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enimes to lovers

O Despertar da Segunda Estrela

A manhã na Terra do Nunca não pedia licença; ela simplesmente acontecia, derramando um azul impossível sobre as copas das árvores e transformando o orvalho em pequenos diamantes sobre as folhas da Árvore Oca. Eu acordei sentindo o calor familiar de Peter ao meu lado, mas havia algo diferente no ar. Não era apenas o cheiro de maresia e magia, era o som de uma risada sarcástica que eu conhecia de outra vida.

Levantei-me devagar, cuidando para não acordar Peter, embora soubesse que ele provavelmente já estava com um olho aberto, apenas esperando o momento certo para me dar um susto. Saí da cabana e encontrei Minho sentado em um tronco caído, observando o Magrelo tentar, sem sucesso, aprimorar a técnica de corrida entre as raízes retorcidas.

— Você ainda corre como um trolho, garoto — disse Minho, cruzando os braços e exibindo aquele sorriso convencido que tantas vezes me deu esperança no Labirinto.

— Bom dia para você também, Minho — eu disse, aproximando-me e sentando ao lado dele.

— Hanna. — Ele me olhou de cima a baixo. — Ainda não me convenci de que isso aqui não é uma alucinação causada por algum gás da CRUEL. Onde estão os muros? Onde estão os Verdugos?

— Não existem muros aqui, Minho — respondi, olhando para o horizonte. — Aqui, o único limite é o quanto você consegue imaginar.

— É — murmurou ele, pensativo. — Mas esse tal de Pan... ele me olha como se soubesse exatamente o que eu estou pensando. É irritante.

— Ele é o Pan — eu ri. — Ele é a própria ilha.

Nesse momento, Peter saltou de um galho alto, pousando com a leveza de uma pluma bem na nossa frente. Ele estava sem camisa, exibindo as marcas de sol e a agilidade que o tornavam o rei daquele lugar.

— Falando de mim, Corredor? — Peter arqueou uma sobrancelha, um brilho desafiador nos olhos. — Espero que sejam coisas boas, ou vou ter que te dar para o Capitão Gancho como isca de tubarão.

— Tente a sorte, voador — retrucou Minho, levantando-se e encarando Peter na mesma altura. — Eu já lidei com coisas muito piores do que um pirata com mau hálito.

Eu me levantei rapidamente, ficando entre os dois. A tensão entre eles era quase palpável, uma mistura de respeito mútuo e a necessidade territorial de dois líderes alfa.

— Chega, vocês dois! — exclamei, colocando as mãos na cintura. — Minho, o Peter é meu namorado. Peter, o Minho é meu irmão. Se vocês não aprenderem a conviver, eu vou trancar os dois na Caverna da Caveira até que se tornem melhores amigos.

Peter relaxou a postura e me puxou pela cintura, dando-me um beijo rápido no topo da cabeça.

— Tudo bem, Nana. Eu só estava brincando. Mas hoje temos planos. O Minho precisa ver do que a Terra do Nunca é feita de verdade. Vamos à Baía das Sereias.

O caminho até a baía foi uma mistura de exploração e competição. Minho, fiel ao seu instinto de corredor, não conseguia simplesmente caminhar; ele saltava sobre troncos e escalava rochas com uma precisão que deixava os Meninos Perdidos boquiabertos. Peter, por sua vez, voava em círculos sobre nossas cabeças, exibindo-se com manobras acrobáticas.

Quando chegamos à areia branca da baía, o cenário era de tirar o fôlego. As águas eram de um turquesa translúcido, e nas rochas distantes, as sereias penteavam seus cabelos longos, suas caudas brilhando como escamas de dragão sob o sol.

— Elas são... reais? — perguntou Minho, a guarda baixando pela primeira vez.

— Reais e perigosas — eu disse, segurando a mão dele. — Não chegue muito perto da borda. Elas adoram puxar rostos bonitos para o fundo.

— Elas não teriam coragem — vangloriou-se Peter, pousando ao meu lado. — Elas sabem que a Nana é a única rainha desta ilha.

As sereias, percebendo nossa presença, começaram a mergulhar e saltar, criando arcos de água. Uma delas, de cabelos cor de coral, nadou até a margem mais próxima e fixou os olhos em Minho.

— Um novo brinquedo, Pan? — a voz dela soou como o tilintar de sinos de cristal, mas havia um tom sombrio por trás. — Ele tem olhos tristes. Olhos de quem viu o fim do mundo.

— Ele viu mais do que você pode imaginar, Marina — respondeu Peter, sua voz ficando séria. — Mas agora ele está sob minha proteção.

Minho se aproximou da água, curioso.

