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enimes to lovers

O Porto Seguro do Rei

A noite na Terra do Nunca tinha um peso diferente das noites no Labirinto. Lá, a escuridão era uma ameaça, um convite para o som metálico das garras dos Verdugos rasgando o silêncio. Aqui, a noite era um cobertor de veludo, perfumado com jasmim noturno e o sal do oceano, protegida pela magia de um menino que se recusava a crescer. Mas, mesmo no paraíso, o corpo e a mente às vezes clamavam por um tipo de silêncio que só a intimidade podia proporcionar.

Depois de um dia exaustivo treinando os meninos e garantindo que Minho não transformasse o acampamento em um regime militar de corredores, Peter e eu finalmente nos retiramos para a nossa cabana. O refúgio era de madeira escura, decorado com redes de pesca, conchas que brilhavam no escuro e peles macias que tornavam o ambiente o lugar mais aconchegante da ilha.

Assim que entramos, senti o cansaço descer sobre meus ombros como uma avalanche. Fui direto para o pequeno baú onde guardava minhas poucas roupas do "mundo de lá" que ainda serviam. Tirei o colete de couro e as botas pesadas, sentindo um alívio imediato. Vesti um short de vôlei preto, bem curto e elástico, e uma blusa de algodão cinza, três tamanhos maior que o meu, que caía pelos meus ombros de forma desleixada. Era o meu uniforme de paz.

Joguei-me na cama de dossel improvisada, soltando um suspiro longo. Peter não demorou a me seguir. Ele já tinha se livrado da túnica de folhas, ficando apenas com a calça de montaria leve. Ele se deitou ao meu lado, apoiando-se no cotovelo para me observar. Seus olhos cor de mel brilhavam com uma intensidade que eu conhecia bem; era aquele misto de carência e desejo que ele só mostrava quando as portas estavam trancadas.

— Hanna... — sussurrou ele, aproximando-se mais, o calor de sua pele irradiando contra o meu braço.

— Hum? — murmurei, fechando os olhos por um segundo.

— Eu estava pensando... — Ele começou a traçar círculos imaginários na minha cintura, por cima da blusa. — Sabe, desde que o Minho chegou, a gente não fez mais nada. Nada... sexual. Nada só nosso.

Abri um olho e encontrei sua expressão levemente emburrada. Peter Pan, o temível líder dos Meninos Perdidos, estava fazendo beicinho.

— O Minho é meu irmão, Peter. Eu precisava ajudar ele a se adaptar — respondi, tentando manter a voz firme, embora a proximidade dele estivesse começando a bagunçar meus sentidos.

— Eu sei, eu sei. E eu gosto do Corredor, ele é útil. Mas eu sinto falta de você. Só de você — disse ele, a voz descendo para um tom manhoso. Ele se inclinou, enterrando o rosto no meu pescoço. — Posso... você sabe. Posso mamar um pouco?

Soltei uma risadinha, virando o rosto para encará-lo.

— Peter, se eu disser que não, você vai fazer birra?

Ele se afastou apenas o suficiente para me olhar nos olhos, assentindo com toda a seriedade do mundo.

— Vou. Vou fazer muita birra. Vou voar em círculos sobre a cabana e não vou deixar ninguém dormir.

Eu ri novamente, balançando a cabeça. Era impossível resistir a ele quando agia dessa forma, uma mistura de homem possessivo e criança carente.

— Tudo bem, seu neném mimado. Eu deixo. Vem cá.

O rosto de Peter se iluminou instantaneamente. Ele deu um sorriso vitorioso e se ajeitou rapidamente. Eu me recostei nos travesseiros, pegando o celular que eu ainda mantinha carregado por uma pequena invenção mágica que Peter e Sininho haviam criado usando cristais da caverna. Era meu último vínculo tecnológico com o passado, cheio de músicas e alguns vídeos salvos.

Peter se enfiou debaixo da coberta, deixando apenas a cabeça de fora por um momento antes de mergulhar sob o tecido da minha blusa larga. Eu não a tirei, apenas a ergui o suficiente para que ele pudesse se acomodar. Senti o contato da sua pele quente contra a minha, e logo depois, a sensação familiar e reconfortante de quando ele se acoplava ao meu peito.

— Está bom assim? — perguntei, a voz suave, enquanto ligava a tela do celular e colocava um vídeo aleatório para passar, apenas para ter um ruído de fundo.

