enimes to lovers
Onde o Destino e a Magia se Encontram
O sol da manhã na Terra do Nunca não apenas nascia; ele explodia em tons de pêssego e dourado, atravessando as folhas largas da Floresta Proibida como se cada raio de luz tivesse uma missão própria. Eu acordei lentamente, sentindo o peso reconfortante de Peter ainda sobre mim. O carinho que ele fazia em minha barriga havia cessado quando ele caiu no sono profundo, mas sua mão ainda descansava ali, quente e protetora.
Fiquei observando-o por alguns minutos. Sem a máscara de líder astuto ou o sorriso desafiador, Peter parecia quase... comum. Mas eu sabia que não havia nada de comum na forma como meu coração batia quando ele estava por perto. Cuidadosamente, para não acordá-lo, passei a mão pela sua franja bagunçada, sentindo a maciez dos fios que cheiravam a vento e aventura.
— Eu sei que você está acordada, Nana — murmurou ele, sem abrir os olhos, um sorriso convencido surgindo lentamente em seus lábios.
— Você é impossível — eu ri baixo, sentindo meu rosto esquentar. — Como sabia?
— Eu sinto o seu coração — ele disse, abrindo um dos olhos, que brilhava com uma intensidade travessa. — Ele faz um barulho diferente quando você está me olhando desse jeito. Como se estivesse tentando contar um segredo que eu já sei.
Ele se espreguiçou como um gato selvagem e se sentou na cama, desarrumando ainda mais o cabelo. O clima de calmaria da madrugada ainda pairava entre nós, mas o espírito inquieto de Peter já estava despertando para o novo dia.
— O que vamos fazer hoje? — perguntei, sentando-me também e abraçando meus joelhos. — Os meninos devem estar esperando por você na Lagoa.
Peter fez uma careta engraçada, jogando a cabeça para trás.
— Deixe que esperem. Hoje eu quero algo diferente. Quero levar você a um lugar onde nem mesmo o Gancho ousaria apontar sua luneta.
— Mais uma aventura perigosa, Pan? — Arqueei uma sobrancelha, tentando parecer severa, mas falhando miseravelmente. — Da última vez, quase fomos devorados por plantas carnívoras que cantavam ópera.
— Mas elas tinham vozes lindas, você tem que admitir! — Ele deu uma cambalhota no ar, flutuando a poucos centímetros do chão da cabana. — Vamos, Nana! Coloque algo confortável. Vamos voar até o Pico do Eco.
Eu sabia que não adiantava discutir. E, honestamente, eu não queria. A Terra do Nunca era vasta, mas os momentos a sós com Peter eram os tesouros que eu mais guardava. Vesti minha roupa de exploração — uma túnica leve de linho e calças curtas que me permitiam correr e escalar — e prendi meu cabelo preto em um rabo de cavalo alto, deixando a franja livre sobre os olhos cor de mel.
Saímos da cabana e o ar fresco da floresta nos atingiu. Peter estendeu a mão para mim, e o pó de pirlimpimpim que Sininho havia deixado em seu ombro brilhou intensamente.
— Pronta? — perguntou ele.
— Sempre — respondi, segurando sua mão com força.
Subimos. O frio do vento contra meu rosto era revigorante. Lá de cima, a Terra do Nunca parecia um tapete vivo de verdes e azuis. Vimos o navio pirata ancorado na enseada, parecendo um brinquedo de madeira, e os Meninos Perdidos correndo como formiguinhas perto da árvore oca. Peter voava em círculos ao meu redor, exibindo-se, mergulhando entre as nuvens e voltando para segurar minha cintura, garantindo que eu estivesse segura.
O Pico do Eco ficava no ponto mais alto da cordilheira central da ilha. Era um lugar místico, onde diziam que as paredes de cristal das cavernas podiam repetir não apenas suas palavras, mas seus desejos mais profundos. Pousamos em uma saliência rochosa coberta por musgo macio.
— Por que aqui, Peter? — perguntei, recuperando o fôlego enquanto olhava para a vista infinita do oceano que cercava a ilha.
Ele caminhou até a beira do precipício, olhando para o horizonte com uma expressão que eu raramente via: melancolia misturada com determinação.
— Às vezes — começou ele, a voz quase sumindo com o vento —, eu esqueço que o mundo lá fora continua girando. Eu vejo as crianças chegarem, vejo as histórias mudarem... mas você, Hanna... você é a única que me faz querer que o tempo pare de verdade. Não a parada mágica da ilha, mas a parada de... de sentir que não preciso de mais nada.
