peito musculoso e suado. Ele parecia um deus pagão exigindo um sacrifício. Sem aviso, ele desferiu o primeiro golpe. Não foi forte, foi apenas um toque das tiras de couro contra a pele das coxas dela, que ainda estavam cobertas pela meia-calça fina do uniforme.
Anne soltou um grito abafado, uma mistura de choque e uma faísca elétrica que percorreu sua espinha.
— Isso foi por cada vez que você me ignorou nos corredores — Nick disse, a voz rouca de desejo.
Outro golpe, desta vez um pouco mais firme, no lado oposto.
— Isso foi por cada vez que você fingiu que o meu toque na sua cintura não te fazia arder.
— Nick, por favor... — ela implorou, mas seu corpo estava se arqueando em direção a ele, buscando mais.
Ele largou o flogger e se aproximou, os dedos traçando o caminho que o couro havia feito. O contraste entre a aspereza do instrumento e a suavidade da mão dele era inebriante. Nick a beijou, um beijo que tinha gosto de posse e de uma fome que nunca seria saciada. Ele mordeu o lábio inferior dela com força suficiente para causar uma dor aguda, seguida imediatamente pelo alívio de sua língua explorando a boca dela.
— Você gosta disso, não gosta? — ele sussurrou contra a pele dela. — Gosta de saber que eu sou o único capaz de te quebrar e te reconstruir.
— Eu odeio você — ela mentiu, a cabeça pendendo para trás enquanto ele descia os beijos pelo seu pescoço, evitando deliberadamente a marca que já estava lá, criando novas ao redor.
— Mentirosa — ele rosnou. — Você ama a escuridão que eu trago. Você ama saber que, enquanto o resto da escola te vê como a garotinha nerd e fofa, eu te vejo como a mulher que implora pelo meu toque mais pesado.
Nick afastou-se e retirou de seu bolso um pequeno frasco de óleo essencial. Ele derramou o líquido nas mãos e começou a massagear os ombros de Anne, seus dedos fortes amassando os músculos tensos. O aroma de sândalo e pimenta preta preencheu o ar.
— A dor é apenas um portal, pequena — ele explicou, a voz calma agora, quase pedagógica, o que a tornava ainda mais assustadora. — Se você aceitar a dor que eu te dou, o prazer que virá depois será algo que sua mente lógica jamais conseguirá processar.
Ele desceu as mãos para o fecho da saia dela, abrindo-o com uma precisão cirúrgica. A peça de roupa caiu, deixando-a apenas de calcinha e meia-calça. Nick observou-a por um longo tempo, o olhar percorrendo cada curva com uma adoração possessiva que fazia Anne se sentir o centro do universo.
— Você é perfeita — ele murmurou, a mão subindo para acariciar o brinco de cereja. — Mas você precisa aprender quem manda.
Ele pegou uma pequena vela que queimava sobre a mesa. Era uma vela de massagem, com baixa temperatura de fusão, mas Anne não sabia disso. Seus olhos se arregalaram quando viu Nick inclinar o pavio sobre seu abdômen.
— Nick, não!
— Confie em mim, bb.
A primeira gota de cera quente caiu sobre a pele sensível logo acima do umbigo. Anne soltou um grito agudo, o corpo se contorcendo contra as amarras de seda. A sensação era de um calor súbito, quase insuportável, que rapidamente se transformava em uma película morna e reconfortante. Nick continuou, desenhando padrões de fogo líquido sobre a pele dela.
— Diga meu nome, Isa — ele exigiu, a voz carregada de uma tensão sexual insuportável.
— Nick... Nick, por favor!
— O que você quer? Diga o que você quer que eu faça com você neste altar que eu aluguei para nós.
— Eu quero que você me possua! — ela gritou, as lágrimas de exaustão sensorial começando a cair. — Eu quero que você tire essa seda e me mostre que eu sou sua!
Nick sorriu, um sorriso de vitória absoluta. Ele desamarrou os pulsos dela com rapidez, mas antes que ela pudesse se mover, ele a prendeu novamente, desta vez com o peso de seu próprio corpo, jogando-a contra o encosto do sofá.
— Você não tem ideia do que acabou de pedir — ele disse, a voz sombria. — Eu não vou ser gentil, Furacãozinho. Eu vou te marcar de um jeito que nenhum corretivo no mundo vai conseguir esconder. Eu vou fazer você esquecer como se respira sem a minha permissão.
— Então faça — ela desafiou, unindo suas pernas ao redor da cintura dele, sentindo a rigidez dele através do tecido das calças.