— Elas falam. Isso é bizarro. Hanna, você tem certeza de que não estamos em um experimento avançado?

— Tenho certeza, Minho — eu disse, aproximando-me dele. — Sinta o sol. Não é luz artificial. É vida.

Passamos a tarde ali, entre risadas e histórias. Minho começou a se soltar, contando aos meninos sobre como Thomas era teimoso e como Newt sempre tentava manter a paz. Era estranho e maravilhoso ouvir esses nomes naquele ambiente. Parecia que, aos poucos, as feridas do passado estavam sendo lavadas pela água salgada da Terra do Nunca.

No final da tarde, Peter me puxou para um canto, longe dos outros. Ele parecia inquieto.

— O que foi, Peter? — perguntei, acariciando o rosto dele.

— Ele traz muitas lembranças com ele, Nana — disse Peter, olhando para Minho, que agora ensinava táticas de combate para o Magrelo. — Eu vejo no seu rosto. Quando você olha para ele, você se lembra de... lá.

— Eu me lembro, Peter. Mas não é uma lembrança ruim. Ele é o que sobrou da minha família. Ter o Minho aqui não me faz querer ir embora. Me faz querer que ele fique seguro aqui comigo.

Peter suspirou, encostando a testa na minha.

— Eu só não quero te perder para o passado. A Terra do Nunca é sobre o agora.

— Você nunca vai me perder para o passado — afirmei, selando nossos lábios em um beijo profundo. — O agora é você. Sempre será você.

A noite caiu e voltamos para o acampamento. Minho parecia exausto, mas satisfeito. Os meninos haviam preparado um banquete de frutas e raízes doces, e a fogueira estava mais alta do que o normal em comemoração ao novo integrante.

— Sabe, Hanna — disse Minho, enquanto devorava uma fruta suculenta —, eu nunca achei que diria isso, mas... eu sinto que posso finalmente parar de correr.

— Você não precisa mais fugir, Minho — eu disse, sorrindo. — Aqui, a gente corre por diversão.

De repente, um grito agudo cortou a celebração. Sininho surgiu do nada, voando freneticamente ao redor da cabeça de Peter, seu brilho mudando de um amarelo suave para um vermelho alarmante.

— O que foi, Sininho? — perguntou Peter, levantando-se de um salto.

A fada começou a tilintar furiosamente, apontando para a direção da floresta proibida.

— Piratas — rosnou Peter. — Mas não é o Gancho. Sininho diz que há algo diferente. Algo... mecânico.

Senti um frio na espinha que não sentia há meses. Minho também se levantou, sua postura mudando instantaneamente para o modo de combate que ele usava no Labirinto.

— Mecânico? — perguntei, a voz tremendo levemente.

— Vamos ver o que é — disse Peter, pegando sua adaga. — Nana, fique aqui com os menores. Minho, você vem comigo?

— Você ainda pergunta? — Minho sorriu de lado, estalando o pescoço. — Vamos mostrar para esses caras como os Corredores e os Meninos Perdidos resolvem as coisas.

Eles desapareceram na escuridão da floresta antes que eu pudesse protestar. Fiquei ali, cercada pelos meninos menores, o coração apertado. O passado e o presente estavam colidindo de uma forma que eu não esperava.

Cerca de uma hora depois, ouvi sons de luta e o barulho metálico de espadas se chocando. Não aguentei esperar. Peguei meu arco e flecha e corri em direção ao som, ignorando os chamados dos meninos atrás de mim.

Quando cheguei a uma clareira próxima à trilha secreta, a cena era caótica. Peter estava lutando contra dois piratas, mas o que me chamou a atenção foi o que Minho enfrentava. Era um homem alto, usando um uniforme cinza impecável, segurando um bastão elétrico que brilhava com uma luz azulada.

— CRUEL! — gritei, a raiva fervendo no meu sangue.

O homem se virou, e eu reconheci o rosto de um dos guardas que costumava nos vigiar no Refúgio.

— Hanna — disse ele, com uma voz fria e desprovida de emoção. — Você e o sujeito asiático foram difíceis de rastrear. Mas a CRUEL sempre encontra seus ativos.

— Ativos? — rugiu Minho, desviando de um golpe do bastão. — Nós somos seres humanos, seu trolho!

Peter, ao ouvir aquilo, deu um salto acrobático, chutando um pirata para longe e parando ao lado de Minho.

— Eu não sei quem é essa tal de CRUEL — disse Peter, seus olhos brilhando com uma fúria antiga e selvagem —, mas ninguém chama os meus amigos de "ativos" na minha ilha.