Ouvi um resmungo abafado de satisfação vindo debaixo da blusa. Peter começou a mamar com uma calma rítmica, como se estivesse drenando todo o estresse do dia diretamente de mim. Suas mãos, que durante o dia empunhavam adagas e comandavam exércitos, agora estavam espalmadas suavemente contra as minhas costelas, segurando-me como se eu fosse o tesouro mais valioso da Terra do Nunca.

Comecei a passar os dedos pelos seus cabelos rebeldes. Os fios eram macios, apesar do salitre e do vento constante da ilha. Eu fazia carinho no seu couro cabeludo, traçando o contorno de suas orelhas, sentindo-o relaxar cada vez mais sob o meu toque.

— Você é tão estranho, Pan — comentei baixinho, sorrindo para o nada. — O terror dos piratas, o menino que nunca cresce... e aqui está você, agindo como um recém-nascido.

Ele parou por um segundo, afastando-se apenas o suficiente para soltar um suspiro pesado contra a minha pele. Ele abraçou minha cintura com força, ajeitando meu sutiã e abaixando minha blusa com uma delicadeza surpreendente, como se estivesse fechando uma cortina após o espetáculo. Ele não queria mais mamar; agora, ele só queria o contato.

Peter acomodou a cabeça no vão do meu pescoço, respirando fundo o meu cheiro. Não demorou muito para que sua respiração se tornasse pesada e regular. Ele tinha adormecido.

Continuei assistindo ao vídeo no celular, mas minha atenção estava totalmente voltada para o peso reconfortante dele sobre mim. Peter dormindo era uma das visões mais raras e belas da ilha. Sem a máscara de arrogância ou a energia frenética de aventura, ele parecia vulnerável. Parecia apenas um menino que encontrou, finalmente, um lugar para descansar a alma.

Em certo momento, minha mão parou de se mover por entre seus cabelos, pois eu estava distraída com uma cena no celular. Imediatamente, senti Peter se mexer. Mesmo dormindo, ele apertou minha cintura com um pouco mais de força, soltando um murmúrio descontente e esfregando o rosto contra o meu peito, buscando o retorno do carinho.

— Tá bom, tá bom... eu não parei — sussurrei, rindo baixinho da sua manha subconsciente.

Voltei a acariciar sua bochecha e a passar a mão por suas costas nuas. Ele soltou um suspiro de alívio e relaxou novamente. Era fascinante como, mesmo no sono mais profundo, ele estava sintonizado comigo. Ele era o meu protetor lá fora, mas aqui dentro, eu era o porto seguro dele.

Fiquei ali por muito tempo, perdida em pensamentos. Pensei em Minho, que provavelmente estava roncando em algum canto da Árvore Oca, e em como a vida tinha dado voltas absurdas para nos trazer até aqui. Mas, principalmente, pensei em como aquele menino agarrado a mim era a razão de eu não sentir mais vontade de fugir.

Tentei me ajeitar na cama, pois minha perna estava começando a formigar. Levantei a cabeça de Peter com o maior cuidado do mundo para puxar o travesseiro um pouco mais para o lado. No instante em que sua cabeça perdeu o contato com o meu corpo, ele soltou um resmungo alto, quase um protesto, e seus olhos ameaçaram abrir.

— Shhh... calma, Peter. Só estou me arrumando — murmurei, beijando o topo da sua cabeça.

Ele se acomodou novamente, enfiando o rosto na curva do meu ombro e soltando um som que parecia um ronronar satisfeito. Ele era fofo demais quando queria, um contraste absoluto com o guerreiro que cortava a mão de piratas sem piscar.

Desliguei o celular, sentindo meus próprios olhos pesarem. A escuridão da cabana era preenchida apenas pelo som da respiração dele e pelo ruído distante da floresta. Ajeitei a coberta sobre nós dois, sentindo o abraço possessivo de Peter se manter firme mesmo enquanto ele mergulhava em camadas mais profundas de sono.

— Boa noite, meu neném — sussurrei, fechando os olhos.

Naquela noite, não houve necessidade de voar ou de lutar contra monstros. O maior triunfo de Peter Pan não foi derrotar Gancho, mas sim encontrar o silêncio nos braços da menina que o amava por quem ele era quando ninguém estava olhando. E enquanto o sono me levava, eu soube que, não importa o que o amanhã trouxesse, aquela cabana era o único lugar no universo onde o tempo realmente não tinha permissão para entrar.