O que se seguiu foi uma sinfonia de pele contra pele, de gemidos abafados e do som rítmico da chuva que agora castigava o telhado do clube. Nick a possuiu com uma intensidade que beirava a violência, mas cada movimento era calculado para levá-la ao limite de sua própria resistência. Ele era dominante, exigente, guiando-a através de um labirinto de sensações que ela nunca imaginou existir.
Anne Isabella sentia-se como uma estrela em colapso, explodindo em mil pedaços sob o comando de Nick. Ele mordia seus ombros, deixava marcas de dedos em suas ancas e sussurrava palavras de posse em seu ouvido que a faziam queimar mais do que a cera quente.
— De quem você é? — ele perguntou, o ritmo tornando-se frenético, os olhos fixos nos dela, exigindo a verdade final.
— Sua... eu sou sua, Nick! Sempre fui sua! — ela gritou, o ápice a atingindo como uma onda de choque que a deixou sem fôlego, o corpo tremendo em espasmos de puro êxtase.
Nick soltou um rosnado animal e se entregou logo em seguida, enterrando o rosto no pescoço dela, as mãos agarrando o cabelo mel com uma força que demonstrava o quanto ele também estava perdido naquela obsessão.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela respiração pesada de ambos. Nick não se afastou; ele permaneceu sobre ela, protegendo-a com seu corpo enorme. A luz âmbar refletia no suor que brilhava na pele de ambos, transformando-os em estátuas de bronze em um templo profano.
— Você está bem? — ele perguntou depois de alguns minutos, a voz recuperando um pouco da suavidade, embora a possessividade ainda estivesse lá.
— Eu não sinto minhas pernas — Anne respondeu com um riso fraco, os dedos acariciando os ombros largos de Nick. — E acho que você quebrou minha lógica, Salvatori.
Nick levantou a cabeça e a beijou com uma ternura inesperada, limpando uma lágrima perdida em seu rosto.
— Sua lógica nunca teve chance contra mim, pequena. Você foi feita para mim, assim como eu fui feito para te dominar.
Ele se levantou e a ajudou a se sentar, pegando uma toalha úmida para limpar os vestígios de cera e óleo. O cuidado com que ele fazia isso — o mesmo garoto que momentos antes a chicoteava com couro — era a maior prova da complexidade da obsessão dele.
— Temos que voltar — ele disse, olhando para o relógio de pulso. — Seus pais não podem desconfiar de onde você esteve.
— Eles nunca acreditariam se eu contasse — Anne disse, vestindo a saia com dificuldade, sentindo cada músculo protestar.
Nick a ajudou com o suéter, e quando chegou a vez dos brincos de cereja, ele parou. Ele os segurou entre os dedos, fazendo-os balançar sob a luz âmbar.
— Estes brincos são o meu som favorito no mundo — ele confessou. — Porque eles me dizem exatamente onde você está e o quão rápido seu coração está batendo por mim. Nunca os tire quando estiver comigo.
— Eu não vou tirar — ela prometeu.
Eles saíram da cabine VIP e atravessaram o clube de neon. O mundo lá fora continuava o mesmo, mas para Anne Isabella, tudo havia sido reconfigurado. Ela entrou no carro de Nick, sentindo o peso da noite em seus ossos e a marca da alma dele na sua.
Enquanto Nick dirigia de volta para as luzes limpas e hipócritas do Colégio Saint Jude, Anne olhou para o próprio reflexo no vidro escurecido. Ela ainda era a garota inteligente, a nerd extrovertida, a rival de notas. Mas por baixo do uniforme, escondido pela gola alta e pela saia plissada, havia um mapa de dor e prazer desenhado por Nick Salvatori.
— Nick? — ela chamou baixinho enquanto entravam nos portões da escola.
— Sim, pequena?
— Amanhã, na aula de biologia... eu ainda vou ganhar de você no teste de dissecação.
Nick soltou uma risada alta, um som raro e genuíno que iluminou o interior do carro.
— Talvez ganhe, Furacãozinho. Mas lembre-se: eu já dissequei cada parte da sua alma hoje à noite. E o resultado foi um "A" com louvor.
Ele estacionou nas sombras, perto do dormitório de visitantes. O beijo de despedida foi breve, mas carregado de uma promessa sombria. Anne saiu do carro e caminhou em direção à entrada, o tilintar de suas cerejas soando como uma melodia de vitória no silêncio da madrugada. Ela sabia que a noite quente e o sadomasoquismo de Nick não eram um fim, mas um começo. O começo de um regime onde ela era a rainha e ele o seu mestre absoluto, unidos por uma obsessão que nenhum livro de ciência seria capaz de catalogar.