Senti um nó na garganta. Peter Pan, o menino que nunca crescia, estava falando sobre sentimentos que pareciam muito, muito adultos. Aproximei-me dele e toquei seu braço.
— Peter, olhe para mim.
Ele se virou. Seus olhos cor de mel encontraram os meus, e por um segundo, a magia da ilha pareceu silenciar para nos ouvir.
— Eu não me importo com o mundo lá fora — eu disse, com a voz firme. — Eu escolhi ficar. Eu escolhi você. A minha teimosia, como você diz, é o que me mantém aqui. Porque eu sou teimosa o suficiente para amar um menino que vive em guerras com piratas e brinca com fadas.
Peter sorriu, mas era um sorriso diferente. Era carregado de uma ternura que doía.
— Você é a melhor coisa que o vento já trouxe para esta ilha, Nana.
De repente, um som agudo cortou o ar. Era o assobio de um dos meninos, o sinal de alerta. Olhamos para baixo e vimos fumaça subindo perto da Vila dos Índios. O momento de paz havia sido interrompido.
— Piratas — rosnou Peter, sua postura mudando instantaneamente. O menino terno desapareceu, dando lugar ao guerreiro ágil. — Eles nunca aprendem.
— Vá — eu disse, incentivando-o. — Eu encontro você lá. Vou por terra, posso observar os movimentos deles pela floresta.
— Tome cuidado — ele pediu, aproximando-se e roubando um beijo rápido, mas intenso. — Se eu ver um único arranhão em você, eu transformo o Gancho em comida de crocodilo antes do jantar!
Ele disparou como uma flecha verde em direção ao conflito. Eu comecei minha descida, movendo-me com a agilidade que os anos na ilha me proporcionaram. Eu não era apenas uma observadora; eu era parte daquele ecossistema. Sabia quais galhos aguentavam meu peso e quais pedras eram escorregadias.
Enquanto corria, minha mente voltava para a madrugada. O carinho na barriga, o abraço apertado durante a tempestade... Peter me protegia do mundo, mas eu percebia que, de certa forma, eu protegia Peter de sua própria solidão eterna.
Cheguei à clareira perto da Vila dos Índios bem a tempo de ver a confusão. O Capitão Gancho, com seu casaco vermelho berrante, brandia sua espada contra Peter, que se esquivava com risadas provocantes. Os Meninos Perdidos e os guerreiros da tribo enfrentavam os piratas trapalhões de Smee.
Eu me escondi atrás de uma grande rocha, observando a situação. Percebi que um pirata sorrateiro estava tentando flanquear Peter com uma rede pesada.
— Ah, mas não vai mesmo! — murmurei para mim mesma.
Peguei meu estilingue — um presente que o Magrelo me deu e que eu havia aprimorado com pedras vulcânicas da ilha — e mirei com precisão. A pedra voou e atingiu o pulso do pirata, fazendo-o soltar a rede e uivar de dor.
Peter olhou na minha direção e piscou, percebendo minha intervenção.
— Bom tiro, Nana! — gritou ele, antes de chutar o chapéu de Gancho para longe.
— Ora, seu pirralho insolente! — rugiu o capitão. — Peguem a garota! Se pegarmos a protegida do Pan, ele se renderá!
Meu coração disparou. Três piratas começaram a correr em minha direção. Eu não entrei em pânico; a teimosia que Peter tanto amava se transformou em adrenalina pura. Comecei a correr para dentro da vegetação densa, levando-os para longe da batalha principal.
— Venham me pegar, seus sacos de areia! — provoquei, saltando sobre um riacho.
Eu os levei direto para uma área onde as raízes das árvores eram como armadilhas naturais. Um por um, eles tropeçaram e caíram na lama, enquanto eu subia em um galho alto, rindo da desgraça deles.
No entanto, a vitória foi curta. Senti uma presença atrás de mim. Antes que eu pudesse me virar, uma mão áspera cobriu minha boca.
— Achou que era a única esperta na floresta, mocinha? — sibilou uma voz rouca. Era Starkey, um dos piratas mais cruéis de Gancho.
Eu lutei, mordendo a mão dele e chutando suas canelas, mas ele era forte. Ele me puxou para baixo do galho, e por um momento, o medo que senti na Floresta Proibida ameaçou voltar. Mas então, lembrei-me das palavras de Peter: "Enquanto eu estiver aqui, nada nessa ilha ousaria tocar em você".
