enimes to lovers
Entre Desenhos e Trovões
A noite na Terra do Nunca tinha uma densidade diferente de qualquer outro lugar. O ar ficava carregado com o aroma de jasmim noturno e o som rítmico dos grilos mágicos, cujos cantos pareciam pequenas sinetas de prata. Minha cabana, curiosamente situada nos limites da Floresta Proibida, era o meu refúgio. Embora o lugar ainda me desse calafrios durante o dia, à noite, protegida pelas paredes de madeira de sândalo e pelas trepadeiras que brilhavam com uma luz azulada, eu me sentia em paz.
Eu já havia trocado meu maiô por uma camisola leve e confortável. Estava sentada de pernas cruzadas na cama, com um caderno de couro velho apoiado nos joelhos e um pedaço de carvão na mão. O silêncio era meu companheiro, e eu deixava minha mão deslizar livremente pelo papel amarelado.
No início, eu pretendia desenhar o mapa das constelações que só apareciam sobre a ilha, mas meus pensamentos começaram a vagar. Lembrei-me do toque de Peter em meu rosto mais cedo, da forma como ele me protegeu e daquele beijo suave no topo da minha cabeça. Sem que eu percebesse consciencialmente, os traços circulares das estrelas deram lugar a linhas mais nítidas e angulares.
O queixo firme, o nariz levemente arrebitado, aquele olhar que oscilava entre a malícia de um menino e a sabedoria de alguém que viveu séculos. Quando dei por mim, o rosto de Peter Pan me encarava de volta do papel, capturado em um momento de rara serenidade.
— Você me desenhou muito melhor do que o espelho da Lagoa das Sereias me mostra — uma voz vibrante e divertida ecoou pela cabana.
Eu dei um pulo, o coração quase saindo pela boca. Peter estava parado na janela, com um pé no parapeito, exibindo aquele sorriso de lado que sempre me desarmava. Ele dormia ali comigo quase todas as noites, mas sua entrada era sempre uma surpresa.
— Peter! Que susto! — exclamei, tentando fechar o caderno rapidamente.
Mas ele foi mais rápido. Em um movimento que desafiava a gravidade, ele deslizou para dentro do quarto e, antes que eu pudesse esconder o desenho sob o travesseiro, ele já segurava o caderno nas mãos, analisando-o com curiosidade.
— Por que me desenhou, Nana? — perguntou ele, os olhos cor de mel brilhando sob a luz das velas. — Achei que estivesse desenhando o caminho para o esconderijo subterrâneo.
Senti minhas bochechas arderem. Tentei pegar o caderno de volta, mas ele se esquivou com a agilidade de um beija-flor.
— Não era para ter feito isso — murmurei, ficando de pé na frente dele no meio do quarto. — Eu ia desenhar o céu, mas minha mão se distraiu. Devolve, Peter!
— Se distraiu comigo? — Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós, a voz carregada de uma provocação deliciosa. — Eu não sabia que ocupava tanto espaço assim na sua cabecinha inteligente.
— Você é um convencido, Pan — eu disse, dando um leve empurrão no peito dele.
— E você é teimosa, Hanna — ele retrucou, devolvendo o empurrão com a mesma leveza, mantendo o jogo vivo.
Rimos por um segundo, mas a atmosfera mudou rapidamente. Quando fomos nos empurrar ao mesmo tempo, em uma brincadeira que já conhecíamos bem, Peter não recuou. Em vez disso, suas mãos desceram rapidamente para a minha cintura, puxando-me para perto com uma firmeza que me fez perder o fôlego.
Eu me inclinei levemente para trás, surpresa pela intensidade do movimento, enquanto ele se inclinava sobre mim. Meus braços encontraram o caminho para o pescoço dele, os dedos se entrelaçando em seus cabelos bagunçados. Por um momento, o mundo parou. O único som era a nossa respiração próxima.
Ele me beijou. Foi um beijo que começou com a urgência da provocação, mas que logo se tornou profundo e suave. Era como se toda a magia da ilha estivesse concentrada naquele contato. Peter me conduziu, nossos passos tropeçando levemente enquanto caminhávamos em direção à cama, sem nunca quebrar o beijo.
Caímos sobre os lençóis macios, envolvidos um no outro. O tempo na Terra do Nunca podia parar, mas ali, naquele momento, parecia que ele corria depressa demais. Quando finalmente nos separamos para buscar ar, ficamos apenas deitados, olhando um para o outro, ofegantes, com os corações batendo em um ritmo frenético e sincronizado.
— Você... — comecei a dizer, mas a voz falhou.
Peter sorriu, um sorriso mais doce do que eu jamais vira, e beijou minha testa antes de se levantar.