A luta recomeçou com uma intensidade renovada. Eu disparei flechas com precisão, desarmando os piratas que tentavam cercar os dois. Minho lutava com uma força bruta, usando o ambiente a seu favor, enquanto Peter se movia como um borrão verde, atacando de ângulos impossíveis.

O guarda da CRUEL tentou acionar um dispositivo em seu pulso, mas Peter foi mais rápido. Com um movimento preciso, sua adaga cortou o aparelho, fazendo-o explodir em faíscas.

— Fora daqui! — gritou Peter, sua voz ressoando com a autoridade da própria ilha. — Antes que eu decida que vocês seriam ótimos espantalhos para os meus campos de frutas!

Os piratas e o guarda, vendo que estavam em desvantagem contra a magia de Peter e a técnica de Minho, recuaram para as sombras, batendo em retirada em direção à praia.

Ficamos ali, ofegantes, enquanto o silêncio voltava a reinar na clareira. Minho limpou o suor da testa e olhou para Peter.

— "Ativos", hein? Eles nunca desistem.

— Eles não têm poder aqui, Minho — eu disse, aproximando-me e segurando a mão dele e a de Peter. — A magia desta ilha é mais forte do que qualquer tecnologia deles.

Peter guardou sua adaga e me olhou. Havia uma nova determinação em seu rosto.

— Eles tentaram tirar vocês de mim — disse ele, a voz baixa. — Isso foi um erro. Gancho é irritante, mas ele faz parte do jogo. Esses... esses homens de cinza são outra coisa. Eles são como o inverno. E na Terra do Nunca, o inverno não é permitido.

Voltamos para o acampamento em silêncio. Minho parecia abalado por ter visto a CRUEL novamente, mas havia algo de fortalecido em sua expressão. Ele sabia que agora tinha aliados que o mundo "normal" jamais poderia imaginar.

Mais tarde, quando todos já dormiam, eu e Peter estávamos sentados na entrada da nossa cabana, observando as estrelas.

— Peter — eu disse, quebrando o silêncio —, você viu o que aconteceu hoje. Eles não vão parar.

— Eu sei — respondeu ele, puxando-me para o seu colo. — Mas eles se esqueceram de uma coisa fundamental sobre este lugar.

— O quê?

— Na Terra do Nunca, as regras são minhas. E eu decidi que você, o Minho e qualquer um que eu escolher proteger, somos intocáveis.

Ele segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou com uma doçura que contrastava com a fúria que eu vira na floresta.

— Nana, eu prometi que cuidaria de você. E agora eu prometo que vou cuidar do seu passado também. Se a CRUEL quiser vocês, eles terão que passar por cada árvore, cada sereia e cada grão de areia desta ilha. E eu garanto: eles não vão sobreviver à primeira milha.

Senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto.

— Obrigada, Peter.

— Não me agradeça — sussurrou ele contra meus lábios. — Apenas continue sendo minha teimosa. É a sua teimosia que mantém a magia viva.

Dormimos abraçados, e pela primeira vez em muito tempo, eu não tive pesadelos com o Labirinto. Eu sonhei com campos verdes, com risadas de amigos e com um menino voador que desafiava o próprio tempo para me manter segura.

No dia seguinte, Minho já estava de pé antes de todos, treinando os Meninos Perdidos em táticas de formação. Ele parecia ter encontrado um novo propósito. Peter o observava de longe, com um sorriso de aprovação.

— Ele é um bom capitão — comentou Peter, aproximando-se de mim.

— Ele é um Corredor — eu disse, sorrindo. — E agora ele está correndo para o lado certo.

Peter segurou minha mão e começamos a caminhar em direção à praia. O sol estava nascendo, e a segunda estrela à direita ainda brilhava fracamente no céu. A aventura estava longe de terminar, e sabíamos que novos desafios viriam. Mas ali, na areia branca da Terra do Nunca, entre o passado que nos forjou e o presente que nos libertou, nós éramos eternos.

— Ei, Nana — disse Peter, parando e me olhando com aquele brilho travesso.

— O que foi?

— Você acha que o Minho consegue voar se eu der um pouco de pó de pirlimpimpim para ele?

Eu ri, imaginando a cena.

— Acho que ele ia preferir correr pelo ar do que simplesmente flutuar.

— Então vamos tentar — disse Peter, puxando-me para um voo repentino sobre as águas.

E enquanto voávamos, eu soube que, não importa o que a CRUEL ou o mundo lá fora tentassem, nós éramos os donos do nosso destino. Naquele lugar onde o tempo parava, nosso amor e nossa amizade eram a única coisa que realmente avançava, criando uma história que nem mesmo as estrelas seriam capazes de esquecer.