Eu não precisei gritar. O ar ao meu redor subitamente ficou frio, e um vulto verde caiu do céu como um raio.
Peter não estava rindo agora. Seu olhar era gélido, uma fúria antiga brilhando em seus olhos. Com um movimento rápido, ele desarmou Starkey e o empurrou contra uma árvore com tanta força que o pirata ficou sem ar.
— Eu disse para não tocarem nela — a voz de Peter era um sussurro perigoso.
Starkey, aterrorizado, saiu correndo em direção à praia, sem olhar para trás. Peter se virou para mim, sua expressão suavizando instantaneamente. Ele me segurou pelos ombros, examinando cada centímetro do meu rosto.
— Você está bem? Ele te machucou?
— Estou bem, Peter. Eu juro. Eu até derrubei três deles antes desse aí aparecer — eu disse, tentando trazer um pouco de leveza de volta, apesar de minhas mãos ainda estarem tremendo um pouco.
Ele me puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto no meu pescoço.
— Eu quase perdi a cabeça quando vi ele te pegando — confessou ele. — A Terra do Nunca pode ser perigosa, Hanna, mas eu nunca vou deixar que o perigo chegue até você.
— Eu sei disso — respondi, retribuindo o abraço. — Mas lembre-se: eu sou teimosa. Eu sei me cuidar.
Ele se afastou um pouco e sorriu, o brilho brincalhão voltando aos poucos.
— É, eu percebi. Aquela pedrada no pirata da rede foi incrível.
A batalha estava terminando. Os piratas batiam em retirada para os botes, com o Capitão Gancho gritando ameaças vazias enquanto Smee tentava remar o mais rápido possível. Os Meninos Perdidos comemoravam com gritos de guerra e danças improvisadas.
Peter segurou minha mão e começamos a caminhar de volta para a praia. O sol agora estava no alto do céu, iluminando a areia branca onde tudo começara no dia anterior.
— Sabe, Nana — disse Peter, enquanto observávamos os meninos pulando na água —, eu estive pensando sobre o que você disse no Pico do Eco.
— Sobre eu escolher você?
— Sim. E sobre a teimosia. — Ele parou de andar e me olhou seriamente. — Eu quero que você saiba que, mesmo que o mundo mude, mesmo que as estrelas caiam do céu, aqui, nesta ilha, você sempre terá um lugar. E eu sempre terei um tempo reservado só para nós dois. Sem piratas, sem meninos, sem fadas.
Ele tirou algo do bolso da túnica. Era uma pequena concha, perfeitamente polida, que brilhava como uma pérola.
— Eu encontrei isso na Lagoa hoje cedo. Elas dizem que quem carrega uma dessas nunca se perde no caminho de volta para casa.
Ele colocou a concha na minha mão e fechou meus dedos sobre ela.
— E onde é a minha casa, Peter? — perguntei, embora já soubesse a resposta.
Ele se inclinou, encostando a testa na minha, e sussurrou:
— Onde quer que eu esteja. E onde quer que você queira estar.
Ficamos ali por um longo tempo, sentindo a brisa do mar e o som da alegria ao nosso redor. Eu olhei para a concha em minha mão e depois para o menino à minha frente. As sardas no meu nariz pareciam brilhar mais sob o sol, e meus olhos cor de mel refletiam a imensidão daquele lugar mágico.
A Terra do Nunca era um lugar de aventuras sem fim, de batalhas e de voos impossíveis. Mas para mim, Hanna, a garota de cabelos pretos e franja rebelde, a maior aventura era a calma que vinha depois da tempestade. Era o silêncio compartilhado, o carinho na barriga durante a madrugada e a certeza de que, não importa o quanto o vento soprasse, eu sempre teria um porto seguro nos braços do menino que se recusava a crescer, mas que sabia amar com a imensidão de todos os séculos do mundo.
— Vamos, Nana! — gritou Peter, correndo em direção à água. — O último a chegar é um ovo de crocodilo!
Eu ri, guardando a concha com cuidado e saindo em disparada atrás dele. A areia quente sob meus pés, o brilho do mar à frente e o riso de Peter ecoando pela praia... Sim, eu estava exatamente onde deveria estar. Na minha casa. Na minha Terra do Nunca. Com o meu Peter.