— Eu volto logo, Nana. Preciso conferir se os meninos não colocaram fogo na floresta antes de dormir.
Ele saiu pela janela tão silenciosamente quanto entrou. Eu acabei pegando no sono, exausta pelas emoções do dia.
No entanto, o descanso não durou muito. No meio da madrugada, fui despertada por um estrondo ensurdecedor. O céu da Terra do Nunca, antes limpo, agora estava tomado por uma tempestade violenta. Clarões de relâmpagos iluminavam o quarto, seguidos por trovões que faziam as paredes de madeira tremerem.
Eu sempre odiei trovões. Eles me lembravam de coisas grandes e incontroláveis, de perigos que eu não podia enfrentar com inteligência ou gentileza. Senti as lágrimas subirem aos olhos e me encolhi sob o cobertor, tremendo.
A janela se abriu com um estalo e Peter entrou, encharcado pela chuva, mas com o olhar atento. Ele viu meu estado imediatamente.
— Ei, o que foi? — Ele se aproximou da cama, a voz preocupada.
— Peter... — solucei, as mãos cobrindo os ouvidos quando outro trovão ecoou. — Posso... posso deitar com você? Do seu lado?
— Claro que sim, pequena — ele respondeu prontamente, afastando a umidade de sua túnica com um movimento rápido de mãos (um truque de fada, eu suspeitava).
Ele se deitou e eu me joguei em seus braços, agarrando-o como se ele fosse a única coisa sólida em um mundo que estava desmoronando. Dormimos assim, agarradinhos, com o calor do corpo dele servindo de escudo contra o frio e o barulho da tempestade lá fora.
Por volta das três da manhã, o barulho da chuva diminuiu para um sussurro suave e nós dois acabamos despertando. O sono havia ido embora, deixando apenas uma calma serena no quarto mal iluminado.
— Você está dormindo bem? Está confortável? — Peter perguntou em um sussurro, sua voz rouca de sono.
Eu me aconcheguei mais a ele, sentindo o rastro de calor que ele emanava.
— Sim — respondi, com um sorriso sonolento. — O seu abraço é tão quentinho, Peter. Eu acho que vou querer dormir assim com você todo dia.
Senti o peito dele vibrar com uma risada baixa.
— Por mim, tudo bem — ele disse, com uma sinceridade que aqueceu minha alma. — Eu não me importaria nem um pouco se fizéssemos isso para sempre.
Ficamos conversando por um longo tempo sobre coisas bobas, sobre as aventuras do dia e sobre os desenhos que eu ainda queria fazer. Eu estava virada de costas para ele, em uma conchinha perfeita. Ele passava a mão suavemente pela minha cintura, traçando padrões invisíveis na minha pele, um carinho que me fazia sentir a pessoa mais especial de toda a ilha.
Depois de um tempo, virei-me de barriga para cima, olhando para o teto da cabana onde algumas fadinhas de luz costumavam descansar. Peter mudou de posição, deitando a cabeça sobre o meu peito. Era um gesto de vulnerabilidade que ele raramente mostrava a qualquer outra pessoa. Ele era o líder, o guerreiro, o menino que nunca crescia, mas ali, comigo, ele se permitia apenas ser o Peter.
Sua mão subiu para a minha barriga, onde ele começou a fazer um carinho circular e calmo.
— Você sabe, Nana — ele começou, a voz abafada contra meu peito —, eu já vi muita coisa nesta ilha. Vi impérios de fadas surgirem e desaparecerem, lutei contra monstros e piratas... mas nada disso é tão interessante quanto ouvir o que você tem a dizer.
— Mesmo quando eu sou teimosa? — perguntei, acariciando os cabelos dele.
— Principalmente quando você é teimosa — ele corrigiu, olhando para cima por um momento para encontrar meus olhos. — Porque sua teimosia me lembra que você não está aqui por mágica ou por obrigação. Você está aqui porque quer. E você me escolhe, todos os dias.
Eu sorri, sentindo uma paz profunda. Ali, no coração da Floresta Proibida, cercada por trovões que já não me assustavam mais e protegida pelos braços do menino que se recusava a crescer, eu entendi que a Terra do Nunca não era apenas um lugar geográfico. Era aquele momento. Era aquele carinho.
— Eu sempre vou escolher você, Peter — sussurrei.
Ele não respondeu com palavras, apenas fechou os olhos e continuou o carinho em minha barriga, aproveitando o silêncio compartilhado. Ficamos assim até que os primeiros raios de sol começassem a atravessar as frestas da janela, anunciando que um novo dia de aventuras estava por vir, mas nenhum deles seria tão memorável quanto aquela madrugada em que o tempo, finalmente, pareceu parar só para nós dois.